Contra o empreendedorismo

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Empreendedorismo está na moda. Em economias liberais, é superestimado. Empreendedores assumem riscos movidos pela perspectiva da obtenção de lucro. Num cenário isonômico, tal perspectiva deveria ser, por si só, suficiente para lançar tais indivíduos em busca de seus objetivos. Só que não. Pois qualquer aspirante a empresário pode recorrer a agências de fomento, incubadoras empresariais e linhas de crédito dedicadas. Todo este aparato governamental, acadêmico e financeiro à disposição do dito espírito empreendedor equivaleriam a um incentivo a apostadores em um cassino.

Por razões além do interesse deste texto, cassinos são, em nosso país, ilegais. E mesmo que fossem legais, seria difícil imaginar governo, universidades e bancos proporcionando as condições necessárias a todo apostador em potencial (bem, há, é claro, as loterias oficiais, mas as deixemos, por hora, de fora desta argumentação). Num cassino, a regra é simples: aposta quem tem, não aposta quem não tem. Sem choradeira. Cada um compra as fichas antes de jogar.

Com o empreendedorismo, não é diferente. Espírito empreendedor ? Bullshit. Ainda que a ideologia liberal insista em exaltar o empreendedor como o visionário que aceita empreender riscos, a grande verdade oculta é que só empreende quem tem cacife para apostar, i.e., dispõe de vastos recursos, geralmente herdados ou oriundos do lucro de empreendimentos anteriores bem sucedidos, dos quais pode perfeitamente prescindir se tudo der errado. Também se sabe que grande parte dos empreendedores só obtiveram sucesso depois de várias tentativas; até lá, tão somente perderam recursos investidos.

Por outro lado, alguém já viu um assalariado que luta para pagar suas contas no fim do mês se lançar com êxito em algum empreendimento ? Ok, isto às vezes acontece – e, nestes casos, faz a alegria dos produtores de televisão. Mas, via de regra, trabalhadores são cautelosos com seus gastos – o que exclui, na maioria das vezes, qualquer possibilidade de empreender. Como, por exemplo, na abertura de franquias, que costuma exigir um pesado investimento inicial.

Outra verdade oculta é a alta taxa de mortalidade empresarial, i.e., de empresas que encerram atividades poucos anos depois de abertas, seja por estimativas demasiado otimistas de seus fundadores, seja pela concorrência predatória tão exaltada como a “mão invisível do mercado”. Assim, está longe de ser uma resposta satisfatória para o problema da desigualdade um sistema no qual ao sucesso de um corresponde necessariamente o fracasso de muitos.

Sucesso e fracasso. Costuma-se dizer de todo empreendedor bem sucedido que ele venceu por reunir mais méritos do que os que fracassaram. Estamos aqui claramente diante de uma meia verdade. Pois, ainda que não possamos negar a competência de qualquer empreendedor bem sucedido, certamente nem todos os concorrentes que não lograram o mesmo êxito são desprovidos de tais méritos. Muito já se falou da desigualdade das condições iniciais como principal vulnerabilidade da meritocracia. É, pois, aqui, suficiente dizer que muitos empreendimentos que não emplacam devem seu fracasso à escassez de capital de risco, falhas de mercado ou, simplesmente, sorte.

Falhas de mercado. Na utopia capitalista, todos os competidores iniciam o jogo nas mesmas condições. Como exércitos isonomicamente distribuídos no início de uma partida de War (jogo de tabuleiro mais chato que conheço, metáfora perfeita do sistema capitalista, em que sempre ganha a [longa] partida quem vence as primeiras rodadas). Só que, na prática, jamais encontramos esse cenário perfeitamente controlado. A começar pela sorte que, em qualquer competição, sorri para alguns em detrimento de outros. E para complicar as coisas, surgem as chamadas falhas de mercado, das quais as mais conhecidas são o protecionismo e as informações privilegiadas.  Alíquotas tributárias e taxas de juros diferenciadas, bem como isenções fiscais, aplicadas a diferentes categorias, constituem os exemplos mais conhecidos de protecionismo. Já as informações privilegiadas se referem ao conhecimento prévio e exclusivo, por parte de um ou mais competidores, de dados sensíveis tais como, por exemplo, oscilações futuras no valor de ativos e comodities.

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Já falamos de mortalidade empresarial. Falemos, agora, do que esperar de qualquer empreendimento bem sucedido.  Num sistema que valoriza, acima de tudo, o crescimento (já foi dito que a salvação do planeta, para as próximas gerações, depende principalmente das nações abrirem mão da expectativa de crescimento que move a economia), todo novo empreendimento só pode almejar, realisticamente a 1) se tornar suficientemente interessante a ponto de ser adquirido por uma empresa maior; ou 2) crescer o suficiente para comprar os concorrentes mais sérios.

Notem que apenas pequenos estabelecimentos, como mercadinhos, padarias, oficinas mecânicas, borracharias, bares, restaurantes e afins parecem imunes a esta regra.  De resto, farmácias, supermercados, franquias e grandes lojas tendem a constituir redes cada vez maiores. Sem ser economista, avento uma possível especulação para tal estado de coisas. É que, enquanto os negócios do primeiro grupo limitam seu porte à capacidade produtiva de quem neles trabalha, já os do segundo almejam à constante expansão do capital.

E aqui estamos, outra vez, diante de uma dicotomia entre capital e trabalho que muitos já consideram, como aquela entre esquerda e direita, ultrapassada. Não conheço, todavia, maneiras melhores de ver a economia. Consoante a isto, gosto de pensar no capitalismo, enquanto sistema competitivo ao invés de colaborativo, como uma espuma – na qual, na ausência de uma força externa de agitação (análoga aos célebres think tanks, como a Atlas Foundation ou a Mont Pèlerin Society, através dos quais o capital internacional busca explicar e justificar sua existência), tende a se dispersar num conjunto cada vez menor de bolhas cada vez maiores. Não conheço melhor metáfora para a tendência às fusões e aquisições dos negócios mais rentáveis. Ou seja: o capitalismo pode ser, como uma espuma, tudo menos auto sustentável.

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