O problema da verificação de informações compartilhadas e um epílogo sobre as reais mazelas que afligem governos e estados

Comecei a escrever (mais) um libelo contra a satanização do serviço público pelo discurso liberal mas, no decorrer do processo, acabei optando por me debruçar sobre outro problema, senão mais sutil, ao menos nem tão exaustivamente esmiuçado. Fala-se bastante da necessidade de verificação de qualquer coisa que nos mobilize antes de compartilhá-la em redes sociais, mas nem tanto do tempo e dos recursos necessários à operação. Já da difamação do serviço público encontramos fartas manifestações em qualquer arauto do liberalismoo.

Foi através de uma amiga professora, acima de qualquer suspeita e, portanto, inocente quanto a qualquer imputação de má fé ou manipulação, que vi pela primeira vez o seguinte infográfico.

O mesmo chegou, por sua vez, a minha amiga por meio do compartilhamento por uma deputada federal, também acima de qualquer suspeita.

Ao contemplá-lo, exultei. Finalmente, dispunha de dados comprobatórios de uma tese há muito abraçada – a saber, a de que o suposto inchaço do serviço público está longe de ser, como não cansa de apregoar a direita, um grave problema brasileiro.

Antes, no entanto, de ceder à tentação de compartilhar o achado em minha rede social, fui atrás de, como manda todo manual de netiqueta, verificar as fontes.  Com a ajuda do Google, não foi difícil determinar que a origem da imagem era o site do sindicato de trabalhadores da Fundação Osvaldo Cruz. Através do texto da página e da minúscula legenda do infográfico, vim a saber se tratar de dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do IBGE – ainda que, em nenhum lugar da página, houvesse qualquer elucidação sobre quais dados vieram, respectivamente, de uma fonte e da outra.

A sigla OCDE não é nada estranha. Com efeito, se trata do mesmo órgão internacional para o qual Trump deixou, recentemente, de recomendar a participação do Brasil para, em vez disto, apoiar a adesão da Argentina, fato que tanto magoou Bolsonaro. Segundo a tão conveniente, geralmente sucinta mas nem sempre confiável wikipedia, descobrimos que a OCDE se dedica à promoção do desenvolvimento humano em países que abraçam a democracia representativa e a economia de mercado. Noutras palavras, uma espécie de Atlas Foundation do bem, outra vez acima de qualquer suspeita, que trata de promover o pensamento liberal ao mesmo tempo em que busca minimizar efeitos danosos do capital em ação. Na prática, persegue estes objetivos mantendo um vasto portal que disponibiliza dados comparativos sobre os mais diversos aspectos dos países membros.

Não foi fácil encontrar os dados atribuídos, no infográfico do sindicato da Fiocruz, à OCDE. Só depois de sair do site da organização é que me deparei, novamente graças ao contexto de pesquisa mais abrangente do Google, com o seguinte infográfico, associado a um documento da OCDE.

A coincidência entre os dados dos dois infográficos acima, o do sindicato da Fiocruz e o do documento da OCDE, é absoluta exceto por um detalhe – a saber, o de que o Brasil não aparece no segundo. O que nos leva a inferir que a posição do Brasil no ranking, realçada em vermelho no primeiro infográfico, saiu de outra fonte. É onde entra o IBGE. Com efeito, o percentual informado de funcionários públicos no Brasil é compatível com os dados mais recentes divulgados pelo instituto. Até aí nenhum problema.

Para entendermos a operação insidiosa realizada sobre os dados, é preciso ler as legendas com cuidado. O tamanho do funcionalismo de cada país estrangeiro, no estudo e no gráfico da OCDE, é medido em relação ao número total de trabalhadores em cada um deles. Ao importar os percentuais, entretanto, o sindicato brasileiro afirma que os mesmos são em relação à população de cada país (o que é bem diferente !), anexando, então, aos números da OCDE, o percentual  de funcionários públicos em relação à população brasileira – o qual acaba se tornando, por sua vez, a única informação correta do diagrama, tornando qualquer comparação com as outras nada menos que estapafúrdia. Notem que, se este percentual for ajustado, como os dos outros países nos infográficos, ao tamanho da população economicamente ativa, salta de 1,6% para 2,9%.

A correção não altera a posição do Brasil na tabela. Mesmo que o percentual verdadeiro seja quase o dobro do informado, ainda temos um serviço público bem menor, da ordem de pouco mais da metade, do que o já enxuto valor ostentado pelo austero Japão. Um desserviço prestado por este tipo de desinformação é que, com ela, ficamos sem saber se a discrepância se deve a alguma manipulação de má fé – como é, de resto, tão comum em discursos proselitistas – ou, antes, a um mero descuido decorrente de uma análise apressada. Assim, por conta desta imponderabilidade, uma evidência outrossim tão eloquente em favor de uma causa progressista pode ser facilmente desmascarada e desacreditada como fake news. Ora, com dados tão a nosso favor, não precisamos deste tipo duvidoso de “ajuda”.

Cabe, por fim, ressaltar, aos que tiveram a paciência de me acompanhar até aqui, que a verificação empreendida tomou um tempo enormemente maior do que aquele que seria necessário para simplesmente replicar a informação suspeita recebida, ainda mais agregada (o que é pior) à chancela de credibilidade de cada compartilhador.

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Ah, e antes que eu me esqueça e me tomem apenas por um advogado do diabo, que fique claro que o serviço público é um grande bode expiatório. Liberais culpam o funcionalismo pela estagnação econômica nacional, promulgando leis de “responsabilidade fiscal” para desviar a atenção do fato de que, na verdade, o problema não é tanto o tamanho do estado mas a baixa arrecadação do mesmo – a qual tem, por sua vez, origem nas isenções fiscais e na sonegação, sendo que o déficit público é agravado ainda mais pela corrupção e pela profunda desigualdade salarial.

Face a isto, governantes deveriam, ao invés de tentar enxugar um estado que já presta serviços deficientes, amealhar recursos suficientes para garantir a prestação dos mesmos em patamares mínimos aceitáveis. Medidas benéficas neste sentido incluem, além de enfrentar as pragas supracitadas, cortar drasticamente o número de representantes legislativos e detentores de cargos em comissão (CCs). Os primeiros por que supérfluos. Os últimos por que desastrosos.

Da divulgação prévia, em eleições, de gabinetes e demais CCs

Ontem perguntei no Facebook se, numa campanha eleitoral, não seria mais importante conhecermos antecipadamente composições de gabinetes do que programas de governo, de resto vagos e genéricos. Hoje, está por toda parte a notícia do vazamento de um áudio recente do Queiroz  apregoando, a modestos “20 contos”, mais de 500 cargos no Congresso. Ante tamanha atualidade do problema que levantei, vale a pena detalhar e discutir um pouco melhor a ideia.

Faz tempo que já caiu de maduro que o vício de origem das mazelas da gestão público é a existência de CCs (ou cargos em comissão), i.e., aqueles cujos ocupantes são nomeados exclusivamente mediante a vontade de detentores de mandatos executivos, sem qualquer respaldo por parte das comunidades por eles afetadas nem sequer dos corpos técnicos de carreira a eles subordinados. Ocorre, entretanto, que a correção desta aberração administrativa, à qual já me referi mais de uma vez (por exemplo, aqui) e que equivale a concessão de um cheque ou procuração em  branco a políticos eleitos, é de difícil implementação. Então, até que seja possível extirpar de vez a mazela dos CCs – para o  que seria preciso, antes, mudanças constitucionais – entendemos que uma forma mais imediata de minimizar o problema seria limitando a possibilidade de mandatários nomearem CCs atendendo a critérios predominantemente políticos. A divulgação antecipada da composição de gabinetes (e, por efeito cascata, dos detentores de cargos subordinados a cada pasta) seria uma medida paliativa neste sentido que em nada esbarra no sistema político vigente.

De que modo ? Simples. Um dos bordões mais recorrentes em campanhas, ouvido praticamente de qualquer candidato, é o de que ” não toleraremos nomeações políticas – todo ocupante de cargos a nós confiados sendo escolhido exclusivamente por critérios técnicos “. Bonito. Fosse assim, grande parte dos problemas de governo estaria resolvida. Só que, na prática, a coisa é diferente. Um vez eleitos, candidatos, agora governantes, distribuem posições em pirâmides administrativas sob sua responsabilidade por motivos evidentemente políticos, muitas vezes escusos, que não resistiriam a qualquer sabatina técnica sobre as pastas ou repartições que comandam.

Isto só acontece por que nomeações para segundos escalões e abaixo deles são tratadas, antes de eleições, como segredos estratégicos, sendo revelados somente depois dos pleitos, quando já é tarde para qualquer arrependimento por parte de eleitores. Duvidam ? Quantos de vocês votariam em quem votaram se soubessem, antes das eleições, a composição de ministérios e secretariados nomeados por presidentes, governadores e prefeitos recém eleitos ?

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Como já devem ter percebido, gosto de antecipar, de modo sintético e com perguntas que lanço a todos que me honram com sua amizade no Facebook, questões sobre as quais, em seguida, me debruço aqui mais demoradamente. Chamem, se quiserem, a isto de crowdsourcing. É claro que regozijo (e, não escondo, me envaideço) ao saber quem partilha da mesma opinião e muito mais quando agregam fatos ou experiências que enriquecem o ponto de vista; gosto, também, não menos de conhecer contraditórios e objeções àquilo que levanto. Usarei, então, aqui, algumas ressalvas à minha sugestão de ontem, sucinta (como convém às redes sociais) e aparentemente simplória, como mola a tensionar um melhor detalhamento da ideia. Às ressalvas.

Não, Fernanda, não me esqueci de que ” muitos votam com o fígado “. Só que mesmo quem assim o faz não gosta de ser chamado de burro. Acontece que é muito mais fácil a estes fazer cara de paisagem e dizer que não sabiam de nada, que ” votariam diferente se soubessem do que estava por vir “, quando, antes das eleições, a formação de governos é tratada como caixa de Pandora. Sabendo-se, outrossim, antecipadamente de eventuais maldades pretendidas, muitos desses talvez não quisessem vestir antecipadamente o chapéu de burro. Ao mesmo tempo, seria bem mais difícil não dar ouvidos à turma do ” eu avisei “, normalmente acusada, antes das eleições, de propagar teorias conspiratórias.

É claro, Branco, que descortinar pirâmides administrativas seria proibitivo no compacto espaço reservado aos candidatos na mídia hegemônica pela justiça eleitoral. É notório, também, que o caráter obrigatoriamente sucinto do discurso eleitoral de maior alcance é a grande brecha pela qual candidaturas absurdas são alçadas à vitória pelo poder econômico. Até programas de governo precisam ser excessivamente resumidos nestes espaços – praticamente reduzidos a slogans, do tipo one size fits all, de modo que é fácil, vencidas as eleições, fazer qualquer coisa sem contrariar o que foi prometido.

Por isto, candidatos deveriam divulgar a nominata de seus CCs do modo mais amplo possível a cada momento da campanha – o que implicaria numa plataforma dinâmica, atualizável, por conseguinte digital. Numa situação ideal, facultada pela própria justiça eleitoral, para facilitar comparações e anular custos de campanha. Mas, por hora, sonhemos mais baixo.

É aqui que encaixa a observação de Ricardo Melo, de que ” poderia ser o fim de algumas campanhas “. Sem dúvida, Ricardo ! Exatamente por isto, se trata de uma boa ideia. Pois a divulgação antecipada de gabinetes e CCs, ainda que necessariamente incompleta ante a vastidão de cada pirâmide da administração pública, mataria na raiz tantas candidaturas sabidamente apoiadas sobre o franco leilão de cargos. O que nos leva a especular sobre quantos candidatos gostariam de evitar o expediente da divulgação prévia. Só que, uma vez que um primeiro candidato a fizer, terá estabelecido um novo critério de transparência ao qual será difícil aos outros se furtarem. Com isto, se pode, com algum otimismo, prever um efeito cascata de adesão generalizada de qualquer candidatura séria à divulgação prévia de CCs.

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A divulgação prévia de CCs, além de estabelecer um novo padrão de transparência às campanhas, também implicaria numa maior engajamento do eleitor, que, antes de escolher um candidato, seria estimulado a conhecer o máximo que pudesse (com a internet, algo longe de ser difícil ou impossível), por exemplo, dos futuros diretores dos serviços de saúde que utilizam ou da escola que seus filhos frequentam. Imaginem, também, que funcionário público não gostaria de saber, antes de votar, a que chefia responderá uma vez instalado o próximo governo.

 

 

Por que a publicidade é inútil e nociva

Quando o assunto é publicidade, dois consensos quase absolutos vem à tona. O primeiro, compartilhado por anunciantes, profissionais e empresas envolvidos na pujante indústria da publicidade, é o de que ela é absolutamente necessária ao sucesso comercial de qualquer produto ou serviço.  O segundo, verificado entre leitores de jornais, espectadores de rádio e TV e, mais recentemente, usuários de internet, é que ela é totalmente inútil. Um estorvo. Uma interrupção tão irritante quanto frequente no fluxo de conteúdo de qualquer meio de comunicação hegemônico. Tanto é assim que é prática comum à mídia disponibilizar a usuários modalidades mais caras de assinatura de seus serviços diferenciadas pela ausência de anúncios.

Ainda assim, todo usuário de mídia comercial, mesmo detestando ser bombardeado por anúncios, reconhece a publicidade como um mal necessário. Que, sem ela, não teríamos jornais, revistas, rádio, TV e tantas facilidades viabilizadas pela internet. De onde vem tal naturalização ? Como chegamos a isto ?

A história da publicidade (em países lusófonos confundida com a propaganda) se perde na antiguidade. A modalidade na qual estamos interessados – a saber, a comercial, realizada por meio de anúncios pagos colados ao conteúdo de meios impressos, de broadcasting (rádio e TV) ou internet – surgiu menos de 200 anos depois que Gutenberg inventou a prensa mecânica. Mais exatamente, com o anúncio de um livro publicado num jornal inglês de 1625. Desde então, a coisa só cresceu. Em 1841, surgiu em Filadélfia (EUA) uma das primeiras agências relevantes de publicidade do mundo. A publicidade 2.0, aquela nos meios de broadcasting, surgiu pouco depois da invenção do rádio por Marconi. A grande transformação seguinte – que, por conveniência, designaremos por publicidade 3.0 – surgiu com a internet, obrigando, várias gerações depois, publicitários a reinventarem novamente seu ofício. Temos, então, que, enquanto a publicidade 1.0 vende espaço, a 2.0 vende tempo e a 3.0, acessos.

Com raízes tão antigas e aprofundadas no tecido social, é compreensível que a ideia de publicidade comercial como mal necessário à existência de toda mídia desejável esteja tão naturalizada entre a maioria. Quando nascemos, os anúncios já estão ali, por todos os lados. Como as cidades em que vivemos, as escolas que frequentamos ou o ar que respiramos. Assim quer acreditar o espírito acrítico.

Só que não é ser obrigatoriamente assim. Ora, tudo o que é conhecido e experimentado por um certo tempo constitui terreno fértil para o pragmatismo, limitando o pensamento utópico. Desta forma, a história humana é repleta de casos em que práticas e sistemas que deixam muito a desejar se perpetuam tão somente por já terem funcionado, ainda que precariamente, por um tempo prolongado. O exemplo mais ridículo que já vi desta deficiência de raciocínio é a distinção que Olavo de Carvalho faz entre os pensamentos de direita e de esquerda. Vale a pena conferir (entre 1m30s e 2m30s).

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Uma das teclas mais marteladas por David Graeber no estupendo Bulllshit Jobs: a Theory, do qual não me canso de falar, é que o capitalismo cria empregos desnecessários. Dentre as ocupações que considera, mais do que inúteis, nocivas à sociedade, se destacam as carreiras financeiras, jurídicas, imobiliárias e, como não poderia deixar de ser, publicitárias. É claro que há um critério para uma categorização tão bombástica: Graeber considera úteis ocupações que produzem riqueza e inúteis aquelas que só transferem riqueza de um dono para outro, ressaltando que as últimas são, via de regra, melhor remuneradas.

A publicidade é socialmente nociva (exceto, é claro, para anunciantes e publicitários) por dois motivos: é supérflua e inflacionária. Supérflua por que, numa era de buscas, não mais precisamos dela para, como apregoa desesperadamente a indústria do anúncio, ter informações sobre o que queremos adquirir. Mais: dados comparativos sobre quaisquer produtos tendem a ser muito mais confiáveis em sites neutros, dedicados à orientação de consumidores, e engenhos de busca do que em peças publicitárias cuja índole é, por definição, enaltecer vantagens e ocultar ou minimizar deficiências (isto não é uma verdade oculta mas, ao contrário, um fator de competência descaradamente ostentado pelos publicitários mais agressivos).

Inflacionária por que tudo o que é anunciado tem seu preço significativamente majorado pelo acréscimo ao preço final do custo da publicidade, que não costuma ser pouco, principalmente em meios de broadcasting (isto está mudando um pouco na internet, onde entradas publicitárias se tornaram acessíveis a anunciantes de qualquer porte).

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Deixando rapidamente de lado nosso foco principal, que é a publicidade comercial, cabe a ressalva de que a propaganda política é tão ou mais nociva do que a anterior, já que seu êxito (i.e., a persuasão de um maior número de eleitores), que afeta, para o bem ou para o mal, a totalidade das unidades políticas governadas, é fortemente determinado pelo poder econômico. Então, não se trata de discutir, como hoje é feito, se a propaganda eleitoral deve ser custeada por políticos ou contribuintes, mas de abolir totalmente a mesma, com a justiça eleitoral dedicando seu colossal potencial computacional à informar eleitores sobre candidatos por meio de sites abrangentes e isonômicos. Com programas ao invés de slogans. Dados verificáveis ao invés de fake news. E sem, é claro, os escandalosos fundos eleitoral e partidário.

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Tão natural como a publicidade acoplada aos meios de comunicação é a ideia de que estados sejam responsáveis pela garantia de bens que, por sua natureza essencial à condição humana, não devem ser deixados ao sabor da concorrência entre provedores privados. Há um consenso praticamente universal de que saúde, educação e segurança pertençam a esta categoria. Diferentes estados de bem estar social abordam de modos distintos a inclusão também de alimentação, moradia e cultura nesta relação de direitos. Além disto, a extensão da responsabilidade do estado sobre os mesmos é objeto de conflito entre a direita e a esquerda.

Sempre que a esquerda quer abarcar sobre o manto protetor do estado segmentos ou partes de segmentos explorados pelo capital empreendedor, a direita chia. Como toda indústria, a publicidade também desfruta da proteção dos guardiões do liberalismo. De modo que meras  insinuações, como as acima, quanto ao caráter anti-ecológico ou inflacionário da publicidade, são imediatamente refutadas com argumentos do tipo ” pensem em todas as comodidades informacionais que perderíamos não fosse a mídia facultada pela propaganda “.  Ora, tal sorte de argumento esbarra na falácia do pressuposto de Carvalho, supracitado, segundo o qual só aquilo que já foi experimentado é possível e confiável. Sob tal premissa, não haveria raciocínio hipotético nem tampouco ciência.

Fazendo, então, pouco caso do coro indignado com este exercício hipotético, necessário ao pensamento utópico, suponhamos, apenas por um instante, que jornais, revistas, emissoras de rádio e TV e serviços disponibilizados pela internet (não gosto do termo aplicativos, que outrora já foram chamados de programas), fossem reconhecidos como de real utilidade pública e, como tais, garantidos a todo cidadão pelo estado, como a saúde, a educação e a segurança supostamente já são.

Aqui, posso ouvir, em meio a acusações de ingenuidade, as invectivas de sempre sobre a precariedade da televisão pública. É preciso, então, colocar os devidos pingos nos is. É claro e perfeitamente esperado que, no Brasil, onde a teledifusão pública é sistematicamente sucateada, emissoras estatais não consigam competir com as comerciais pela geração de conteúdo atraente. Pois a TV Cultura seria, sem dúvida, diferente se dispusesse do mesmo orçamento da Globo. Muito se fala mal da gestão estatal como principal responsável pela eventual falta de qualidade de emissoras públicas quando, na verdade, não se pode comparar resultados da gestão da escassez com aqueles da gestão da abundância. Logo, para se falar da qualidade da radiodifusão pública é preciso, antes, se falar dos excelentes conteúdos gerados e veiculados pela televisão pública europeia. Ou pela BBC. Ou pela PBS nos EUA.

Então, da mesma forma que meios de broadcasting públicos de qualidade já são, há muito tempo, uma realidade em países do hemisfério norte, é razoável se esperar que a internet, ainda em sua infância, venha um dia a ser reconhecida (pois já é de fato) como patrimônio inalienável da condição humana e, como tal, disponibilizada gratuitamente, com suas funcionalidades mais fundamentais (aí incluídos os aplicativos hegemônicos, consagrados pelo uso), a todo cidadão

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Mas sejamos, por hora, práticos. Com o que está aí, seria muito mais fácil reformar a propaganda eleitoral do que a publicidade comercial. Não podemos, no entanto, ser ingênuos a ponto de esperar que tal reforma parta de políticos. Os meios ? Discussão e organização civil. Só então, talvez, o imaginário popular consiga romper a barreira da naturalização e finalmente se dar conta de que a publicidade, mais do que inútil, é nociva.

Por que (ainda) não uso WhatsApp

” Ah, havia me esquecido que não usas WhatsApp. Sorte tua ! “

ouvido ao fim de uma consulta médica

Muito me intrigou constatar que o Facebook, num movimento inédito (ao menos no Brasil), passou a anunciar, na TV e em outdoors, seus grupos de conversação, os quais sempre estiveram ali, disponíveis sem qualquer alarde. A propaganda, agressiva, se apropria da canção Day Tripper, dos Beatles ( por cujo uso certamente pagaram bem caro), para apregoar virtudes de grupos do Messenger ao conectar pessoas com interesses comuns. Por que isto acontece justo agora ? A resposta se me afigurou um tanto óbvia, a saber, para concorrer com os grupos do WhatsApp, os quais se capilarizaram muito mais do que os do FB.

Ruminei sobre o tema por algum tempo até realizar uma rápida e necessária pesquisa quanto ao modo de custeio do WA, plataforma gratuita livre de publicidade (!) – fato para o qual há esclarecimentos satisfatórios aqui. Foi quando descobri, acidentalmente, que

o WA é, antes de ser um negócio lucrativo, um serviço deficitário (!); e que

o WA foi comprado pelo FB em 2014 por uma bagatela avaliada entre 19 e 22 bilhões de dólares.

De pronto, então, minhas principais questões norteadoras passaram a ser

por que o FB compraria um serviço do qual já dispunha – ainda por cima numa plataforma francamente reconhecida como deficitária ; e

por que o FB promoveria uma propaganda autofágica, a concorrer, em última análise, consigo próprio.

Sem ser analista econômico, avento a hipótese de que o FB comprou o WA tão somente para aniquilar seu único competidor sério, progressivamente assimilando a seu Messenger as melhores funcionalidades do WA e deixando o último morrer aos poucos. Ao menos a sofisticada propaganda dos grupos do FB com Day Tripper se encaixaria nesta estratégia. Ou não – caso em que esta especulação não passaria de mera teoria conspiratória.

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Ante tal imponderabilidade (pois, afinal, quem sabe dos desígnios de grandes corporações a não ser seus conselhos de acionistas ?), preferi me deter sobre a diferenciação entre as duas plataformas. Para tanto, provoquei usuários e não usuários do WA a externarem prós e contras em relação ao serviço de mensagens hoje praticamente hegemônico. Deste modo, verifiquei que há praticamente um consenso quanto ao WA ser um meio de comunicação portátil, altamente eficiente, com ótima relação custo/benefício (para a qual a gratuidade é decisiva) e, por vezes, insubstituível. Fora isto, muitos detestam seus grupos de conversação e as mensagens de áudio.

Não percamos tempo com as últimas, posto que mensagens de áudio são, assim como as de vídeo, obrigatoriamente seriais, incompatíveis com qualquer processamento paralelo. Comparem-nas, por exemplo, com textos de quaisquer extensões. Textos são recursivos, i.e., podemos facilmente avançar ou retroceder na leitura dos mesmos, seja para interpretação, referência ou  melhor compreensão, saltando por sobre grandes blocos de um mesmo texto ou até entre um texto e outro sem, com isto, comprometer necessariamente nossa percepção sobre o todo. Com áudios e vídeos, não: numa operação de fast forward sobre os mesmos (análoga, se quiserem, à leitura dinâmica), algo essencial pode facilmente nos escapar. Como ocorre, por exemplo, quando perdemos cenas cruciais de uma boa narrativa cinematográfica.

Por esta razão, áudios (e vídeos) são sequestradores de atenção por excelência  e, como tais, deveriam ser banidas pelos códigos de ética, explícitos ou tácitos, de qualquer sistema de mensagens que aspire a alguma eficiência.  Ou ainda, se quiserem outra metáfora, usar mensagens de áudio quando se dispõe das de texto é como usar máquinas de escrever depois do surgimento de editores de texto: o advento dos últimos rendeu as primeiras obsoletas. Entretanto, por diversas razões (tom mais íntimo ou pessoal, rapidez de enunciação, reivindicação de atenção absoluta, etc.), as famigeradas mensagens de áudio teimam em coexistir com as de texto.

Cabe, ainda, ressaltar que a escrita se constitui, muito mais do que a fala, no meio por excelência de transmissão de conhecimento. Com alguma licença, se pode até especular sobre com quais limitações a filosofia, a razão e a lógica esbarrariam se tivessem que se restringir ao domínio exclusivo da oralidade.

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Grupos virtuais de conversação são bem diversos e, como tais, podem ser submetidos a uma tipologia. A diferenciação mais evidente é em relação à sua permanência. Segundo este critério, há, de um lado, aqueles grupos mais duradouros, atemporais, e, de outro, os mais efêmeros. Pertencem ao primeiro tipo os grupos de índole “tribal” tais como os de família, alunos ou ex-alunos de instituições, pessoas que compartilham uma mesma ocupação, predileção ou posto de trabalho e por aí afora. Talvez o mais célebre grupo atemporal do WA seja o de procuradores da Lava Jato. A propaganda do FB com Day Tripper se refere nitidamente a grupos atemporais.

Grupos efêmeros são, por outro lado, criados para a instrumentalização de eventos específicos tais como festas e reuniões de trabalho, se extinguindo imediatamente ou algum tempo após a realização dos mesmos.

Ainda que a classificação de um grupo numa ou noutra categoria possa ser nebulosa, sem regras absolutas, em geral grupos atemporais tendem a aglutinar mais participantes do que os efêmeros. Talvez por isto grupos atemporais costumam apresentar uma taxa mais elevada de mensagens potencialmente irrelevantes para alguns participante do que os grupos efêmeros. Se pode dizer, então, que, em geral, grupos efêmeros tendem a ser mais focados que os atemporais.

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O tamanho de um grupo afeta sobremaneira o comportamento de seus participantes,  especialmente no que se refere à sensação de pertencimento. Pois num grupo pequeno se pode facilmente permanecer só “na escuta” (a postura mais eficiente, de respeito à atenção alheia, quando não se tem nada relevante a dizer) na plena convicção de que os mais falantes sintam de que os mais silenciosos estejam presentes e atentos.

O mesmo não se dá em grupos mais numerosos, onde os mais quietos tendem a ser mais facilmente esquecidos. Por isto, abundam nestes grupos as notificações de presença: mensagens de “bom dia” e “boa noite” sem qualquer outro propósito que não o de se afirmar que se está ali. Como teletubies antes de dormir.

É, além disso, razoável supor que a publicidade seja mais eficiente (ou, pelo menos, algoritmicamente mais simples) entre os participantes de grupos mais numerosos e genéricos do que entre os de grupos pequenos e dedicados – daí, muito possivelmente, a estratégia agressiva do FB para fomentar os primeiros (eu e as teorias conspiratórias…)

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De volta à questão inicial de por que o FB teria comprado o WA, é tentador se especular que o primeiro estaria primordialmente interessado nos dados dos usuários do último – hipótese, é claro, veementemente negada pelo FB. Pois, muito embora o WA tenha como ponto de honra permanecer uma plataforma livre de publicidade, os dados de seus usuários são valiosos em se tratando de lhes direcionar anúncios customizados através de outras plataformas.

O que nos leva diretamente a outra questão: podem plataformas distintas estabelecer uma correspondência unívoca entre usuários de uma e de outra ? Segundo a BBC, sim, bastando, para tanto, que o usuário do FB forneça à plataforma o número de seu telefone celular – caso em que passará a receber, no FB, publicidade dirigida e sugestões de amizade com base em suas informações do WA.

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Se o FB vai deixar o WA morrer à míngua ou, contrário, explorar a coexistência das duas plataformas é uma pergunta cuja resposta só o tempo trará. Um forte argumento em favor da última hipótese é a manutenção da identidade das duas plataformas, a qual repousa por sua vez, sobre numa diferença essencial – a saber, a índole mais pública ou privada do que se posta em cada uma delas.

Tanto o FB como o WA permitem controle absoluto sobre a visibilidade de cada postagem. Tanto num como noutro, podemos nos dirigir desde apenas a uma pessoa até a totalidade de nossos contatos, passando por grupos de tamanho variável. Feita esta ressalva, cabe notar que cada plataforma, ainda que abrangendo exceções, possui uma vocação bem definida. Pensamos no FB quando queremos publicar algo visível a todos, sem discriminar este ou aquele destinatário. Ao contrário, recorremos ao WA para enviar mensagens a indivíduos ou grupos específicos de pessoa. Assim, temos que, enquanto no FB (salvo no Messenger) exercemos um discurso predominantemente público, o WA é bem mais afeito à comunicação privada, ainda que com grupos.

(Para sermos rigorosos, temos que reconhecer que só o Twitter e os blogs são meios absolutamente públicos, posto que, para se ter acesso às postagens de uma pessoa, é preciso, antes, ter sido aceito como “amigo” pela mesma. Ainda que este requisito seja facilmente comutável mediante ajuste nas Configurações de Privacidade do FB, é notório que a maioria de seus usuários deixam seus perfis visíveis somente a amigos. Com isto, devemos, então, ressalvar que o FB, mesmo sem ser obrigatoriamente público, é de índole muito menos privada que o WA)

A diferença entre a forma de discurso predominantemente pública ou, ao contrário, privada constitui, a nosso ver, a distinção essencial entre o FB e o WA, a justificar sua coexistência apesar da similaridade funcional das duas plataformas no que tange a compartilhar postagens por meio de redes sociais.

O discurso público favorece a transparência: nele, todas as falas de cada um são igualmente visíveis a todos – ainda que, com isto, tal franqueza exacerbada venha necessariamente a desagradar alguns, ensejando entre os mesmos, por vezes, enunciações contraditórias. Já o discurso privado, ao permitir a seleção de ouvintes específicos, faculta a todo falante a possibilidade de sustentar simultaneamente posições diferentes, por vezes incompatíveis entre si, para audiências distintas. Com isto, constitui o ambiente por excelência (ainda que não necessariamente), para segredos, intrigas, calúnias  e manipulações. Não por acaso, grupos de WA, particularmente os de família, já foram correlacionados ao fenômeno das fake news – disseminação de informações falsas que vem assumindo cada vez mais relevância e é utilizada, principalmente por meios de broadcasting, para denegrir a internet.

A tensão entre o discurso público e o privado, determinante para definir o modo como se configura a conectividade de cada perfil, coletivo ou individual, no mundo virtual, é o tema central de Public Parts (2011), obra seminal em que o netopian Jeff Jarvis, por meio de entrevistas inclusive com os fundadores do Twitter e do FB, reconhece vantagens da substituição de um status private by default (como era mais comum antes da web) por outro, public by default (viabilizado pelo advento da rede); e como formas públicas de presença virtual ensejadas pela internet vem transformando nossas vidas. A crescente hegemonia do uso de grupos no WA em relação ao de plataformas mais públicas como o Twitter e o WA sugerem enfaticamente que esta transformação ainda está longe de se tornar irreversível.