O que acontece quando você acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna ?

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A realidade do interesse próprio irrestrito

por Denise Cummins,

publicado em Evonomics em 17 de fevereiro de 2016,

e originalmente aqui

 

“Ayn Rand é minha heroína”, me diz mais um aluno. “Seus textos me libertaram. Me ensinaram a confiar em mim e em mais ninguém”.

Quando vejo as faces jovens do outro lado de minha mesa, me pergunto por que a popularidade de Ayn Rand entre os jovens continua a crescer. Trinta anos após sua morte, as vendas de seus livros chegam a centenas de milhares todos os anos – tendo triplicado desde a crise de 2008. Entre seus devotos há celebridades altamente influentes, tais como Brad Pitt and Eva Mendes, e políticos como o ex-presidente da Câmara dos Representantes Paul Ryan e o ex-candidato à presidência Ted Cruz.

O cerne da filosofia de Rand – que também constitui o tema abrangente de suas novelas – é que o interesse próprio irrestrito é bom e o altruísmo destrutivo. Ela acredita que isto é a expressão definitiva da natureza humana, o princípio norteador pelo qual se deve viver a vida. Em Capitalismo: O Ideal Desconhecido, Rand diz:

Coletivismo é a premissa tribal dos selvagens primitivos que, não aptos a conceber os direitos individuais, acreditam que a tribo é uma referência suprema e onipotente, à qual pertencem as vidas de seus membros, e que pode sacrificá-las quando bem quiser.

Segundo esta lógica, controles religiosos e políticos que dificultam a busca do interesse próprio individual devem ser removidos. (Talvez seja digno de nota que a cena de sexo inicial entre os protagonistas do livro de Rand “O Manancial” (The Fountainhead) seja um estupro no qual “ela lutou como um animal”).

O vício de origem da “objetividade” filosófica de Rand é o simples fato de que humanos tem uma tendência a cooperar e a cuidar dos outros, conforme observado por muitos antropólogos que estudam caçadores-coletores. Essas tendências pró sociais eram problemáticas para Rand por que tais comportamentos obviamente depunham contra o interesse próprio “natural” e portanto não deveriam existir. Ela resolveu esta contradição afirmando que humanos nasciam como uma tabula rasa, ou página em branco (como muitos de seu tempo supunham), e tendências pró sociais, particularmente o altruísmo, eram “doenças” que nos eram impostas pela sociedade, mentiras insidiosas que nos faziam trair a realidade biológica. Por exemplo, em sua matéria jornalística de 9 de maio de 1934, Rand argumentou:

Por exemplo, quando discutindo o instinto social – importa se ele existiu nos primeiros selvagens ? Supondo que os homens nascessem sociais (e até isto é uma dúvida) – significa que eles tivessem que permanecer assim ? Se o homem começou como um animal social – todo progresso e civilização não se destina a torná-lo um indivíduo ? Não é esse o único progresso possível ? Se OS homens são os mais elevados de todos os animais, não é O homem a próxima etapa ?

O herói de sua novela mais popular, A Revolta de Atlas (Atlas shrugged), personifica este “mais elevado de todos os animais”. John Galt é um cruel capitão da indústria que luta contra regulamentações governamentais sufocantes que ficam no caminho do comércio e do lucro. Numa revolta, ele e outros industriais interrompem a produção em suas fábricas, trazendo a economia mundial a seus pés. A mensagem é “Vocês precisam de nós mais do que nós de vocês”.

Para muitos leitores de Rand, a filosofia da suprema autoconfiança voltada para a busca do supremo interesse próprio parece ser uma versão idealizada de ideais norte-americanos centrais: liberdade da tirania, trabalho duro e individualismo. Promete um mundo melhor se simplesmente for permitido às pessoas buscarem seu interesse próprio sem considerar o impacto de suas ações nos outros. Afinal, os outros também estão simplesmente buscando seu interesse próprio.

A teoria econômica moderna é baseada exatamente nesses princípios. Um agente racional é definido como um um indivíduo com interesse próprio. Um mercado é uma coleção de tais agentes racionais, cada um dos quais perseguindo seu interesse próprio. Justiça não é levada em conta. Num recente episódio de  Planet Money, David Blanchflower, um professor de economia de Dartmouth e ex-membro do Banco Central da Inglaterra, riu quando um de seus anfitriões perguntou “isto é justo ?”

“Economia não tem nada a ver com justiça”, disse, “isto não me preocupa”.

Economistas acham alternadamente alarmante e divertido um grande corpo de resultados de estudos experimentais mostrando que as pessoas não agem de acordo com os princípios da teoria da escolha racional. Somos muito mais cooperativos e propensos à confiança do que é previsto na teoria, e retalhamos veementemente quando outros agem com egoísmo. De fato, estamos dispostos a pagar um preço elevado pela oportunidade de punir pessoas que pareçam estar quebrando regras implícitas de justiça em transações econômicas.

O que aconteceria, então, se as pessoas agissem de acordo com a filosofia de “objetividade” de Rand ? Se nos permitíssemos de fato ignorar a todos, exceto a nosso interesse próprio ?

Um exemplo da indústria

Em 2008, Eddie Lampert, CEO da Sears, decidiu reestruturar a empresa de acordo com os princípios de Rand.

Lampert dividiu a empresa em mais de 30 unidades individuais, cada uma com sua própria administração e avaliada separadamente quanto aos lucros e perdas. A ideia era promover competição entre as unidades, a qual produziria, segundo Lampert, lucros maiores. Ao invés disto, eis o que aconteceu, conforme descrito por Mina Kimes, repórter de Bloomberg Business:

Defensor declarado da economia de livre mercado e fã da novelista Ayn Rand, ele criou o modelo por que esperava que a “mão invisível do mercado” conduzisse a resultados melhores. Se os líderes da empresa fossem instruídos a agir com egoísmo, argumentou, administrariam suas divisões de uma maneira racional, alavancando o desempenho geral.

Ao invés disto, as divisões se voltaram umas contra as outras – e a Sears e a Kmart, as marcas abrangentes, sofreram. Entrevistas com mais de 40 ex-executivos, muitos dos quais instalados nos mais altos postos da companhia, desenharam um retrato de um negócio devastado por lutas internas à medida que suas divisões competiam por menos recursos.

Uma visão do fiasco foi oferecida por Lynn Stuart Parramore num artigo de 2013 em Salon:

A coisa endoidou. Executivos começaram a minar outras unidades por que sabiam que seus bonuses estavam vinculados à performance de cada unidade. Começaram a focar exclusivamente no desempenho econômico de suas unidades às expensas da marca Sears em geral. Uma unidade, Kenmore, começou a vender produtos de outras empresas e a posicioná-los com mais evidência do que os produtos da Sears. Unidades competiam por espaço em anúncios e circulares da Sears. […] Unidades não mais eram incentivadas a fazer sacrifícios, como oferecer descontos, para atrair consumidores à loja.

A Sears se tornou um lugar miserável para se trabalhar, com lutas internas abundantes e disputas escandalosas. Empregados, focados somente em fazer dinheiro em suas próprias unidades, deixaram de ter qualquer lealdade à companhia ou apostar em sua sobrevivência.

Todos conhecemos o fim da história: o preço das ações da Sears despencou e a companhia parece fadada à falência. A moral da história, nas palavras de Parramore:

O que Lampert não enxergou é que humanos tem uma inclinação natural a trabalhar pelo benefício mútuo de uma organização. Eles gostam de cooperar e colaborar, e frequentemente trabalham mais produtivamente quando possuem objetivos comuns. Tire tudo isto e você criará uma companhia de destrói a si mesma.

 

Um exemplo de Honduras

Em 2009, Honduras viveu um golpe de estado quando o exército hondurenho derrubou o presidente Manuel Zelaya a mando da suprema corte do país. O que se sucedeu foi sucintamente resumido pelo advogado hondurenho Oscar Cruz:

O golpe de 2009 liberou a voracidade dos grupos com real poder neste país. Lhes concedeu pleno poder de tomarem posse de tudo. Começaram a reformar a constituição e muitas leis – as ZEDE (zonas de empleo y desarollo económico) vem neste contexto – e tornaram a constituição uma ferramenta para torná-los mais ricos.

Como parte deste processo, o governo hondurenho promulgou em 2013 uma lei que criou zonas de livre comércio autônomas governadas por empresas em vez de pelos estados nos quais existiam. Qual, então, o resultado ? O escritor Edwin Lyngar descreveu férias em Honduras em 2015 como uma experiência que o transformou de apoiador de Ayn Rand em crítico feroz da mesma. Em suas palavras:

Os maiores exemplos de libertarianismo em ação são as centenas de homens, mulheres e crianças à beira das estradas em Honduras. O governo não conserta as estradas; então, estes empreendedores desesperados tapam os buracos com pás de resíduos e detritos. Depois,  ficam próximos aos buracos tapados pedindo gorjetas aos motoristas agradecidos. Este é a utopia furada da inovação do setor privado libertário.

Ele descreveu as condições de vida deste modo:

No continente, há dois tipos de vizinhança: favelas que parecem se estender infinitamente e bairros de classe média onde toda casa é sua própria cidadela. Em San Pedro Sula, a maioria das casas é rodeada por altos muros de pedra encimados por arame farpado [concertina wire, no original] ou cercas elétricas. Quando passei por estas fortificações parecidas com castelos, tudo no que pude pensar foi em quão conveniente aquela cidade seria durante um apocalipse zumbi.

Sem esforço coletivo, grandes projetos de infraestrutura como a construção e o reparo de rodovias definham. Um residente “mostrou o local para um novo aeroporto que poderia ser o maior da América Central se ao menos pudesse ser construído, mas o setor privado não tem andar de cima.”

Uma ida a uma pizzaria local foi assim descrita:

Atravessamos os portões da muralha e passamos por um homem em calças casuais com uma pistola num coldre pendendo a esmo em sua cintura. Bem-vindo a um paraíso libertário de Ayn Rand, onde sua pizza de pepperoni extra grande também tem que ter um guarda armado.

Este é o resultado inevitável do interesse próprio descontrolado à solta nos mercados desregulados.

Ainda assim entusiastas de Ayn Rand argumentam que interesse próprio não regulamentado é o “jeito americano” [American way], que a interferência do governo sufoca o individualismo e o livre comércio. Nos perguntamos se estas mesmas pessoas defenderiam a ideia de remover todos os árbitros de eventos esportivos. O que seria do MMA, do futebol, do rugby ou do hóquei sem estes juízes enfadonhos constantemente se atravessando no meio da competição e do interesse próprio ?

Talvez outro modo de encarar isto seja perguntar por que nossa espécie de hominídeo é a única ainda existente no planeta, apesar de terem havido muitas outras no curso de nossa evolução. Uma explicação é que fomos mais inteligentes, cruéis e competitivos do que os que foram extintos. No entanto, a arqueloologia antropológica conta uma história diferente. Nossa própria sobrevivência enquanto espécie dependeu da cooperação, e humanos são excelentes em esforços cooperativos. Mais do que acumulando conhecimento, habilidades e bens, os primeiros humanos os trocaram livremente entre grupos culturais.

Quando pessoas se comportam de maneiras que violam os axiomas da escolha racional, não estão agindo como idiotas. Estão oferecendo a pesquisadores um vislumbre das tendências pró sociais que permitiram a nossa espécie sobreviver e prosperar, tanto nos primórdios como hoje.

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Dr. Denise D. Cummins é psicóloga pesquisadora, autora e membro da Association for Psychological Science. Seu livro mais recente é Good Thinking: Seven Powerful Ideas That Influence the Way We Think

 

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