Por que restaurantes são tão barulhentos: em prol de espaços gastronômicos mais silenciosos

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O facebook é uma ótima caixa de ressonância para testar o apelo de um tema. Em razão da grande repercussão, tanto pela quantidade de curtidas como de comentários, de duas tiradas jocosas que lasquei sobre restaurantes barulhentos, tive a gratificante sensação de não estar só no ressentimento que nutro, nem tanto em relação aos ambientes, mas a muitos de seus frequentadores.

Inventariei duas causas mais frequentemente levantadas para o fato de que tantos espaços dedicados à gastronomia ou mesmo à mera alimentação sejam tão insuportavelmente ruidosos. Enquanto uns apontam que o tratamento acústico de restaurantes visando o conforto auditivo é, na maioria das vezes, absolutamente ignorado, outros concordam que falta a muitos frequentadores destes espaços, por definição compartilhados, um mínimo de decoro e respeito para com os demais clientes.

O melhor engenheiro acústico que conheço, meu amigo Marcos Abreu (minha generosidade (jamais exagero) ao elogiar meus amigos não deve ser, a estas alturas, novidade para ninguém), vai mais longe ao sugerir que as duas coisas (frequentadores excessivamente animados e acústica inadequada) estão relacionadas, da seguinte maneira: a reverberação (não amortecimento de ondas sonoras), decorrente de muitas superfícies sem tratamento acústico apropriado, contribui para a substancial elevação do ruído de fundo ao ponto de que mesmo interlocutores próximos tenham que elevar demasiadamente a voz para se fazerem entender. Se instaura, então, a gritaria, numa espécie de competição para ver quem ganha ao falar mais alto mas na qual todos saem perdendo.

Há bastante literatura sobre o assunto. Marcos me enviou um texto (cujo acesso exige um cadastro – largamente compensado, no entanto, pela qualidade da leitura), publicado originalmente em The Atlantic, no qual a jornalista Kate Wagner esmiúça bem a questão, traçando a história da arquitetura de restaurantes e fornecendo, além disto, vários links para muito do que já foi dito sobre o assunto. Nele, uma frase resume perfeitamente o problema: ” Restaurantes barulhentos são mais lucrativos. ” Por muitas razões, dentre as quais 1) superfícies lisas são mais fáceis de limpar; 2) conjuntos de acessórios e utensílios de mesa (que contribuem para reduzir a reverberação) mais sucintos, além se serem mais baratos, envolvem menos gastos com pessoal e, last but not least, 3) o ruído excessivo induz a um maior consumo de álcool – o qual, evidentemente, gera mais lucro.

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Uma das coisas que acho mais fascinantes em redes sociais é que, por mais que queiramos promover esta ou aquela discussão, não temos qualquer controle sobre quais direções as mesmas irão tomar. Assim, quando quis falar sobre comensais estrepitosos, Marcos acabou se apropriando de minhas postagens para falar dos desígnios de arquitetos e donos de restaurantes. Adoro esta imprevisibilidade.

Por isto, recorro, agora, ao espaço mais monológico do blog para concentrar o foco no problema da falta de decoro de alguns frequentadores de cafés e restaurantes. Não que eu repudie a boa conversa nestes espaços – ao contrário, poucos prazeres se comparam ao de trocar ideias com entes queridos ao redor de uma boa mesa. Notem que os verdadeiros apreciadores destas ocasiões quase sussurram uns aos outros, como se contassem segredos que não quisessem compartilhar com mesas vizinhas. Infelizmente, o comportamento contrário é tão ou mais frequente, como se quisessem tornar tudo o que é dito público para quem mais estiver no recinto, além da fronteira das próprias mesas. É a estes frequentadores que dirijo esta diatribe.

Não creio que o façam conscientemente. Antes, por uma questão de educação (não falo, aqui, de etiqueta ou boas maneiras, mas de formação mesmo). Quem grita em locais públicos desconsidera o fato de que muitos dos que ali estão possam ter especial apreço pelo silêncio, seja para conversar, ler um livro ou, quando for o caso, inebriar os sentidos em reverência à arte do cozinheiro.

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Frequentador solitário contumaz de restaurantes em horário de almoço, sou invariavelmente exposto a conversas alheias. Exceto quando tento ler algo, tal sorte de invasão não costuma me incomodar. Com o tempo, passei até a me divertir com a coisa. Primeiro, desenvolvendo uma tipologia. Famílias não almoçam fora – exceto, é claro, em fins de semana, quando povoam as churrascarias. Tampouco casais, que preferem jantar juntos. Com isto, há, predominantemente, 1) almoços de negócios e 2) almoços de confraternização. Nesta última categoria, são bem comuns as “confrarias” que se reúnem, talvez mensalmente, e que, nesta época, trocam presentes de amigos secretos. Jamais falam de trabalho. Os mais jovens falam de namorados. Os mais velhos, de filhos, netos e viagens. Todos parecem se divertir muito.

(meu pai costumava dizer que, pela idade média de um grupo (masculino) de amigos, se pode muito bem adivinhar do que falam: até os 40 anos, falam com certeza de mulheres; dos 40 aos 60, o assunto mais provável é comida; depois dos 60, trocam dicas de medicamentos)

Os almoços de negócio são de longe os mais problemáticos. Mesmo que não saibamos qual o produto ou serviço que está sendo negociado, sempre se pode adivinhar quem é o vendedor: é aquele que mais fala ou, não raro, o único que fala. Dá para imaginar o desejo do comprador de sair correndo dali na primeira oportunidade. Num almoço de negócios, não necessariamente o vendedor fala daquilo que quer vender mas, mais frequentemente, sobre amenidades, enaltecendo sua pessoa de modo a conquistar a confiança do comprador para transações que virão a se concretizar na frieza de um escritório ou numa troca de emails. Pois nunca vi ninguém assinar um contrato num restaurante. Para o observador, o mais gritante é a dissociação entre o que aquilo quer parecer (um encontro informal entre amigos) e o que realmente é (um pavoneamento visando uma transação comercial). Bem disse outro amigo, Jonatha Arruda, que tais reuniões deveriam se restringir aos espaços empresariais.

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Numa primeira tirada engraçadinha, lembrei que houve um tempo, antes do banimento do fumo em locais públicos fechados (e que, portanto, millennials sequer conheceram), em que restaurantes mantinham salões distintos para fumantes e não fumantes. A seguir, clamei por uma evolução, dentro da mesma linha de segregação benigna, na qual espaços gastronômicos venham a oferecer a seus clientes salas estrepitosas e silenciosas.

 

 

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