Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), por Paula Pires, clarinetista

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Tive o prazer e o privilégio de assistir, na última quinta-feira, a  uma performance do Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), pela clarinetista Paula Pires. Não vou me deter, aqui, em peculiaridades da obra (que são muitas) nem tampouco na contextualização de sua criação e estreia,  até por que o público alvo deste post, tão escasso quanto o que esteve presente naquela apresentação ou, de resto, o de qualquer outra obra do compositor, é presumivelmente familiarizado com sua linguagem, a qual pode ser chamada de tudo menos de convidativa (ao menos aos ouvidos da maioria).

Explico. Stockhausen foi uma das figuras centrais do movimento conhecido com Escola de Darmstadt que, a partir da metade do século 20, desafiou tudo o que era estabelecido em termos de composição musical, por isto mesmo abrindo mão da obrigatoriedade de uma comunicação fácil com o público – fortemente, esta, dependente de uma certa repetitividade que dominou toda a música anteriormente composta. Resumidamente, Stockhausen poderia ser, então, descrito, para desespero de musicólogos e ouvintes mais… “especializados”, como um compositor hermético.

Como eu já disse, o público que afluiu à raríssima execução do Arlequim, na semana passada, no Instituto Goethe de Porto Alegre, foi, pela razão acima sumariada, minúsculo. Estimo que entre 10 e 20 pessoas, na maioria participantes do Primeiro Festival Internacional de Clarinetistas de Porto Alegre, de cuja programação a performance de Paula fazia parte. Por que insisto tanto nisto – a saber, na atribuição do rótulo “música para poucos” ao Arlequim ?

Contrariamente ao que parece, não vai aí qualquer reprovação ao hábito do público médio frequentador de concertos, que teima em privilegiar a mesmice em detrimento de tudo o que lhe é estranho – deixando, com isto, numa sinuca programadores de espetáculos que precisam se justificar perante apoiadores com casas lotadas. Se enfatizo o pouco apelo da obra ao ouvinte médio é, pois, tão somente para não deixar qualquer dúvida sobre o fato de que o caráter sublime de um gesto artístico independe de seu apelo popular – estando, não raro, em franca oposição ao mesmo.

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Toco em concertos sinfônicos várias vezes ao mês. Com frequência um pouco menor (hoje bem menos do que antes), assisto a outras apresentações musicais. Mas se me perguntarem o que toquei ou ouvi ao longo dos últimos anos ou décadas, é bem provável que já tenha me esquecido de grande parte deste oceano musical (afortunadamente, muitas vezes).

Este certamente não foi o caso do que vi, ouvi e senti naquela noite no Instituto Goethe. Pois o Arlequim de Stockhausen é muito mais do que uma música  no sentido restrito, isto é, existente apenas enquanto uma partitura que, para ganhar vida, deve ser tocada por um músico ou conjunto de músicos. Sim, a partitura existe. Mas termina aí qualquer semelhança com tudo o que eu já ouvira antes.

Primeiro, é claro, por que a música do Arlequim deve ser executada em perfeita coordenação com movimentos coreográficos executados pelo clarinetista segundo especificações minuciosas do compositor. Ora, isto não é pouca coisa, uma vez que músicos são normalmente treinados para executar seus instrumentos em configurações estáticas, sentados ou em pé, ocupando um espaço limitado, como num cockpit. Depois, por que, em decorrência deste acúmulo atípico de funções (no ballet, por exemplo, músicos tocam enquanto bailarinos dançam), a complexa partitura deve ser totalmente memorizada pelo músico.

Céticos hão de dizer, aqui, que solistas de concertos estão habituados a tocar “de memória”. Me atrevo, no entanto, a supor ser muito mais fácil memorizar, de um lado, uma obra em formas tradicionais, com seções claramente delimitadas e um “texto” previamente fixado e exaustivamente ouvido, ao vivo e em gravações, do que, de outro, uma peça com espaço para improvisação controlada e sem a profusão de “ganchos” métricos e tonais peculiares ao repertório de concerto mainstream, nos quais tanto intérpretes como ouvintes invariavelmente se apoiam.

Tudo isto faz do Arlequim de Stockhausen nem música pura nem tampouco incidental. Sua concepção, por assim dizer, holística do intérprete é algo, senão único, ao menos sem precedentes (pois provavelmente já deve ter sido imitada) na história da música ocidental.

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Bom. Vim aqui para falar de uma performance e me pego traindo meu propósito inicial ao me deter em tantos pormenores da obra. É que não tive como fugir disto. Pois não há como se ter sequer uma pálida ideia da magnitude do feito de Paula ao dar vida ao Arlequim a não ser por meio da consciência de tudo o que a tarefa implica. Mas não tentarei, nesta anti-resenha, descrever a experiência em detalhes para quem não esteve lá. Principalmente por que seria inútil. Suficiente, então, sublinhar que a performance de Paula foi marcante em todos os aspectos.

Quando entrei no teatro, era cético (devo confessar) quanto ao sentido de alguém se especializar com tamanha intensidade na realização de uma obra musical a ponto de, entre tantas coisas, viajar a outro continente para estudar com quem a estreara sob a supervisão do próprio compositor; dedicar tempo e esforço enormes à memorização da mesma (tempo e esforço, estes, suficientes para se apreender um vasto repertório mais… tradicional); ou, ainda, enfrentar a árdua disciplina física necessária à sua execução.

Então, ao longo dos cerca de 40 minutos de duração da performance, sofri uma transformação. Não há como descrever o encantamento a que todos os que estavam ali foram submetidos (a julgar pela ovação ao final). Fui lá desconfiando que testemunharia algo único e, consoante a isto, portando uma câmera fotográfica para melhor ilustrar este post que, também desconfiava, acabaria escrevendo. Só que, imerso na escuridão e no silêncio tão cruciais àquilo tudo, desisti de conspurcar a atmosfera com os disparos da máquina. Felizmente, encontrei um registro em vídeo de uma performance anterior de Paula, o qual, infelizmente, pouco revela do que foi ter a atenção exclusivamente capturada pela magia daquele momento. Quando fui embora, todas as minhas dúvidas haviam se dissipado.

Hoje, passados alguns dias, sigo impactado por aqueles minutos, tendo renovado meu entendimento, ainda que intangível, impossível de ser vertido em palavras, da necessidade da arte. Acho que esta sensação não é só minha. Muito obrigado, Paula !

 

 

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