Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson

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Por mais óbvio que soe, não custa repercutir a ideia de que o cinema, assim como a música e a literatura, consiste num manancial praticamente inesgotável de tesouros – os quais, todavia, precisam ser pacientemente garimpados num imenso limbo de conteúdos irrelevantes cujo mérito não passa de distrair nossa atenção (daí a denominação do abominável segmento do entretenimento) tão somente até os relegarmos ao esquecimento e/ou indiferença. É por esta razão que se, ao acordar, sigo marcado por algum filme que vi no dia anterior, considero o mesmo digno de uma recomendação. Deste modo, o presente post poderia bem ser chamado de Razões para se assistir a Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson.

Quando, depois de um final de semana preguiçoso, em que os lançamentos  em cartaz não ofereciam estímulo suficiente para que abandonássemos o conforto do sofá para nos dirigirmos a alguma sala de projeção, e à meia-noite de domingo, quando tudo já parecia perdido (nessas horas sempre lembro a máxima de Les Luthiers “cultura para todos, en su horario habitual de las tres de la mañana”), foi absolutamente por acaso que topei com esta obra-prima que me fez vencer o sono e a disposição de dormir cedo para melhor encarar a semana que inicia.

O filme me agarrou do primeiro ao último minuto, para o que contribuíram fatores tais como a fotografia exuberante, evocando os matizes saturados do já obsoleto Technicolor; a fascinante temática do amor juvenil; o super elenco, com, entre outros, Bruce Willis, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton (a anciã em Doutor Estranho) e Harvey Keitel – isto sem falar dos jovens e, portanto, ainda desconhecidos protagonistas Jared Gilman e Kara Hayward; e, last but not least, a música de Benjamin Britten (The Young Person’s Guide to the Orchestra, Op. 34, por Leonard Bernstein).

Cinéfilo casual, fui dormir ainda sem saber nada sobre o diretor. Foi só hoje, ao acordar e graças ao valioso auxílio da wikipedia (não entendo o desprestígio do qual ainda desfruta, junto a alguns, o gigantesco repositório colaborativo de conhecimento), que soube se tratar do mesmo realizador de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e O Grande Hotel Budapeste (2014). Voilá. Estava assim a obra recém vista devidamente inserida numa filmografia – definida, entre outros, pelas imagens exuberantes, narrativa esquemática (com tudo explicado nos mínimos detalhes (vale conferir, na supracitada wikipedia, os livros e mapas fictícios criados para dar verossimilhança à história) ) e personagens tão caricatos quanto adoráveis. Trata-se de um cinema anti-realista, sem sombras nem lacunas narrativas a serem preenchidas pelo espectador. É como se, ao invés de estarmos assistindo a um filme, lêssemos um livro no qual cada detalhe é minuciosamente explícito. Noutras palavras, um deleite para aqueles com pouca paciência para com obras abertas (como, por exemplo, apreciadores de boas narrativas policiais, nas quais tudo deve ser univocamente explicado no último instante e jamais antes disto).

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É bem interessante se especular sobre a influência deste ou daquele artista sobre os demais. Ainda é cedo para se ponderar até que ponto o cinema de Anderson, relativamente jovem (nascido em 1969 e tendo estreado com um curta-metragem em 1994) afetará os filmes de outros. O que já é, no entanto, patente, é a enorme influência exercida pelos irmãos Joel e Ethan Coen sobre o cinema norte-americano. Mais. Vários filmes inequivocamente influenciados pelos irmãos Coen tem como marca a participação destacada de quem, de um modo ou de outro, é central à sua filmografia ou mesmo a suas biografias. Assim, o estilo dos Coen (que pode ser grosseiramente sintetizado como comédia do absurdo) é facilmente identificável, por exemplo, em duas obras alternativas (i.e., ao contrário da maioria das produções do cinemão de Hollywood, de baixo orçamento e sem grandes efeitos especiais) que ganharam as telas no ano passado – a saber, Suburbicon e Três Anúncios para um Crime, as quais permaneceram, infelizmente, pouquíssimo tempo em cartaz. Não deve ser por acaso que o primeiro foi dirigido por George Clooney – protagonista de Queime depois de ler (2008), dos irmãos Coen – e o segundo estrelado por Frances McDormand, musa dos filmes de Coen e esposa de um deles, Joel, oscarizada em 2018..

Como nos filmes dos Coen, tanto o enquadramento como a voz narrativa em Moonrise Kingdom conspiram para que o espectador deixe de viver cada cena para, ao invés, espreitá-las. Se isto, na história recente da arte cinematográfica, não se tratar de um fato novo, é, pelo menos, inegavelmente um atributo ausente de todo mainstream.

Wes Anderson

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Dito isto, se você ainda não viu Moonrise Kingdom e, depois de ler este texto, tiver vontade de vê-lo, o mesmo terá cumprido seu objetivo.

 

Uma resposta para “Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson”

  1. Ótimo texto sobre um ótimo filme, que eu tambêm apreciei muito quando vi no cinema, anos atrás. Tanto que depois comprei o DVD em uma locadora que estava encerrando atividades. E fui ver Suburbicon (também excelente) depois de ter lido a indicação por aqui – e então, o texto cumpriu sua função. Obrigado.

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