Por que considero Ah Um (1959), de Charlie Mingus, um álbum superestimado

Soltei no facebook, sem explicar as razões, que acho Ah Um, de Mingus (1959) um álbum superestimado. Em consideração à atenção de uns poucos que vierem aqui em busca de esclarecimento sobre a ao menos inusitada afirmação (posto que praticamente uma blasfêmia para qualquer mingófilo por se tratar, afinal, de um disco icônico), vou diretamente ao ponto.

O principal problema da outrossim excelente da música de Mingus é não ter encontrado, em grande parte das vezes, sua melhor expressão nos conjuntos em que o compositor atuava como contrabaixista. Ouvir Mingus em 1959 dá a nítida impressão de que ainda estavam por surgir músicos que plenamente realizassem sua música. Tudo bem que Dannie Richmond, seu fiel escudeiro, já estava lá  (pensem em quantas vezes Bill Evans trocou de baterista…). E Jimmy Knepper. Mas caras da estatura de um Eric Dolphy permaneceram com Mingus por muito pouco tempo.

Naquela época, improvisadores mais exponenciais orbitavam ao redor de Miles. Se pode até especular sobre como a excelente música de Mingus, que não deve nada a de Miles, teria se popularizado se o primeiro contasse com improvisadores como Cannonball ou Coltrane. Mas voltemos ao Ah Um.

O início do álbum é promissor, com uma das mais potentes composições de Mingus num arranjo vibrante, de um tipo aberto, consistindo em partes livres  (neste caso o trombone) sobre outras predeterminadas. É precisamente isto que dá aquela impressão de “baguncinha” ou caos controlado tão cara ao estilo de Mingus. Só que, na hora da entrada de um solo rasgando… nada. Só a base. E os riffs, é claro, de quando em quando. De pouco adiantam os gritos de Mingus – como que, sei lá, tentando acordar algum solista – que finalmente comparece, hesitante, com algumas notas longas e indecisas.  Em minha modesta experiência auditiva, não me parece que fosse esta, nem de longe, a intenção do autor. Aquilo é, sem sombra de dúvida, a cama perfeita para um solo vertiginoso. Só que, infelizmente, Dolphy, Bird, Trane ou similares não estavam ali. Então, não consigo ouvir o Ah Um a não ser como uma coisa incompleta, à qual ainda falta uma voz principal.

(é bem provável que, neste ponto, alguém diga que estes “buracos” no arranjo fazem parte da linguagem de Mingus, sutuada fora do alcance de minha compreensão rasa. Pode até ser. Mas evidências como as mesmas músicas tocadas por formações posteriores ou mesmo póstumas depõem em favor do que acho)

Percebem o problema de timing a que me refiro ? Sobre o cara certo estar no lugar certo na hora certa ? É perfeitamente razoável se afirmar que a música de Mingus muitas vezes só encontra sua melhor expressão depois que o autor deixa de atuar como músico em suas bandas. Como, por exemplo, nas raras e espetaculares gravações, ao vivo e em estúdio, da Mingus Dinasty ou da Essential Mingus Big Band, bandas memoriais dedicadas à preservação do legado de Mingus. Ou então nas sessões de gravação que Mingus acompanhou já numa cadeira de rodas. Ou, ainda, na colaboração com Joni Mitchell.

Falando em Joni, avancemos à segunda faixa de Ah Um, a balada Goodbye Pork Pie Hat, dedicada por Mingus a Lester Young, com versos escritos pela cantora, com alguma licença, sobre a linha improvisada pelo saxofonista no Ah Um. A versão de Joni dá de dez no original. Digam se exagero: preferem esta versão ?

Ou esta ?

Outro problema de Mingus em 1959 é uma certa falta de impulso em suas tradicionais “canções de batalha”, como Fables of Faubus ou Better git it in your soul. Agravada, talvez, pelo andamento excessivamente lento. Estou enganado ? Mingófilos e mingólogos que me corrijam !

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Quinze anos depois, Mingus já encontrara sua banda. Já havia, por exemplo, em Changes One & Two, pianistas como Don Pullen e Bom Neloms e horns como George Adams e Jack Walrath. Os espaços privilegiados destinados ao improviso não passavam mais em branco. Mas, como nem tudo é perfeito, já na segunda faixa de Changes One, nos deparamos com um erro de mixagem grosseiro. Como se tivessem cortado o microfone da voz principal (a trompeta, no caso). Não me perguntem como isto acontece num lançamento de uma grande gravadora. Está lá para que quiser ouvir. A falha gritante me faz supor que álbuns de jazz e outros não eram auditados na íntegra, mas só por amostragem, antes de serem fabricados e distribuídos. Um dos casos mais gritantes em que faixas desastrosas passaram pelo crivo de executivos fonográficos é este:

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É, como já foi dito, nos álbuns póstumos (como os de Mitchell, da Mingus Dinasty ou da Mingus Essential Big Band) ou quase (como aqueles cuja gravação Mingus acompanha de uma cadeira de rodas) que toda a força de sua música se realiza plenamente. Em 1978, um ano antes de sua morte, Mingus, cuja música inovadora o excluíra pela maior parte de sua vida do mainstream do jazz, gozava, finalmente, da reputação de um dos maiores, senão o maior, dos inovadores vivos. Com isto, era natural que os melhores daquele tempo o cercassem em busca de, algum modo, colarem suas imagens (e discografias !) à dele. Resulta que Something Like a Bird (1978) foi gravado por um dream team. Particularmente, raras vezes ouvi um saxofonista com a desenvoltura do outrossim desconhecido George Coleman. O disco conta até com a participação, pasmem, do guitarrista Larry Coryell.

Nos álbuns do Mingus Dinasty, “modernos” atrevidos como Joe Farrell e Randy se amalgamam a veteranos dos combos de Mingus como Richmond, Knepper e Pullen para injetar vida nova em sua música. E o que dizer, então, do álbum Mingus, de Joni ? Prá começo de conversa, há Jaco Pastorius. O que define, no entanto, a qualidade quase sempre superior das versões de Joni em relação às originais de Mingus é a intensidade expressiva – que se deve, repito, antes ao pouco alcance dos solistas do que a qualquer deficiência das composições, excelentes e irretocáveis.

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Atualização: saindo em busca de videos para ilustrar este post, particularmente da versão de Goodbye Pork Pie Hat em Ah Um, me deparei com esta, que confundi com o que procurava. Estupefato com a profundidade e proficiência do saxofonista, descobri tratar-se de um obscuro Seamus Blake da (!) Essencial Mingus Big Band, num disco lançado em 2001. Nenhum saxofonista chegou sequer perto disto em gravações de qualquer combo de Mingus.

 

Bill Evans por Paulo Moreira e Michel Dorfman ontem à noite no Instituto Ling

Eu era jovem ou ignorante demais (provavelmente os dois) quando Bill Evans se apresentou, por mais de uma vez, em Porto Alegre. Por isto, acabei perdendo shows que estariam certamente entre os mais memoráveis de minha vida.

Hoje, saio pouco de casa para ouvir música, apenas em situações bem específicas. Ou seja, somente quando tenho razões suficientes para acreditar que ouvirei música sublime executada por músicos excepcionais. Não, como diz um amigo, banalizo a experiência de ouvir música ao vivo. Até por que me acomodei à facilidade de descobrir coisas novas pela internet. Então, quando saio para ouvir algo, é por que espero desempenhos excepcionais. Ontem foi uma noite assim.

Anunciei enfaticamente no facebook, na véspera e no dia, uma audição comentada sobre Bill Evans por Paulo Moreira coroada por uma performance de Michel Dorfman nas luxuosas instalações do Instituto Ling. Noutras palavras, o melhor do  melhor. O tema, o palestrante e a música (repertório e executante).  Chamei a coisa de alinhamento de planetas e, numa segunda e derradeira postagem, doei um ingresso que comprara e não utilizaria, praticamente convocando gente para o evento. Para minha surpresa, ninguém quis o ingresso. Chegando lá e tampouco encontrando algum amigo a quem doá-lo, o deixei na bilheteria para qualquer sortudo que chegasse para adquiri-lo na última hora. Acho, no entanto, que ninguém chegou depois de mim. Na plateia, ao todo menos de 40 pessoas. Muito pouco, a meu ver, para algo de tal magnitude.

Logo ao entrar, obtive confirmação de que a coisa prometia ao avistar, no palco, sobre uma mesinha, 20 ou 30 CD organizados em duas pilhas.

Costumo relacionar a qualidade de qualquer fala ao tempo médio de tolerância dos ouvintes à linha de argumentação (podem, se quiser, chamar de discurso ou narrativa) do palestrante. Segundo tal medida, terá com certeza algum magnetismo todo e somente o palestrante que tiver ouvintes atentos ao menos pelo tempo de, digamos, um bom filme ou competições esportivas como jogos de tênis ou futebol.

Paulo Moreira pontua com louvor neste quesito. Com duas horas para falar e a prerrogativa de interromper uma única música que usava, no máximo, para ilustrar cada álbum, conseguia falar mais. Bem mais, pelo menos, do que em seu programa de rádio. Isto representa per se um incremento qualitativo – posto que, afinal, as pessoas que ouviam a palestra presumivelmente já ouviram (ao menos em parte) os álbuns citados na íntegra em suas casas – tendo afluído, portanto, ao evento primordialmente para ouvir o comentarista. Ao falar mais (por vezes sobre a música comentada, habilmente mixada à sua voz por um operador de áudio), melhor conseguiu transmitir uma visão ampla e detalhada sobre o assunto. Pensem numa perspectiva clara, ricamente detalhada. No formato de audição comentada, o anfitrião goza de muito mais autonomia autoral do que no escasso tempo entre uma música e outra em seu excelente programa de rádio.

Rádio. Um par de parênteses se faz necessário. Desenvolvi uma espécie de intolerância ao rádio dedicado à transmissão de música (tanto que só ouço rádios de notícias). Em razão da baixa qualidade musical da maioria e, principalmente, por seu grau de redundância ou previsibilidade. Já perceberam como certas rádios tocam umas mesmas poucas músicas, por vezes à mesma hora ?

Minha escassa experiência ouvindo rádio me ensinou, assim, que a qualidade de qualquer programa radiofônico é inversamente proporcional ao grau de redundância da música que nele é tocada. De tal modo que os melhores programas são sempre os mais variados. Os que tocam mais músicas diferentes. Os que levam mais tempo para repetir as mesmas músicas. Segundo este critério, Sessão Jazz, apresentado por Moreira há quase 19 anos na FM Cultura (107.7MHz) de Porto Alegre, é um programa muito melhor do que praticamente tudo o que é transmitido em qualquer horário por emissoras comerciais.

Desde cedo um fã fervoroso de Evans, me considerava uma espécie de expert amador em sua discografia e, como tal, fui ao Ling mais para desfrutar da prosa de Moreira sobre meu ídolo e da música deste por Michel. Saí no lucro. Ouvi pela primeira vez muitos discos do início da carreira de Evans, além de descobrir fatos cruciais de sua biografia. A infância difícil. A baixa autoestima. O vício em heroína e, ao final, em cocaína. As homenagens criptografadas nos títulos das composições. Em suma, um manancial de informações das quais eu jamais suspeitara.

Jamais ouvira, por exemplo, tão claramente explicado como e por que o bebop revolucionou o jazz. De como a música que se começou a tocar às segundas-feiras no Minton’s Playhouse nos anos 50 não mais se destinava a ser dançada, porém ouvida. De quebra com detalhes pitorescos sobre o por que daquilo não acontecer em outro lugar senão no Minton’s.

Além disto, muito do que ouvimos era constituído por informação de primeira mão, obtida por Paulo em conversas com músicos que testemunharam a história. Como, por exemplo, a que teve com Miúcha sobre o atrito entre João Gilberto e Stan Getz ou, ainda, uma com Joe La Barbera (último baterista de Evans) sobre como era tocar com o gênio.

No intervalo, se falava no café sobre a recente inclinação ao jazz de músicos jovens que antes só conheciam e praticavam o rock (ou rap, ou pop, ou sertanejo universitário, etc.). Aproveitei para perguntar se a qualidade superior da música de outrora não se devia à ausência de qualquer associação com imagens (como nas mais recentes linguagens da TV, das telas, do videoclip). Pois enquanto antes se OUVIA música gravada – diante, com sorte, de boas caixas acústicas propelidas por sólidos amplificadores ou mesmo com bons fones de ouvido, hoje tudo que se ouve é praticamente indissociável de um complemento visual.

A maior ruptura se deu, acho, por volta dos anos 80, quando se passou a VER música em videoclipes (inicialmente na TV e, hoje, em minúsculas telas de celulares) muito mais do que, propriamente, ouvi-las.

Já segundo Moreira, o que arruinou a MPB foi o rock. Em defesa do argumento, citou Paralamas, Legião, Titãs, Barão e afins como cópias mal feitas de bandas indie (ou nem nem tanto) que eu jamais ouvira ou sobre as quais sequer tinha ouvido falar. Na opinião de Paulo (e da minha também !), tudo o que nos trouxe o passado mais recente é muito inferior à música de Chico, Gil, Caetano, Milton e cia. Alguém muito arguto (a quem fui apresentado mas – desculpe ! – cujo nome esqueci) bem lembrou que imitações baratas já eram marcas do mainstream da música brasileira desde o tempo da Jovem Guarda, quando todos queriam ser os Beatles. ( * )

Tão interessante quanto a música apresentada foi sem dúvida o perfil psicológico de Evans traçado. As grandes perdas (La Faro, o irmão…). A infância traumática e a  baixa autoestima já mencionadas. Um dos melhores momentos, que supre perfeitamente a lacuna de documentação histórica sobre o conhecidíssimo atrito entre Evans e Miles por conta da apropriação pelo último da peça Blue in Green, composta pelo primeiro e central ao mítico álbum Kind of Blue. O incidente poderia ter facilmente se tornado um dos mais célebres casos judiciais sobre direitos autorais não fosse a atitude resignada de Evans, que declinou de processar Miles pela apropriação indevida, se contentando, em troca, com uma mera atribuição de coautoria nos créditos da segunda prensagem do álbum. Descrevendo uma possível cena de Evans externando a Miles sua indignação, Paulo angaria risos da plateia ao dizer que tudo teria se resumido a um ” – Pô, Miles ! Blue in Green é meu…

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Talvez o mais impactante que eu tenha ouvido ontem à noite tenha sido uma fala sobre o fim da genialidade (questão que me intriga e da qual já me ocupei aqui e aqui). Quando, próximo ao final da apresentação, perguntado sobre o futuro do jazz e da música em geral, Moreira afirma que todas as possibilidades já se haviam esgotado e que, portanto, nunca mais haveria gênios como Miles, Monk, Bird, Trane, Evans e outros. Uma espécie de saturação, onde tudo parece já ter sido experimentado, comparável ao que se tem hoje na música de concerto. Impossível discordar.

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Muitas coisas passam rapidamente pela mente de ouvintes atentos a uma palestra. Compartilho, pois, aqui, dois fatos possivelmente relevantes que me ocorreram enquanto ouvia a cativante explanação de Moreira.

Fato # 1: É consistente e audível a progressividade da evidência do piano de Evans na mixagem de seus primeiros discos. Da seguinte maneira. Quase não se ouvia o piano em sua primeira gravação a se tornar célebre. Nela, acompanhava uma cantora, que parecia cantar “na cara” do ouvinte – o qual, por sua vez, percebe o piano apenas ao longe, como se estivesse em outra sala. Mais ou menos como no som daquelas gravações primitivas em que a mixagem era obtida por meio da proximidade de cada fonte sonora a um único microfone ou coifa de captação (já viram estas divertidas imagens ?)

Já em seus primeiros registros em trio e como líder, seu piano se torna bem mais audível. Ainda sufocado, no entanto, pela indevida ênfase, na mixagem, do contrabaixo e, principalmente, da bateria. É tão somente a partir de seus discos dos anos 70 que a devida proeminência é dada ao piano.

Fato #2: é também de grande interesse para fãs de Bill Evans que sua relação com a cantora sueca Monica Zetterlund é retratada no filme Monica Z (Waltz for Monica), de 2013, dirigido por um certo Per Fly, que conta a história de como Monica atraiu a atenção do pianista (que reputava, com razão, como sendo o melhor do mundo) por meio de uma gravação sua cantando versos (seus ?) para o clássico de Evans Waltz for Debbie – o qual veio a dar nome ao álbum resultante da colaboração entre os dois. Felizmente, o encontro foi amplamente documentado, provavelmente pela televisão sueca, com destaque também para o contrabaixista Eddie Gomez, central à trajetória de Evans.

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Não menos brilhante do que a fala de Moreira foi o pequeno recital proporcionado por Michel Dorfman.

A começar pela escolha do repertório. Movido pela complexa tarefa de dar a melhor ideia possível da obra de Evans num curto espaço de tempo. Michel acertou ao organizar 3 medleys (seleções) de composições do pianista que compartilhavam tonalidades comuns. Fechando os olhos, se ouvia Bill Evans, só que em linhas improvisadas totalmente novas, jamais ouvidas antes.

Ao anunciar o que tocaria nos medleys,  Michel confessa que, depois de saber, na palestra que recém ouvira, que era a jovem namorada Laurie quem levava cocaína a Evans em seus últimos dias, não estar mais tão convicto do acerto de sua opção por tocar a música que lhe rende homenagem. Felizmente, Michel tocou a belíssima balada Laurie. Até por que deixar de tocá-la por tal razão seria mais ou menos como deixar de escutar Gesualdo por causa de sua singular biografia. Acho eu.

Foi atendendo à solicitação unânime de um bis, no entanto, que Michel empreendeu sua maior aventura naquela noite. Aquela na qual aceitou correr os maiores riscos,  ao improvisar sobre um tema que considerava particularmente difícil e desafiador – a saber, My Bells, tocado por Evans ao final do da entrevista/documentário concedida a seu irmão.

Ao final, fiz questão de dizer ao pianista do prazer e do privilégio de ouvi-lo tocar um repertório tão exponencial num bom instrumento para uma audiência atenta e silenciosa – fato raro no âmbito do jazz e da música popular em geral.

E como costuma dizer o Milton ao fim das crônicas de tantos concertos, voltei para casa faceiro.

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*) Quem bem lembrou que a Jovem Guarda já era, muito antes do rock brasileiro, uma imitação barata de um um modelo estrangeiro, foi Karlos Kulpa.