Você trabalha mais do que 39 horas por semana ? Seu emprego pode estar lhe matando

Longas jornadas, stress e inatividade física são ruins para nosso bem-estar – ainda assim estamos trabalhando mais duro do que nunca. Não é hora de voltarmos atrás ?

Publicado originalmente por Peter Fleming em The Guardian em 15 de janeiro de 2018

Quando um grupo de estagiários chegou recentemente ao Barclays, de Nova Iorque, descobriram um memorando em seu correio eletrônico. Era de seu supervisor no banco, assim intitulado: “Bem-vindos à selva”. A mensagem continuava: “Recomendo que tragam um travesseiro para o escritório. Torna o sono sob a mesa de trabalho bem mais confortável… O estágio é realmente um compromisso de nove semanas à escrivaninha… Um estagiário pediu a um de nossos funcionários um fim-de-semana de folga para uma reunião familiar – ele foi mandado embora. Também foi instruído a devolver seu celular e a limpar sua mesa.”

Embora o memorando não autorizado tenha sido concebido como uma piada, ninguém riu quando ele vazou na mídia. Ainda era fresca a lembrança de Moritz Erhardt, o estagiário londrino de 21 anos que morreu depois de trabalhar 72 horas sem interrupção no Bank of America. Parecia que o Barclays também estava levando a “ética de trabalho” a extremos mórbidos.

Depois de 30 anos de desregulamentação neoliberal, o “das nove às cinco” mais parece uma relíquia de uma era passada. Empregos são infinitamente estressantes e crescentemente precários. O trabalho excessivo se tornou norma em muitas empresas – algo esperado e mesmo admirado. Tudo o que fazemos fora do escritório – não importa o quão gratificante – é silenciosamente menosprezado. Relaxamento, hobbies, criar crianças ou ler um livro são desqualificados como preguiça. Tal o poder da mitologia do trabalho.

Se esperava que a tecnologia nos libertasse do sacrifício diário. Só que, com frequência, ela tornou as coisas piores: em 2002, menos de 10% dos empregados liam emails de trabalho fora do expediente. Hoje, com a ajuda de tablets e smartphones, são 50%, frequentemente antes de se levantar da cama.

Alguns observadores sugerem que trabalhadores atuais não “desligam” nunca. Como nossos telefones celulares, apenas passamos a stand by no fim do dia, quando rastejamos para a cama exaustos. Esta implacável falta de alegria é especialmente evidente quando o assunto é férias. Nos EUA, uma das economias mais ricas do mundo, empregados tem sorte se conseguem tirar duas semanas por ano.

Você pode até pensar que esta atividade frenética esteja diretamente ligada a nossa preservação biológica e que não sobreviveríamos sem ela. Como se escrever emails idiotas num escritório apertado fosse semelhante a caçar e colher em eras anteriores… Felizmente, uma mudança generalizada está em curso. O custo do trabalho excessivo não pode mais ser ignorado. Stress duradouro, ansiedade e inatividade prolongada foram expostos como assassinos potenciais.

Pesquisadores do Columbia University Medical Center usaram recentemente rastreadores de atividade para monitorar 8000 trabalhadores com mais de 45 anos. Os resultados foram chocantes. O período médio de inatividade em cada dia acordado era de 12,3 horas. Empregados sedentários por mais de 13 horas por dia eram duas vezes mais propensos a morrer prematuramente do que aqueles que eram inativos por 11,5 horas. Os autores concluíram que permanecer sentado num escritório tinha um efeito similar ao hábito de fumar – devendo, portanto, ser objeto de advertência sanitária.

Quando pesquisadores no University College de Londres observaram 85.000 trabalhadores, homens e mulheres de meia-idade em sua maioria, encontraram uma correlação entre trabalho excessivo e problemas cardiovasculares, especialmente arritmia cardíaca e fibrilação atrial, o que aumenta em cinco vezes o risco de um infarto.

Sindicatos também estão cada vez mais preocupados com o trabalho excessivo, especialmente no que tange ao impacto sobre as relações pessoais e à doença física e mental. Vejam o caso do sindicato IG Metall na Alemanha. Semana passada, 15.000 trabalhadores (que fazem peças automotivas para empresas como Porsche) convocaram uma greve demandando uma semana de trabalho de 28 horas sem redução salarial ou de condições. Não se trata de indolência, dizem, mas de auto proteção: não querem morrer antes da hora. A ciência está do seu lado: uma pesquisa da Australian National University descobriu recentemente que trabalhar qualquer coisa mais do que 39 horas por semana é um risco ao bem-estar.

Há algum nível saudável ou aceitável de trabalho ? De acordo com o pesquisador norte-americano Alex Soojung-Kim Pang, a maioria dos empregados atuais são produtivos por cerca de quatro horas por dia: o resto é preenchimento de tempo e uma quantidade enorme de preocupação. Pang argumenta que o dia de trabalho poderia ser facilmente reduzido sem comprometer padrões de subsistência e prosperidade.

Outros estudos corroboram esta observação. O governo sueco, por exemplo, financiou um experimento no qual enfermeiras de home care trabalharam seis horas por dia recebendo salários de oito horas. O resultado ? Menos faltas por doença, menos stress e um salto na produtividade.

É claro que tudo isto é muito encorajador. Mas quase todos estes estudos focalizam o problema sob um ponto de vista numérico – a quantidade de tempo gasto trabalhando a cada dia, ano após ano. Temos que ir adiante e começar a encarar as condições do trabalho pago. Se um trabalho é miserável e demasiado estressante, até umas poucas horas do mesmo podem se tornar um pesadelo existencial. Alguém que gosta de trabalhar em seu carro no fim-se-semana, por exemplo, pode muito bem achar intolerável fazer a mesma coisa numa fábrica, mesmo por um período mais curto. Toda a liberdade, criatividade e engenhosidade são sugadas da atividade. O que era para ser um momento de descontração voluntária de torna um fardo imposto de fora para dentro.

Por que isto é importante ?

Por que existe um perigo de que meramente reduzir horas de trabalho não mude muito, em termos de saúde, enquanto empregos intrinsecamente privarem de liberdade. Para que empregos conduzam a nosso bem-estar mental e fisiológico, muito menos trabalho é definitivamente essencial. Da mesma forma que trabalhos de um tipo melhor, onde hierarquias sejam menos autoritárias e tarefas sejam mais variadas e façam mais sentido.

Infelizmente, o capitalismo não possui um bom histórico em termos de criar empregos assim. Mais de um terço dos trabalhadores britânicos acham seus empregos sem sentido, de acordo com uma enquete de YouGov. E se o moral é tão baixo, não importa quantos vales-academia, programas de atenção plena e cestas de frutas orgânicas os empregadores lhes dem. Mesmo o empregado mais comprometido sentirá que algo fundamental está faltando. Uma vida.

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O novo livro de Peter Fleming, A Morte do Homo Economicus: Trabalho, Débito e o Mito da Acumulação Infinita (The Death of Homo Economicus: Work, Debt and the Myth of Endless Accumulation), foi publicado pela Pluto Press.

Por que o bordão “eleição sem Lula é golpe” se constitui, em última análise, numa confissão de culpa da esquerda

Como era de se esperar, o julgamento de Lula em segunda instância se tornou o assunto mais importante das redes sociais, com compartilhamentos de memes (em maior número) e artigos com ponderações (mais raros) por partidários de ambos os lados – a saber, os indignados e a turma do “bem feito” a celebrar o resultado.  É bem possível que minha constatação desse equilíbrio espante a muitos leitores, já que, bem sei, a exclusão, em redes sociais, de perfis pertencentes a campos ideológicos adversários é uma prática higiênica adotada por muitos – e, até certo ponto, compreensível, por banir do alcance dos olhos as ideias hediondas de quem não pensa da mesma forma.

Rechaço, no entanto, esta prática. Como já expliquei aqui várias vezes, optei por conservar em minha timeline uns poucos coxinhas e bolsominions, tais como sondas lançadas para além da bolha discursiva, só para não perder o contato com o apito que toca por lá.

Dentre os indignados, se tornou praticamente um slogan a expressão “eleição sem Lula é fraude” (ou, noutra versão, “eleição sem Lula é golpe”). Não pretendo contestar esta afirmação mas, tão somente, especular sobre o estado de coisas que fez com que chegássemos a este ponto.

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Antes, porém, de examinar as práticas da esquerda e da direita que levaram a primeira ao atual beco sem saída, vale aventar uma hipótese sobre a aderência do judiciário (ou, ao menos, de parte dele) aos anseios da direita. Identificação é a palavra-chave. Muito se tem falado sobre a fragilidade dos argumentos levantados por desembargadores do TRF4 que julgaram Lula em segunda instância. Penso que, para se entender a índole de qualquer discurso condenatório de Lula, devemos prestar atenção nem tanto na argumentação explícita dos dembargadores – que, de resto, já se provou furada e comprometida numa série de aspectos, inclusive no tão propalado fato de que os votos subsequentes ao do relator já se encontravam redigidos (provavelmente por estagiários, como bem apontou Gustavo Czekster) de antemão e, portanto, blindados contra quaisquer possíveis alterações em razão da audição atenta da leitura de votos anteriores – mas, principalmente, naquilo que não é dito, a saber, na maior proximidade dos vencimentos percebidos pelo andar de cima da magistratura com os de políticos, banqueiros e grandes empresários.

Este fato, aliado à grande discrepância entre os vencimentos destas categorias em relação aos da grande maioria da população brasileira, é suficiente para criar e manter uma consciência de classe avassaladora, conquanto subentendida. Pois juízes superiores moram nos mesmos condomínios, andam nos mesmos carros e frequentam os mesmos clubes e restaurantes que senadores e donos de grandes empreiteiras. Então, é natural, ainda que inconfessável, que juízes melhor remunerados, na hora de decidir em favor das classes populares ou das elites, privilegiem oligointeresses como se, com isto, estivessem, de algum modo inconsciente, a beneficiar a si próprios. Pois a ideia de pertencimento, explícito ou não, costuma falar mais alto.

É claro que se pode tributar a hipótese acima a mais uma teoria conspiratória. Permaneço, no entanto, convicto de que isenção e pluralidade andam juntas. Ou seja, quanto menos plural for uma decisão, menos isenta será. De tal modo que apenas três juízes decidirem sobre o futuro político de um líder apoiado por multidões é, no mínimo, suspeito. Imaginem, por exemplo, o lobby sofrido pelos julgadores de Lula nos meses anteriores ao julgamento.

A distribuição de processos, com um ou poucos árbitros designados para cada conflito, é, como já sustentei aqui, uma das deficiências mais visíveis do sistema jurídico como o conhecemos. Uma reforma judicial deveria, portanto, submeter decisões importantes a cortes mais amplas, tanto mais numerosas quanto for a importância de cada sentença a ser proferida. Pois mesmo que um único juiz seja eventualmente suficiente para arbitrar um conflito entre vizinhos, dificilmente cortes de poucos magistrados (personalistas, portanto) conseguirão julgar questões amplas, tais como as de importância nacional, com o mínimo de isenção necessária. Eis um ótimo problema para os teóricos do poder.

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Feita esta ressalva, tornemos a nossa questão central. Se uma eventual “eleição sem Lula é golpe (ou fraude)”, a culpa é, ao menos em parte, da esquerda que investiu uma quantidade considerável de tempo e energia na criação e manutenção da ideia de um único grande líder possível. Assim, a eterna candidatura de Lula está fundada no mesmo princípio de TINA (there is no alternative), invocado pela direita para justificar a aplicação de medidas de austeridade fiscal.

Senão, vejam como tem se comportado, nas últimas décadas, cada extremo do espectro ideológico. Enquanto a esquerda martela insistentemente num novo mandato de Lula como única possibilidade de redimir o país ante o inexorável avanço neoliberal, a direita astutamente se exime de fechar em torno de um único nome para disputar o pleito presidencial. Deste modo, até o último instante teremos um conjunto especulativo composto por Bolsonaro, Alckmin, Dória, Aécio e até competidores improváveis, legítimos azarões, como Collor ou, por que não, Kataguiri. Todos estão sujeitos a um compreensível desgaste político – análogo ao sofrido por Lula – até o derradeiro fechamento das nominatas pelos partidos (outra mazela que deveria ser extinta, mas isto já é outro assunto).

Muito mais do que teoria conspiratória, esta relutância até o momento derradeiro em fechar em torno de um candidato se constitui numa estratégia explícita proposta por um dos financiadores da Atlas Foundation (think tank de atuação internacional dedicado a formar e instrumentar agentes de promoção de ideias neoliberais) – a saber, a de que “em momento algum se deve permitir que o(s) nome(s) de quem está por trás da Atlas se torne(m) de conhecimento público”. Protegido, assim, por meio deste anonimato, o espírito neoliberal se torna tão poderoso como uma hidra cujas cabeças se multiplicam a cada vez em que uma delas é cortada. Ao contrário, a esquerda permanece obtusamente fiel à ideia de um grande líder, sem o qual estaríamos todos num beco sem saída.

Ora, ideias compartilhadas, que pertencem a todos e a ninguém especificamente ao mesmo tempo, tendem a ser mais duradouras, permanecendo mesmo depois que seus defensores mais ferrenhos sejam abatidos em meio à luta por sua promoção. Já aquelas representadas predominantemente por um indivíduo ou outro tendem a se dissipar mais facilmente na ausência de quem as personifique perante a maioria. Isto é uma das consequências mais nefastas tanto da cultura de celebridades na qual estamos imersos quanto do fato de que argumentos longos, mais afeitos ao texto que deve ser lido, cedem lugar a uma cultura eminentemente visual, em que memes ocupam cada vez mais espaço do que reflexões mais demoradas.

Ainda sobre ideias serem mais importantes do que pessoas. Disputando espaço nas redes sociais com o julgamento de Lula pelo TRF4 esteve a notícia do abandono de um debate midiático por parte de Márcia Tiburi ao constatar que estava prestes a enfrentar Kim Kataguiri. Estranhei as incontáveis manifestações de solidariedade recebidas por ela pois, a meu ver, a filósofa perdeu uma oportunidade privilegiada de rebater publicamente o discurso raso do enfant terrible da direita. Ou seja, abdicando de confrontar suas ideias, ainda que em termos que eventualmente lhe parecessem demasiado didáticos, acabou fortalecendo a pessoa.

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Pressenti e temi o atual estado de coisas desde o início da perseguição a Lula, tal qual a crônica de uma morte anunciada, a partir do momento em que todos os esforços se concentraram na tentativa inglória de blindar sua figura ao invés de, já então, se iniciar uma busca por novas lideranças ou, preferencialmente, coletivos capazes de se comprometer perante a nação e conquistar sua confiança em relação ao combate da desigualdade. Espero sinceramente que ainda haja tempo para isto. Caso contrário, que ao menos 2018 sirva de lição para um futuro não muito distante.

Há algum problema que trabalhar menos não resolva ?

A solução para praticamente tudo: Trabalhar menos

Publicado por Rutger Bregman em Evonomics

Traduzido por Augusto Maurer

Se você tivesse perguntado ao maior economista do século 20 qual seria o maior desafio do século 21, ele não precisaria pensar duas vezes.

Lazer.

No verão de 1930, bem quando a Grande Depressão adquiria força, o economista britânico John Maynard Keynes proferiu uma conferência curiosa em Madri. Ele havia aventado novas ideias com alguns de seus alunos em Cambridge e decidiu torná-las públicas numa palestra breve chamada “Possibilidades Econômicas para nossos Netos.”

Noutras palavras, para nós.

Na época de sua visita, Madri era uma confusão. Desemprego crescia descontroladamente, o fascismo se alastrava e a União Soviética estava ativamente recrutando apoiadores. Poucos anos depois, uma guerra civil devastadora eclodiria. Como, então, podia o lazer ser a maior mudança ? Naquele verão, Keynes parecia vir de outro planeta.

 “Estamos sofrendo um ataque de pessimism econômico,” escreveu. “É comum pessoas dizerem que a época de enorme progresso econômico que caracterizou o século 19 chegou ao fim…” E não sem razão. A pobreza era devastadora. Tensões internacionais cresciam e se precisaria da máquina mortal da Segunda Guerra Mundial para soprar vida novamente à indústria global.

Falando numa cidade à beira do desastre, o economista britânico arriscou uma predição contraintuitiva. Por volta de 2030, disse Keynes, a humanidade seria confrontada com o maior desafio jamais encarado: o que fazer com um mar de tempo livre. A menos que políticos cometam erros desastrosos (austeridade durante uma crise econômica, por exemplo), ele antecipou que dentro de um século o padrão de vida ocidental seria no mínimo o quádruplo do que era em 1930.

A conclusão ? Em 2030, estaremos trabalhando apenas 15 horas por semana.

Um futuro preenchido com lazer

Keynes não foi o primeiro nem tampouco o último a antecipar um futuro inundado por lazer. Um século e meio antes, o “pai fundador” americano Benjamin Franklin já havia previsto que quatro horas de trabalho por dia seriam, eventualmente, suficientes. Além daquilo, a vida seria toda “lazer e prazer”. E Karl Marx similarmente ansiava por um dia em que todos tivessem tempo “para caçar pela manhã, pescar à tarde, criar gado ao entardecer, criticar depois de jantar […] sem jamais se tornar um caçador, um pescador, um vaqueiro ou um crítico.”

Mais ou menos ao mesmo tempo, o pai do liberalismo clássico, o filósofo britânico John Stuart Mill, argumentava que o melhor uso de mais riqueza é mais lazer. Mill se opunha ao “elogio do trabalho” proclamado por seu maior adversário Thomas Carlyle (um grande defensor da escravidão, também, como acontece), o justapondo com seu próprio “elogio do lazer”. De acordo com Mill, tecnologia deveria ser usada para frear a semana de trabalho tanto quanto fosse possível. “Haverá mais tempo do que nunca para todos os tipos de cultura mental e progresso moral e social,” escreveu, “bem como para aprimorar a Arte de Viver.”

Ainda assim, a Revolução Industrial, que propeliu o explosivo crescimento econômico do século 19, trouxe exatamente o oposto de lazer. Enquanto um fazendeiro inglês no ano 1300 tinha que trabalhar ca. 1500 horas por ano para viver, um operário de fábrica na era de Mill precisava dedicar o dobro de tempo simplesmente para sobreviver. Em cidades como Manchester, uma semana de trabalho de 70 horas, sem férias nem fins de semana, era a regra até com crianças. “O que querem os pobres com feriados ?” ponderou uma duquesa inglesa ao fim do século 19. “Eles devem trabalhar !” Muito tempo livre é simplesmente um convite à maldade.

No entanto, por volta de 1850 um tanto da prosperidade criada pela Revolução Industrial começava a apelar às classes inferiores. E tempo é dinheiro. Em 1855, as mansões de Melbourne, Australia, foram as primeiras a assegurar um dia de oito horas.

Pelo fim do século, a semana de trabalho em alguns países já havia caído para menos de 60 horas. O dramaturgo nobelizado George Bernard Shaw predisse em 1900 que, naquela taxa, empregados em 2000 trabalhariam só duas horas por dia.

Empregados resistiram, naturalmente. Quando, em 1926, um grupo de 32 proeminentes empresários americanos foi perguntado sobre o que achavam de uma semana de trabalho mais curta, 2 acharam que a ideia tinha méritos. De acordo com os outros 30, mais tempo livre apenas resultaria em mais crime, dívida e degeneração. E não foi ninguém menos do que Henry Ford – titã da indústria, fundador da Ford Motors Company e criador do Modelo T – o primeiro a implementar, no mesmo ano, uma semana de 5 dias.

Chamaram-no de louco. Depois, seguiram seus passos.

Um capitalista “tingido na lã” e a mente brilhante por trás da linha de produção, Henry Ford descobriu que uma semana mais curta na verdade incrementava a produtividade de seus empregados. Tempo de lazer, observou, era um “frio fato econômico”. Um trabalhador mais descansado é um trabalhador mais eficiente. Além disto, um operário confinado em uma fábrica do amanhecer ao entardecer, sem tempo livre para viagens em estradas e passeios recreativos, jamais compraria um de seus carros. Como disse a um jornalista, “É tempo de nos livrarmos da noção de que tempo de lazer para trabalhadores é “tempo perdido” ou privilégio de classe.”

Em uma década, os céticos foram vencidos. A Associação Nacional de Indústria, que 20 anos antes advertia que uma semana de trabalho mais curta arruinaria a economia, então orgulhosamente se gabava de que os Estados Unidos tinham a mais curta semana de trabalho do mundo. Em suas recém-encontradas horas de lazer, trabalhadores logo estavam dirigindo seus Ford diante de cartazes da ANI que proclamavam, “Não há outro jeito igual ao americano.”

O Fim do Trabalho

Toda evidência pareciam sugerir que as grandes mentes, de Marx a Mill a Keynes a Ford, deviam estar corretas.

Em 1933, o senado norte-americano aprovou legislação introduzindo uma semana de trabalho de 30 horas. Apesar de lei ter sucumbido na Casa dos Representantes sob intensa pressão da indústria, uma semana menor permaneceu sendo a principal demanda dos sindicatos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o tempo de lazer aumentou constantemente. Em 1956, o vice-presidente Richard Nixon prometeu aos americanos que eles não teriam que trabalhar mais do que 4 dias por semana “num futuro não muito distante”.

A audaciosa predição de Keynes se tornou um truísmo. Em meados dos anos 60, o relatório de uma comissão do senado projetou que por volta de 2000 a semana de trabalho seria de apenas 14 horas, com pelo menos 7 semanas de férias por ano. A corporação RAND, um think tank influente, vislumbrou um futuro no qual somente 2% da população seria capaz de produzir tudo que a sociedade precisasse. O trabalho seria em breve reservado à elite.

Conforme os 60 progrediram, alguns pensadores começaram a manifestar preocupações. O cientista político Sebastian de Grazia, ganhador do Pulitzer, disse à Associated Press que “Há razão para se temer […] que tempo livre, tempo livre obrigatório, traga o pulso constante do aborrecimento, da indolência, da imoralidade e da crescente violência pessoal.” E em 1974, o Departamento do Interior dos EUA soou o alarme ao declarar que “Lazer, tido por muitos como epítome do paraíso, pode muito bem se tornar o maior problema do futuro.”

Apesar destas preocupaçõoes, parecia haver pouca dúvida sobre o curso que a história definitivamente tomaria. Por volta de 1970, sociólogos falavam confiantemente no iminente “fim do trabalho”. A humanidade estava no limiar de uma verdadeira revolução do lazer.

O sonho esquecido

E a história tomou outro curso.

Nos anos 80, reduções da semana de trabalho tiveram ima interrupção dramática. O crescimento econômico não estava se traduzindo em lazer, mas em mais coisas. Em países como Austrália, Áustria, Noruega, Espanha e Inglaterra, a semana de trabalho deixou totalmente de ser reduzida. Nos Estados Unidos, efetivamente cresceu. Setenta anos depois que o país sancionou a lei das 40 horas semanais de trabalho, três quartos da força de trabalho trabalhava mais do que 40 horas semanais.

Mesmo cidadãos da Holanda – a nação com a menor semana de trabalho no mundo – sentiram o peso crescente do trabalho, tempo extra, assistência e educação desde os anos 80. Três quartos da força de trabalho holandesa se sentiam sobrecarregados por pressões de tempo, um quarto trabalhava habitualmente além do tempo e um em cada oito sofria sintomas de burnout.

Além do mais, trabalho e lazer vem se tornando progressivamente mais difícil de dissociar. Um estudo conduzido na Harvard Business School mostra que, graças à tecnologia moderna, executivos e profissionais na Europa, Ásia e América do Norte dedicam hoje de 80 a 90 horas semanais, “tanto trabalhando quanto monitorando trabalho ou permanecendo acessível.” E de acordo com pesquisa britânica, o smartphone faz o empregado médio trabalhar mais 460 horas por ano – quase três semanas.

É seguro dizer que as predições das grandes mentes não se tornaram exatamente realidade. Estamos muito atrás da profecia de Keynes. Por volta do ano 2000, países como França, Holanda e os Estados Unidos já eram cinco vezes mais ricos do que em 1930. Ainda assim ao adentrarmos o século 21 nossos maiores desafios não são lazer e tédio, mas fadiga e incerteza.

A solução para (quase) tudo

Recentemente, um amigo me perguntou: “O que trabalhar menos efetivamente resolveria ?”

Prerefi formular de outra forma: “Existe algo que trabalhar menos não resolva ?”

Stress ? Incontáveis estudos mostraram que pessoas que trabalham menos são mais satisfeitas com as próprias vidas. Numa recente enquete conduzida entre mulheres trabalhadoras, pesquisadores alemães chegaram a quantificar o “dia perfeito”. “a maior porção de minutos (106) irá para “relações íntimas”. Em último lugar na lista constava “trabalho” (36) e “deslocamento” (33). Os pesquisadores se limitaram a observar que que “no intuito de maximizar o bem-estar é provável que trabalho e consumo venham a ter menos importância em atividades diárias do que hoje.”

Acidentes ? Tempo extra é letal. Dias de trabalho mais longos levam a mais erros: cirurgiões cansados são mais propensos a cochilos e soldados que descansam pouco os olhos erram alvos mais facilmente. De Chernobyl ao ônibus espacial Challenger, está provado que diretores que trabalham demais são os que mais cometem erros fatais em desastres. Não é por coincidência que o setor financeiro, que deflagrou o maior desastre da última década, esteja absolutamente afundando em tempo extra.

Mudanças climáticas ? Um movimento mundial por uma semana de trabalho menor poderia cortar a emissão de gás carbônico neste século pela metade. Países com semanas de trabalho mais curtas tem indicadores ecológicos melhores.

Desemprego ? Obviamente, se pode simplesmente cortar um emprego em partes menores. O mercado de trabalho não é um jogo de cadeiras musical em que todos podem ocupar quaisquer assentos e tudo o que temos que fazer é trocar de lugar. Não obstante, pesquisadores na Organização Internacional do Trabalho concluíram que o trabalho compartilhado – no qual dois trabalhadores em tempo parcial dividem a carga de trabalho tradicionalmente associada a um trabalhador em tempo integral – é um grande avanço em direção a resolver a última crise. Particularmente em tempos de recessão com altíssimo desemprego e produção superando a demanda, empregos compartilhados podem ajudar a suavizar o impacto.

Emancipação das mulheres ? Países com semanas de trabalho mais curtas consistentemente lideram rankings de igualdade de gênero. O objetivo central é atingir uma distribuição mais igualitária do trabalho. Só quando os homens assumirem sua porção de cozinha, limpeza e outros trabalhos domésticos é que as mulheres serão livres para participar efetivamente da economia mais ampla. Noutras palavras, a emancipação feminina é um assunto de homens. Estas mudanças, entretanto, não dependem exclusivamente das escolhas de homens individuais; a legislação tem um papel importante a cumprir. Em lugar algum a diferença de tempo de licença maternidade/paternidade entre mulheres e homens é tão pequena como na Suécia, um país com um sistema verdadeiramente decente vigente para cuidado infantil e licença paternidade.

População envelhecendo ? Uma parte crescente da população mais velha quer continuar trabalhando mesmo depois de ter idade para se aposentar. Mas onde “trintões” se consomem em trabalho, responsabilidades familiares, hipotecas e luta pela aposentadoria mesmo que o trabalho ainda lhes faça bem à saúde. Então, além de distribuir empregos mais igualmente entre os sexos, também precisamos distribuí-lo entre as gerações. Trabalhadores jovens que recém estão entrando no mercado de trabalho podem muito bem continuar trabalhando até seus 80 anos. Em compensação, podem estar trabalhando não as 40 horas, mas talvez 30 ou 20 horas por semana. “No século 20 tivemos a redistribuição da riqueza,” observou um grande demógrafo. “Neste século, a grande redistribuição será em termos de horas de trabalho.”

Desigualdade ? Os países com as maiores disparidades em riqueza são precisamente aqueles com as mais longas jornadas de trabalho. Enquanto os pobres estão trabalhando por mais tempo e tendo que aderir a jornadas maiores, os ricos estão achando “mais caro” reduzir jornadas à medida em que seus lucros caem.

No século 19, era típico pessoas ricas delicadamente se recusarem a arregaçar as mangas. Trabalho era para camponeses. Quanto mais se trabalhasse, mais pobre se era. Desde então, vantagens sociais surgiram. Hoje, trabalho excessivo e pressão são símbolos de status. Reclamar do excesso de trabalho é muitas vezes uma tentativa de se sobressair como importante ou interessante. Tempo consigo mesmo é de pronto equiparado ao desemprego e à indolência, certamente em países em que a desigualdade na distribuição de riqueza se ampliou.

Não é preciso que seja desta forma. Podemos cortar uma grande parte de nossa semana de trabalho. Isto não apenas faria toda a sociedade bem mais saudável, com também poria um fim a indizíveis pilhas de trabalho inútil e mesmo tarefas perigosas (uma pesquisa recente descobriu que 37% dos trabalhadores britânicos achavam que tinham “trabalhos idiotas” [bullshit jobs]). Uma renda mínima universal seria a melhor forma de dar a todos a oportunidade de realizar mais trabalho incrivelmente importante, conquanto não remunerado, -tais como cuidar de crianças ou idosos.

A boa vida

Quando eu contei às pessoas, durante a escrita de meu livro, que estava abordando o maior desafio do século, obtive rapidamente sua atenção. Estava escrevendo sobre terrorismo ? Mudança Climática ? Terceira Guerra Mundial ?

Seu desapontamento era evidente quando eu introduzia o tema do lazer. “Todo mundo não vais estar colado na TV o tempo todo ?”

Eu era lembrado dos severos sacerdotes e homens de venda do século 19 que acreditavam que as plebes não seriam capazes de lidar com o voto, ou um salário decente, ou, pelo menos, o prazer; e que defendiam a semana de 70 horas como um instrumento eficiente na luta contra o álcool. Ironicamente, foi precisamente em cidades sobrecarregadas de trabalho, industriais, que mais e mais pessoas buscaram refúgio na garrafa.

Hoje vivemos numa era diferente, mas a história é a mesma: em países “sobretrabalhadores” como Japão, Turquia e, é claro, os Estados Unidos, pessoas assistem a uma quantidade absurda de televisão. Até cinco horas por dia nos EUA, o que equivale a nove anos de uma vida inteira. Crianças norte-americanas passam diante da TV a metade do tempo em que frequentam a escola. Lazer verdadeiro não é um luxo nem tampouco um vício. É tão vital para nosso cérebro como vitamina C para nosso corpo. Não há no mundo quem pense, em seu leito de morte, “tivesse eu ao menos passado mais algumas horas no escritório ou sentado em frente à TV”.

Certamente nadar num mar de tempo livre não será fácil. Uma educação do século 21 deve preparar gente não só para se juntar à força de trabalho mas, também (e mais importantemente), para vida.  “Uma vez que os homens não estarão cansados em seu tempo livre,” escreveu o filósofo Bertrand Russel em 1932, “eles não pedirão apenas diversões passivas e insípidas.”

Podemos  lidar com a vida boa, se ao menos tivermos tempo.

* * *

Rutger Bregman é historiador e escritor. Ele escreve para a plataforma holandesa de jornalismo online The Correspondent. É autor de Utopia for Realists: How We Can Build the Ideal World. Twitter: @rcbregman

Este ensaio foi adaptado do livro mais recente de Rutger, Utopia for Realists: The Case for a Universal Income, Open Borders and a 15-hour Workweek

Publicado originalmente aqui.

Slow cooking (v): salada de bacalhau em versão de verão

Já falamos por aqui da icônica maionese de bacalhau. Só que, em dias mais quentes, a maionese caseira pode se tornar, na melhor das hipóteses, indigesta e, na pior, até mesmo perigosa. Nem por isto, todavia, devemos postergar o prazer de elaborar e consumir a deliciosa salada até o próximo inverno. Para tanto, basta eliminar da receita seu ingrediente mais calórico – a saber, todo o óleo vegetal que constitui a base de qualquer maionese.

Fora a generosa quantidade de azeite,  o resto do que vai nesta salada é praticamente o mesmo que vai em sua versão com maionese para tempos mais frios. A maior complexidade em sua execução talvez seja a quantidade de panelas e vasilhames envolvidos no processo  (que deverão ser lavados depois do festim na cozinha): uma panela funda para cozinhar os ovos, as batatas e as cenouras; uma panela de fundo grosso para refogar o bacalhau; uma chaleira para ferver a água que será usada para escaldar cebolas e pimentões e, por fim, um único pote pyrex que será usado primeiro para escaldar os ingredientes supra citados e depois para misturar tudo.

Comece cozinhando duas cenouras e quatro batatas, descascadas e cortadas em jardineira, junto com quatro ovos. Quando a cenoura estiver al dente, separe batatas, cenouras e ovos e deixe esfriar. Descasque e pique os ovos.

Corte a melhor parte (central) do pimentão e de duas cebolas pequenas em círculos bem finos e escalde em água fervente. Troque a água ao menos uma vez. Então, misture a cebola escaldada com as batatas, as cenouras e os ovos picados. Quanto às “rodelas” de pimentão, as corte em pedaços menores, adequados para integrar um refogado.

Nesta versão, usei azeitonas pretas portuguesas temperadas. Descarocei e parti cada uma em quatro pedaços, refogando-as com os cantos picados das duas cebolas (imprestáveis para fazer os delgados anéis escaldados mas valiosos para dar corpo e sabor ao prato).

Então, sem mais delongas, ao refogado propriamente dito. Primeiro, deite sobre óleo aquecido (usei de oliva) a cebola e o pimentão picados e, depois que estes já estiverem dourados, o bacalhau. Abri mão do uso de alho para realçar o marcante aroma do peixe – o qual, dessalgado e em lascas, deve ser adicionado ao refogado só depois (repito) que que os vegetais já estiverem dourados e lá deixado em fogo baixo até desidratar. Quando tudo estiver dourado, esfrie e misture com a jardineia de cenouras e batatas, os anéis de cebola escaldados e os ovos cozidos picados.

Tempere a gosto, com pimenta moída e azeite de oliva e corrigindo o sal se preciso. Sirva com pães aquecidos e vinho verde ou branco.

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Como em todas as “receitas” deste blog, me vali de ingredientes que tinha em casa. Teria de bom grado utilizado anéis de alho porró no refogado e tempero verde (salsa) picado ao misturar a salada. Cheguei a pensar (felizmente fui dissuadido a tempo) em castanhas e frutas frescas ou secas – como, sei lá, numa Waldorf.  Só que, na dúvida, obedeci ao velho preceito culinário de se buscar preservar ao máximo a identidade de cada ingrediente. Também ouvi ecos de vozes antigas, da profundeza de cozinhas ancestrais, me exortando a deixar nozes e frutas longe de leguminosas. Então, sem saber exatamente por que, passei a achar tudo aquilo (i.e., misturar passas e castanhas com batatas, cenouras e  beterrabas) uma coisa muito anti natural. #bewarethegourmetizer