Sapiens – Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari

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Talvez a principal diferença imposta pela transição de um mundo, anterior à internet, de autores e não autores para outro onde todo e qualquer indivíduo é um autor (não importa de que, de uma mensagem eletrônica a um grande romance) seja que agora, ao contrário de como era antes, a leitura de toda obra caudalosa implique numa profusão de reações publicadas ao que foi lido. Pois já não basta ao leitor comum se deixar impactar por seu objeto de atenção; é preciso, mais do que isto, que cada reação pessoal a um determinado livro seja alardeada na esfera de atenção a cada leitor\autor.

De tal modo que a bela concepção do discurso de Mikhail Baktin tal qual uma malha de conexões entre nodos discretos correspondentes, cada um deles, a enunciados individuais (monológicos, na terminologia baktiniana, cujo melhor exemplo é o grande romance) dialogando entre si; é hoje melhor representada por uma nuvem na qual cada obra popular (best-sellers, se quiserem) está envolvida por uma massa indistinta de discursos que lhe fazem referência.

(não é de hoje que digo que, tivesse Baktin vivido por estes dias, teria sido sem dúvida o grande filósofo da internet. Pois ninguém vislumbrou melhor do que ele um modelo para a comunicação humana que tão bem acomodasse os agenciamentos virtuais)

Então, se antes, para decidir ler ou não determinado livro, dispúnhamos não mais do que de um punhado de textos críticos publicados em fontes confiáveis; há hoje, para cada obra de maior fôlego publicada, uma infinidade de apreciações residentes em sites e blogs de toda espécie, por autores que variam dos críticos mais profundos aos mais aventureiros franco-atiradores. Neste panorama, de pouca ou nenhuma ajuda são os engenhos de busca em se tratando de mapeá-los, não obstante o quão práticos sejam na hora de simplesmente levantá-los.

Neste universo de autoria quase universal (não canso de citar este artigo), todo leitor/autor possui, ao empreender a leitura disto ou daquilo, o por vezes inconfesso desejo de lavrar uma resenha capaz de atrair outros leitores para seu novo objeto de apreço. Pois, numa época em que um dos valores mais altos no capital social de cada um seja talvez existir perante outros como um formador de opinião,  a fantasia de descobrir algo bom até então incógnito a seus pares efetivamente move teclados e servidores.

Foi neste contexto que, ao visualizar, numa gôndola estrategicamente disposta à entrada de uma revistaria (vejam bem: não foi numa livraria !), a capa do primeiro e mais popular livro de Yuval Noah Harari em cujo topo havia uma tarja vermelha com a isncrição “best-seller internacional”, caí na real. Como assim, Brutus ? A tradução para o português da principal obra do autor tão instigante com o qual eu tomara contato por meio de um provocativo artigo publicado recentemente pelo The Guardian já estava em sua 22ª edição e ninguém me dissera nada. Foi como perder o melhor da festa. Ou desembarcar num planeta desconhecido. Naquele instante, tive a exata noção de que o livro não precisava de mais uma recomendação. Muito menos de uma resenha – até por que lemos, estampada em sua contracapa, uma daquelas frases pinçadas (do Financial Times, no caso) que diz “Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo.”

Resignado, iniciei de pronto a leitura de suas 400+ páginas – talvez o livro mais longo que li de cabo a rabo nos últimos dez anos. Isto não é pouca coisa, numa época em que apenas “degustamos” discos, livros e filmes para, só depois de uma experiência sensorial em primeira mão, decidir empreender ou não o tempo necessário à fruição da obra em sua totalidade. A nova economia da atenção é um tema fascinante, incluindo a subseção relativa à não tão recente mania das séries. Já falei disto e devo tornar ao assunto noutro momento.

* * *

Os muitos e impressionantes méritos de Sapiens – uma breve história da humanidade são bem conhecidos. Por isto, optamos por nos concentrar num aspecto que lhe é singular. Desde as primeiras páginas, constatamos se tratar indiscutivelmente de um livro de história, daí decorrendo nossa perplexidade inicial. Pois não era, afinal, a condição de best-seller exclusiva, até então, de obras de ficção ou de auto ajuda ? Nesse sentido, um best-seller de história é um evento tão improvável como, digamos, um disco de música clássica (ou mesmo de jazz – daí a singularidade do Kind of Blue) no topo das listas dos mais vendidos.

Salvo se eu estiver enganado, grandes volumes dedicados à história tem geralmente um interesse restrito a círculos acadêmicos e/ou especializados. Por uma razão, em nosso entender, bastante simples – a saber, a de que as narrativas históricas são tremendamente previsíveis. Não há finais deceptivos. Quase sempre, sabemos como vai terminar antes mesmo de começar a ler. Não, no entanto, em Sapiens.

Sem dúvida alguma o principal talento de Harari é desafiar, a cada página, noções adquiridas pelo senso comum. Para tanto, trata primeiro de colocar para o leitor a história de nossa espécie na devida perspectiva. Quando chegamos, finalmente, à história dos dias que correm, temos a mais firme convicção (e isto é novo !) de que quase tudo aquilo em que acreditamos e que defendemos é fundado sobre o pouco que sabemos de um período de civilização extremamente curto, de poucos milhares de anos, se comparado aos bilhões de anos de história de nosso planeta e aos milhões de anos de nossa espécie. Com efeito, sabemos mais sobre os últimos 500 anos do que sobre tudo o que aconteceu antes.

Para se ter uma ideia do deslocamento que tal enfoque significa, basta verificar que, até há poucas décadas atrás, gastávamos mais tempo escolar estudando as chamadas revoluções comercial e industrial (ocorridas, respectivamente, há ca. 500 e 150 anos atrás). Já Harari narra a história da humanidade a partir das mudanças ocorridas pelas revoluções cognitiva (ca. 70 mil anos atrás), agrícola (há 12 mil anos), e científica (há 500 anos). É inegável que esta substituição de uma régua por outra, muito maior, possibilita uma compreensão bem melhor de como chegamos até aqui.

Harari parte da premissa, esmiuçada por muitos estudiosos, de que nenhum humano é capaz de conhecer suficientemente bem mais do que uns 150 de seus pares a ponto de ter confiança nos mesmos. Não por acaso, este é o número máximo de indivíduos num bando de grandes primatas que conseguem colaborar entre si. Para poder colaborar com um número maior de indivíduos, os sapiens desenvolveram, ainda no tempo dos caçadores-coletores anteriores à revolução agrícola, realidades imaginadas compartilhadas por milhões de pessoas, tais como religiões, estados, ideologias, dinheiro e afins. Tal é, segundo Harari, o que distingue os sapiens de outras espécies, humanas ou não – a saber, a capacidade de contar histórias, a qual possibilita a criação de realidades imaginadas. A certa altura, chega a desconstruir a fronteira entre as definições de religião e ideologia.

Ao se debruçar sobre a aceleração científica, tecnológica e econômica exponencial verificada ao longo de toda a história humana, Harari desafia a noção banalizada de que qualquer progresso nestas áreas tenha significado, necessariamente, um aumento de felicidade. Questiona, por exemplo, se o agricultor pré-histórico era mais feliz do que seus antepassados caçadores-coletores, ou se o homem contemporâneo, com todo seu acesso ao conforto material e tecnológico, é mais feliz do que o homem medieval. Os argumentos apresentados são contundentes. Mas não quero, aqui, fornecer nenhum spoiler.

É, no entanto, ao especular sobre possíveis cenários futuros resultantes da aceleração cognitiva e tecnológica em que estamos imersos que Harari bate mais forte. Ao declarar que a fome (hoje apenas política) e a guerra (hoje apenas localizada) são coisas do passado, chega a provocar a irritação de alguns leitores, que até mesmo abandonam a leitura sob a alegação de um total descolamento da realidade objetiva por parte do autor. ” E a África ? E Donald Trump ?”, dizem.

Em certo ponto, chega a propor que ninguém mereceria mais o Prêmio Nobel da Paz do que Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan que culminou com o desenvolvimento da bomba atômica – já que a ameaça permanente de um holocausto nuclear é a melhor garantia possível para a manutenção de uma paz duradoura. Argumenta que há mais pessoas que se suicidam anualmente do que vítimas de terrorismo, e que acidentes de carro matam mais do que guerras. Logo, o mundo nunca foi tão pacífico como agora – e se prestamos mais atenção às mortes violentas do que antes, tal se deve exclusivamente à combinação de sua escassez com seu realce midiático. A meu ver, é justamente este tipo de independência lógica que torna o pensamento de Harari tão fascinante.

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