Por que se derrubam estátuas

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Yuval Noah Harari muito apropriadamente afirma, em Homo Deus, que estudamos história não para prever o futuro – algo que considera impossível – mas para não repetir erros cometidos no passado. Esta questão assumiu súbita relevância nos últimos dias por ocasião dos acontecimentos de Charlottesville (Virginia, EUA), protagonizados por supremacistas brancos de extrema direita e seus opositores e desencadeados pelo propósito anunciado de remoção de uma estátua em homenagem a um herói confederado e, portanto, escravagista.

Profilaticamente, outras cidades norte-americanas trataram, então, de remover seus monumentos a heróis confederados,  em alguns casos (como em Baltimore) na calada da noite, em antecipação a novos possíveis protestos violentos.

Por aqui, a revisão histórica por meio de intervenções na paisagem e na nomenclatura urbana não são nenhuma novidade. A antiga Avenida Castelo Branco, por exemplo, foi recentemente renomeada como Avenida da Legalidade. Como este caso, deve haver muitos outros. Críticos alegam a confusão sentida em decorrência de expedientes assim pela população em geral e categorias profissionais como as de taxistas e carteiros.

Já cidades como Nova Iorque, talvez cientes dos riscos de nomear espaços públicos em homenagem a figuras eminentes diante da volatilidade histórica, preferem designar suas ruas e avenidas numericamente. Ou até por meio de termos politicamente mais neutros – como, por exemplo, o Central Park, cuja denominação é bem mais imune à flutuação de humores ideológicos e, portanto, mais perene do que, digamos, a de um Parque Farroupilha. Este tipo de coisa deveria preocupar muito mais as câmaras de vereadores ao nomear logradouros.

Mas tornemos ao caso da derrubada de estátuas, situação revestida de alto valor simbólico desde, pelo menos, as icônicas fotos da derrubada de monumentos à Lênin e outros próceres comunistas. Conseguem imaginar a paisagem urbana de cidades gaúchas sem os monumentos equestres erigidos a Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi e tantos outros ?

Desconheço o que levou Lutero a banir dos templos toda a estatuária erigida em honra de santos. Talvez pressentisse, conscientemente ou não, que toda biografia pode sofrer revisões à luz de novos fatos descobertos. Tomem, por exemplo, o caso de Madre Tereza de Calcutá, recentemente canonizada. Os serviços de comunicação do Vaticano devem se ocupar bastante com contramedidas em relação às abundantes matérias jornalísticas que dão conta do lado B da piedosa freira.

Tornemos, novamente e pela última vez neste post, aos heróis farroupilhas. Não, porém, sem antes sublinhar que não raro golpes e tomadas de poder por parte de elites se travestem de movimentos de índole popular simplesmente pela justaposição do termo “revolução”. Como eu disse dias atrás, palavras são importantes. De sorte que “revolução” implica, quase sempre, para o leitor mais desavisado, uma ideia de progresso, seja lá qual for. Foi assim em 1964 e, bem antes, na Guerra dos Farrapos. Em ambos os casos, o destino dos habitantes de amplas áreas geográficas foi tomado pelas mãos de oligarcas, sem qualquer consulta ou consentimento democráticos, em nome de supostas melhoras para a maioria. Por sorte, temas como a índole escravagista dos latifundiários responsáveis pela assim chamada Revolução Farroupilha vem sendo examinada com alguma profundidade por historiadores mais recentes.

Sobre a Revolução Farroupilha, vale registrar que, como bem disse um amigo, se trata de uma guerra que notoriamente perdemos mas até hoje insistimos ter resultou num empate. O que de pronto me remete àquela cena memorável do Monty Python, em Em busca do cálice sagrado, na qual um cavaleiro medieval esquartejado propõe a seu adversário um termo favorável a ambas as partes.

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