A perversa retórica de que a salvação reside no empreendedorismo

Já disse noutro post que tenho o incurável hábito de assistir ao Jornal Nacional tão somente para auscultar a linha editorial da Rede Globo e, residualmente, para ficar a par do mais recente pacote de maldades do governo federal bem como das últimas peripécias do circo judiciário.

Ouvindo de longe, ontem, apenas o áudio do Jornal Nacional, fui tomado de curiosidade por uma matéria que, supostamente, fomentava o empreendedorismo. Algo sobre abraçar novas carreiras. De um modo tortuoso, a tônica do discurso me pareceu, de imediato, a banalização do desemprego. Achei aquilo muito sintomático,  pois justo quando o alto empresariado obtém o aval do estado, respaldado pelo poder legislativo, para se desonerar de responsabilidades trabalhistas, seu principal arauto (afinal, quem sustenta, por meio de anúncios, a grande mídia ?) toma a si a tarefa de persuadir a população de que sua emancipação e felicidade não dependem da segurança do recebimento de um salário mensal e outros benefícios tidos como supérfluos por defensores das virtudes do mercado – tais como férias remuneradas, décimo-terceiro salário e aposentadoria – mas, tão somente, de arriscadas e improváveis incursões de nanicos no mundo dos negócios. Pois, para o credo liberal, o mundo ideal é povoado não por assalariados mas por pequenos empreendedores. O governo federal estimula essa ideia por meio do Sebrae. Até orquestras, como a OSESP, já contratam músicos como empreendedores individuais.  Ainda assim, quase vomitei ao ver o JN incentivar a audiência a abraçar carreiras autônomas no mesmo dia em que o governo anunciou um novo plano de demissões voluntárias.

Na supra-citada matéria, mostraram um site que já tinha mais de 11 mil seguidores. Ora, curtidas em redes sociais não equivalem de modo algum a intenções de compra. Com efeito, se tivéssemos que pagar por cada coisa que curtimos, seríamos bem mais criteriosos ao pressionar o ícone da mãozinha com o polegar erguido. A dona do mesmo site nos informa sobre alguém que, pelo volume de fotos postadas, já pode ser considerado como o fotógrafo oficial do site. Se a TV fosse interativa, perguntaria de pronto quanto pagou por cada foto. O que mais me irrita nisto tudo é pensar que esta retórica emancipatória possa encontrar, entre a audiência, olhos e ouvidos crédulos. Se fosse na internet, seria automaticamente descartada como algum vírus ou spam. Na tela da TV adquire, no entanto, o benefício da validação.

Indo adiante, é preciso acrescentar que, conquanto muitas iniciativas comercias já tenham se apropriado com êxito de recursos virtuais, a esmagadora maioria dos sites ainda é exclusivamente voltada para a comunicação entre seus mantenedores e visitantes. A web ainda é, portanto, eminentemente um meio de informação. Se, no entanto, os responsáveis por cada site ou blog passassem a tentar vender alguma coisa, arrisco afirmar que, em sua grande maioria, perderiam um volume considerável de leitores.

Sei. Há sites como um prosaico “Viver de blog”, que “ensina” técnicas para potencialização da audiência e monetização do conteúdo. Insisto, ainda assim, que o maior potencial da rede, largamente subaproveitado, reside na comunicação, com especial importância para a educação e a política. Só que ambas precisam mudar radicalmente para desfrutar deste benefício e, ao menos no que se refere à política, tal não é do interesse da classe governante, indiscutivelmente devido à horizontalidade inerente aos protocolos virtuais.

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Como disse acima, o empreendedorismo nanico (na ausência de expressão melhor) já foi banalizado como parte do pensamento liberal, tanto no que tange ao estado mínimo quanto na crença na suprema legitimidade do mercado como mediador de todas as relações humanas.

Uma das coisas que apreendemos, no entanto, lendo Harari, é que nenhuma ideia é naturalizada sem uma poderosa combinação de interesses e esforços, ainda que escusos, a contribuir para sua aceitação. No caso do empreendedorismo individual, é possível identificar, além de campanhas como as da Globo, auto-justificadas com a eloquência de atos falhos, inúmeros interesses em ação.

Primeiro, há que se reconhecer que organizações colaboram para isto. Vejam, por exemplo, o caso da campanha publicitária In doers we trust, lançada pelo provedor de serviços free lance Fiverr, que chegou à minha atenção por meio de uma matéria publicada no New Yorker, crítica em relação à atual onda de empreendedorismo individual, que narra a história de uma mulher, em busca de alguns dólares a mais, que entrou em trabalho de parto enquanto dirigia uma espécie de Über. A esta matéria deve ser creditada a expressão gig economy, traduzível como “economia de bicos”, que bem define a situação à qual governos liberais e empresários mancomunados presentemente querem relegar a sociedade.

Outras organizações, mais antigas, que promovem a desregulamentação trabalhista e a supremacia do mercado, são mencionadas num interessantíssimo artigo publicado pelo The Guardian. Sintomaticamente, magnatas que dirigem estas organizações insistem em permanecer no anonimato, como se a mera publicização de sua relação com tais organizações fosse por si só suficiente para minar seu propósito de promoção da livre iniciativa.

Por aqui, se popularizou, anos atrás, a denominação jocosa de PDV (plano de demissão voluntária) para as acessíveis vans asiáticas adquiridas por ex-funcionários públicos para a venda de cachorros-quentes com os recursos oferecidos pelo governo estadual em troca da auto-exoneração precoce.

Além disso, há hoje um aquecido mercado para palestras de autoajuda, por coachs a afins (que, em sua maioria, jamais abriram um CNPJ), destinadas a indivíduos em busca de estímulo para se lançarem a empreendimentos individuais. Nestes rituais, se promove a ideia de que há um mercado ávido pela iniciativa a ser empreendida por cada um,  dependendo apenas de sua vontade, se vendendo a ideia de que abrir uma empresa é tão fácil quanto montar uma banda de garagem e deliberadamente omitindo o fato de que poucas dentre as empresas abertas efetivamente prosperam.

Goatbleat ou O problema do canto lírico

Cases are by no means uncommon of practised singers and speakers losing all confidence in their old methods in new and alarming conditions as to space. When that happens, they begin to bleat frantically […]. Actors and singers who have small voices should remember that the problem for them is to make themselves heard, and by no means to make themselves loud. Loudness is the worst defect of quality that any voice, large or small, can have. *

George Bernard Shaw, sob o pseudônimo de Corno di Bassetto, em London Music in 1889-1990

A crônica da cena musical londrina na era vitoriana por Bernard Shaw, escrita para um tablóide sob um pseudônimo bem antes do autor ganhar notoriedade como um dos maiores dramaturgos de seu tempo, é injustamente negligenciada em nossos dias. De leitura divertidíssima, é uma janela para o mundo do espetáculo de então. Cantores, músicos, maestros, empresários e o próprio público não escapam ao olhar agudo e à pena ácida do autor, que apontou más práticas que perduraram por mais de cem anos até os dias de hoje.

Shaw foi, como de costume, profético ao detectar, no parágrafo que serve de epígrafe a este post, um fenômeno novo que começava a ameaçar a atividade de alguns cantores e que atravessaria o próximo século, com reflexos até hoje. Tem a ver, principalmente, com a evolução da orquestra e os espaços onde as mesmas atuam. Para entender como, é preciso desmembrar o problema em três partes, a saber,

a evolução dos espaços onde a música (não amplificada) é executada;

a evolução da orquestra e dos instrumentos que a integram;

as características da voz humana, em especial no que se refere ao canto.

Até por volta do final da era barroca e o início da clássica, toda música ocidental era composta para ser executada por conjuntos que coubessem em salões palacianos, templos religiosos (por maiores que fossem as naves, os executantes deveriam ser acomodados num espaço exíguo correspondente ao que separa um altar dos bancos reservados às congregações) ou teatros de dimensões modestas, com menos de 1000 assentos. A partir do final do século 19, se iniciou uma verdadeira corrida por salas sinfônicas maiores, com 1500 ou mais lugares, envolvendo os melhores projetistas na solução de um problema representado pelo delicado compromisso entre a maximização da capacidade para o público ouvinte e a otimização das condições acústicas para a audição musical. O estado atual desta corrida é uma competição entre  grandes metrópoles pela construção, nem sempre bem sucedida, de espaços sinfônicos cada vez mais perfeitos. Assim, se juntam a cada ano a salas míticas como as de Berlim, Viena ou Amsterdã novos experimentos como os de São Paulo, Paris ou Hamburgo.

Paralelamente ao agigantamento histórico dos espaços para a execução e audição musicais, as tecnologias para a construção de instrumentos também propiciaram grandes avanços ao longo dos últimos século. Os instrumentos de cordas foram os primeiros a se tornar mais generosos em termos de radiação sonora, ainda na era barroca, sob as mãos dos mestres cremonenses. A substituição das cordas de tripa pelas metálicas foi outro passo importante a determinar que violinos e congêneres soassem mais. Depois, durante a revolução industrial, avanços na metalurgia e na tornearia possibilitaram o desenvolvimento de instrumentos de sopro cada vez mais sonoros.

Atingido um certo limite com a otimização do som de cada um dos instrumentos constituintes da palheta orquestral, compositores, passando por Berlioz e culminando em Mahler, trataram de demandar orquestras cada vez mais numerosas. Notem, no entanto, que mesmo a expansão orquestral pelo acúmulo de instrumentos teve seu limite empiricamente determinado pela necessidade musical de que cada instrumento pudesse ser ouvido em solos (i.e., sem duplicações ao uníssono) aqui ou ali sem ser esmagado pelo volume produzido em trechos adjacentes da música em que todos tocam ao mesmo tempo (tutti).

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Neste quadro evolutivo, a voz humana (e, com ela, o canto) permaneceu rigorosamente igual ao longo de toda a história da música. Não é preciso, no entanto, muita argúcia para intuir que, face à intensificação do som orquestral ao longo dos últimos 100 ou 200 anos, cantores determinados a participar da execução de certos repertórios tiveram que, igualmente, “vitaminar” seus dotes vocais. Aí começa, em nosso entender, o problema.

O quadro abaixo ajuda a entender por que a voz humana está em franca desvantagem de intensidade em relação a todos os instrumentos de uma orquestra sinfônica. Lembramos que a representação de intensidades sonoras em decibéis (dB) é uma escala logarítmica na qual uma diferença de 10 pontos corresponde a uma diferença de intensidade da ordem de 100 vezes. Assim, se observa que, enquanto o volume normalmente produzido por uma voz é equiparável ao de um piano, o mesmo é, no entanto, bem inferior (pelo menos 100 vezes) ao produzido por qualquer instrumento orquestral.

A voz articulada – e, como parte dela, o canto – é composta por dois tipos de sons, a saber, vogais e consoantes. O drama enfrentado por todo cantor é que, enquanto a intensidade das vogais pode, até certo ponto, ser aumentada por meio de recursos técnicos e exercício, pouco ou nada se pode fazer pela expansão das consoantes. Ao mesmo tempo, a boa dicção – principal responsável pela compreensão por ouvintes de qualquer texto falado ou cantado – depende do perfeito balanço entre vogais e consoantes.

Tomemos como exemplo o canto na música de câmera, através de seu caso mais emblemático – o lied com acompanhamento de piano, ou mesmo o de um solista vocal numa cantata com uma orquestra barroca. Nestas condições, um cantor suficientemente treinado não terá dificuldade alguma para projetar o texto de seu versos, na plenitude de suas vogais e consoantes, para uma plateia reunida num espaço adequado a tais gêneros musicais.

Deslocando-se, no entanto, este mesmo cantor para um contexto sinfônico, o mesmo precisará se valer de recursos para aumentar a intensidade de sua voz. Com sorte (e boa técnica), conseguirá projetar mais as vogais. Consoantes, no entanto, se perderão pelo caminho.

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Sobre a perda progressiva da relevância das consoantes na história do canto lírico, descrita acima, cabem duas ressalvas.

Primeiro, esta perda relativa da articulação vocal (que é como são chamadas, em música, as consoantes) é muito mais perceptível em audições ao vivo do que na de música gravada, em razão do posicionamento dos microfones – via de regra bem mais próximos dos cantores do que da orquestra – e da mistura dos sinais (mixagem) – que permite aos cantores atuarem bem mais próximos de sua zona de conforto do que em apresentações ao vivo.

Segundo, a perda relativa e progressiva da articulação vocal em razão do agigantamento orquestral não se deu de um dia para o outro. Com efeito, era bem possível que, antes da existência do som gravado, ninguém tivesse jamais ouvido um modo de cantar suficientemente diferente de seu contemporâneo para intuir que não se cantasse sempre assim. Com isto, é razoável supor que a lentidão da transformação e a falta de referências distantes contribuíram para promover a banalização da ininteligibilidade do texto – principal atributo, para ouvintes leigos, do canto lírico como é hoje conhecido.

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Gosto de pensar que a distinção entre o canto lírico e o popular é, assim como aquela entre entre música erudita e popular, uma ideia bem recente. É difícil pensar, por exemplo, em qualquer cantor medieval ou renascentista que não dependesse, para sua sobrevivência no ofício, da perfeita compreensão, por seus ouvintes, de cada palavra que cantasse. Hoje, achamos natural não entender lhufas do que ouvimos em salas de concerto sem recorrer a textos convenientemente impressos entre notas de programa.

Ao mesmo tempo, qualquer ouvinte contemporâneo não habituado ao canto lírico prontamente o desqualificaria devido à ostensiva e já banalizada, entre ouvintes experimentados, ininteligibilidade do que é cantado.

A questão é complexa. Sei que há fatores culturais envolvidos, dentre eles a noção de que há cantores de “voz grande” e de “voz pequena”, e que só os primeiros devem se aventurar à frente de orquestras – a intensidade da voz sendo, no caso, um inquestionável diferencial de qualidade, independentemente de qualquer prejuízo à dicção ou expressão e com o canto promovido, assim, à condição de uma modalidade olímpica. Cabe, então, perguntar por que cantores não podem se beneficiar, como todo grande violonista em concertos ao vivo, do uso de microfones para uma amplificação discreta.

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* Não é nem um pouco raro que cantores e oradores experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos diante de novas e alarmantes condições no que tange ao espaço. Quando isto acontece, começam a balir freneticamente […]. Atores e cantores com vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvir, e de modo algum se fazerem altos. Altura é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

 

Por que é tão ridículo quanto inócuo criminalizar o funk

Nos últimos dias, ganhou justa notoriedade uma polêmica absurda deflagrada pela chegada ao senado de uma proposta ridícula para criminalizar o funk. Como piada, até que a ideia tem algum alcance, por denotar um consenso entre certos segmentos de que, como diz o nome do site do proponente, “funk é lixo”. Até aí, assino em cima, embaixo e por todos os lados. Mas só até aí. Não quero, neste post, esmiuçar as razões técnicas e objetivas pelas quais tenho o gênero (assim como alguns outros) em tão baixo apreço. Pois este não é um texto de crítica musical.

A proposta de criminalização do funk  é, primeiramente, inócua em razão da impossibilidade de definição, por parte de quem aplica a lei, de qualquer gênero musical. Sim, o senso comum estabelece que qualquer um sabe, afinal, o que é um funk.  Só que, em arte, toda categorização genérica é elusiva, sendo natural a qualquer mente criativa metamorfosear gêneros recebidos em derivações que facilmente escapem, num quesito ou noutro, às melhores definições do modelo original. Considero, então, a proposta natimorta pela própria impossibilidade de aplicação de qualquer lei neste sentido. Seria como a censura, sob a qual e apesar da qual os melhores artistas sempre lograram difundir suas mensagens. Por que não me espanto que o senado perca tempo e energia com isto ? Ora, por que é uma ótima cortina de fumaça para quem vem se dedicando a perpetrar malfeitorias de toda sorte.

Historicamente, outros gêneros musicais, como o samba ou o maxixe, já foram proscritos. Inutilmente. Pois a proibição costuma funcionar como um atrativo adicional. Então, enquanto alguém reconhecer algum valor no funk, ele vai continuar existindo, apesar de qualquer esforço em contrário.

Mas nos atenhamos um pouco sobre a materialidade do funk (impressionante como o juridiquês é afeito a este termo: “a materialidade das provas…”). Para fins de análise, é conveniente, aqui, desmembrarmos o gênero em questão entre letra e música.

Sobre a música, conquanto absolutamente rasa segundo  qualquer critério musical utilizado (me poupem, aqui, de bater na desgastada tecla da “música do homem branco europeu da renascença ao romantismo”), nada pode ser imputado ao funk como socialmente nocivo ou degradante. Se fosse assim, também precisaríamos banir, num mesmo movimento, todo Paulo Coelho, sertanejo universitário y otras cositas más.

É em relação às letras de muito funk que se concentra a maior parte das objeções. Pois é bem comum ouvirmos textos francamente apologéticos à violência, ao sexismo ou ao consumo de drogas. Ora, para tudo isto existem as leis, a polícia e a justiça. A ideia de combater estes problemas proibindo a circulação de mensagens que os incitem é análoga à queima de livros tão cara às grandes distopias, nas quais estados fortes logram eliminar pragas sociais por meio da destituição dos indivíduos de livre arbítrio.

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Ouço, por opção, pouco ou nenhum funk. Achei o pouco que ouvi não repulsivo e desnecessário que fechei meus ouvidos para o gênero. Durante a recente e pertinente campanha contra sua criminalização, acabei tomando contato com algumas vertentes virtuosas do funk, que utilizam sua penetração em camadas sociais mais desfavorecidas para disseminar mensagens de conscientização e emancipação. Mesmo que, em termos amostrais, se trate de uma agulha num palheiro, tais casos são por si só suficientes para legitimar o gênero.

Observando mais atentamente, notamos que, se quisermos isolar o funk virtuoso do funk nocivo (me desculpem os rótulos, tão úteis à presente discussão), devemos desconsiderar o gênero para nos concentrar em seus  autores.  Pois, ainda que o funk seja extremamente diverso quanto à benignidade/malignidade de suas letras, encontramos uma consistência bem maior ao nos debruçarmos sobre os textos de um mesmo autor. Ou seja, é bastante improvável que um mesmo artista exorte a violência numa canção e apele aos bons sentimentos em outra. Deste modo, não se pode dizer que o funk seja, por definição, bom ou ruim. Há, no entanto, inequivocamente bons e maus funkeiros (falo, aqui, tão somente do aspecto poético-literário – pois se a música hegemônica evidentemente empobreceu ao longo das  últimas décadas, tal se deve a um conjunto de fatores que fogem ao âmbito deste texto).

Tendo uma vez discriminado cada instância do funk em relação à sua nocividade social, não cabe, ainda assim, criminalizar sua banda podre. Cabe, isto sim, promover entre a população afetada pelo gênero este tipo de discernimento. Para tanto, é preciso, antes de ignorar, ouvir. E em vez de criminalizar, criticar.

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PS: ao procurar na web imagens para ilustrar este post, me deparei com cenas das mais degradantes que já vi, das quais quem não vai a bailes funk só ouve falar, mas que bem retratam a realidade que faz prosperar uma ideia como a da iniciativa de criminalizar o funk. Optei por poupar leitores do blog de sua visualização. Se quiserem, no entanto, vê-las, digitem no navegador a expressão “baile funk images”. Por que falo isto ? Por que se, por algum canetaço, o funk simplesmente deixasse de existir,  o mesmo tipo de diversão perversa continuaria acontecendo nestes bailes sob outro tipo de música qualquer. O fenômeno do baile funk é, sim, um problema de saúde pública – só que de erradicação bem mais complexa. A música que os embala, no entanto, não mais do que um aditivo intercambiável.

Por que a linha sucessória da presidência da república é ilegítima

Qualquer um percebe que há algo profundamente errado na linha sucessória para a presidência da república do Brasil, ainda que amparada no texto constitucional. Ao longo deste post, tentaremos deixar claro, em termos quase didáticos, o por que. Se já souberem, abandonem a leitura por aqui.

As eleições diretas para a presidência da república foram um inegável avanço democrático, arduamente conquistado depois dos anos de chumbo. Só que, na prática, o problema começa na composição de uma chapa presidencial. Queiramos ou não, elegemos um mandatário para a nação apesar do candidato à sua vice-presidência – via de regra um boneco alçado à candidatura muito mais em razão de composições partidárias destinadas a garantir a governabilidade do que por qualquer outra coisa. No caso do impedimento temporário ou permanente de um mandatário legitimamente eleito, se fica à mercê de um Temer ou de um Itamar.

(não votei em Dilma principalmente devido à sua aliança eleitoral com raposas do PMDB; logo que vi Temer como papagaio de pirata durante seu discurso triunfal por ocasião da última eleição presidencial, pensei: “vai dar merda”. Não deu outra.)

Mas o problema não termina aí. A legitimidade de qualquer chapa presidencial ungida pelo voto (ainda que com o indesejável contrapeso de um vice plantado ali por conveniência partidária) termina na segunda instância caso o vice eventualmente empossado também seja deposto – como estamos prestes a assistir, pasmos e impotentes face à carta constitucional (esta mãe de todos os males).

Pois tanto a terceira quanto a quarta instância da linha sucessória, respectivamente os presidentes da câmara de deputados e do senado, jamais foram eleitos pela nação para o exercício da presidência da república. Nem tampouco o presidente do STF – neste caso alguém indicado pelo próprio presidente ou um de seus antecessores:  querem vício político maior do que este ? (oportunamente, tornarei à questão do vício inerente aos cargos de confiança).

Presidentes de casas legislativas não desfrutam da confiança majoritária do eleitorado, sua ascensão ao cargo se devendo exclusivamente à capacidade pessoal de administrar alianças e acordos escusos com os demais parlamentares. Pensem que, até pouco tempo atrás, estávamos sujeitos, na hipótese de queda dos primeiros mandatários da linha sucessória, a ser governados por criminosos notórios, ainda que políticos hábeis, como Cunha ou Renan. Ambos, no entanto, seriam demais até para a complacência bovina da população brasileira. O jeito, então, encontrado pela quadrilha para prevenir um improvável levante popular foi sacrificar Cunha em prol do golpe (aguardem sua vingança em forma de delação) e simplesmente deixar que Renan passasse da validade; elegendo para suas posições de vantagem novas caras, com biografias demasiado curtas para o acúmulo de sujeira e coroadas por exuberante cabeleiras (a propósito, Rodrigo e Eunício usam perucas ?) – a denotar, emblematicamente, a renovação de carecas prá lá de comprometidas.

O problema acima descrito persistirá até que a carta magna seja remendada a fim de garantir que todas (e não apenas a primeira e a segunda) posições da linha sucessória sejam ocupadas por sujeitos escolhidos por voto direto. Idealmente, sem a composição de chapas, para contemplar, por exemplo, os que votariam em Dilma mas jamais em Temer. Como ? Em turnos sucessivos, tantos quantas forem as posições da linha sucessória. Trabalhoso ? Para os tribunais eleitorais, talvez. Jamais, no entanto, para os eleitores assim empoderados.

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Não é de hoje que venho dizendo que a restauração da dignidade nacional (se é que já houve alguma) passa, obrigatoriamente, por uma reforma política e uma constituinte exclusiva que garantam, entre outros avanços,

a instalação de uma democracia direta;

o fim de toda representação;

o fim de todos os cargos de confiança (em qualquer esfera administrativa, a gestão deve ser conduzida por agentes escolhidos ascendentemente pela maioria administrada e jamais descendentemente nomeados por qualquer mandatário eleito majoritariamente (sempre defendi isto; esmiuçei a ideia no blog anterior e devo tornar a bater na mesma tecla)).

Sei. Nunca foi tão alardeado, como hoje, o bordão “não há política sem políticos”. Convenientemente, há quem queira naturalizá-lo como verdade. Duvido muito. Penso que a política só começará com a extinção dos políticos.  Ou, ao menos, da política como profissão. Pois, pelo andar da carruagem, não falta muito para que algum ego exacerbado com vocação ditatorial decida fechar o congresso com amplo apoio da população. Então, é imensamente preferível que a população declare, por algum meio plebiscitário, a obsolescência do congresso antes que algum oportunista o faça.

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PS: Procurando fotos de Eunício na web para ilustrar esta postagem, me ficou evidente que ele pinta o cabelo. Alguém também há de publicar um ensaio semiótico sobre o por que de candidatos serem fotografados invariavelmente em mangas de camisa e, uma vez eleitos, sempre de terno e gravata. Não deve ser só por causa do regimento parlamentar.

Por que a justiça faz vista grossa ao abismo existente entre os discursos público e privado dos políticos ?

A nação está pasma. Dia após dia, os que ainda tem estômago para acompanhar noticiários tentam desesperadamente entender como uma quadrilha de ladrões e potenciais assassinos confessos permanecem, apesar dos crimes em que se envolvem, à frente do governo. Depois da última onda de prisões e solturas (que mercado para os advogados !), parece consenso que contam, inclusive, com a conivência do judiciário.

Entendo, outrossim, que a falha que permitiu chegarmos à absurda situação atual se encontra, primordialmente, na letra fria da lei. Mais especificamente, no regramento que invalida toda prova obtida por meio de microfones ocultos.

Sob o pretexto de salvaguardar a privacidade dos denunciados, tribunais superiores perdem tempo discutindo se esta ou aquela gravação incriminatória – obtida, no entanto, sem a ciência e o consentimento explícito de um criminoso confesso  – pode ou não ser utilizada como prova em processos contra o mesmo.

Vale a pena nos determos por um instante sobre os termos (tanto a forma como o conteúdo) das últimas falas reveladas do malfeitor, espécie de inimigo público número um (ou dois, vá lá, pois ele ainda não está na presidência da república, à qual é eterno candidato) Aécio Neves. Tenho certeza de que qualquer um que ouça, de um lado, as já célebres gravações reveladas na delação da JBS e, de outro, tanto a peça publicitária de alegação de inocência de Aécio quanto o discurso por ocasião de sua volta triunfal ao senado, não teria a menor dificuldade em identificar, tanto pelo linguajar quanto pelo teor, o que foi proferido pelo senador em contextos, respectivamente, públicos e privados.

Se Aécio fosse uma pessoa comum na qual precisássemos confiar, perderíamos qualquer confiança nele depois de ouvir o que disse quando julgava que suas palavras morreriam ali, sem serem jamais publicadas.

Só que a lei não funciona assim. Enquanto o abismo reconhecido por todo cidadão entre o discurso público e o privado de Aécio é suficiente para que o consideremos um mentiroso notório, a justiça só reconhece como expressão da verdade o que é dito por ele publicamente – como, por exemplo, na tribuna do senado ou em peças publicitárias (videos inclusos neste post) – ignorando, pasmem, suas falas mais comprometedoras proferidas, no entanto, sob o conveniente manto da privacidade.

Deste modo, a mensagem implícita passada pelo poder judiciário a quem quer que ingresse na carreira política pode ser mais ou menos formulada como “cometa crimes à vontade, desde que jamais os assuma publicamente”.

Mais. Tecnicamente, não há qualquer diferença entre as gravações de Joesley e aquelas produzidas diariamente pela polícia entre traficantes e seus cúmplices. Por que umas servem como provas para a condenação de criminosos e as outras não ?

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Cheguei a dizer, de certa feita, que, num mundo perfeito, deveríamos escolher governantes em reality shows nos quais todos os candidatos estariam sob vigilância pública permanente, sempre ao alcance de câmeras e, principalmente, microfones. É claro que isto foi uma piada. Pois todos os políticos de sucesso são, antes, grandes atores e, como tais, não teriam (assim como não tem) qualquer dificuldade em fingirem virtude o tempo todo. Notem, no entanto, que um Big Brother eleitoral assim dificultaria em muito qualquer maracutaia. Pois que outra razão haveria, afinal, para o Palácio do Planalto estar há vários anos sem um sistema de câmeras de segurança a documentar idas e vindas entre gabinetes ?

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Falando sério. Político algum deveria desfrutar de qualquer privacidade, com a qual a figura do “homem público” não passa de um eufemismo. Obviamente, não estou a defender que não tenham direito ao sexo ou à higiene pessoal longe de vistas alheias.  Mas sua privacidade deveria terminar aí, ou não muito longe disto. Pois enquanto a justiça fizer vista grossa às provas irrefutáveis obtidas por meio de escutas camufladas, continuaremos ouvindo protagonistas da política dizendo, com a maior cara de pau, coisas como “isto é calúnia”, “caí numa armadilha” ou “minhas campanhas sempre ocorreram rigorosamente dentro da lei”.

 

Bem mais do que uma brincadeira de mau gosto

 

Recentemente, uma instituição de ensino privada de Novo Hamburgo repetiu uma atividade, realizada anos antes em pelo menos uma outra de Porto Alegre, chamada “se nada der certo” (ou “se tudo der errado”, dá no mesmo) que consistia em cada aluno ir à escola, naquele dia, fantasiado com a indumentária de profissões que assumiriam no caso de, por quaisquer razões, não lograrem ingressar naquelas de seus sonhos. Ou dos sonhos de seus pais. O episódio desencadeou uma onda de reprovação e escárnio em veículos de comunicação e nas redes sociais. A tônica (senão de todos, ao menos da maioria dos comentários) foi o reforço, inerente à proposta, à manutenção de um sistema de classes sociais estanques entre si determinadas pela natureza de cada trabalho. Tal sistema, hoje tido como dado no mundo capitalista, pode ser descrito como a coexistência, “grosso modo”, de duas grandes categorias ocupacionais, a saber, a das atividades eminentemente braçais e a daquelas que envolvam um maior numero de tomadas de decisão, a partir da observação e análise de informações mais complexas, naquelas profissões coletivamente agrupadas sob a denominação de liberais ou, ainda, de ensino e/ou pesquisa.

Para simplificar as coisas, convencionamos chamar as profissões do primeiro grupo ocupacional daquelas de nível técnico ou médio e, as do segundo, das de nível superior. Ainda numa simplificação reducionista, podemos dizer que, enquanto escolas particulares, que só pais minimamente afluentes podem oferecer a seus filhos, treinam alunos para ingressar primordialmente em cursos superiores; as públicas (principalmente depois da reforma pretendida do ensino médio, voltada para a formação de mão-de-obra conforme demandas empresariais e que extingue a obrigatoriedade de disciplinas menos funcionais), se resignam, ainda que não explicitamente, a preparar sujeitos para o desempenho de funções mais braçais.

Como resultado, alunos de escolas públicas acabam ingressando no mundo do trabalho mais cedo, seja “pegando no pesado” ou, quando muito, apertando botões em atividades repetitivas que envolvem níveis bem limitados de tomada de decisão (nunca entendi, por exemplo, por que, no Zaffari, operadores de caixa precisam chamar um fiscal para contar itens repetidos); enquanto que aqueles oriundos de escolas privadas almejam, quase sempre, cursar uma faculdade e, com isto, adiar por vários anos sua entrada no dito “mundo da produção” – onde terão, se tudo der certo, ocupações melhor remuneradas nas quais desfrutarão da sensação de melhor exercerem o livre arbítrio.

É claro que este quadro, deliberadamente naturalizado na cultura em que estamos imersos, não é uma regra inviolável, tal como uma lei da matemática ou da física. Pois assim como encontramos cada vez mais, em escolas particulares,  bad boys que não se adaptam ao desígnio ocupacional das camadas sociais a que pertencem, também há, nas públicas, aqueles que, por méritos próprios e contra a maioria dos prognósticos, logram ingressar em carreiras superiores. Só que, nestes casos, se tornam, invariavelmente, objeto de atenção midiática, como se tivessem alcançado um feito improvável (quem ainda não viu, no Fantástico ou afins, histórias de excluídos que, viajando diariamente longas distâncias em canoas ou lombo de burros, se formam médicos ou advogados ?) – confirmando, portanto, mediante a exceção, a validade da regra.

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Soe que aquilo que, aparentemente, não passa de uma brincadeira de mau gosto e politicamente incorreta (i.e., escarnecer do ganha-pão de quem, por motivos econômicos, nunca teve melhores oportunidades) bem poderia, com um ligeiro ajuste de foco, se tornar um exercício filosófico profundo e contundente. Dedico os próximos parágrafos a explicar de que modo aos que não tiverem, até aqui, chocados com o título do post, abandonado sua leitura (como aconteceu quando afirmei gostar de ver o jornalismo da Rede Globo).

Um dos grandes problemas das instituições de ensino médio, tanto públicas quanto privadas, é o horizonte demasiado próximo com que encaram a educação. Uma certa miopia, por assim dizer. Pois enquanto as particulares almejam despejar alunos em cursos superiores (idealmente nos públicos, menos onerosos – ou, se as coisas “não derem muito certo”, em faculdades privadas, bem mais caras que as escolas de nível médio); já as públicas, principalmente depois da reforma em andamento, se dão por satisfeitas em fornecer mão-de-obra qualificada para a cadeia produtiva hoje conhecida. É aí que mora o perigo.

Pois quem, em sã consciência, pode prever como será o trabalho em cinco, dez, vinte ou cinquenta anos ? Embora ninguém consiga dizer ao certo quando, todas as profissões hoje existentes, naturalizadas no imaginário de cada indivíduo desde seu nascimento, tendem a desaparecer. Enquanto as braçais serão exercidas por robôs, as superiores serão, mais cedo ou mais tarde, desempenhadas por algoritmos. Contra isto, de pouco adiantarão os esforços de quaisquer sindicatos ou agremiações corporativas.

A história é repleta de exemplos a ilustrar esta tendência. Já nos primeiros tempos da revolução industrial os ludistas (cujo nome deriva de Ned Ludd) destruíam máquinas que surgiam para substituí-los. Hoje, são vistos jocosamente como, no máximo, um movimento social colateral, protagonizado por um bando de ingênuos, que em nada afetou o curso da história. Até meio século atrás, seria bem plausível a existência de sindicatos de datilógrafos ou perfuradores de cartões para computadores. Imaginem hoje. Ou então, pensem no sentido que terão daqui para a frente profissões como a de fotógrafo (depois dos telefones celulares com câmeras embutidas) ou mesmo a minha, a de músico, desde que, entre outras coisas, qualquer garoto tem seu home studio e manipuladores de samples adquiriram o status de compositores.

Devo dizer aqui que estas ideias não são minhas. Numa previsão bem conservadora, o regente húngaro Iván Fischer disse, há vários anos, que orquestras como hoje as conhecemos estarão extintas em 30 anos ou menos. De início, críticos se apressaram em julgar tal projeção nefasta muito mais como um mimimi destinado a chamar a atenção para o corte de subsídios estatais para sua orquestra. Pode até ser. Já fui, inclusive, alcunhado como Zé do Apocalipse por reverberar a ideia. Só que, com a crise sistêmica mundialmente instalada na cena musical, ela vem ganhando mais oxigênio a cada dia.

Numa antevisão mais radical, o historiador israelense Yuval Noah Harari afirma que, em 50 anos, toda atividade hoje ainda exercida por humanos será melhor desempenhada por algoritmos. Então, o maior problema da humanidade deixará de ser a falta de emprego para todos para se tornar a escassez de tarefas que humanos possam executar melhor do que algoritmos. Neste cenário distópico, i.e., no de um mundo sem trabalho, programas de renda mínima não serão suficientes para garantir a índole de perpetuação de nossa espécie quando muitas outras já não existirem ou caminharem inexoravelmente para a extinção. Neste cenário, i.e., no de um mundo sem trabalho, o que seria capaz de fornecer à vida humana algum sentido suficiente para garantir sua perpetuação ? A resposta de Harari para isto é francamente provocativa: jogos de realidade virtual, tais como as religiões. Mas isto já é outro assunto.

É claro que, neste futuro tenebroso, programadores de jogos de realidade virtual serão, mais do que nunca, necessários. Só que, numericamente, muito poucos em relação à totalidade de uma humanidade ociosa. Depois, como bem nos lembra Harari, o que se pode esperar de um jogo programado por um corretor de seguros ?

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Amo histórias de ficção científica, principalmente as distopias. Já dediquei posts anteriores a despertar algum interesse pelas de Huxley (O Admirável Mundo Novo) e Orwell (1984). Mais recentemente, o filme de animação Wally (que, de resto, não achei grande coisa) antecipou a ideia de Harari ao retratar uma humanidade, que emigrara da Terra (reduzida, no filme, a um imenso depósito de lixo), lúdica e obesa num mundo sem trabalho.

Não sei até que ponto é interessante ou responsável provocar mentes jovens com ideias tão sombrias. As distopias que estão aí são suficientemente assustadoras para que qualquer um prefira viver intensamente o presente sem se preocupar com gerações futuras que sofrerão diretamente as consequências do aquecimento global ou da escassez de água, para dizer o mínimo. Não acho, no entanto, que um choque de realidade nestes termos possa provocar mais sofrimento do que, digamos, o tal jogo da Baleia Azul. Ao contrário: só um contato mais intenso dos jovens com cenários futuros profundamente desesperançosos pode estimular a criação, provavelmente coletiva, de antevisões auspiciosas pelas quais valha a pena se lutar. Nesta vibe, sugiro, para começar, duas perguntas:

O que a humanidade tem hoje de absolutamente dispensável ?

O que a humanidade não tem hoje de que mais precisa ?

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