Sobre o fim dos jornais impressos

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Acabo de ler, no Sul21, dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação) que apontam para uma redução significativa e consistente do número de leitores dos maiores jornais impressos gaúchos. Já comentei no facebook, mais efêmero, que este sintoma é análogo à queda da audiência da televisão verificada ano a ano já por mais de uma década. A análise que acompanha os dados, replicada do Observatório de Imprensa, dá conta de que o fenômeno, superficialmente relacionado a fatores econômicos e ao avanço da circulação digital de informações, tem a ver, principalmente, com uma perda progressiva de credibilidade destes veículos em razão da indefectível parcialidade com que favorecem posições ideológicas de alguns grupos em detrimento do interesse público. Na mosca.

A Matéria de Elstor Hanzen (jornalista especialista em convergência de mídias, informa o rodapé) é perfeita, a ela não se fazendo necessário nenhum adendo, não fosse um certo ressentimento saudosista, como um lamento, presente em comentários, pelo progressivo e irreversível desaparecimento, num futuro não muito distante, dos jornais impressos. Com efeito, o maior grupo de comunicações do RS já vem a algum tempo diversificando seus investimentos em áreas tão díspares como o mercado imobiliário ou o comércio eletrônico de vinhos. É aos órfãos dos jornais (e, por tabela, da TV) que me dirijo.

* * *

Não se deve confundir movimentos em prol da permanência da leitura (que é, por definição, diversa) com qualquer defesa da manutenção dos meios, impressos ou eletrônicos, de notícias. Falo, que fique bem claro, de todos aqueles meios, conhecidos como de broadcasting, que veiculam informações centralizadas sob um rigoroso controle editorial – responsável, em todos os casos, pela defesa dos interesses dos proprietários dos meios em detrimento do interesse público. Ora, é evidente que informações sujeitas a uma curadoria mais centralizada tendem a propagar, na maioria das vezes, uma espécie de pensamento único, isento de contraditórios.

Dirão os mais céticos que o broadcasting já se atualizou a ponto de veicular, com igual ênfase em nome do contraste, posições antagônicas. Só, no entanto, para quem quiser acreditar em sua imparcialidade. Pois há, para editores hábeis, incontáveis maneiras de induzir o leitor ou espectador a comprar aquela posição que se quer vender. Por exemplo, ao estampar, de um lado, opiniões de especialistas qualificados a defender a posição oficial da empresa e, de outro, argumentos fraquíssimos e falaciosos, “qualquer nota”, destinados unicamente a orientar a opinião dos leitores em favor do que é defendido pelos primeiros. Chamem a isto, se quiserem, de manipulação. Barata, mas, ainda assim, manipulação (ou já viram, nas páginas de um jornal, alguém muito inteligente a debater com outro mais burro que defenda a posição do veículo ?…)

Neste cenário (o dos jornais e das redes de TV), o que se observa é o reforço sistemático de um pensamento único, cuidadosamente expurgado de tudo o que possa ser considerado politicamente incorreto. A recente promoção de minorias LGBT ou raciais em, por exemplo, novelas e programas da Rede Globo, um claro sinal dos tempos, é prova incontestável disto.

Por outro lado, a horizontalização (pois todo broadcasting é, em oposição, vertical) das comunicações facultada pela internet, na qual literalmente todos podem opinar, dá uma evidência sem precedentes a todo tipo de asneira racial, homofóbica, machista ou fascista, entre outras. Ou, se preferirem, à legião de imbecis formulada por Eco pouco antes de morrer.

Então, para alguém que visitasse nosso planeta de tempos em tempos com a missão de observar os meios de comunicação, pode até parecer que, sob a hegemonia dos meios de broadcasting, a humanidade estaria imersa numa matriz moral bem mais aceitável, enquanto politicamente correta, do que agora, sob o domínio da web com todos seus segmentos mais repulsivos e linchamentos virtuais.

Noutras palavras: se antes, só com jornais e TV, o ódio e o desprezo ao diferente e ao mais pobre era velado e naturalizado; hoje, com a web, se tornou explícito. Então, se antes uma rigorosa curadoria era suficiente para garantir a impressão de uma civilização asséptica, que podia varrer seu lixo para baixo do tapete; hoje todo discurso de ódio reverbera com igual intensidade que seu contraditório.

Neste contexto, há duas opões claras: promover o retorno de uma grande imprensa de pensamento único ou então dar toda publicidade possível na web aos discursos mais violentos na esperança de que o receptor da informação reúna condições cognitivas e afetivas para se dar conta dos absurdos com que é bombardeado. Estamos no meio do caminho. A primeira opção levaria a uma luta inglória, por querer se interpor a avanços tecnológicos que vieram para ficar; é nossa esperança que a segunda conduza, em algum futuro não muito próximo, a humanidade a uma nova era de esclarecimento e harmonia. Espero demais ?

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