Sobre apropriação cultural, propriedade intelectual, contrafações e Nina Paley

turbantes 1

Um tema que infestou a internet brasileira, na última semana, foi o da apropriação cultural. Falo do caso da menina confrontada no metro por usar um turbante para ocultar ter perdido os cabelos ao se submeter a um tratamento quimioterápico, sob a alegação de haver se apropriado indevidamente de um signo tido como privativo de um grupo étnico. No caso, o turbante. Uma imputação que pode ser mais ou menos formulada como “você não é negro, portanto não pode usar turbantes”. Como se só havaianos pudessem usar sarongues, ou baianos parangolés. Saudada por uns, atacada por outros, a apropriação cultural acabou servindo de bandeira a muita gente.

Ora, bens culturais não são entidades controláveis. E peças de indumentária, saudadas ou proscritas, tão somente sinalizam, na maioria das vezes, as normas, tácitas ou explícitas, de cada contexto para a exibição ou ocultação de partes do corpo feminino, tais como pernas, barrigas, seios, face e, agora, também o couro cabeludo – ou mesmo, como nos casos de saris, burkas ou kimonos, suas próprias formas. Tais peças de vestuário atravessam assim, na maioria das vezes, épocas, fronteiras e grupos sociais imunes a toda reivindicação de propriedade por parte de grupos que as elegem como bandeiras.

Vejam, por exemplo, o caso do jeans. Um tecido resistente e barato, desenvolvido inicialmente para ser usado em tarefas rudes e mal remuneradas, como as de operários industriais e trabalhadores rurais; o qual logo se tornou, no entanto, muito mais uma propriedade de jovens querendo denotar alguma rebeldia, contestação, desdém por normas e valores vigentes ou, muitas vezes, não mais do que um certo descolamento; do que, propriamente, um signo de pertencimento a qualquer classe trabalhadora (é nessas horas que mais me arrependo de jamais ter concluído a leitura de A Criação da Juventude, de Jon Savage).

jeans 1Por mais que esteja, no entanto, acostumado a velhos de jeans, não  canso de me divertir com celebridades como Erasmo Carlos que, como tantos roqueiros que já passaram da validade mas teimam em excursionar pelo planeta com em bandas cover ou geriátricas, teimam em ainda se apresentar fantasiados de jovens em calças e jaquetas jeans.

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Ainda no ano passado, tivemos a calorosa polêmica sobre alunas do Colégio Anchieta que reivindicavam o direito de irem às aulas vestindo shortinhos. Queriam, noutras palavras, liberdade para se vestirem como quisessem. Nada mais justo. Só que a coisa assumiu matizes tão fortes quanto inesperados, com diversos campos ideológicos disputando as mentes e, principalmente, os corações das meninas – algumas das quais até alçadas imediatamente a personalidades midiáticas, com direito a entrevistas e depoimentos de pais. Repentinamente, não se ouviu falar mais nada sobre o assunto.

Transcorrido já cerca de um ano, fui surpreendido ontem, ao passar diante do mesmo colégio durante o primeiro dia letivo de 2017, por uma espessa (e perigosa, porquanto dificultava tremendamente a visão em uma via pública diante de uma escola) fumaça, proveniente de sinalizadores, acho que náuticos. Aqueles mesmo. Do mesmo tipo que os usados em estádios por membros de torcidas organizadas como aquelas cujas brigas resultaram na morte de um torcedor no último fim de semana. Do mesmo tipo, também, que aquele lançado por torcedores brasileiros posteriormente detidos por autoridades estrangeiras por terem causado a morte, pelo disparo de um sinalizador, de um torcedor local. Ou, ainda, do mesmo tipo dos que, lançados por músicos que lá se apresentavam, causaram o incêndio na boate Kiss.

Mas voltemos aos portões do Anchieta. No meio da cortina de fumaça deixada pelos artefatos incandescentes, surge diante de meu carro (precisei  brecar bruscamente para não lhe atropelar) um jovem gesticulando como um primata e gritando palavras de ordem como “Terceirão ! Ainda ouvirão falar de nós !”. Ainda não entendi o que comemorava. Só fiquei a pensar que,  no mesmo lugar e hora em que, um ano antes, alunas clamavam pela liberdade de mostrarem as próprias pernas; o que se via ontem na calçada em frente ao Anchieta eram, além de meninos que empunhavam sinalizadores, também meninas vestidas, em sua imensa maioria, com camisetas pretas e, pasmem, shortinhos de jeans. Usados, os últimos, praticamente como um uniforme. Triste degradação de um signo que já serviu a manifestações bem mais dignas – verdadeira lição sobre o perigo da apropriação, por qualquer luta, de certos símbolos.

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Resisti, assim, por vários dias a me enfronhar numa peleia que desde o início julguei, mais do que vazia, natimorta – na qual muitas vozes bem intencionadas, ainda assim, ingenuamente se perderam. Se, com tudo isto, ainda venho ao editor do blog movido por esta questão (a saber, a do caráter benigno ou maligno da apropriação cultural), é só para lembrar a meus seis ou sete leitores a importância da mesma – sem a qual, é correto se dizer, nenhum progresso técnico ou artístico seria possível.

Não quero (nem poderia) ser enciclopédico (comprehensive era um exame que me causava pavor; tinha-o mesmo como para ratos de biblioteca) enumerando casos mais emblemáticos de apropriação cultural. Até por que a lista de exemplos seria infindável. Melhor se referir então, aqui, a somente um deles. Tem a ver com música. Mais “especificamente”, com processos derivativos em música (como aquele, trazido por um um comentarista, da influência do jazz na bossa nova). Escrevi “especificamente” assim, entre aspas, por se tratar de algo que, de específico, nada tem. Ao contrário, é um processo inerente à própria noção de jazz. Tanto, talvez, como a improvisação. Falamos, como muitos já podem ter antecipado, da contrafação.

Se tivesse que explicar o que é, em jazz, uma contrafação (o termo é, por certo, polissêmico, variando de jargão para jargão) diria se tratar da apropriação, por um improvisador, da sequência harmônica de uma música pré existente (nada muito diferente, em essência, da composição de novas vozes sobre um baixo dado (processo, de resto, tão ou mais antigo do que a própria escrita musical)). Sempre foi uma prática recorrente entre compositores de jazz criarem novas linhas, mais fragmentadas ou velozes, para serem tocadas sobre a execução da linha harmônica de outra música. Contrafações foram largamente popularizados por ases da era do bebop – vindo, mesmo, a definir o próprio gênero.

Numa varredura de muito jazz tocado e gravado nestes anos, há uma quantidade enorme de obras compostas sob a premissa acima (i.e., sobre a harmonia de outra música, pré existente). A lista mais abrangente de contrafações (no sentido jazzístico, se referindo à apropriação de “temas harmônicos” de uma música para outra) que já vi me foi trazida à atenção por Julio Herrlein. Ouvi que a boa netiqueta recomenda jamais postar links se referindo a páginas da wikipedia. Discordo ! E se for de lá uma página virtuosa que a maioria, de outra forma, jamais descobriria ?

Em alguns contextos, contratos sociais demandam o uso de uniformes. Escolas, religiões, serviços públicos (de garis a juízes), forças armadas e ambientes que presumem o uso de terno e gravata são dos mais importantes.

Mais sutil (e, portanto, preocupante) é a coerção tácita, explicita ou secretamente acordada entre os participantes de toda organização. Como, por exemplo, em orquestra sinfônicas. Naquela em que toco, são bem conhecidos os casos de um maestro que proibiu o uso, em ensaios, de bermudas (devia ter, sei lá, um problema com joelhos…) e o de um líder de naipe que exigia daqueles sob sua responsabilidade o uso, em ensaios, de sapatos. No dia seguinte àquele em que se aposentou, TODOS os integrante de seu naipe foram ao ensaio de tênis. Hoje, se discute a propriedade de frequentar ensaios de chinelos (leia-se, mostrando as unhas dos pés). Evoluímos, como podem notar.

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Sempre que ouço falar em apropriação cultural, me vem à mente o lindo filme de Nina Paley All Creative Work is Derivative. Descobri o genial cinema de animação de Paley por meio de matérias do BrainPickings e da TechDirt (que saudades do twitter !!!). Seus curtas de animação costumam ser obras primas no gênero. Como nos já vistos This Land is Mine e o recém descoberto, marcado para ver, Sita Sings The Blues que conheci hoje. Também foi hoje que descobri, procurando pelos filmes acima, uma fala espetacular da animadora numa rodada de conferências TED. O tema que abordou: legislação de direitos autorais. O título de sua palestra, Copyright is Brain Damage, não poderia dizer melhor a que veio.

 

Respeitável Público, de Henrique Schneider, e considerações sobre o problema da leitura numa época de escrita excessiva

Livros. Ontem, tentei explicar a meus filhos que um dos maiores problemas de nossa era de excesso de conteúdo é que, ao contrário de como costumava ser logo antes do surgimento da internet – quando, sob a  hegemonia dos broadcasting media, tínhamos  uma coleção mais ou menos delimitada suficientemente ampla de textos máximos cuja totalidade representava tacitamente tudo o que de mais notável já fora produzido pelo espírito humano; vivemos hoje numa época em que a quantidade de textos disponíveis se multiplicou exponencialmente, de tal modo que é impossível a qualquer um ler, ao longo de uma vida, tudo o que a humanidade escreveu de importante até agora.

Então, se antes, com alguma dedicação, se podia, ao longo de toda uma vida, ler quase tudo o que de mais sublime a humanidade já produziu; hoje, seguramente, não. Até por que, para começar, teríamos enorme dificuldade em discriminar o essencial do excessivo numa era de expansão exacerbada da autoria (age of nearly universal authorship, significando que nunca antes tantos escreveram tanto).

Foi quando Astrid me disse que um leitor dedicado é capaz de ler um livro por dia; um profissional (i.e., que divide a leitura com outras ocupações), um a cada 3 ou 4 dias.

Então, podemos grosseiramente afirmar que lemos, na maioria das vezes, mais ou menos na mesma “velocidade lógica” em que vemos um filme, ou seja, na medida em que, em nome da “apropriação” de uma narrativa, suportamos frustrar nossa expectativa de um desfecho dramático por uma ou duas horas. Ou, no caso da música (sem entrar na controversa seara da complexidade harmônica – nem que só para não despertar os ânimos mais exaltados), de formas mais ambiciosas. Na prática, falo da duração da maior forma não repetida que é ouvida em cada música. Naquela chamada de “popular” (jazz, inclusive), se costuma ter como extraordinária qualquer coisa com 5 ou mais minutos de duração (“a 5+, 6+, 7+ or longer track”); na “clássica” ou “erudita”, nada que não tenha lá seus 12 ou 15 minutos. Coisas de 3 minutos ou menos ? Desconfiem sempre. Tal preconceito, que orgulhosamente professo, tem me ajudado a discriminar muito lixo dentre tudo o que há, na era de excesso em que estamos, para ser ouvido.

Em todos os casos, a leitura de um livro implica num tipo de foco mais prolongado. Uma sorte de atenção praticamente desconhecida na cultura mobile, cujos feeds se atualizam à razão de até muitas vezes por minuto.

(já devo ter dito aqui, mais de uma vez, que, no contexto atual, Bakhtin de esbaldaria com sua teoria do discurso articulado pela alternância de falantes)

Distopias com a proscrição de livros existem às pencas. As melhores que conheço são as novelas Admirável mundo novo, de Huxley,  e Fahrenheit 451, de Bradbury, filmada por Truffaut. Enquanto na primeira o banimento da leitura se dá pelo condicionamento, na última se deve a uma proibição. Por ser, de algum modo, menos violento (não, havendo, por exemplo, a poderosa figura da queima de livros), o primeiro é muito mais perverso e eficaz do que o segundo.

Quem me conhece a mais tempo sabe que, por volta de quando tinha 30 anos, me tornei um “leitor de catálogos e manuais”. A alcunha, criada pelo Milton, não poderia ser mais precisa, pois venho lendo, por décadas, tão somente textos longos referentes a alguma preocupação bem específica de índole técnica ou acadêmica. Com isto, os poucos textos de ficção que li nos últimos 20 ou 30 anos foram quase sempre presentes de amigos que escrevem bem. Muito bem. Tenho sorte quanto a isto. Então, costumo ler (talvez, sei lá, por medo de não saber o que dizer ao lhes reencontrar), contos ou novelas que me chegam carinhosamente às mãos (ou à vistas, se quiserem) como presentes de seus autores. Como Respeitável Público, de Henrique Schneider (Dublinense, 2015).

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Lendo Respeitável Público, se descobre rapidamente por que seu autor já teve ao menos uma história roteirizada para o cinema. É que suas descrições de lugares, ações e personagens grudam na memória como as melhores cenas de um filme. Os diálogos são, mais do que precisos, cirúrgicos, desprovidos de quaisquer acessórios. Dignos, no mínimo, de bons dramaturgos.

Li em poucos dias (mais, é claro, do que nas poucas horas levadas por Astrid para devorá-lo). Livros e filmes, de assimilação lenta por definição, tem que ter, como bons pratos, um certo after taste. Há, na novela de Schneider, twists (nós) dramáticos claros, de diferentes intensidades, ao longo de toda a narrativa, guarnecidos por capítulos adjacentes como cenas de um filme bem montado. Como em muita boa música (mostly jazz & late romantic) e, de resto, em toda boa literatura policial, o uso inteligente das cadências deceptivas. Tanto que arrisco até o palpite de que tais injunções foram planejadas pelo autor, como em algumas composições de Beethoven, bem antes do próprio detalhamento do texto. Como, no entanto, não queremos oferecer spoilers, é suficiente por hora dizer que o principal contraste de tensão dramática existente entre dois pontos da obra, para os quais toda a narrativa converge, é entre os acontecimentos (ou cadências deceptivas, se quiserem) que culminam, respectivamente, nas páginas 110 e 126 do volume. Curioso ? Leia o livro, então !

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Ainda que irrelevante para a atribuição de qualidade ao teor do livro acima resenhado, o que será dito em seguida é, a meu ver (no second meanings, please !), de crucial importância para garantir alguma audiência a tudo o que ainda é impresso em papel. Tem a ver com tipografia. Parece pouco importante ? Vamos, então, a alguns fatos.

qualquer texto impresso é lido com mais facilidade (e, portanto, maior prazer) quanto maior for a fonte tipográfica utilizada na composição do volume;

a iluminação, tanto de telas como de papéis impressos, também contribui, em razão direta, para a legibilidade de um texto;

indivíduos com mais idade tendem a ser mais preparados e/ou predispostos para a leitura do aqueles mais jovens, notadamente nativos digitais; tragicamente, no entanto, a visão humana se deteriora com o avançar do tempo.

Em razão disto, o tamanho e o contraste de uma fonte tipográfica são fatores cruciais para a maior ou menor leitura de qualquer coisa que se imprima. Especialmente no caso de livros, que demandam uma atenção mais persistente. Os quais, por cansarem mais a vista em razão da demora na leitura, demandam tipos visualmente mais confortáveis.

Por que tudo isto ? Tão somente para sublinhar que, no caso do volume que acabo de ler da Dublinense, contribuiu para a manutenção de meu propósito de enfrentar o (ótimo) texto até o final, tanto quanto sua qualidade intrínseca, também o fato de ter sido impresso num ótimo papel com letras suficientemente grandes e “pesadas” – como se impressas em negrito (ou bold) para vistas mais cansadas. Tipos serifados, como Times Roman, também são bem mais legíveis, quando impressos em papel, do que, por exemplo, o que utilizamos aqui.

Editores: jamais subestimem os benefícios de uma boa composição tipográfica !

Pois não devo ser o único a padecer de pouca paciência com fontes rarefeitas e tipos pequenos demais. Agora mesmo, sofro com as minúsculas letras de uma outrossim belíssima edição da Globo de Admirável mundo novo – lacuna de leitura à qual prazeirosamente hora me dedico. Para melhor ler Amusing ourselves to death, de Postman, assim que  chegar.

Comparação entre os tipos utilizados em volumes publicados pela Dublinense (acima) e pela Globo (abaixo)

Por que gosto de assistir ao jornalismo da Globo

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Cada vez mais me deparo com postagens incitando a um boicote à Rede Globo. Acho isto auspicioso. Só que, enquanto não se unirem forças suficientes para evitar a renovação da concessão da emissora (até quando vai ?), continuarei achando bem didático assistir, sempre que possível, a seus programas, particularmente aqueles ditos “jornalísticos”, neles incluída sua revista semanal, o Fantástico, espécie de carro chefe a evidenciar toda sua linha editorial.

Cultivo o hábito de assistir aleatoriamente a estes programas da Globo por acreditar que a audiência crítica a sua editoria jornalística propicia um olhar privilegiado sobre a engenhosa manipulação exercida sobre o que lá é veiculado como notícia. É, no entanto, ingênuo esperar que esta manipulação seja denunciada no calculado discurso de seus âncoras – que são, de resto, muitas vezes também grandes atores. Para tanto, existem as redes sociais.

Senão, vejamos. Na última segunda-feira, pipocaram no facebook exortações (inclusive da OAB) à ampla divulgação, pela ministra-chefe do STF, do teor, ainda mantido sob sigilo, da delação premiada da Odebrecht. Também conhecida, por seu presumível potencial de não deixar pedra sobre pedra, como a Delação do Fim do Mundo. Enquanto isto, no Jornal Nacional do mesmo dia a prisão de Eike Batista foi mais amplamente coberta – celebrada, até – do que a bombástica delação, a qual foi apenas laconicamente (para não dizer discretamente) abordada somente mais próximo ao final do noticiário, em sua segunda metade.

Por que a espetacularização exacerbada da prisão de Eike Batista (verdadeira produção televisiva, como um reality show) pelo conglomerado dos Marinho de modo algum me surpreende ? Ora, por que seu desfecho dramático já havia sido exaustivamente antecipado, primeiro no Jornal da Globo da última sexta-feira e, depois, no Fantástico do último domingo, em atualizações ao vivo diretamente do aeroporto em que o milionário esperava para embarcar voluntariamente de volta ao Brasil, onde era esperado para ser preso em cela comum. Exatamente como naquelas espiadinhas na casa do Big Brother inseridas durante toda a programação.

De volta ao problema da delação da Odebrecht, dirão os mais cínicos defensores do estado de direito que Carmen Lúcia agiu corretamente ao manter o conteúdo da delação por ela homologada sob sigilo. Ao menos me pareceu este o tom editorial no Jornal Nacional da última segunda, quando algum entrevistado elogiou – contra todo o coro a clamar nas redes pela divulgação dos nomes dos políticos sob suspeita – a opção da ministra por não divulgar o teor da delação (i.e., os nomes de políticos acusados de receberem propinas). A reforçar essa suspeita, se agrega o o fato de que, naquela mesma edição do noticioso, nomes de quaisquer suspeitos sequer foram mencionados.

Tudo bem que não se queira promover caçadas a bruxas, nem tampouco induzir a opinião pública a quaisquer condenações prévias (linchamentos, se quiserem) até que provas irrefutáveis tenham sido levantadas e os indiciados julgados, com direito a ampla defesa. Mas daí a negar a jornalistas a possibilidade de realização de investigações independentes e, pior, permitir a suspeitos de acusações gravíssimas a permanência no exercício de funções públicas (hoje dedicados quase exclusivamente ao desmonte do estado e à proteção da exploração empresarial) é de uma parcialidade descarada, perceptível à inteligência mais elementar.

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O colapso de uma hierarquia de relevância entre notícias, até então tacitamente implícita entre proprietários e usuários de meios de comunicação, é o indício mais notório da manipulação sofrida pelo conteúdo veiculado em programas da Rede Globo. Duas semanas atrás, comentei no facebook que especulações sobre a iminente posse de Trump (uma não notícia por definição, portanto) ocuparam mais tempo em noticiários da emissora do que o bombardeio por engano, por forças governamentais, de um acampamento de refugiados na Nigéria que deixou mais de 50 mortos. E numa semana em que se acumularam grandes suspeitas sobre Temer, a principal matéria do Fantástico foi, pasmem, sobre pizza. Sugestivo, não ?

Já a principal matéria do programa no último domingo foi sobre um teste realizado com medicamentos genéricos. Números precisos, procedimentos rigorosos. Só faltou dizer quem patrocinou o estudo, que não foi barato. Pelo alarde, confesso que esperava resultados bem piores. Pois os únicos desvios encontrados (ou seja, dentro de uma margem de 10%, que deveria ser de apenas de 5%) foram insuficientes para causar qualquer alarme. Como até “especialistas” entrevistados reconheceram. Toma força, com isto, a tese de que uma das principais funções de matérias assim seja a de criar uma cortina de fumaça sobre aquilo que não se quer noticiar. E para não dizer que a matéria me foi absolutamente inútil, fiquei com uma pulga atrás da orelha, querendo saber quais eram, afinal, as concentrações dos princípios ativos nos medicamentos de referência, isto é, naqueles produzidos por laboratórios detentores de patentes. Ou, como sabiamente os chama meu médico, “de grife”.

(não querendo saber de mais teorias conspiratórias, encerre sua leitura deste texto por aqui; tendo apetite por mais uma, siga em frente)

Minhas favoritas tem a ver com matérias como aquela sobre o potencial danoso de certos boatos inadvertidamente semeados na web veiculada no Fantástico do último domingo, que era ilustrada por uma tentativa de produção de pânico em relação a supostos efeitos nocivos de exames de mamografia. Otimistas (ou ingênuos) podem ver em peças assim tão somente o propósito de ensinar internautas a detectar notícias falsas. Já faz tempo que Howard Rheigold cunhou a expressão crap detection para se referir a esta competência. Já aqueles, como eu, mais escaldados (ou paranoicos, se quiserem) preferem ver na advertência acima de tudo a promoção de um descrédito generalizado em relação à web enquanto fonte de informação confiável. Como se, de algum modo, a TV (ou, mais amplamente, todo jornalismo corporativo) reivindicasse para si o privilégio exclusivo da posse dos meios de fact checking. Assustador, não ?

(em prol da concisão, tenho que encontrar termos que designem atitudes em relação à TV análogas às que netopians e netskeptics mantém em relação à web. Que, noutras palavras, signifiquem acreditar,  excludentemente (i.e., ou num ou noutro mas jamais nos dois ao mesmo tempo) nos potenciais emancipatório ou nocivo da televisão)

Fantástico 2