Diatribe contra o tele atendimento e a automação bancária e comercial

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Os primeiros a desaparecer, lá se vão já algumas décadas, foram os guichês de atendimento bancários, vulgos “caixas”. Se antes havia em cada agência no mínimo uma dezena, hoje não passam de dois ou três – pelo menos um deles invariavelmente fechado devido ao horário de almoço ou coisa que o valha. Como atenuante, os bancos colocaram cadeiras para que os infelizes na fila, não nativos digitais em sua maioria, esperassem sentados.

A bola da vez da marcha inexorável da automação parece ser os terminais de cobrança por estacionamento em shoppings. Até pouco tempo atrás operados por atendentes humanos, estão sendo rapidamente substituídos por máquinas operadas pelos próprios usuários.

Paradoxalmente, lojas continuam sendo povoadas por vendedores treinados e remunerados para persuadir clientes a comprar produtos muito além das necessidades que os levaram até ali. Quem, depois de já haver escolhido tudo aquilo de que precisa, nunca ouviu de um solícito atendente frases como “E o Sr.(a) não está precisando de meias ou cuecas ?” Acho acintoso ter que responder a este tipo de pergunta – que, para efeito de manutenção do bom humor, prefiro tomar como meramente retórica.

Outra, clássica: quando procuro calçados, quase sempre a negativa, bem frequente, de que um estabelecimento não dispõe de itens com o tamanho 44 vem acompanhada da oferta “Por que o Sr. não experimenta um par do tamanho 43, pois nossa forma é bem grande ?”  Nestes casos, minha resposta (sempre no intuito de preservar o bom humor) costuma ser “Sim, é claro. Mas não se esqueça de me trazer, também, um daqueles tesourões de jardinagem (podões) para que, cortando uns dedos fora, o calçado possa, talvez, me servir.” Devo acrescentar, a bem da verdade, que nem sempre o vendedor tem o mesmo senso de humor que eu.

Nada tenho contra vendedores – assim como, de resto, nada tenho contra operadores de telemarketing e de serviços de tele atendimento, dos quais tornarei a falar mais tarde. Só que uma coisa é uma loja manter funcionários treinados para auxiliar os clientes quando – e tão somente quando – forem solicitados. Outra é se ter, desde o momento em que se entra numa loja até se sair da mesma (hoje é comum o vendedor acompanhar o cliente até a saída da loja, carregando a sacola, para se despedir), alguém permanentemente na sua cola determinado a maximizar seu gasto no estabelecimento com coisas da qual você não tinha a menor necessidade ao entrar na loja.

Exagero ? Acho que não.Tomem, por exemplo, como paradigma de qualidade de atendimento, os vendedores de livrarias e lojas de discos (dois tipos de estabelecimento comercial que marcham a passo largo para a extinção). Eles estão ali silenciosos e de posse de toda informação da qual você pode precisar para localizar o que quer. Mas só entram em ação quando solicitados. Imaginem, agora, como seria explorar prateleiras de discos e livros com um papagaio de pirata apregoando insistentemente as virtudes deste ou daquele título. Não sei de vocês, mas eu fugiria de uma loja com atendentes assim tão rápido quanto entrei.

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Tendo sobrevivido a este tipo de assédio legitimado de que se é alvo na maioria das lojas, o problema de um cliente ao sair de um shopping se torna exatamente o oposto, i..e., tem que caminhar cada vez mais até encontrar um ponto de cobrança de estacionamento que ainda seja operado por humanos. Pois, hoje, toda a arquitetura desses lugares (já repararam como a posição e a direção das escadas rolantes sempre conspiram para que usuários tracem sempre o maior percurso possível de um ponto a outro ?) parece favorecer a utilização de terminais automatizados de pagamento, sempre mais próximos às saídas, em prejuízo daqueles poucos ainda atendidos por pessoas (os quais, segundo todas as evidências, também galopam em direção à extinção).

Tudo o que eu disse acima pode ser tributado ao meu envelhecimento. Como resistência à modernidade. Que fique claro, então, que também não tenho nada contra quem prefira apertar botões. Ora, se, por incontáveis vantagens, utilizo o home banking, o faço por opção. O mesmo se dá quando opto por digitar uma senha para utilizar o cartão de crédito. O que não deve, no entanto, dar aos proprietários de qualquer negócio, bancário ou comercial, o direito de suprimir a opção do cliente de pagar em espécie, com alguém lhe dando o troco devido em cédulas menores. “É o futuro !”, dirão. “Bullshit”, será minha resposta. Pois a imposição de qualquer automação a clientes de quaisquer empresas tem por objetivo exclusivamente a maximização de lucros, independentemente da satisfação de usuários. Se empresários custarem muito para se dar conta disto, talvez seja tarde demais. Pois, até lá, já terão sido engolidos pela concorrência.

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Prometi falar dos serviços de tele atendimento. Comecemos pelas famigeradas vozes gravadas. Já se deram ao trabalho de medir quanto tempo levam, depois de passar por todos os menus de opções e musiquinhas de espera, até conseguir falar com alguém de carne e osso apto a processar suas solicitações ? Isto se conseguirem de fato falar, pois, muitas vezes, basta exercer uma única opção errada para ter que começar tudo de novo (noutro dia, talvez). Pois nunca vi, em qualquer serviço de tele atendimento, a opção, tão fácil de ser implementada, de volta ao menu anterior.

Não há limite para os requintes de perversão nestes casos. O maior deboche da cara dos usuários por parte de uma corporação que já vi foi nos menus de tele atendimento da NET – nos quais, entre uma gravação e outra, o tempo de processamento do sistema é (pasmem !) preenchido por ruídos de alguém digitando num teclado. Como se a voz gravada estivesse, de fato, digitando alguma coisa. Isto ofende sua inteligência ? A minha também. Especialmente quando penso que há agências reguladoras federais para garantir a qualidade dos serviços destas empresas. Também me causa nojo e revolta que até hoje nenhum de nossos onerosos legisladores tenha proposto uma regra simples que limitasse, por exemplo, o tempo máximo de espera que um usuário pode levar até conseguir falar com um atendente humano.

Outra comparação bastante didática é entre a duração e a complexidade dos procedimentos para, de um lado, se contratar um serviço e, de outro, se cancelar a assinatura do mesmo. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que, para contratar, o processo é invariavelmente sumário. Tudo é facilitado. Poucas perguntas são feitas, todas elas a fim de garantir o bom andamento da cobrança pelo serviço a ser contratado.

Experimentem, agora, tentar cancelar um serviço que já assinam. Neste caso, usuários são sempre direcionados pelas empresas para setores conhecidos como “de retenção”. Se você não decidir postergar o cancelamento depois de vários minutos ouvindo uma musiquinha ou propaganda não solicitada (detalhe: é sempre você quem paga a ligação !), será bombardeado por um longo questionário, como se devesse a alguém alguma explicação por não querer mais comprar alguma coisa. Se, depois disso, ainda estiver na linha, receberá um cardápio de ofertas que, por razões que fogem a seu entendimento, nunca lhe foi oferecido antes de você manifestar qualquer intenção de cancelar o serviço em questão.

Também acham isto acintoso ? Então, pensem em cobrar de seus próximos representantes (pois os atuais já devem estar todos vendidos) também uma opção, nos menus de tele atendimento, de cancelamento sumário de serviços. Sem explicações. Você liga, tecla e cancela. Rápido e indolor. Simples assim.

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Uma resposta para “Diatribe contra o tele atendimento e a automação bancária e comercial”

  1. O Serviço de Telemarketing está chegando às raias da insanidade…Odeio.
    Um acinte à minha inteligência; outra coisa (exatamente como diz no final do texto, p. ex.): é tão fácil ‘comprar’ ?, então que o seja também, cancelá-lo – ORA BOLAS!

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