Inclusão digital: verdade ou mito ?

plenário 1Dia desses, lamentei a progressiva e inexorável transferência para máquinas automáticas de tarefas antes confiadas a humanos, em particular a cobrança pelo estacionamento em alguns shoppings. De tal modo essa tendência vem ganhando força que, suponho, em breve estaremos escaneando códigos de barra no check out de supermercados ao invés de, simplesmente, largar coisas sobre esteiras deslizantes. Empacotadores ? Esqueçam-nos. Ou paguem pelo serviço. Já deve ser assim em muitos lugares.

Voltando ao shopping onde senti pela primeira vez o desconforto que gerou aquele post, constatei que, lá, o único ponto de cobrança de estacionamento com operação humana remanescente estava estrategicamente situado num canto que não dava acesso a parte alguma. Um dead end encrustado no início de um corredor bloqueado, longe de todos os elevadores e a escadaria que levavam aos pavimentos de estacionamento. Encafifei-me com aquilo.

Tornando ao mesmo shopping dias depois, anotei num guardanapo de papel, enquanto tomava um café, o nome de meu blog, pensando em oferecê-lo ao operador de caixa cujo posto de trabalho eu defendera em meu último post. Lá chegando, indaguei: “O Sr. costuma acessar a internet ?” – ao que o operador prontamente respondeu: “Eu ? Nem tenho isso !”.

Ouvindo isto, imediatamente joguei fora o guardanapo com o nome do blog. Foi como se, naquele exato instante, me visse forçado a aceitar a grande verdade inconveniente que até então, apesar de todos os argumentos e evidências em seu favor, teimasse em não encarar – a saber, a de que toda a aglutinação de pessoas em torno de ideias virtuosas a respeito do poder emancipador da internet que desfilavam em minha timeline não passasse, ao fim e ao cabo, de uma enorme bolha discursiva. Subitamente, me senti, como se fulminado por um raio, transformado de fervoroso netopian em ácido netskeptic.

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Por anos acreditei – tentando, ao mesmo tempo, fazer com que outros acreditassem – que o advento da web, com seus protocolos horizontais de conexão, diametralmente opostos aos verticais do paradigma até então hegemônico do broadcasting, implicaria finalmente no triunfo da verdade, da justiça e, sobretudo, da pluralidade em todas as relações humanas, em particular as políticas e educacionais.

A participação em redes sociais povoadas por semelhantes (amigos presenciais e virtuais que partilham interesses, hábitos e, last but not least, opiniões) também ajudou a alimentar, numa minúscula classe de incluídos que leem mais, comparam mais, pensam mais, ouvem melhor, escolhem melhor… (you name it), a esperança que a internet estaria fadada à nobre missão de sepultar, em pleitos vindouros, todo poder oligárquico.

Eis que, de repente, sem que ninguém entendesse bem o por que, algo saiu errado. Primeiro veio o Sartori. Depois, Temer e o Brexit. Então, quase ao mesmo tempo, Trump e Marchezan (o Jr.). De um modo difuso, pipocando em toda parte, se radicalizaram o ódio ao diferente (leia-se imigrante) e o desmonte de instituições educativas e culturais. Nesta cena, absolutamente distópica, toda crítica se anula ante o fato de que todos os governantes responsáveis por tais políticas foram alçados a posições de liderança tão somente pelo sufrágio universal – representando, portanto, legitimamente a vontade da maioria e nos restando a triste constatação de que tão somente a democracia, pela qual tanto lutamos, nos levou a este estado de coisas.

Agregue-se a isto dois dados, divulgados ao início de cada novo ano, que apontam para o fato de estarmos indiscutivelmente pior do que antes – a saber, aqueles sobre a crescente concentração de riqueza e o relógio do fim do mundo.

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Relógio do Apocalipse, de 1947 a 2011

Criado em 1947, quando a ameaça de aniquilação nuclear parecia mais presente (ela ainda está aí, só que, de algum modo, banalizada), o relógio do fim do mundo estima o tempo que nos afasta de uma possível destruição em massa de toda a civilização humana por meio de ogivas atômicas. Nele, o risco de que isto possa vir a efetivamente acontecer é expresso pelo tempo que nos separa da meia-noite. O relógio do fim do mundo tem a peculiaridade de poder tanto avançar como retroceder. Quando foi criado, no auge da guerra fria, marcava sete minutos para a meia-noite. O mais alto grau de “segurança atômica” que chegou a indicar se situava na marca dos dezessete minutos, no início dos anos 90. Depois da ascensão de Trump, ostenta a preocupante marca de dois minutos e meio para a meia-noite. Paranoia ? Talvez. Ainda assim, prefiro tê-lo como um signo altamente emblemático dos tempos tenebrosos em que vivemos.

O outro dado alarmante, divulgado anualmente por ocasião do perverso encontro de Davos (i.e., onde os mais ricos discutem como podem se tornar ainda mais ricos sem romper o frágil equilíbrio da manutenção de parte da população (aquela que vive dentro dos muros de inclusão) acima de uma linha de pobreza sem a qual nenhum enriquecimento seria possível), dá conta de que um número cada vez menor de indivíduos detém a metade da riqueza mundial – já sendo possível, inclusive, se projetar a emergência, nos próximos anos, do primeiro trilionário.

A parcela da população que se situa acima deste limiar de pobreza também é reconhecida como aquela beneficiada pelo “estado de bem estar social”. Fora dela, i.e., do outro lado do muro do México, da cerca de Cádis ou, ainda, dentro dos muros de presídios brasileiros, continuarão morrendo de fome, vítimas de terrorismo e por outras formas de violência. Como, aliás, vem sendo desde os tempos das guerras coloniais. A equação é simples: quem não puder ser incluído, que seja segregado. Não fosse assim, fatalidades por tragédias ou atos terroristas teriam a mesma relevância jornalística independentemente de ocorrerem no terceiro mundo ou no hemisfério norte. Assim, até que se encontre uma solução melhor, limpezas étnicas continuarão sendo toleradas, em nome da assepsia das estatísticas. Num mundo de resto totalmente globalizado, tal permanece sendo uma das principais funções das fronteiras nacionais. O Boko Haram riscou do mapa mais um povoado ? E daí ?.

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Frente a estes fatos que teimam em permanecer perante nossas vistas, verdadeiro balde de água fria a arrefecer as mentes mais sonhadoras, o que, afinal, saiu errado ? Por que ralo escoou todo o potencial redentor que tantos netopians insistiam em reconhecer na web e nas redes sociais ? Penso que, acima de tudo, por termos feito vista grossa à grande verdade inconveniente de que a inclusão digital, tão saudada como uma tendência inexorável e redentora, ainda não é mais do que uma promessa não realizada.

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Diatribe contra o tele atendimento e a automação bancária e comercial

teleatendimento 1Os primeiros a desaparecer, lá se vão já algumas décadas, foram os guichês de atendimento bancários, vulgos “caixas”. Se antes havia em cada agência no mínimo uma dezena, hoje não passam de dois ou três – pelo menos um deles invariavelmente fechado devido ao horário de almoço ou coisa que o valha. Como atenuante, os bancos colocaram cadeiras para que os infelizes na fila, não nativos digitais em sua maioria, esperassem sentados.

A bola da vez da marcha inexorável da automação parece ser os terminais de cobrança por estacionamento em shoppings. Até pouco tempo atrás operados por atendentes humanos, estão sendo rapidamente substituídos por máquinas operadas pelos próprios usuários.

Paradoxalmente, lojas continuam sendo povoadas por vendedores treinados e remunerados para persuadir clientes a comprar produtos muito além das necessidades que os levaram até ali. Quem, depois de já haver escolhido tudo aquilo de que precisa, nunca ouviu de um solícito atendente frases como “E o Sr.(a) não está precisando de meias ou cuecas ?” Acho acintoso ter que responder a este tipo de pergunta – que, para efeito de manutenção do bom humor, prefiro tomar como meramente retórica.

Outra, clássica: quando procuro calçados, quase sempre a negativa, bem frequente, de que um estabelecimento não dispõe de itens com o tamanho 44 vem acompanhada da oferta “Por que o Sr. não experimenta um par do tamanho 43, pois nossa forma é bem grande ?”  Nestes casos, minha resposta (sempre no intuito de preservar o bom humor) costuma ser “Sim, é claro. Mas não se esqueça de me trazer, também, um daqueles tesourões de jardinagem (podões) para que, cortando uns dedos fora, o calçado possa, talvez, me servir.” Devo acrescentar, a bem da verdade, que nem sempre o vendedor tem o mesmo senso de humor que eu.

Nada tenho contra vendedores – assim como, de resto, nada tenho contra operadores de telemarketing e de serviços de tele atendimento, dos quais tornarei a falar mais tarde. Só que uma coisa é uma loja manter funcionários treinados para auxiliar os clientes quando – e tão somente quando – forem solicitados. Outra é se ter, desde o momento em que se entra numa loja até se sair da mesma (hoje é comum o vendedor acompanhar o cliente até a saída da loja, carregando a sacola, para se despedir), alguém permanentemente na sua cola determinado a maximizar seu gasto no estabelecimento com coisas da qual você não tinha a menor necessidade ao entrar na loja.

Exagero ? Acho que não.Tomem, por exemplo, como paradigma de qualidade de atendimento, os vendedores de livrarias e lojas de discos (dois tipos de estabelecimento comercial que marcham a passo largo para a extinção). Eles estão ali silenciosos e de posse de toda informação da qual você pode precisar para localizar o que quer. Mas só entram em ação quando solicitados. Imaginem, agora, como seria explorar prateleiras de discos e livros com um papagaio de pirata apregoando insistentemente as virtudes deste ou daquele título. Não sei de vocês, mas eu fugiria de uma loja com atendentes assim tão rápido quanto entrei.

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Tendo sobrevivido a este tipo de assédio legitimado de que se é alvo na maioria das lojas, o problema de um cliente ao sair de um shopping se torna exatamente o oposto, i..e., tem que caminhar cada vez mais até encontrar um ponto de cobrança de estacionamento que ainda seja operado por humanos. Pois, hoje, toda a arquitetura desses lugares (já repararam como a posição e a direção das escadas rolantes sempre conspiram para que usuários tracem sempre o maior percurso possível de um ponto a outro ?) parece favorecer a utilização de terminais automatizados de pagamento, sempre mais próximos às saídas, em prejuízo daqueles poucos ainda atendidos por pessoas (os quais, segundo todas as evidências, também galopam em direção à extinção).

Tudo o que eu disse acima pode ser tributado ao meu envelhecimento. Como resistência à modernidade. Que fique claro, então, que também não tenho nada contra quem prefira apertar botões. Ora, se, por incontáveis vantagens, utilizo o home banking, o faço por opção. O mesmo se dá quando opto por digitar uma senha para utilizar o cartão de crédito. O que não deve, no entanto, dar aos proprietários de qualquer negócio, bancário ou comercial, o direito de suprimir a opção do cliente de pagar em espécie, com alguém lhe dando o troco devido em cédulas menores. “É o futuro !”, dirão. “Bullshit”, será minha resposta. Pois a imposição de qualquer automação a clientes de quaisquer empresas tem por objetivo exclusivamente a maximização de lucros, independentemente da satisfação de usuários. Se empresários custarem muito para se dar conta disto, talvez seja tarde demais. Pois, até lá, já terão sido engolidos pela concorrência.

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Prometi falar dos serviços de tele atendimento. Comecemos pelas famigeradas vozes gravadas. Já se deram ao trabalho de medir quanto tempo levam, depois de passar por todos os menus de opções e musiquinhas de espera, até conseguir falar com alguém de carne e osso apto a processar suas solicitações ? Isto se conseguirem de fato falar, pois, muitas vezes, basta exercer uma única opção errada para ter que começar tudo de novo (noutro dia, talvez). Pois nunca vi, em qualquer serviço de tele atendimento, a opção, tão fácil de ser implementada, de volta ao menu anterior.

Não há limite para os requintes de perversão nestes casos. O maior deboche da cara dos usuários por parte de uma corporação que já vi foi nos menus de tele atendimento da NET – nos quais, entre uma gravação e outra, o tempo de processamento do sistema é (pasmem !) preenchido por ruídos de alguém digitando num teclado. Como se a voz gravada estivesse, de fato, digitando alguma coisa. Isto ofende sua inteligência ? A minha também. Especialmente quando penso que há agências reguladoras federais para garantir a qualidade dos serviços destas empresas. Também me causa nojo e revolta que até hoje nenhum de nossos onerosos legisladores tenha proposto uma regra simples que limitasse, por exemplo, o tempo máximo de espera que um usuário pode levar até conseguir falar com um atendente humano.

Outra comparação bastante didática é entre a duração e a complexidade dos procedimentos para, de um lado, se contratar um serviço e, de outro, se cancelar a assinatura do mesmo. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que, para contratar, o processo é invariavelmente sumário. Tudo é facilitado. Poucas perguntas são feitas, todas elas a fim de garantir o bom andamento da cobrança pelo serviço a ser contratado.

Experimentem, agora, tentar cancelar um serviço que já assinam. Neste caso, usuários são sempre direcionados pelas empresas para setores conhecidos como “de retenção”. Se você não decidir postergar o cancelamento depois de vários minutos ouvindo uma musiquinha ou propaganda não solicitada (detalhe: é sempre você quem paga a ligação !), será bombardeado por um longo questionário, como se devesse a alguém alguma explicação por não querer mais comprar alguma coisa. Se, depois disso, ainda estiver na linha, receberá um cardápio de ofertas que, por razões que fogem a seu entendimento, nunca lhe foi oferecido antes de você manifestar qualquer intenção de cancelar o serviço em questão.

Também acham isto acintoso ? Então, pensem em cobrar de seus próximos representantes (pois os atuais já devem estar todos vendidos) também uma opção, nos menus de tele atendimento, de cancelamento sumário de serviços. Sem explicações. Você liga, tecla e cancela. Rápido e indolor. Simples assim.

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Por que não ouço rádio (ii)

as-25-musicas-mais-tocadas-em-radios-brasileiras-3Nos últimos dias, esta lista pipocou em meu timeline, guarnecida por cabeçalhos que variavam do conformismo à indignação. De pronto chamou minha atenção que ela era compartilhada praticamente como um meme por pessoas que reputo como musicalmente esclarecidas. Bem esclarecidas. Especialistas, até, na maioria dos casos. Talvez por isto, não me dei ao trabalho de verificar a fonte da informação, nem de conhecer o universo amostral. Pois, dependendo da região de abrangência geográfica, da estação pesquisada ou mesmo do fato dela ser de AM ou FM, é claro que a lista seria sempre bem diferente.

Supondo, então, pela credibilidade dos compartilhadores e pelo senso comum de quem já zapeou por um dial de rádio, que os dados da lista estejam corretos, chegamos inevitavelmente ao problema de explicar por que músicas tão ruins sejam também, senão as mais escutadas, pelo menos as mais tocadas por estações de rádio. E, indiretamente, à imponderabilidade semântica da palavra popular.

Pois o “gosto popular”, no sentido daquilo que as pessoas escolhem ouvir, é largamente condicionado por aquilo que as mesmas conhecem. Ao mesmo tempo, hoje as pessoas conhecem muito mais a música que toca em meios de comunicação de massa (broadcasting) e, em contextos mais conectados, nas redes sociais; do que aquela que (quando há) é produzida ou praticada em cada lugar. Então, o rádio ainda é, principalmente entre os segmentos menos conectados, o maior vetor de conhecimento de praticamente tudo o que alguém pode querer ouvir. Pois, como disse Adorno (em defesa da música de Schoenberg), “só se gosta daquilo que se conhece.”

(lembro sempre de Bruno Kiefer dizendo, numa aula de música brasileira, se se enganavam os que tomavam por música popular aquilo que ouviam no rádio)

Percebem o ciclo vicioso ? Enquanto produtores e gravadoras dominarem, mais comumente pelo expediente do jabá, a programação do que é tocado em estações de rádio comerciais, a audiência não será mais do que massa de manobra, doutrinada para o consumo de bens que anunciantes queiram vender, aí incluídos e principalmente os produtos sonoros.

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Do pouquíssimo que sei de economia, consta como um dos princípios pétreos do estado liberal o de permitir (leia-se ao capital empreendedor) a exploração dos segmentos mais rentáveis da economia e assumir aqueles que, conquanto deficitários, são essenciais à preservação do tecido social. Como saúde, educação e segurança. Entusiastas de um estado mínimo já falam abertamente de um certo caráter supérfluo da cultura e até mesmo da extinção de disciplinas e redução de investimentos em educação pública. E a direita, hora empoderada, vê na cultura e mesmo em disciplinas como história, filosofia, sociologia, artes e afins pólos de geração e irradiação de pensamento de esquerda. Mas isto já é outro assunto.

O que nos interessa, neste momento, é que muitos grupos demográficos, ainda sem acesso à internet, ainda estão exclusivamente conectados (e de modo apenas unidirecional, ao contrário do que se dá na web !) ao mundo por meios de broadcasting. Então, mesmo que as frequências de rádio e os canais de televisão aberta sempre tenham sido sustentados por receitas próprias, oriundas da cessão de tempo de broadcasting a anunciantes, isto não significa que a exploração do que é veiculado (em ondas que, afinal, existem de fato num espaço público !…) no rádio e na TV deva ser concedida “naturalmente” (i.e., tendo por base exclusivamente históricos exitosos de investimentos privados no setor) à iniciativa privada. Qual o ganho público ? Quem lucra mais: produtores ou espectadores ? Se forem estes os critérios, então, o atual sistema de concessão de frequências de rádio e TV claramente não satisfazem.

Em emissoras públicas, ao contrário, a atribuição de relevância a cada conteúdo jornalístico ou artístico concorrente à grade de programação é orientada sempre pelo interesse público – que não é, como vimos acima, o gosto do público (pois o que cada um gosta de ver não é, na maioria das vezes, o que cada um gostaria de ver, fosse maior o leque de opções). Nelas também se dá o predomínio de músicas e outros conteúdos produzidos localmente e/ou por pequenos produtores e tendo em foco personalidades locais ao invés de celebridades.

Então, conquanto deva haver vários outros motivos, só as razões elencadas acima já são, por si só, suficientes para que se queira abolir, por norma constitucional, a concessão de licença para operação de prefixos de rádio e TV a entidades cuja existência não seja dedicada, por força estatutária, ao interesse público, garantido por meio de dispositivos de controle social. Como universidades, fundações culturais, museus, teatros e afins. Com programações orientadas por diversidade cultural e mérito artístico, por exemplo (algo que, por definição, não há no rádio nem tampouco na TV privados). Notem, também, que deixei igrejas fora desta lista (pois religião e interesse público não tem nada a ver um com o outro). Imaginem passear por um dial povoado por estações geridas por instituições assim.

Se esta miragem não lhes parecer por demais utópica, defendam a imediata revisão dos critérios para concessão de frequências de rádio e canais de televisão, em nome da inclusão de dispositivos que garantam o controle social sobre seu interesse público. Obrigado.

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Primeiros comentários sob um post sobre as razões de ser das orquestras

batutas-15Não é novidade para quem lê este blog que, de uns tempos prá cá, temos publicado, muito mais do que textos originais, comentários derivados dos mesmos. Só que a imensa maioria dos comentaristas ainda prefere comentar posts em redes sociais ao invés de nos sites e blogs onde são originalmente publicados – mesmo sabendo que a permanência do que é dito é muito maior em sites do que em redes sociais (soube, esses dias, que já há uma plataforma, acho que snapchat, que deleta tudo o que nela aparece pouco tempo depois !…).

Então, até como forma de dar continuidade a uma auspiciosa discussão que procurei, com o post anterior, iniciar, resgato, para a permanência do blog e para vossa reflexão, os primeiros e valiosos comentários deixados sob a divulgação do mesmo. Notem que, ainda que sejam apenas dois os comentaristas iniciais, deixaram pareceres qualificadíssimos, vindos de dois universos opostos, mutuamente excludentes – a saber, de um lado, o de quem é profundamente habituado a concertos e, de outro, o de quem precisa viajar 500 quilômetros para ouvir a orquestra mais próxima. Ameaçada, aliás, de extinção por determinação governamental.

Muito obrigado, então, Breno Freire, que ainda não conheço pessoalmente, e Solange Maciel, que conheci no sertão baiano, pelos ilustrativos comentários deixados, abaixo transcritos. Que sirvam de combustível a esta virtuosa discussão. Para que orquestras como a OSBA deixem de ser ameaçadas pela pura ignorância dos ungidos pelo voto.

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Breno Freire Tenho muito para falar sobre isso também. Faltou-me a iniciativa da escrita. Curioso para saber a justificativa da determinada passagem ” orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros”.

Augusto Maurer Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica, não conseguem concorrer com alternativas mais econômicas de performance. Por exemplo: por que utilizar uma orquestra num espetáculo de crossover, quando uma banda de rock pode dar conta da tarefa com muito mais economia e eficiência ? Obrigado por se interessar pela discussão !

Breno Freire Augusto, fundamental é falarmos sobre isso ! Se nós, os músicos, não discutimos e tivermos claro em nossas perspectivas os porquês de uma orquestra, estamos perdidos. Vamos lá, entendo seu ponto de vista. porém, ascendo a questão para alguns pontos:

1) Antes de tudo, penso que popularizar não é flexibilização de programação. Popularizar no meu ponto de vista, é tornar o evento economicamente viável para a prática de todas as diferentes categorias de remuneração da sociedade, a ponto de não se excluir público pelas condições determinadas pelo preço. A orquestra é fruto de trabalho humano, e portanto feita por seres humanos PARA seres humanos, TODOS e TODAS devem ter acesso a ela.

2) “gosto popular” – o que é o gosto popular ? Pela sua afirmação parece-me que existe um “gosto popular” que é aquele que é formado pela apreensão “fácil” de músicas ” fáceis” e o gosto “erudito” formado pela intelectualização da apreensão estética. Além de eu não concordar com essa fala, acho que ambos sabemos que um deles é forjado para alimentar uma cultura burguesa distante da realidade total em que vivem os seres humanos. A popularização das entidades orquestrais se dá justamente pela sua prática na sua plena forma do “dever-ser” e para além de uma questão de repertório, fornecer a humanização dos sentidos ao maior número de pessoas, estamos falando de trabalho humano. Se “privarmos” o acesso em decorrência de categorias salariais, vamos entender que a orquestra age como uma propriedade privada na sua forma de expressão plenamente capitalista, na qual a pessoa deve pagar para ter acesso. Sou a favor de caminharmos para custos de ingresso tendendo a zero, e assim a responsabilidade do Estado em comprometer-se com uma entidade que não busca lucrar, mas busca potencializar nas formas mais intensas e complexas, os seres humanos.

3) Repertório – O gosto por Beethoven só vai existir se a pessoa ouvir Beethoven. Mas para isso acontecer, ela precisa adentrar ao espaço do concerto, sentido que aquilo é parte dela, ou seja, que se identifique com a orquestra. Não é o repertório, na minha opinião, o fator determinante para a não potencialização da audição da música. Acho sim, que essas questões residem na esfera capitalista, em sua forma monetária. Pessoas de menor poder aquisitivo não vão, porque não tem acesso ( entenda acesso não apenas como determinação de valor, mas também cultural ) e por consequência, a questão do repertório acaba travestida num ponto que, na minha opinião, não é o dela. Orquestras devem tocar o repertório que para ela foi escrita e as pessoas terão a oportunidade de escolher se lhes agrada ou não, o que vai além de uma determinação de gosto por questões relativas ao dinheiro.

É isso meu camarada, um abraço. Obrigado por compartilhar.

Augusto Maurer Concordo plenamente que orquestras devem ser acessíveis a todos. Sou, no entanto, radicalmente contra a flexibilização por meio da facilitação de seu repertório em nome da ampliação da audiência. Então, parece que estamos de acordo. Mas reconheço que preciso clarear melhor alguns pontos. Tomara que esta discussão frutifique !

Breno Freire Também sou, Augusto ! Não é assim, no meu ponto de vista, que vamos encher as casas de concerto, não com essa falsa sensação de que se populariza por meio da “facilitação” de repertório. Todas as pessoas merecem um Gurre-Lieder, uma segunda de Mahler, um Willy Correa e um Pixinguinha.

Breno Freire Torço para florescer esse debate cada vez mais nos núcleos de música !

Solange Maciel Gosto muito de ouvir uma orquestra, embora onde moro há alguns anos, não tenha sido possível, até o presente momento, apreciar tal evento, e sempre pensei na ideia de acessibilidade das orquestras, mas, confesso, que pensava nessa “flexibilização de repertório”, na minha ignorância, até ler o que o senhor escreveu nessa resposta, professor Augusto Maurer. Realmente, agora entendi esse aspecto e concordo plenamente com o senhor. Essa flexibilização nos impediria de conhecermos um repertório mais vasto e diversificado, sobretudo, elaborado por quem efetivamente conhece uma orquestra. Achei muito interessantes e esclarecedores os seus argumentos.
Ah! E desculpe-me pela intromissão (extremamente leiga!) nesta discussão.

Augusto Maurer Muito obrigado, Solange Maciel, pela intromissão, sempre bem-vinda: com efeito, é só por isso que escrevo, i.e., tentando conversar e polemizar. Só para de me chamar de senhor – ou também vou te tratar por senhora !

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Atualização em 06 de janeiro de 2017: enquanto publicava os comentários acima, me chegaram mais dois, de frequentadores habituais de concertos, expressando opiniões de certo modo contrárias; o primeiro, reivindicando a ampliação do repertório por meio da maior inclusão de obras recentes e populares, com menos repetições; o segundo, advogando justo o contrário, i.e., mais repetições das peças mais populares entre ouvintes em nome da ampliação da audiência. O segundo comentário abaixo também trata com agudeza do problema da amplitude semântica da palavra popular, exigindo – com razão – definições mais precisas, das quais trataremos adiante. Difícil equação, cuja solução ainda não vislumbro. Fiquem, então, por enquanto, com mais estes argutos comentários resgatados da algaravia do facebook. E obrigado, André e Norberto, por se juntarem a esta importante conversa !

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Norberto Flach Tirando as grandes e centenárias orquestras europeias e norte-americanas, quais orquestras sinfônicas são “apenas” sinfônicas? Não têm que fazer parte de um contexto mais amplo, de arranjos sinfônicos de música popular, grupos menores para repertório de câmara, uma ou outra ópera, escola de música etc? É isso, ou a inexistência. (Agora, só aqui entre nós: acho que tem muita música sinfônica do século XX excelente ou pelo menos boa. Quero dizer: muito mais do que o pessoal costuma programar. São ingleses, europeus orientais, japoneses e por aí vai. Mas o pessoal prefere programar pela cagagésima vez aquela música para fogos de artifício).

Andy Serrano sobe esta passagem:

“Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica”

O que me vem a cabeça são duas formas de entender a palavra “popular”…

Uma coisa é a orquestra que interpreta a “música popular”, do tipo “música popular brasileira” ou ” música popular americana”, ou “música popular alemã”, etc… ou seja, peças originalmente não sinfônicas.

e OUTRA coisa é a orquestra ter PEÇAS SINFÔNICAS que sejam do APREÇO POPULAR. (melhor não elencar Karmina nem Bolero pra não reeditar celeumas).

Minha opinião é que peças de apreço popular (e podem ser sinfônicas sim) são porta de entrada para que as pessoas entendam melhor uma orquestra, e passem, consequentemente, a buscar por mais apresentações das mesmas.

E tampouco penso ser isso um “mal necessário” para a orquestra… embora imagine que, depois de tocar a mesma peça tantas vezes, seja um saco também.

Para que servem orquestras ? Por que sua existência deve ser garantida pelo estado ?

batutas-14Já ouvi de uma amiga, eminente economista de inclinação liberal, que é papel do estado assumir direitos dos cidadãos desprezados pelo capital privado. Orquestras, como um dos mais conhecidos e onerosos equipamentos culturais, pertencem a esta categoria. Tanto que as poucas mantidas predominantemente por recursos públicos são constante alvo de projetos de enxugamento por parte de partidos que almejam um estado mínimo. Nessas horas é que mais pessoas se perguntam para que servem, afinal, orquestras sinfônicas. Pergunta difícil, que tentaremos responder abaixo, por partes.

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A primeira e talvez principal razão para a existência de orquestras sinfônicas tem a ver com a execução de um repertório, altamente redundante, predominantemente composto durante um período de uns 200 anos por europeus em sua maioria.

Poucos compositores compõem (cada vez menos) ou compuseram sinfonias. Os bons, pelo menos umas 4; os melhores, raramente mais do que 9 (depois de Haydn ou Mozart (cuja produção juvenil deve ser, para efeito de execução pública, descartada), só aqueles dois russos). De sorte que, se ouço falar de algum sinfonista vivo, fico imediatamente curioso, tratando logo de verificar se o mesmo efetivamente se ergue acima dos ombros de um Mahler, Nielsen ou Shostakovich. Costumo me decepcionar.

Neste contexto, não são poucos os que taxam a música sinfônica de ser, além de francamente elitista (refutaremos esta falácia noutra ocasião), limitada a um repertório fechado e redundante. Têm razão no que toca ao reperrtório. Mas isto não quer dizer que orquestras sejam de modo algum obsoletas.

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Uma segunda razão para a manutenção desses conjuntos musicais, dedicados à execução repetida de um repertório composto quase totalmente no passado, até tidos por uns como dinossauros (não falarei, neste post, de extinção, prevista por alguns, de orquestras como hoje as conhecemos (i.e., fixas) em até 30 anos), é que não se pode conceber a plenitude da audição de um bom concerto sinfônico em um bom auditório a não ser pela própria experiência.

Deste modo, ninguém pode conhecer, de fato, uma sinfonia meramente pela reprodução de gravações da mesma. Isto por que, enquanto na plateia de um concerto ouvimos sons produzidos por fontes dispersas em um espaço contínuo que chegam até nós refletidos por múltiplas superfícies, quando escutamos música gravada ouvimos, na maioria das vezes, sons vindos de apenas duas fontes (quando em estéreo) ou, mais raramente, em até 5 canais (como em algumas salas de cinema). Não é a mesma coisa.

É difícil explicar a quem nunca foi a um bom teatro ouvir boa música tocada por uma boa orquestra por que a experiência é bem diferente de ouvir uma gravação da mesma música nos melhores home theaters. Ainda mais hoje, que chegamos instantaneamente à melhor música sinfônica (as melhores obras pelas melhores orquestras com os melhores solistas e maestros) já está há muito disponível online, em plataformas como o youtube. Só que nenhuma gravação de som ou imagem obtida por meio de qualquer tecnologia conhecida substitui a experiência única de ouvir esta mesma música ao vivo em um concerto. Muito se pode falar da degradação histórica da qualidade de experiência auditiva em espetáculos musicais. Da amplificação eletrônica, do fim do silêncio, do encurtamento das formas. Mais tarde, talvez.

Por hora, apenas deixemos sublinhado que há muitos outros aspectos a serem observados na participação como ouvinte em concertos sinfônicos, principalmente se levarmos em conta a evolução dos espetáculos musicais desde seu surgimento até os dias atuais. Mas, como disse ainda há pouco, so much for one post (mais tarde, quem sabe…) Que fique apenas registrada, por enquanto, a enorme importância, em qualquer época, dos ritos de escuta coletiva, sincronicamente compartilhada.

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O que está escrito acima é uma revisão severa da parte aproveitável de algo editado pela última vez mais de um ano atrás (joguei a maior parte fora). O rascunho foi desencadeado pelo fato de eu ter sido incumbido, ainda antes, numa assembleia de músicos da OSPA, de redigir algo que, de algum modo, esclarecesse à opinião pública para que serve, afinal, uma orquestra hoje. Se demorei, no entanto, para retornar à tarefa – mesmo com sua questão norteadora reverberando incessantemente desde então em minha mente (com efeito, é para mim praticamente uma questão de vida), foi por jamais julgar ter elencado motivos suficientes ou suficientemente bons.

Até uns dias atrás. Por meio do seguinte comentário que deixei sob uma postagem no facebook, respondendo a alguém que acreditava que orquestras devem subsistir exclusivamente do que arrecadam na bilheteria de seus concertos:

Orquestras não pertencem, como muitos devem acreditar, à indústria do entretenimento e, portanto, não podem depender de arrecadações de bilheteria. São, sim, sofisticadíssimos equipamentos educativo-culturais, cuja função é ampliar horizontes estéticos. Se tiverem, no entanto, que depender do gosto do público e da mesmice que o mesmo estaria disposto a pagar para ouvir (para isto existem as mídias comerciais), já não servem mais para nada.

Foi, ao que me recordo, a partir deste instante que me ficou absolutamente claro (como não me dei conta disto antes !…) que orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros. Para explicar o por que disto, preciso de um outro post, que já prometi acima, sobre a evolução das plateias de espetáculos musicais. Por enquanto, é suficiente dizer que, por sua pouca afinidade natural ao lucro, orquestras devem ter sua existência, como disse minha amiga liberal, garantida pelo estado. Caso contrário, têm suas atividades corrompidas (como pode ser visto em tantos casos próximos e distantes) ao serem utilizadas, em muitas ocasiões, muito aquém de todo seu potencial artístico.

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Atualização em 25/1/2017: Este texto dialoga diretamente com outro, de André Egg, publicado ontem: A importância de orquestras e sua manutenção. Ele vê alguma contradição entre o que eu disse aqui e quase três anos antes em Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política. Obrigado, André, por tocar em frente uma discussão tão importante ! Terei que me puxar para oferecer uma réplica à altura.