Um último post em 2016: a tentativa de extinção da Fundação Piratini num contexto distópico maior

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Sei que agora, quando todos devem se unir para salvar a Fundação Pirtatini, talvez não seja o melhor momento para refletir com um pouco mais de profundidade sobre o contexto que, se não levou a ela, ao menos favoreceu a extinção pretendida das emissoras estatais gaúchas.

A extinção é socialmente nociva e, como tal, deve ser combatida por todos com todos os meios possíveis. Ainda assim, vejo com alguma desconfiança o valor para a causa de uma enquete promovida pela Rádio Guaíba sobre a aprovação popular do pacote de maldades do governo Sartori. Quando votei, o placar estava em 60% contra X 40% a favor. Me disseram que já esteve pior, com 56% contra e 44% a favor. Mesmo assim, 40% é mais dos que os votos obtidos em primeiro turno por alguns vencedores das últimas eleições.

Ora, é impossível entender estes resultados, ainda que preliminares, com tanta gente a favor da extinção das fundações, sem levarmos em conta por quem a enquete foi promovida. Pois a Rádio Guaíba pertence à Igreja Universal desde 2007, quando foi comprada, juntamente com o Correio do Povo e a TV Guaíba, pela Rede Record. Então, não é possível se confiar na representatividade demográfica do recorte social que respondeu à enquete. Ou, se quiserem, considerem a amostra viciada.

* * *

Minha reflexão, talvez para depois que a Fundação Piratini tenha retomado suas atividades e não esteja mais sob ameaça, tem a ver com a política de concessões dos meios eletrônicos de broadcasting (i.e., rádio e TV). Reza o mantra liberal que a concorrência aprimora a qualidade e que, portanto, estações públicas estariam fadadas, pela própria ausência de concorrência, no máximo à mediocridade. Não é, entretanto, o que se tem visto. Exemplos estrangeiros de broadcasting público de qualidade exponencial são a BBC inglesa, a PBS norte-americana, e os múltiplos canais públicos franceses e italianos. No Brasil, a TV Cultura é uma referência imbatível em muitos quesitos. Aqui, tínhamos, nos mesmos patamares, a TVE e a FM Cultura. Infelizmente, só até poucos dias atrás.

Ora, não consigo ver a tentativa de extinção da Fundação Piratini e seus veículos simplesmente como um fenômeno isolado, independente do avanço das emissoras evangélicas. O desmonte faz parte de um plano maior, com o silenciamento de vozes independentes, submetidas ao controle social, em favor das vozes de grupos religiosos dedicadas ao enriquecimento de seus líderes. Grupos que já tomaram o poder legislativo e agora tentam aniquilar todo espírito crítico (vide reforma do ensino, escola sem partido ou até o delírio calheiriano de vir a criminalizar a web) por meio da supressão dos únicos veículos cuja programação e linha editorial não eram deixados ao sabor do mercado.

Então, sem mais delongas, se fosse para resumir este post a um slogan, este seria:

Mais emissoras públicas

e

Fim da concessão de prefixos de rádio e canais de TV a grupos religiosos !

(estas bandeiras deveriam ser imediatamente agregadas à luta pelo fim da isenção tributária das organizações religiosas)

Enquanto isto, precisamos, como sociedade, nos aprofundar na discussão de quem deve e quem não deve controlar meios de rádio e tele difusão. Pois a extinção da Fundação Piratini, conquanto revoltante, é só a ponta de um iceberg. O pior ainda está por vir. Que sejamos vitoriosos em 2017 !

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