Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS

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Não gosto de reuniões, nem tampouco de assembleias. Principalmente por causa do obsoleto protocolo de uso da palavra nas mesmas, absurdamente serial para o tempo em que vivemos. Tanto que não vou às plenárias departamentais há uns 20 anos. Até por que a universidade pública brasileira é um paraíso autogestionário onde, felizmente, estou cercado de pares bem mais aptos do que eu.

Hoje, no entanto, irei numa no Instituto de Artes da UFRGS. Entre seus professores, servidores e alunos. Os últimos ocupam o prédio do IA há várias semanas. Durante a ocupação, atividades essenciais para graduandos, como bancas e recitais, foram mantidas por algum tempo e, num dado momento, suspensas por completo. Obrigando, inclusive, alguns alunos a obterem, para o cumprimento de exigências para suas formaturas, salas de concerto fora do IA.

A última, soube agora, é que ocupantes pedem a renúncia à direção do IA da Profª Lucia Becker Carpena, sob alegações, entre outras, de que

Lucia seria golpista, favorável ao governo Temer. O que só pode ser coisa de gente desconectada, que não vê o intenso engajamento de Lucia com as grandes causas, em especial as que tenham a ver com educação; ou, ainda, de que se posicionaria como

defensora da lei da mordaça.

Ou seja: praticamente o diabo em pessoa.

Chama a atenção, também, que Lucia seja a pessoa mais citada na peça difamatória que recebi: seu nome aparece em vários parágrafos. Ou seja: ela (ou se preferirem, sua cabeça numa bandeja) é inegavelmente a pauta do encontro.

* * *

Também não gosto de quem tente se esconder por trás de coletivos anônimos. Assim, preciso descobrir quem de fato redigiu o email (não conto nem sob tortura de quem o recebi – mas aposto que foi enviado à maioria pela mesma pessoa). Enfim, instruído por seja qual for ghost writer, custo a acreditar que o email que me foi “repassado” tenha sido redigido por qualquer dos ocupantes do IA. Que, nos primeiros dias da ocupação, escreveram “tercerização” (ou “tercerizados”, não lembro ao certo) numa lousa – assim mesmo, sem o i depois do segundo e. Já o longo email onde um coletivo anônimo pede a cabeça de Lucia, ao contrário, é de uma redação impecável. Digna, no mínimo, das melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias. Difícil, portanto, acreditar que tenha vindo de lá de dentro.

Não entrarei, por hora, no mérito do constrangimento a que outros professores foram (ou não, como dizem os ocupantes anônimos) submetidos.

Só acho que, ao pedir a cabeça de Lucia como diretora do IA, seus ocupantes, conquanto cobertos de razão em sua pauta mais genérica de reivindicações, estão mirando no alvo errado. O golpe está francamente em curso em várias frentes e, enquanto muitos protestam no Congresso Nacional ou na Praça da Matriz, os ocupantes do IA, encastelados no prédio da Senhor dos Passos, serão logo esquecidos e, portanto, mais facilmente subjugados. A menos que, antes disto, ajustem a mira para alvos mais realistas.

* * *

Conheço Lucia há uns 30 anos, desde que fomos colegas também como alunos do IA. É inegável que, naquele tempo, universitários tivessem muito mais perspectiva de um futuro auspicioso do que agora. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que se vive hoje no Brasil um cenário educacional distópico, tanto ou mais sombrio do que conforme imaginado em The Wall, do Pink Floyd, ou, ainda, em O Inimigo da Classe, de Peter Stein (Klassenfeind, Alemanha, 1983).

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Cena de Klasenfeind, de Petet Stein (Alemanha, 1983)

De qualquer modo, penso que o IA tenha sorte de ter à frente, como diretora, alguém como Lucia. Pois, mesmo na utópica autonomia da universidade, conheço poucos tão capazes, idôneos e dedicados. Ela ainda quer ser diretora do IA ? (pois não tem a menor obrigação disto) Então, agradeçam aos deuses do saber por terem mais sorte do que juízo e a deixem trabalhar em paz !

E, é claro, me poupem de mais emails difamatórios.

* * *

Foto: Guilherme Santos (Sul21)

(ontem, enquanto ouvíamos, numa prova, a brilhante classe de alunos de Lucia junto a um cravo (pois o do IA está… indisponível) que há na excelente sala de música existente no complexo do multipalco do Theatro São Pedro, ouvíamos, de vez em quando, as detonações dos rojões de gás do choque da BM  na praça em frente. Nunca imaginei que veria a BM dispersar com gás manifestantes da Susepe. Que tempos !)

11 respostas para “Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS”

  1. Custo a acreditar que o que consta do artigo acima seja verdade. Como podem os alunos que foram apoiados pela diretora Lúcia, minha amiga e companheira de lutas, fazerem acusações tão rasteiras e tão infantis? Quem os está insuflando? Será possível que ajam de moto próprio para fazer tamanha canalhice? Custo a acreditar.
    Depois que redigi o parágrafo acima, me informaram que o mesmo fenômeno está acontecendo também em outros Institutos dá UFRGS, como na Faculdade de Educação, na de Psicologia e Serviço Social e também no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Fica claro, portanto, que há forças organizadas agindo e, ao que parece, se valendo do movimento dos Ocupas para disputar e ocupar espaço político na UFRGS e fora dela. Lamentável. O autoritarismo e a tacanhice não são exclusividades da direita.

    1. E não é verdade! O autor troca as citações da carta lida pela diretora no CONSUN com a nota de repúdio escrita pelos alunos. Ela é que acusa alunos e professores e funcionarios mobilizados de serem apoiadores do governo Temer, justo aqueles que mais se mobilizaram contra as medidas abusivas desse governo!

  2. Obrigada por escrever este texto brilhante na defesa da nossa não menos brilhante Diretora do IA, nossa querida colega Profª Lucia Carpena!
    Lembro de quando ela me falou que estava pensando em se candidatar para a Direção do IA., e perguntou minha opinião. E eu disse a ela que, para a minha amiga Lucia, eu não desejaria tal responsabilidade. Mas que, ao mesmo tempo, sabia que ela seria uma excelente gestora, e que o IA estaria muito bem representado tendo a ela como sua Diretora. O que está confirmado pelo seu incansável trabalho até aqui! Bravos, caro Augusto! Traduziste em palavras nosso pensamento!! Grande abraço!

  3. Nossa! Esse é uma matéria de puxassaquismo explícito, sem nada acrescentar, ficamos na mesma,A sem saber ao que veio e o que pensar de tal matéria.

    1. De fato, é isto mesmo: puxassaquismo explícito. Ou carta de recomendação, como preferir chamar. Por isso mesmo, quero ouvir a “outra parte”. Já pediram direito de resposta, por suposta difamação (lembro de poucos posts meus anteriores a este que tenham sido tão… valorizados), mas nada recebi até agora. Tão logo me enviem, publico com igual ou maior destaque. É o mínimo que devo aos leitores.

      Obrigado, Adriane, pela merecida crítica !

  4. Prezados colegas, total apoio para Lucia, que no presente momento tem sua pessoa confundida com o lugar de poder que culturalmente é atribuído à gestão. Porém, não é possível que os mesmos alunos que fizeram tanta autoanálise do movimento, que mostraram as vísceras da experiência da ocupação e das relações institucionais repensadas nesse momento tenham escrito tudo isso que se alega. Talvez um anônimo ressentido, um grupo muito localizado. Não podemos tomar por todos o que é de um ou outro foco irracional

  5. Caros leitores. Existem vários equívocos no texto publicado pelo Prof. Augusto no Sul21, divulgado aqui. Em primeiro lugar, os estudantes não pediram renúncia da Profª Lúcia Carpena e pouco se referiram a ela na assembleia de ontem. Esse ponto foi aparentemente baseado em boatos. Os estudantes também não disseram em momento algum que a Profª. Lucia apoiava o governo Temer. O que ocorreu foi o contrário. Segundo a carta dos estudantes, ela teria dito em sua carta ao Consun que o governo Temer estaria encontrando aliados dentro de nossa Universidade, se referindo aos estudantes das ocupações e aos professores e funcionários técnico-administrativos mobilizados. Aqui houve um problema claro de interpretação.

    De minha parte, fico chocado em ver os estudantes sendo tachados de incapazes como está dito no artigo. Se eles assim o fossem, deveríamos então fazer o nosso mea culpa e entender o porquê dessa incompetência, já que somos nós os educadores. As assembleias e manifestações orais e escritas feitas pelos estudantes da ocupação mostraram o que qualquer pessoa sensível já sabia: eles têm total capacidade de escrever, formular ideias e de pensamento crítico sofisticado, o que ainda se torna mais elevado devido ao seu grande senso de coletividade. Também me choca quererem dizer que os professores mobilizados e que apoiaram a ocupação estariam utilizando os estudantes como “massa de manobra”. Sendo eu um destes professores e conhecendo os demais colegas mobilizados, estou certo de que isso não ocorreu. Creio que a publicação do artigo só trouxe prejuízo à imagem de nossos estudantes, de nosso Instituto e também da Diretora.

    O que vi na assembleia de ontem foi a demonstração de que a Ocupação foi um grande momento de nossa história e que foi o começo de um movimento maior que trará uma nova visão de mundo na busca de maior igualdade e de respeito às diferenças. Um dos frutos desse momento, foi a criação de um coletivo permanente para discussão de ideias e ações, anunciado ontem pelos estudantes, ao qual convidaram todos os interessados, discentes, docentes, técnico-administrativos e terceirizados, a participarem. Como disseram os estudantes, a semente foi plantada!

    Atenciosamente,
    Felipe Adami.

  6. Indico um texto de minha autoria em resposta a este, no qual consta também link de acesso à “Carta de Repúdio e Esclarecimento” que foi concebida e publicada pelos(as) estudantes da Ocupação do Instituto de Artes. Baseado em boatos e má interpretação do texto, o autor deste blog faz duras e equivocadas críticas às falas que atribui aos(às) Ocupantes, contudo em momento algum indica um link de acesso para os leitores do Sul 21 tirarem suas próprias conclusões. Link de acesso ao texto “Falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico”:
    http://impromptu.sul21.com.br/2016/12/direito-de-resposta-concedido-ao-que-foi-publicado-neste-blog-ha-dois-dias-atras/

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