A polêmica do ano: o Nobel de Literatura para Bob Dylan

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Uma das melhores coisas das festas natalinas é encontrar familiares, parentes e amigos de cuja presença raramente desfrutamos, apesar de estarmos, hoje, muito mais conectados. No meu caso, a grande alegria desses festejos se traduz em encontrar os primos com quem passei todas as férias de verão de minha infância e juventude em Capão da Canoa.

De sorte que foi numa dessas festas que meu primo André me explicou por que toda música popular depende da repetição e que meu primo Robson proferiu a frase que não para de reverberar, desde então, em minha mente (ah, a vaidade…): ” – Então, Guto (são os únicos que me chamam assim), foste o polemista do ano ? “

É claro que tomei aquilo por um grande elogio. Voltei para casa encafifado. Abri o administrador do blog e percorri os títulos de tudo o que escrevi em 2016 em busca de tudo o que pudesse ser classificado como polêmico, tendo encontrando, no entanto, entre os posts mais recentes, além da diatribe contra Carmina Burana (que gerou, além de um ilustradíssimo thread de comentários, até um contraditório mais extenso que deu origem a um blog (!)), pouca coisa que pudesse rotular de ostensivamente polêmica – como, por exemplo, a diatribe contra o crossover (de 5 de setembro de 2015) e um post sobre a permanência das músicas tonal e atonal (de 21 de maio de 2014), sendo que o último foi o quarto texto a ser publicado aqui – sugerindo, com isto, que a busca por grandes polêmicas vem sendo uma tônica no impromptu desde a sua criação.

Não tendo achado, assim, no blog, evidência suficiente, a meu ver, para que eu pudesse ser tido por amigos queridos como polemizador contumaz, pensei em minha atividade em redes sociais (restrita, em meu caso, ao facebook) e aí sim, devo admitir: busco, antes de tudo, o contraditório veemente e qualificado. Tanto que já me acostumei a ser rebatido por interlocutores dos mais respeitáveis.

Feliz, então, com o elogio natalino, me dei conta de que, na urgência da interação cotidiana em rede, deixara de transportar, em 2016, para a permanência mais reflexiva do blog aquela que talvez tenha sido a principal polêmica do ano, a saber, o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan. Logo que anunciada, a láurea causou tanto a indignação de bibliófilos quanto o regozijo dos especialistas em canção popular. Mais do que qualquer mérito literário de Dylan estava em jogo, antes de tudo, a própria noção da letra de canção como campo literário.

Enquanto muitos especulavam sobre se ele aceitaria ou não o prêmio, Dylan permaneceu em silêncio. Até fazer lerem, na cerimônia de entrega do prêmio, uma carta cuja principal tese é a de que ele, como Shakespeare (sic !), jamais aspirara ao status de literatura para aquilo que fazia. Peças teatrais e canções, num e noutro caso. Penso que a analogia não seja válida, por uma razão muito simples: embora tenhamos hoje uma noção relativamente clara, ainda que empiricamente deduzida, sobre no que consiste, afinal a literatura, não tenho tanta certeza assim de que houvesse, nos tempos de Shakespeare, o mesmo entendimento. O que era literatura para o inglês comum daquela época ? Por certo algo bem diferente (se é que, nos primórdios da autoria individual, significasse alguma coisa) do que significa para alguém do nosso tempo.

* * *

Conheço pouco as canções de Dylan para lhes aferir o valor. Se levou o prêmio, é por que fez alguma coisa antes de qualquer outro (poderiam, por gentileza, me dizer o que ? Esta não é uma pergunta retórica). Pois reconheço mais sua voz do que seus versos. O que não ocorre com, pelo menos, letristas que também sejam poetas maiores. Então, em minha ignorância quanto a seus textos, o trato, doravante, mais como dono de uma voz (intérprete) do que como um autor (songwriter). Sei que esta simplificação é grosseira e que devo, portanto, estar enganado.

Consoante a isto, me espanto com a concessão da icônica láurea literária ao autor de, antes de qualquer outra coisa, uma vasta coleção de canções. Não, o álbum (primeiro o LP; depois o CD) não é, salvo um ou outro tíitulo conceitual mais experimental, uma unidade discursiva. No máximo, uma unidade de distribuição comercial. Um pacote, se quiserem. Ainda que integrado por um punhado de canções, conquanto autônomas, que tenham sido compostas em um mesmo contexto criativo ou executadas pelos mesmos músicos. Como poemas em um livro, dirão – com o que terei que concordar. Só que dificilmente, suponho, alguém lê um livro de poemas linearmente, como se todos os seus versos fizessem parte de um encadeamento obrigatório. Então, podemos dizer que, num volume de poemas, a extensão monológica (definida no próximo parágrafo) se limita, na maioria das vezes, a cada página.

Não pensem vocês que minha decepção com a nobelização de Dylan tenha a ver, de algum modo, com a abolição da impressão encadernada como província exclusiva da expressão literária. Tal argumento é purista e raso. Minha estranheza em relação à nobelização de Dylan se deve, antes, a um parâmetro que poderia ser descrito como extensão monológica. A expressão é autoexplicativa. Tem a ver como o tamanho da narrativa autoral. Autores criam romances, novelas, contos ou poemas. E, mais recentemente, posts e tweets. Então, da mesma forma que não consigo equiparar movimentos de 10 ou 15 minutos com singles de 3 ou 4, ainda me causa bastante estranheza a atribuição de excepcionalidade a qualquer coisa menor do que grandes blocos monológicos. Pois, até o desconcertante Nobel de Dylan, estávamos (eu, pelo menos) acostumados a reconhecer algum gênio apenas em obras monumentais de gigantes como Mann, Proust, Dostoievski ou mesmo dramaturgos como Shaw ou Shakespeare, que dominaram as grandes formas (o grande romance, o drama em vários atos). Reconheço até a dimensão literária das obras de poetas maiores como um Pessoa, um Whitman ou um Drummond. Só que, do poema autônomo para a letra de uma canção (embora muitas vezes o primeiro tenha sido apropriado como o segundo), há uma enorme distância. De tal modo que acho bem mais difícil pensar em autores de letras de canções populares no mesmo patamar criativo de donos das melhores narrativas e da melhor lírica de seus tempos. Mas não devo reclamar, no entanto, se as definições das categorias são tão variáveis. Ao contrário. Nem me surpreender se, num futuro não muito distante, o nobel de literatura for concedido a alguém cuja produção verbal esteja restrita só à internet ou (por que não ?) a meios não escritos. Quem sabe até textos colaborativos.

Ainda assim, se for para reconhecer, como fez a Academia Sueca, a canção como literatura, sou mais Chico Buarque. De ignorante que sou. Já vocês, que conhecem música popular bem melhor o que eu, devem ter outros favoritos cujos discos levariam para uma ilha deserta muito antes dos de Dylan (que, é claro, também tem grandes méritos !).

Também não deve ter passado despercebido a nenhum bibliófilo que o único livro já escrito por Dylan não passe, como li nalgum lugar, de “prosa lisérgica”. Sem qualquer curiosidade por conhecer o original, preferi, no entanto, entender a descrição, conquanto preconceituosa, antes como referência a alguma liberdade linguística, como em Joyce ou em Guimarães Rosa. Só que, ainda que por puro preconceito, escolheria mil vezes, dentre aqueles livros dignos de serem levados para a ilha deserta, Ulysses e O Grande Sertão: Veredas a Tarântula.

Então, como dizia o Manolo: ” – Que venga el toro ! ” (quiçá esta virtuosa polêmica não fique restrita apenas a este post !)

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(prometi a mim mesmo, ao iniciar este post e em nome da paciência de meus leitores, não me referir outra vez ao fascinante Parêntesis de Gutenberg)

(pensando melhor, há um germe de polêmica em praticamente tudo o que escrevo por aqui. Desde a escassez ou a abundância do talento para a regência orquestral até a volatilidade das profissões ou a obsolescência da publicidade e da representação política. Pois polemizar é, acima de tudo, atiçar os espíritos críticos)

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