Por que não ouço música em rádio

radio-3Como meio de se ouvir música, estações de rádio deixam muito a desejar. Já me debrucei sobre a atual falta de critério, senão em todas, pelo menos em parte das estações públicas aqui. Neste texto, busco um olhar mais dedicado ao problema do rádio comercial que, a julgar pela comparação entre uma memória resgatada de minha juventude, uns 50 anos atrás, e experiências mais recentes, permanece rigorosamente o mesmo – pois, ao que tudo indica, a execução desta ou daquela música nas principais estações do dial ainda é em grande parte determinada pelo jabá.

Para quem não sabe, jabá (abreviatura de jabaculê) é a propina paga pelas gravadoras a radialistas para que toquem insistentemente certas músicas em detrimento de outras.

Por volta de meus 14 anos, ganhei de meus pais num natal meu primeiro gravador portátil. Entusiasmado com a posse da nova ferramenta de descoberta, nos dias que se seguiram repeti obsessivamente um procedimento que consistia em gravar, de uma célebre estação de rádio (“na Caiçara, a música não para”), todas as músicas das quais gostasse. Se determinada música não me interessava, interrompia imediatamente a gravação, rebobinando a fita até o final da última música gravada para, em seguida, começar a gravar a próxima que me interessasse.

Assim procedendo, bastaram 3 dias para que (ó desilusão !) eu descobrisse o inevitável, a saber, que havia, então, não mais do que duas sequências de músicas (hoje chamadas playlists) – uma delas repetida exatamente a cada segunda, quarta e sexta-feira, e a outra nas terças e sextas. A partir daquele momento, decidi não mais utilizar o rádio para escutar música.

Para qualquer melômano, não ouvir rádio requer, além de uma discoteca de um certo calibre, algum planejamento. De sorte que, no carro, onde não consigo ter muitos discos, comecei a ouvir, incidentalmente, uma rádio que transmite exclusivamente colunas e notícias. Com o tempo, até acabei desenvolvendo uma forte aversão a todo e qualquer jingle, desligando o rádio sempre que os ouço – chegando, assim, empiricamente, a um limite do suportável em se tratando de bombardeio publicitário, que pode ser formulado mais ou menos assim: ainda que seja moralmente aceitável ouvir alguém apregoando verbalmente as vantagens deste ou daquele produto ou serviço (como nos reclames da Rádio Guaíba), é absolutamente ultrajante (além de irritante) ouvir peças musicais criadas exclusivamente para vender qualquer coisa.

Como nada é perfeito, quase todo programa veiculado por mídias comerciais possui uma linha editorial indisfarçavelmente partisana. Felizmente, com o tempo aprendemos a estabelecer filtros. Por exemplo. Antes mesmo de Diego Casagrande abrir a boca, já sabemos que pela frente vem um discurso anti-petista. Chega a ser monótono – até quando ele, eventualmente, tem razão. Como ouvinte, nunca entendi por que conglomerados de mídia insistem em repartir programas entre apresentadores ideologicamente idênticos; invariavelmente um figurão, mais experiente e consagrado, a proferir asneiras e um baba-ovo cuja única função parece ser a de reforçar o que é dito por seu mentor. Nesses verdadeiros chás de comadres, onde fica o contraste ? Por isto, jamais levo totalmente a sério qualquer coisa que dizem, relegando tal discurso, antes, aos domínios do humor e do entretenimento. Enquanto isto, sigo à espera de bons programas animados por um mínimo de antagonismo entre seus apresentadores.

Mas não vim aqui para falar disto. Retomo, então, depois desta breve incursão por uma senda lateral, ao propósito original de tratar do problema da música no rádio comercial. Tendo, assim, permanecido por ca. 50 anos voluntariamente virgem em relação a toda música tocada em estações de rádio, fui recentemente confrontado com a mesma ao começar a frequentar, por razões de saúde, uma academia de ginástica.

Passado o espanto de perceber que, aparentemente, ninguém consegue se exercitar em silêncio, me vi forçado a observar o que ouvia durante a nova e monótona rotina. Quase tudo o que ouvia era (felizmente !) novo para mim. Não demorou muito, todavia, para que eu percebesse que, por mais variados que fossem os horários em que eu frequentasse a academia, certas músicas me perseguiam. Fosse manhã, tarde ou noite, estavam sempre lá. Mais: algumas eram repetidas exatamente na mesma sequência, independentemente de horário. Ora, tenho que o universo amostral das músicas tocáveis em qualquer estação de rádio, por mais segmentada que seja, é enormemente variado. Então, se algumas delas se repetem insistentemente ao longo de um mesmo dia, deve haver algo maior em ação. Foi quando me convenci da permanência, até os dias de hoje, do velho e bom jabá. As únicas exceções a sua hegemonia parecem ser os pedidos de ouvintes, atendidos por razões óbvias (os broadcasting media, em seus derradeiros momentos, tentam desesperadamente parecer interativos).

Curioso pela identidade dessas músicas mais bombadas, perguntei no facebook a que locui pertenciam alguns refrões e fragmentos melódicos. Coisas como “quem é que só de rebolar te enlouqueceu / a danada sou eu” e “uéuéuéuéué” (sic !). As respostas não tardaram e, assim, fiquei sabendo que uma rádio repetia, várias vezes ao dia e sempre uma imediatamente após a outra, Sou Eu, de Ludmilla e Work, de Rihana. Lixo que dificilmente alguém ouviria (assim prefiro pensar, em razão de ainda ter alguma esperança na humanidade) não fosse a colossal promoção a que são submetidas, da qual o jabá é, sem dúvida, apenas uma parte. Então, pergunto (e não é só retórica !): face a tamanho determinismo, por que raios estações de rádio ainda contratam programadores – já que seria igualmente eficaz e muito mais econômico permitir aos que pagam o jabá atuarem diretamente em suas grades de programação ?

Mas o problema não termina aí. Dias atrás, antes de ir à academia, constatei que minha timeline havia sido invadida por uma infinidade de postagens alusivas à morte, naquele dia, de Leonard Cohen. Consoante a isto, esperava que um programa auto-definido como “a memória do rádio” (o que significa, na prática, que não toca nada produzido neste milênio) dedicasse o horário, senão exclusivamente ao menos em parte, à obra do grande Cohen. Mas não. Naquele dia, ouvi Legião Urbana, Titãs, Phil Collins, Credence Clearwater Revival, Supertramp, Madonna e uns tais Smiths e Pixels, mas nada de Cohen. Pensei com meus botões: impossível que o apresentador não navegasse na web entre uma música e outra e, face ao ocorrido, “parasse as prensas” para improvisar um programa dedicado ao mito recém falecido. Do episódio, aprendi muito sobre a suposta agilidade do rádio.

Quanto mais ouço rádio na academia, mais me convenço de que não perdi nada por meu exílio voluntário nestes anos todos. Considero a experiência (de ouvir rádio), muito mais do que de entretenimento, como uma de aprendizagem. Pois foi graças ao rádio da academia que descobri que uma canção dos Pixels é introduzida por um solo de guitarra (havaiana, retrô, a la Beach Boys, como na maior parte da “música” produzida naquelas décadas perdidas) descaradamente copiado do que inicialmente pensei se tratar do que se ouve no começo de Sugar Sugar, dos Archies (até poderia, já que as partes de uma canção pop costumam ser intercambiáveis) – mas que depois verifiquei se tratar dos compassos iniciais de La Bamba. Do episódio, aprendi o que esperar – ou melhor, o que não esperar – do pop em geral e da tão incensada música dos anos 80 e 90.

radio-5

Por que não assisto a séries de TV

series-1Ver séries de TV é como andar em círculos, ouvir várias vezes uma mesma história ou, ainda, ouvir música em forma de variações. Não é à toa que apenas grandes compositores tenham logrado êxito no complicado exercício composicional que consiste em conferir algum contorno dramático reconhecível a uma música que repete inexoravelmente um mesmo percurso harmônico. Mas tergiversei. Voltando, então.

Séries não devem ser confundidas com seriados (como Columbo, Hawaii 5.0 ou Kojac) nem tampouco com sagas (como Harry Potter, Star Wars ou o Senhor dos Anéis). As três categorias diferem entre si fundamentalmente pelo intervalo de tempo entre a exibição de cada episódio e o seguinte. Pois, se séries e telenovelas clamam pelo retorno da atenção do espectador a cada 24 horas, já seriados demandam uma atenção semanal enquanto sagas, plurianual.

O problema com todas as (poucas) séries televisivas que conheci (nunca acompanhei nenhuma) é sempre o mesmo: a monótona repetição de um mesmo ciclo dramático, culminando, ao fim de cada episódio, num “gancho” capaz de segurar a atenção do público até o início do próximo, dali a pouco menos de 24 horas. Tal fragilidade narrativa se torna, suponho, bem mais evidente com a possibilidade de se assistir, em DVD ou plataformas por assinatura como Netflix, temporadas inteiras de uma mesma série de uma só vez.

Episódios de séries são, ao contrário de capítulos de telenovelas (soap operas) agrupados em temporadas. Esta  distinção é importante por que, enquanto telenovelas se encerram, por definição, no último capítulo, jamais se pode prever quando uma série terá uma nova temporada – o que depende, muito mais do que da vontade de seus autores, do sucesso comercial da mesma e dos planos estratégicos de seus produtores.

É, assim, pela diferença entre, de um lado, um contorno dramático repetido ad nauseam (me senti um idiota depois de ver alguns capítulos de Lost !) e, de outro, um único, coincidente com a extensão da obra, que prefiro incondicionalmente filmes a séries.

Talvez a melhor demonstração da superioridade do cinema sobre as séries seja a memorabilidade relativa entre os dois modais. Pois é geralmente bem mais fácil recontar a história de um filme do que de todos os episódios de uma série. Neste sentido, podemos considerar todo e cada episódio de uma série (exceto, talvez, o primeiro e o último…) como essencialmente supérfluo à totalidade da trama. Pois pouco importa, por exemplo, a quem se dispôs a ficar acordado o suficiente para assistir a alguns episódios de Revenge, a conta exata de quantas vezes Victória sacaneou Emily e vice-e-versa.

Então, se este modal de narrativa, notoriamente capenga, vem conquistando uma hegemonia cada vez maior entre quem ainda vê televisão, tal se deve exclusivamente à manutenção de uma audiência cativa – quesito no qual as séries indiscutivelmente se sobressaem. Notem, aliás, que séries não são exibidas pela TV aberta nos chamados “horários nobres” (i.e., nos que já dispõem de uma audiência cativa), mas noutros para os quais ainda é preciso fidelizar um público – daí a importância do já mencionado recurso do sequestro de atenção de que toda série se vale.

A índole primordialmente comercial de toda série já era denunciada pela denominação de um de seus precursores: a telenovela – designada, em inglês, por soap opera. Ora, é preciso se aprofundar na etimologia do termo opera para saber que a partícula qualificativa soap se refere aos anúncios de sabonete originalmente veiculados durante a exibição das primeiras produções teledramáticas.

* * *

Ao revelar a meu filho menor minha intenção de escrever sobre séries, fui surpreendido pela descoberta de que ele não ele não mais as via. Como no caso de sua mania anterior, pelo jogo Minecraft, disse que simplesmente perdera o interesse. Seria por demais presunçoso supor que seu cansaço do formato se devesse, de algum modo, ao fato de eu ter afirmado anteriormente que séries eram ladrões de atenção. Gosto, no entanto, de pensar que seu hábito recentemente adquirido de ver temporadas inteiras de séries de uma só vez possa ter lhe tornado mais evidente as limitações dramáticas do formato. Mais: se isto for verdade, é possível se antecipar que serão os próprios sistemas de distribuição de séries por assinatura – meramente pela possibilidade de aproximação temporal entre episódios projetados para serem vistos a cada 24 horas – os principais responsáveis pelo esgotamento do modal em razão de suas próprias limitações narrativas. Irônico, não ?