Procedimentos; ou Trial, error and statistics: that’s what medicine is all about

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Aos meus amigos médicos

tomógrafo 1Com deve fazer todo diabético de tempos em tempos, fui ontem a uma clínica me submeter a exames oftálmicos periódicos. Já ao chegar, notei que as coisas andavam meio confusas por lá. Pois uma paciente que já havia retornado a sua casa precisou ser chamada às pressas de volta à clínica para realizar um exame restante sobre o qual, aparentemente, ninguém lhe dissera nada. Tendo inferido daí que, naquele dia, a bruxa devia andar à solta por ali, respirei fundo e ri sem que notassem. Tornaremos a isto.

Durante uma angiografia de retina com contraste, não pude deixar de notar – e comentar ! – que, pela primeira vez, não sentira, durante a injeção do contraste, o forte enjôo, acompanhado de ânsia de vômito iminente, experimentado em todas as vezes anteriores em que me submeti ao incômodo procedimento. Foi quando a técnica responsável pela realização do mesmo inadvertidamente confessou (ah, as armadilhas da vaidade…) que eu não sentira nenhum desconforto em razão dela ter injetado o contraste mais vagarosamente do que em vezes anteriores (!). Disfarcei meu espanto em surpresa positiva. Em seguida, comentei que em todas as outras vezes o exame fora realizado por duas técnicas – uma para fotografar as retinas e a outra para injetar o contraste – e não por apenas uma como ontem. Foi quando ela sorriu sem graça e confessou estarem enfrentando problemas transitórios de pessoal – ao que prontamente retruquei que, neste caso, o exame deveria ser realizado sempre por somente uma técnica. Por algum argumento de ordem corporativo/trabalhista, tendo a ver com direitos adquiridos, ela não deve ter gostado de minha constatação.

Já disse, um pouco acima, que, ontem, naquela clínica, a bruxa parecia estar à solta. Talvez por isto, não pude deixar de notar que, após a triagem habitual (chamada por ordem de ficha, questionário sobre alergias e carga medicamentosa, assinatura de termo de desresponsabilização da clínica por eventuais efeitos colaterais e pagamento da taxa adicional ao convênio (sim, o IPERGS anda assim), fui conduzido a uma nova sala de espera para dilatar as pupilas, onde estaria esperando até agora não fosse o fato de eu ter observado e assinalado, depois de quase uma hora, que ninguém havia dilatado, até então, minhas pupilas. Sem perder a pose o o rebolado, a técnica a quem me dirigi disfarçou, então, seu espanto para prontamente pingar em meus olhos aquele colírio ardente.

Por que não me surpreendo ? Com certeza por acreditar, faz já algum tempo, que a medicina é feita, acima de tudo, de tentativas, erros e estatísticas. Com efeito, boa parte de toda pesquisa acadêmica na área se trata de estabelecer se correlações entre sintomas e comportamentos são ou não, afinal, espúrias. Todo médico e alguns pacientes mais esclarecidos sabem disto. Só que a maioria dos últimos prefere atribuir aos primeiros, provavelmente pela fragilidade da condição da própria doença, um poder e uma onisciência equivalentes aos observados na prática de religiões. O que é perfeitamente compreensível.

A sequência de episódios caóticos acima relatados me fez lembrar de quando consultei um otorrinolaringologista de minha inteira confiança, amigo pessoal, que, ao testar meu limiar auditivo e espantado com a persistência de minha surdez mesmo quando já havia aumentado drasticamente o volume do sinal de teste, ergueu finalmente os olhos de seu painel de controle para, olhando em minha direção pela primeira vez, dizer, com a maior naturalidade e sem denotar qualquer surpresa: ” – Agora, vamos repetir o teste com os fones ! ”

* * *

Lembro que, durante minha infância, era comum bons médicos diagnosticarem quadros exclusivamente a partir de entrevistas com pacientes, aparelhos “primitivos” como estetoscópios e otoscópios (é assim que chamam aquelas canetas com lupas e luzes que nos enfiam nos ouvidos ?) ou, no máximo, um hemograma. Ano passado, fui submetido a uma ressonância magnética (com todos os medos daí decorrentes) tão somente para investigar a origem de uma queixa de dor nas costas. Sem ser contra a tecnologia (muito antes o contrário !), noto que algo na medicina inquestionavelmente mudou. Se para melhor ou pior, me abstenho de opinar.

estetoscópio 1

 

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