A Juventude (Itália, 2015)

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youth 1Como fazemos, Astrid e eu, a cada quinze dias, vimos, neste final de semana, três bons filmes. Para ser mais exato, um bom (Asterix e o Domínio dos Deuses), um ótimo (A Senhora da Van) e um extraordinário (A Juventude). Impossível, pois, não falar do terceiro.

Confesso que só depois de pesquisar sobre o até então desconhecido para mim diretor italiano Paolo Sorrentino descobri se tratar de ninguém mais ninguém menos do que o realizador do também excepcional A Grande Beleza (2013). Meus sentidos não me enganaram. A belíssima fotografia ombreia com a dos mais oníricos filmes de Peter Greenaway. Num roteiro de tirar o fôlego, diálogos memoráveis. Mínimos. Essenciais. Reflexões sobre a arte, a memória, percursos criativos individuais, a primazia atual da televisão sobre o cinema e afins.

Todos esses diálogos são mantidos entre personagens fascinantes recolhidos, como hóspedes, num luxuoso spa nos alpes suíços, longe de toda civilização. Um diretor de cinema e um compositor e maestro aposentados. Um jovem ator compondo seu próximo papel. Uma Miss Universo. Um casal de hóspedes misterioso porquanto lacônico. Uma menina mais perspicaz do que os adultos ao seu redor. A filha do maestro e o filho do cineasta, ambos em processo de separação. Uma celebridade pop, nova namorada do filho do cineasta. Os próprio staff do spa, incluindo um alpinista, uma massagista, um médico e uma prostituta.

youth 2Notem que A Juventude, juntamente com 45 Anos (2015) e A Senhora da Van (2015), pertence a uma tendência recente de propiciar a atores veteranos grandes solos como protagonistas. Pois os três títulos supracitados perderiam parte substancial de seu brilho não fossem as atuações memoráveis de Michael Caine, Maggie Smith e Charlotte Rampling, respectivamente. O mesmo se pode dizer de Peter O’Toole em Vênus (2006). Sem falar em atuações magistrais nesses filmes, como coadjuvantes ou em breves aparições, de monstros como Harvey Keitel, Jane Fonda ou Vanessa Redgrave. Que bom que o cinema não vira as costas para velhos astros. Pois sinto pena de caras como, por exemplo, Donald Sutherland em episódios da série Jogos Vorazes. Do mesmo modo, seria imensamente triste se Caine se aposentasse apenas como o patético mordomo Alfred, do Batman.

Junto com a primorosa fotografia, outro elemento importante em A Juventude é sua trilha sonora. A começar pelo silêncio, reinante na atmosfera alpina, que chega a evocar (me permitam a licença) a clínica em que se desenrola a história das mais de 700 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. A música composta por David Lang para o filme é uma das melhores ouvidas no cinema nos últimos anos – assumindo, na cena final, um protagonismo equivalente, a nosso ver, ao da partitura de Bernard Herrmann para O Terceiro Tiro, de Hitchcock. Outro grande momento é quando Caine, num cenário bucólico, “rege” uma memorável pastoral. Me esforço, aqui, para evitar o spoiler.

Se fosse, no entanto, para resumir a genialidade do diretor numa única cena ou situação, eu escolheria de pronto o modo como é mostrada, por meios exclusivamente visuais, a condição, vaticinada pelo apático personagem de Caine, de mediocridade da celebridade pop de quem seu ex-genro se enamora – a saber, por meio de um plástico e gritante videoclip, misturando sugestão erótica, explosões e carros velozes, que interrompe abruptamente, depois de um fade-out e no que posteriormente se revela ser um pesadelo, a poética visual já estabelecida do filme. É a TV invadindo o cinema. Toque de mestre absoluto.

Aguardamos avidamente, então, a próxima aventura de um diretor cujo nome dificilmente esqueceremos: Paolo Sorrentino. O nome de massa deve ajudar a memória.

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