Rachel Weisz e Madalina Diana Ghenea em A Juventude (Itália, 2015)

Ontem, quando foi divulgada minha resenha do filme A Juventude, estranhei muito o recorde histórico de visitação a meu blog até as 12 horas e a duplicação do mesmo até o fim do dia. Considerei, inicialmente, a possibilidade de alguma reconfiguração de rede ou então, como raramente falo sobre cinema, que talvez houvesse um surto de interesse pelo o tema. Meu amigo e, de uns anos para cá, também editor Milton preferiu atribuir, no entanto, o pico de visitação a fatores como (1) uma rejeição generalizada a tudo o que tenha a ver com impeachment, citando, em favor de sua tese, a grande e atípica audiência de seu post sobre Cervantes; (2) o aumento na frequência de atualização de meu blog ou ainda, muito provavelmente, (3) a imagem de Madalina Diana Ghenea nua que foi usada em sua divulgação.

Foi como um balde de água fria. Tive que reconhecer, de pronto, que parte considerável dos que pensava terem lido minha crítica talvez só tenham aberto a página a procura de mais imagens como a usada em sua divulgação. Face a isto, decidi fazer um experimento, a saber, anunciar, junto com mais fotos da bela romena e outras da não menos espetacular Rachel Weisz, um video (isso mesmo !), facilmente encontrado, da antológica cena da piscina.

Só que, para realizar o supracitado teste, precisava falar mais sobre o filme cuja resenha já publicara. Mas, ora, é muito mais fácil tornar a falar de alguns filmes (ou livros, ou músicas…) do que escrever sequer um parágrafo sobre outros. Então, complementando o que já havia dito, decidi falar sobre algumas mulheres notáveis do elenco de A Juventude que ostensivamente ignorara quando de minha abordagem inicial sobre o filme

A propósito de tão gritante omissão, cabe lembrar que amigos se divertem até hoje com o fato de eu ter uma vez revelado não saber que Nara Leão estava morta. Com o tempo, passaram a dizer que eu também achava que Derci Gonçalves estivesse viva. Brincadeiras a parte, tenho real dificuldade em lembrar de notáveis que já se foram ou que ainda estão entre nós. Não que não leia obituários. Ao contrário.

Tendo, pois , passado batido, ao longo de minhas primeiras impressões sobre o filme, sobre atuações e aparições monumentais que eu sequer houvera notado, venho, com este post, procurar reparar a omissão. Lembro de ter falado aqui que só depois de postar a primeira resenha vim a saber quem é Madalina Ghenea. Pois bem. Além de também não ter notado que a filha de Caine era interpretada por Rachel Weisz e a violinista da cena final era ninguém menos do que Viktoria Mullova, sequer sabia da existência de um soprano chamado Sumi Jo. Mais por fora, portanto, do que Glória Pires comentando a entrega do Oscar.

Curiosamente, a única das mulheres notáveis acima cujas imagens no filme de Sorrentino não encontrei na web foi Mullova. Suponho, pois, que tenham sido restritas por alguma cláusula contratual. Dentre as fotos que encontrei, as que mais chamam a atenção são as seguintes:

youth 24youth 7youth 11youth 9youth 2youth 6youth 8youth 4youth 5youth 20Rachel Weisz as “Lena” in YOUTH. Photo courtesy of Fox Searchlight Pictures. © 2015 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reservedyouth 15youth 19youth 13youth 18* * *

Quando da primeira parte desta resenha em aberto, estranharam que eu não houvesse falado no maestro (perfeitamente !) vivido por Michael Caine. Sobre isto, sigo sem saber o que dizer. Ah: já ia me esquecendo do video que prometi. Ei-lo:

 

A Juventude (Itália, 2015)

youth 1Como fazemos, Astrid e eu, a cada quinze dias, vimos, neste final de semana, três bons filmes. Para ser mais exato, um bom (Asterix e o Domínio dos Deuses), um ótimo (A Senhora da Van) e um extraordinário (A Juventude). Impossível, pois, não falar do terceiro.

Confesso que só depois de pesquisar sobre o até então desconhecido para mim diretor italiano Paolo Sorrentino descobri se tratar de ninguém mais ninguém menos do que o realizador do também excepcional A Grande Beleza (2013). Meus sentidos não me enganaram. A belíssima fotografia ombreia com a dos mais oníricos filmes de Peter Greenaway. Num roteiro de tirar o fôlego, diálogos memoráveis. Mínimos. Essenciais. Reflexões sobre a arte, a memória, percursos criativos individuais, a primazia atual da televisão sobre o cinema e afins.

Todos esses diálogos são mantidos entre personagens fascinantes recolhidos, como hóspedes, num luxuoso spa nos alpes suíços, longe de toda civilização. Um diretor de cinema e um compositor e maestro aposentados. Um jovem ator compondo seu próximo papel. Uma Miss Universo. Um casal de hóspedes misterioso porquanto lacônico. Uma menina mais perspicaz do que os adultos ao seu redor. A filha do maestro e o filho do cineasta, ambos em processo de separação. Uma celebridade pop, nova namorada do filho do cineasta. Os próprio staff do spa, incluindo um alpinista, uma massagista, um médico e uma prostituta.

youth 2Notem que A Juventude, juntamente com 45 Anos (2015) e A Senhora da Van (2015), pertence a uma tendência recente de propiciar a atores veteranos grandes solos como protagonistas. Pois os três títulos supracitados perderiam parte substancial de seu brilho não fossem as atuações memoráveis de Michael Caine, Maggie Smith e Charlotte Rampling, respectivamente. O mesmo se pode dizer de Peter O’Toole em Vênus (2006). Sem falar em atuações magistrais nesses filmes, como coadjuvantes ou em breves aparições, de monstros como Harvey Keitel, Jane Fonda ou Vanessa Redgrave. Que bom que o cinema não vira as costas para velhos astros. Pois sinto pena de caras como, por exemplo, Donald Sutherland em episódios da série Jogos Vorazes. Do mesmo modo, seria imensamente triste se Caine se aposentasse apenas como o patético mordomo Alfred, do Batman.

Junto com a primorosa fotografia, outro elemento importante em A Juventude é sua trilha sonora. A começar pelo silêncio, reinante na atmosfera alpina, que chega a evocar (me permitam a licença) a clínica em que se desenrola a história das mais de 700 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. A música composta por David Lang para o filme é uma das melhores ouvidas no cinema nos últimos anos – assumindo, na cena final, um protagonismo equivalente, a nosso ver, ao da partitura de Bernard Herrmann para O Terceiro Tiro, de Hitchcock. Outro grande momento é quando Caine, num cenário bucólico, “rege” uma memorável pastoral. Me esforço, aqui, para evitar o spoiler.

Se fosse, no entanto, para resumir a genialidade do diretor numa única cena ou situação, eu escolheria de pronto o modo como é mostrada, por meios exclusivamente visuais, a condição, vaticinada pelo apático personagem de Caine, de mediocridade da celebridade pop de quem seu ex-genro se enamora – a saber, por meio de um plástico e gritante videoclip, misturando sugestão erótica, explosões e carros velozes, que interrompe abruptamente, depois de um fade-out e no que posteriormente se revela ser um pesadelo, a poética visual já estabelecida do filme. É a TV invadindo o cinema. Toque de mestre absoluto.

Aguardamos avidamente, então, a próxima aventura de um diretor cujo nome dificilmente esqueceremos: Paolo Sorrentino. O nome de massa deve ajudar a memória.

Dois livros para se entender a indústria fonográfica

Nos últimos 25 anos tenho me mantido, mais por força do hábito do que por determinação, um leitor de catálogos e manuais. Isto quer dizer que li, nas últimas décadas, muito pouca ficção, invariavelmente a pedido de amigos. Fora isto, os poucos volumes dos quais cheguei às última páginas tiveram a ver com algum interesse bem específico. Quase técnico. Como, por exemplo, a história da indústria fonográfica, desde sua expansão a partir de meados do século 20 até seu colapso frente ao avanço da internet.

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Já faz tempo que li a indispensável tese de Marcia Tosta Dias, publicada pela Boitempo em 2000, Os donos da voz; indústria fonográfica no Brasil e mundialização da cultura, abrangendo a história das gravadoras no Brail desde os tempos dos festivais e da bossa nova. Fundado sobre extensos de depoimentos primários de alguns de seus principais atores, como o executivo André Midani ou o produtor Pena Schmidt. O livro é um rico compêndio de dados sobre a indústria do disco no Brasil e no mundo. Fartos quadros de fusões e curvas de faturamento dão uma boa ideia de como este importante setor da economia (já repararam como os negócios mais lucrativos são justo aqueles ligados à beleza, ao entretenimento ou ao lazer, tidos por vezes como supérfluos ?) se comportou por mais de meio século.

André Midani

André Midani

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Pena Schmidt

Lendo Os Donos da Voz, fiquei meio incomodado com a predominância, sei lá se por hábito acadêmico ou o que, de muitas páginas dedicadas à explicitação de um referencial teórico/ideológico (Adorno, se não me falha a memória) que, conquanto importante de algum modo para a autora, é perfeitamente dispensável para o leitor em busca do que é prometido no título. Impaciente, queria chegar logo à parte que tratava da indústria da música no Brasil. Pois, ora, se quisesse ler sobre o frankfurtiano, comprava um livro sobre ele.

Também senti falta de um índice onomástico no lugar de uma bibliografia (outro vestígio inequívoco da origem acadêmica do texto), além de um certo sabor de história inacabada devido ao fato do volume não contemplar a então novíssima cena virtual e as reações da indústria frente à nova ameaça da pirataria. Não devemos, no entanto, culpar a autora por esta omissão – já que tudo aquilo era, então, ainda muito novo. Em que pesem estas arestas a serem aparadas da transposição da tese acadêmica para um relato destinado ao leitor comum, o trabalho permanece, no entanto, essencial para se entender como a economia afetou a história da música brasileira num período áureo.

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Ano passado, recomendações pelo facebook de Maria Estrella e Zeca Azevedo me levaram até Como a música ficou grátis (Intrínseca, 2015), do jornalista Stephen Witt. Como o livro de Dias, este também ostenta um subtítulo (como se editores no fundo duvidem que títulos destinados a públicos mais específicos chamem, de algum modo, a atenção de seus leitores em potencial…): O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.

Em favor do livro de Witt (ah, maldito estigma da comparação…) está o ritmo da narrativa. Ao contrário de Dias, intercala, com a maestria de um bom roteirista, fragmentos de narrativas de vários atores, todos eles centrais na história da indústria fonográfica, mas cujas trajetórias pessoais, todavia, jamais se tocaram. Como resultado, dá um sentido (ou, como talvez prefiram alguns, provê um contexto) para fatos que, de outro modo, pareceriam desconexos.

A base de consulta de Witt é ampla: dezenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos examinados. Os quais, no entanto, não nos são mostrados sequencialmente, tal qual armazenados em arquivos. Ao invés, o texto salta dinamicamente de uma narrativa para outra a cada capítulo, começando com a história de Karlheinz Brandenburg e seu círculo, responsáveis por desenvolverem, no Instituto Fraunhofer (Erlangen, Alemanha), o algoritmo de compactação utilizado até hoje no formato mp3.

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Karlheinz Brandenburg

A seguir, passa a narrar a história da pirataria musical, constituída principalmente por anônimos, a partir da biografia de um de seus principais atores, Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs da Polygram em Kings Mountain (Carolina do Norte, EUA) que, tendo progredido por anos a fio de empacotador e gerente, conseguiu vazar mais de dois mil CDs antes de seus lançamentos até ser pego por autoridades. Peça importantíssima para grandes redes piratas como a Scene ou seu subgrupo RNS, Dell foi um dos principais informantes de Witt, revelando, entre outras coisas, não conhecer pessoalmente, a não ser por conversas telefônicas mediante pseudônimos, o “dono” da rede a quem se reportava.

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Dell Glover

A perseguição por agentes policiais e braços jurídicos das gravadoras aos compartilhadores piratas mais eficientes foi sempre desastrada. Conseguindo chegar não mais do que a usuários finais, resultou principalmente em perseguições a estudantes e donas de casa enquanto responsáveis por redes ou servidores permaneciam, via de regra, impunes. Na maioria das vezes, incógnitos. Quando logravam prender alguém, como aquele australiano doido, dono do Megaupload, em sua casamata, se tratava de uma exceção, altamente celebrada e publicizada. Como, por exemplo, no insólito caso de Alan Ellis, dono do exitosíssimo site Oink (de compartilhamento via torrent), encarcerado pelo governo britânico.

Alan Ellis

Alan Ellis

Um dos raros piratas que efetivamente chegaram a cumpriram pena, Ellis se tornou notório por jamais ter utilizado, em benefício próprio ou para seu sustento, qualquer centavo das volumosas doações que seu site recebia, as quais mantinha – talvez por achar que, assim, melhor as protegeria contra qualquer confisco ou congelamento judicial – distribuídas em dez contas bancárias distintas.

Do lado da indústria, acompanhamos a trajetória de grandes executivos. Como Doug Morris, que esteve à frente, entre outras, da Warner, da Universal e da Sony.

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Doug Morris

Lendo o livro de Witt, sucumbimos à evidência de que o gênero que moveu a indústria nos últimos dez ou vinte anos foi, sem sombra de dúvida, o rap. Mais que a irreverência, acionistas de grandes gravadoras reconheciam em letras de muitos rappers o incitamento a sentimentos indesejáveis, como a violência ou o sexismo. Os mesmos eram, no entanto, tolerados em virtude de serem, entre todos os artistas dos elencos das gravadoras, os que mais rentabilidade apresentavam nas últimas décadas..

A certa altura, Witt dedica alguns parágrafos a esmiuçar o tipo de contrato tradicionalmente oferecido pela indústria fonográfica. Funcionava mais ou menos assim. Tendo escolhido um artista, a gravadora investia antecipadamente os elevados montantes requeridos para a produção, gravação e fabricação dos discos, descontando, depois, dos artistas, tais valores dos royalties que deveriam receber sobre as vendas. Por vezes, dados os custos extravagantes de algumas produções, músicos não recebiam praticamente nada pelas vendas de álbuns bem populares. Cabe, aqui, comparar este tipo de contrato – a saber, do acesso aos meios de produção por seus proprietários mediante o comprometimento de parte substancial da produção futura – com o tipo de acordo tacitamente outrora celebrado entre, de um lado, senhores feudais e, de outro, os servos que aravam suas terras.

Não é, pois, de se estranhar que, ao ensejo do impacto de novas tecnologias, tal tipo de contrato tenha sido abandonado. Com efeito, é bem mais provável que este tipo de contrato – muito mais do que, como muitos ainda acreditam, a pirataria – tenha “matado” a indústria fonográfica. De uns tempos prá cá, as poucas gravadoras corporativas (i.e., não indie) que sobrevivem, além de não mais investir na produção de qualquer artista (um investimento, como mostra Witt, de alto risco – já que, dos muitos nomes do elenco de qualquer gravadora, somente uns poucos podem ser considerados, efetivamente, como lucrativos), passaram, ao invés de pagar royalties por vendas de álbuns a artistas, a cobrar (sic !) dos mesmos parte de valores obtidos com a venda de ingressos para seus shows.

Temos, com isto, uma mudança radical do foco de atuação de uma indústria minguante procurando se reinventar para sobreviver. Pois quem antes vendia mídias físicas gravadas agora vende experiência presencial. Isto, aliás, ajuda a entender todos aqueles smartphones que se erguem hoje sobre as cabeças do público em muitos espetáculos.

O livro de Witt tem um epílogo desconcertante. Conta o autor que, tendo sucumbido definitivamente ao streamming, resolveu se livrar de vários HDs que guardara ao se desfazer de sucessivos computadores, alguns já ilegíveis, contendo milhares de álbuns baixados ao longo de várias décadas. Procurando uma empresa especializada neste tipo de serviço, foi conduzido pelo proprietário de uma delas até um recinto onde havia uma máquina de pregar. O sujeito, então, após se recusar a receber qualquer valor devido ao ínfimo porte do trabalho a ser realizado, efetuou com a pistola alguns disparos contra os HDs para, em seguida, os abandonar numa caixa ao lado que já continha a sucata de muitos outros.

* * *

A tragédia da indústria fonográfica é seu fracasso sistemático em repetidas tentativas de abranger a qualidade e a diversidade. Pois a índole do capital é a devora do menor pelo maior, tendendo à existência de um número cada vez menor de conglomerados cada vez maiores, no que poderíamos chamar de um efeito espuma – na qual, com o tempo, há um número cada vez menor de bolhas maiores. Com negócios lucrativos – como foram, por muito tempo, as grandes gravadoras – não é diferente.

Alguns selos indie –  clássicos, inclusive – até perduram por algum tempo. Mas nenhum catálogo físico (como os HDs pregados de Witt) é ou será capaz de resistir ao apelo avassalador da internet e do streamming. Há coisas que, como a fotografia digital, vieram para sepultar outras. Ao menos quando competitividade comercial estiver em questão.

Como praticamente toda história, esta começou a ser contada a partir de seu final – com o qual temos, obrigatoriamente, maior familiaridade. Resta, então, para completar a narrativa do parêntesis da indústria fonográfica, esperar que alguém escreva o grande livro sobre o recém falecido George Martin, inventor da coisa. Quando poderemos ter, finalmente, uma perspectiva mais completa de como a economia afetou a música durante os últimos cinquenta anos.

George Martin

George Martin

O que significa ser de direita ou de esquerda no Brasil hoje ?

esquerda x direita 2

Lancei esta pergunta faz poucos dias. Primeiro, entre amigos lá em casa. Depois, no facebook. Em casa, não tive resposta. No facebook, colhi, inclusive, dois textões, de proporções enormemente maiores do que minha provocação, um deles junto com um video de Olavo de Carvalho, cuja reputação sempre conheci mas em cujo discurso confesso jamais ter prestado antes qualquer atenção.

Nos primeiros minutos do vídeo (que, confesso, desisti de ver até o fim), Olavo mistifica, definindo, em política, a direita como a experiência, como aquilo que é conhecido, e a esquerda como o experimentalismo, para em seguida proclamar seu repúdio a todo pensamento revolucionário, inventariando em favor de sua posição uma extensa lista de genocídios e assassinatos cometidos por governos revolucionários.de esquerda. Não me dei, no entanto, por satisfeito com sua definição.

A tragédia da desilusão nacional com o PT, sentida por muitos e minimizada por outros tantos, se deve, principalmente, ao ruir do discurso de esquerda que levou o partido ao poder nas últimas décadas. Mas vejamos por partes.

Assumidamente ou não (pois a verdadeira índole de todo interesse político é por vezes velada), apoiadores de candidatos ou partidos reconhecidos como de direita sempre defenderam o direito ao poder do capital empreendedor enquanto seus opositores de esquerda reclamavam, acima de tudo, mais justiça social.

Só que, no Brasil dos governos de Lula e Dilma, se institucionalizou (ou, pelo menos, começou a ser apurada) a corrupção dos poderes pelas grandes empreiteiras. Com isto, grupos oligárquicos (acionistas majoritários) se tornam os maiores beneficiários da realização de obras de indiscutível (ou mesmo discutível) alcance social. In short, se dá aos ricos em nome dos pobres, numa espécie de complexo de Robin Hood ao contrário – a tragédia do PT sendo, neste caso, tolerar sob seu manto o mesmo tipo de comportamento corrupto que critica em seus predecessores.

Com tantos agrados de empreiteiras a agentes da pirâmide administrativa custeados com recursos surrupiados ao bem comum – é, pois, no mínimo acintoso ver políticos e governos manchados por esse tipo de escândalo de corrupção sustentar qualquer discurso em favor da justiça social, como muitos (praticamente todos) ainda insistem em fazer.

E o que é justiça social ? Distribuição de renda e igualdade de oportunidade, a meu ver. Duas condições, aliás, frequentemente atropeladas pela voracidade do capital que move os interesses de direita. Estou enganado ?

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Grata surpresa tive, durante a por vezes tediosa tarefa de procurar figuras para os posts (Milton diz que ajudam muito na divulgação), ao topar com uma charge de 2012 do querido Latuff que ilustra o que falo de modo exemplar.

 

Moroleaks (ii): por que dou o benefício da dúvida à justiça e à polícia federais

Girl phone talk Pop art vintage comic

Se você é um dos tantos que ainda acreditam na divisão maniqueísta do pensamento político em campos ideológico-partidários, se poupe da leitura deste texto. Pois a redução de qualquer posição a dogmas partidários suprime, por definição, toda nuance, agredindo frontalmente a lógica e a inteligência. Razão suficiente, a meu ver, para defender a extinção imediata de todos os partidos existentes e, mais do que isto, garantir constitucionalmente o banimento do sistema político da própria figura do partido. Mas isto não se dará de forma rápida, por pressupor um amadurecimento (oxalá !) do homem político. Além, é claro, de se constituir em pano para outra manga.

Esvazia-se um pouco a sala. Melhor assim.

Enquanto isto não acontece, vale a pena arrolar razões para acreditar que o discutível vazamento, por parte de um juiz federal, de conversas de teor altamente comprometedor entre pessoas públicas foi, antes de um ato isolado de oportunismo político e/ou exibicionismo midiático (como enfadonhamente nos querem fazer acreditar setores significativos da militância governista) – foi, isto sim, perpetrado em defesa exclusiva de genuínos interesses nacionais. A saber, a consciência de como efetivamente são, na intimidade, quando despidos de todo verniz publicitário, os governantes eleitos.

A primeira delas tem a ver com o frescor dos rastros e provas deixados por governantes de conduta duvidosa. Não é preciso muita familiaridade com histórias policiais para já se ter lido ou ouvido a máxima de que investigadores devem primar por não deixar que a cena do crime se contamine. Dito de outra forma, isto significa que provas e indícios incriminadores são muito mais facilmente obtidos em se tratando de eventos recentes do que noutros mais antigos.

Por esta razão, é perfeitamente normal que braços fortes da polícia e da justiça federais recaiam muito mais sobre malfeitorias de governos recentes do que nas de anteriores. Não reconhecer isto é o mesmo que supor que há mais corrupção hoje do que nos tempos de Collor, Sarney e Maluf ou mesmo da ditadura, da era Vargas, da primeira república, do império ou da colônia. Se, ainda assim, não acreditar que crimes recentes são mais puníveis do que outros mais antigos, experimente rastrear documentos novos e históricos.

Outro argumento frequentemente levantado em defesa de malfeitores atuais e recentes é o de que somente eles estão sendo perseguidos e punidos quando muitos outros, anteriores a eles, permanecem impunes ou foram mesmo absolvidos no passado. Ora, carece de qualquer sentido tolerar comportamentos criminosos hoje tão somente por que os mesmos permaneciam ocultos ou eram mesmo francamente admitidos no passado. Como, sei lá, a escravidão ou a pedofilia.

Então, uma mudança de atitude brusca de perseguição a criminosos de colarinho branco antes impunes não implica, necessariamente, numa atitude hostil a este ou aquele partido ou mandatário incidentalmente no poder. Assim, tal ideia (a de uma hostilidade judicial ao PT) só poderá ser invocada quando de um eventual retrocesso da sanha investigativa e persecutória por parte, respectivamente, da polícia e da justiça federais. Até lá, o máximo que se pode dizer é que, antes tarde do que nunca, passaram a cumprir melhor suas missões

Odiadores de Moro também levantam a tese de que juízes que beneficiam francamente campos políticos específicos estejam necessariamente comprometidos com interesses escusos e/ou partidários. Ora, é uma queixa clássica a de que sempre houve, entre membros do poder judiciário, uma enorme infiltração de juízes notórios por seus claros matizes ideológicos – havendo e sendo conhecidos, portanto, em grande parte das cortes, muitos juízes francamente simpáticos aos interesses do PT. A começar por membros da suprema corte, escolhidos pelo próprio presidente da república.

É, portanto, natural que, sempre que algum juiz de alguma instância superior profira alguma sentença francamente desfavorável a mandatários eleitos, seja visto no ato uma inequívoca intenção política. Tanto que, quando Barbosa determinou que se investigasse o mensalão e punissem os culpados, foi imediatamente aventada a hipótese de que ambicionava concorrer nas próximas eleições presidenciais. Deu-se o pleito e nada de Barbosa. Vejamos se concorre em 2018. Aposto que não. Mas posso estar enganado. Até lá, não dou importância alguma à imputação de grande ambição política a magistrados. Do mesmo modo, sigo à espera de alguma alguma associação sólida entre Moro e qualquer agente político.

Barbosa 2

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Dificilmente um rascunho abandonado neste blog é resgatado, desenvolvido e publicado. Este texto, no entanto, hibernou intacto por uma semana. Quando comentei com Astrid minha intenção de finalizá-lo, ela perguntou por que. Afinal, a defesa aberta de qualquer ideia que possa ser tomada, no momento, por uma posição anti-PT, significaria a possível perda de muitos amigos. Respondi que os incapazes de distinguir nuance não me interessavam. Já o Milton me advertiu que argumentos em favor da tese da seletividade da PF eram abundantes, citando, por exemplo, o arquivamento do caso da merenda paulista. Retruquei que o tamanho do rombo importava.

Quase desisti de publicá-lo durante a breve vigência do boato de que Moro teria se filiado ao PSDB. Decidi parar e esperar. Por novas e mais sólidas evidências de que Moro fosse perigosamente associado a interesses escusos. Nada, até agora. Quem sabe em 2018.

Moro 1

Principalmente a partir dos moroleaks e já desde antes, fotos de Moro circularam exaustivamente nas redes sociais acompanhadas de comentários sobre o juiz ou frases que lhe são atribuídas. Acho estes compartilhamentos são genericamente conhecidos por memes. São bem comuns, por exemplo, aqueles com as faces de Lula, Dilma, FHC, Cunha, Temer ou Renan. E agora Moro, é claro. Pensando sobre como este tipo de postagem (espécie de cartão virtual, a que chamo de placa) são produzidas, nos damos conta de como é fácil a obtenção das mesmas por meio do simples recorte de quadros de vídeos amplamente divulgadas de falas de figuras públicas importantes. Então, a edição caseira de frases jocosas ou de ou de ódio a essas figuras ou a elas atribuídas com fotogramas que elas certamente não compartilhariam em seus perfis não passa de um truque barato.

Poder 1

Entre o primeiro rascunho e a versão final deste post, também vi o filme Conspiração e Poder, de James Vanderbilt e brilhantemente protagonizado por Cate Blanchett e Robert Redford, narrando a queda de uma importante equipe do programa 60 Minutes da CBS por conta de sua dificuldade em determinar a origem de indícios de um fato fortemente comprometedor para as próximas eleições presidenciais norte-americanas – a saber, o de que George W. Bush, que se tornaria o próximo presidente dos EUA, teria se utilizado de influência política para não ir à guerra do Vietnã.

Os paralelos entre o filme e os moroleaks são irresistíveis. Nos dois casos, foram revelados à opinião pública, por meio de métodos questionáveis (documentos supostamente forjados e grampos telefônicos ilegalmente divulgados), fragmentos de comunicações comprometedores para chefes de estado e/ou aspirantes. Salvas as nuances, neles o que mais chama a atenção é que o foco de todo debate desencadeado é transferido para a natureza jurídica ou a própria materialidade da prova ou do indício enquanto seu próprio teor, facilmente averiguável (i.e., se Bush efetivamente se escafedeu da guerra e se Lula disse mesmo tudo aquilo), numa impressionante operação de lavagem cerebral de muitos eleitores, é totalmente desconsiderado e deixado de lado.

Noutro post explico por que sou a favor dos moroleaks e contra o impeachment de Dilma.