Sobre lutas, rinhas e a relatividade moral

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Hamilton 1

Ontem, compartilhei no facebook uma excelente matéria do Guardian na qual se afirma, entre outras coisas, que o box é violento por definição, explora pessoas da classe trabalhadora, é perigoso e celebra a violência e a competitividade individual. Concordei de pronto, estendendo o argumento, para além do box, a todas as lutas de arena – dentre as quais as mais violentas atraem mais atenção midiática e, portanto, patrocínio. Pensei até em traduzir. O Milton disse que é fácil e rápido. Discordo.

Hoje, me acordei intrigado com o fato de que, enquanto rinhas entre animais, como galos ou pitbulls, são proibidas por lei, lutas entre humanos, inclusive as mais violentas, são não apenas permitidas mas largamente promovidas pela indústria do entretenimento. Ou não teríamos em Anderson Silva uma espécie de herói.

Qualquer um percebe que toda moral é relativa, não se precisando, na maioria das vezes, ir muito fundo para descobrir a que interesses servem. Imaginem, por exemplo, se alguém publicasse hoje as fotos de meninas de um David Hamilton ou mesmo Lewis Carroll. Não há, por outro lado, nenhuma diferença essencial entre uma luta de MMA e a rinha, suponho que clandestina, de mandingos mostrada por Tarantino em Django. Houve, então, claramente, um acirramento e uma flexibilização, respectivamente, num caso e noutro, de um entendimento sobre o que é ou não socialmente tolerável.

Ou, dito de outro jeito: no primeiro caso, o que já foi visto como arte é hoje tido como pedofilia, ao mesmo tempo em que, no segundo, a mesma violência que repugna na mansão de um antigo escravagista é divertida para quem assiste, ao vivo ou pela TV, ao que se passa entre as cordas de um ringue em Las Vegas.

* * *

(cheguei a salvar umas imagens de lutas de MMA para ilustrar o post mas, francamente, não quis submeter amigos a que as vissem em suas timelines – pois deve haver, afinal, outros que, além de mim, fechem os olhos diante da cena dos mandingos de Tarantino. Melhor, pensando bem, uma ninfeta de Hamilton)

Uma resposta para “Sobre lutas, rinhas e a relatividade moral”

  1. Eu entendo sua argumentação, entretanto há uma diferença nítida entre alguns tipos de lutas de ringue… primeiramente, as lutas entre animais são (embora ainda aconteçam clandestinamente) proibidas por um motivo básico: eles não optam conscientemente por entrar numa briga. A ética humana existe e é graças a ela que testes de remédios promissores não podem ser testados diretamente em doentes voluntários, pois estes não estão em condições de avaliar os riscos de tal exposição. Voltando ao assunto proposto, as lutas entre mandingos também não davam a opção de escolha… escravos lutavam pela vida, se eles se recusassem a participar de tal barbárie, ambos seriam executados. Com o passar dos séculos, as lutas foram passando por mudanças e atualmente o que motiva um homem ou uma mulher a entrar num ringue ou um octógono é a fama e um possível retorno financeiro… daí podemos questionar que muitos boxeadores e lutadores de mma ou de qualquer outra luta (mais ou menos brutal) não estão aptos a escolher racionalmente… a ética humana poderia aí interferir, mas não o faz… até porque estes esportes se tornam cada vez mais “elitizados” e mais preocupados com os riscos à saúde de um lutador… sem contar todo o dinheiro envolvido… e quando há dinheiro envolvido, a ética do homem costuma ter um preço!!!

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