On conducting (xi): para ouvir Carlos Kleiber (i)

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Kleiber 2

De todos os regentes icônicos, Carlos Kleiber (1930-2004) é sem dúvida o de biografia mais interessante. Kleiber em poucos fatos: filho de uma americana com um maestro (!) austríaco que foi para a Argentina por se opor ao nazismo, regeu pouquíssimas vezes (ao todo menos de 100 concertos ou récitas de óperas!). Convidado a ocupar o cobiçado pódio da mítica Filarmônica de Berlim depois de Karajan, recusou o posto. Entendemos que o fato de ter deixado poucos registros sonoros e de imagem é o principal responsável por seu relativo ostracismo junto à indústria e, consequentemente, à mídia (até por que os especializadíssimos selos que ainda se dedicam à música sinfônica tendem a privilegiar, por alguma razão, maestros que tenham gravado ciclos completos de obras de um mesmo autor).

Felizmente, há no youtube vários filmes de ensaios conduzidos por Kleiber, bem como farta documentação do que é normalmente aceito como uma de suas especialidades, a saber, a música ligeira vienense.

Abro parêntesis. Muitos já reconheceram que um mesmo regente pode interpretar uma mesma obra de modo bem distinto, em relação aos andamentos, ao longo de suas carreiras. Corno di Bassetto (aliás George Bernard Shaw) observou já em 1890 que o filho de Wagner regeu em andamentos totalmente distintos uma mesma obra de seu pai, no auge de sua carreira e pouco antes de morrer. Também lembro de uma coluna do saudosíssimo Herbert Caro em que constatava a duração crescente de movimentos de sinfonias de Beethoven em ciclos registrados por Böhm e Karajan em momentos distintos. Fecho parêntesis.

Sabedor disso, me abismei diante do fato de que uma mesma polca tocada por Kleiber foi tocada no mesmo andamento em 1986 com a orquestra estatal bávara e depois, em 1992, com a Filarmônica de Viena, num de seus últimos registros. Tal consistência rítmica, tão rara entre maestros, não me chamou tanto a atenção como sua total abstinência de qualquer gesto que tenha como intuito marcar o tempo. Pois, sem qualquer pretensão a controlar o tempo, deixando a orquestra assumir seu próprio pulso, resulta absolutamente livre para conduzir – e aí sim melhor do que ninguém que eu já tenha visto ! – a direção de cada frase. Tenho certeza de que músicos me entendem. Mas os não músicos que tenho como leitores ? A estes, tento explicar de outro jeito. Notem como, particularmente nesta polca (um dos hits incontestáveis da música ligeira), obtém o melhor efeito de uma música extremamente ativa, vivaz, com um mínimo de gesticulação. Quase como se estivesse a reger algo lento. Depois, comparem com o que costumam ver em pódios orquestrais na maioria das vezes. Ou (talvez seja melhor !) não.

 

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