De espectadores a participantes ou Que fim levaram os gênios ?

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Bakhtin 1

Das tantas notícias que me capturaram a atenção nos últimos dias, nenhuma repercutiu tanto como a de que existem cerca de 800 engenheiros envolvidos no desenvolvimento da câmera do iPhone. Outra evidência de que a liderança da Apple no mercado de dispositivos eletrônicos deriva, principalmente, de um reconhecimento, por parte de seus gestores, de que toda excelência advém de um esforço coletivo. Ou team effort, como devem dizer.

A gênese e a natureza plural de todo conhecimento hoje resulta de uma evolução com períodos claramente definidos por dois marcos históricos, a saber, a invenção da imprensa e o surgimento da internet.

Antes de Gutenberg, todo conhecimento secular (salvo, portanto, aquele preservado em manuscritos herméticos) era transmitido oralmente, tendo, então, pouco ou nenhum sentido qualquer ideia de autoralidade. Aprendia-se dos antepassados, pouco importando, nas vezes em que palavras não fossem atribuídas a algum profeta, quem enunciara algo pela primeira vez.

Com a imprensa de tipos móveis há, pela primeira vez na história da civilização humana, a possibilidade de que um texto fixo, atribuído a um único autor, seja copiado sem alterações em quantidades maciças. Deste momento em diante, passa a importar quem teve palavras publicadas, ficando o mundo dividido entre autores e leitores. Este estado de coisas, que perdurará por cerca de meio milênio (até o surgimento da web), pode ser descrito como uma era de gênios e espectadores. Uma época em que o imaginário humano é dominado por insights de um punhado de criadores hegemonicamente reconhecidos. É a era de um Shakespeare, Einstein, Beethoven ou Freud. É abissal a distância entre o intelecto de um desses gigantes, designados como gênios, e o de homens comuns que lhes são contemporâneos. Para Mikhail Bakhtin (1895-1975), se trata do período de domínio do grande enunciado monológico.

Hoje, a disponibilidade cada vez maior da internet, tendendo ao universal, democratizou, de um modo sem qualquer precedente, o acesso aos meios de publicação. Se antes dela a circulação da palavra era controlada exclusivamente por poucos detentores de meios de comunicação, a visibilidade já não é mais um privilégio concedido a poucos por algum executivo, mas uma opção ao alcance de todos. Emblemático desta passagem, para um estado de autoria quase universal, é, por exemplo, a preferência dos mais novos por “canais” de videos pessoais (vlogs) em relação aos de TV aberta ou a cabo.

Convencionaremos, pois, chamar o períodos compreendidos entre a invenção da imprensa e o surgimento da internet e o que vem depois do último, respectivamente, de eras dos gênios e dos commons.

É inerente à noção de genialidade o fato de que ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos. Há, na obra de todo gênio, uma absoluta supremacia, de ordem técnica ou formal, em relação aos mais proeminentes de seus pares. Quando poucos eram reconhecidos como grandes autores (escritores, poetas, pintores, escultores, compositores…) suas obras estavam, tecnicamente, enormemente acima das possibilidades do homem comum, ainda que educado, contemporâneo.

Já foi muito bem dito que, após o advento da web, vivemos num período que pode ser designado como de autoria quase universal. Se antes a escrita era uma especialização exercida por poucos (escritores, jornalistas, juristas e afins), hoje qualquer um pode, em tese, enviar um SMS ou, pior, postar algo num grupo ou, pior ainda, site. Para o homem comum, a escrita passou da esfera íntima à pública. É claro que, para que isto acontecesse, foi necessária uma tremenda relativização da expectativa de qualidade em toda escrita. Quem são os gênios de hoje ? Não sabemos. Simplesmente por que há autores demais. E isto não é nada ruim. Apenas novo.

(mais tarde comentarei sobre a implicação do novo protocolo de commons sobre aquele que é um dos pilares da academicometria, a saber, o do pressuposto da primazia de enunciação)

Para que fosse possível haver mais autores, foi, antes, preciso que a autoria fosse também reconhecida a níveis menos olímpicos do que o dos gênios. Tal distensão das exigências da autoria se refletiu não só em certo empobrecimento da linguagem como, principalmente, no encurtamento das formas, de sorte que o óleo, o grande romance e a sinfonia deram lugar ao rabisco, à canção pop, ao post ou ao tweet. Ainda há lugar para gênios nesta algaravia ?

 

4 respostas para “De espectadores a participantes ou Que fim levaram os gênios ?”

  1. “É inerente à noção de genialidade o fato de ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos.”

    Na realidade diversos gênios foram reconhecidos apenas postumamente, vide Bach, Poe, Kafka e tanto outros.

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