Sobre o aplauso, o silêncio e fotos de turma

De tempos em tempos se reacende o interesse pelo fenômeno do aplauso disruptivo, ou seja, todo aquele que rompe o silêncio entre as partes de uma obra musical. Uma das últimas celebridades a se manifestar em favor da liberdade do ouvinte para aplaudir quando quiser foi Esa-Pekka Salonen. Aproveitando o ensejo, o provocativo escritor e crítico inglês Norman Lebrecht republicou um irônico libelo, de um colega americano de quase trinta anos atrás, de índole diametralmente oposta ao que dissera o maestro sueco. Estava reinstaurada a polêmica.

Lancei-a no facebook e não deu outra: em poucas horas, minha provocação captou a atenção de diversos músicos, escritores, críticos e ouvintes, dentre eles dois regentes que (é importante sublinhar !) são até hoje e foram, muito antes de subirem ao pódio, mundialmente reconhecidos como virtuoses em seus instrumentos, que imediatamente não apenas se posicionaram contra ou a favor (i.e., indiferentes) em relação aos aplausos disruptivos mas foram, muitas vezes, adiante, agregando nuance. Como, por exemplo, da diferença entre o aplauso voluntário e o ruído acidental que interrompem uma audição. Ou a própria ideia de silêncio, cada vez mais ausente na música que se ouve hoje. Mas deixemos, por enquanto, com a palavra nossos doutos comentaristas.

Fabio Zanon: Acho odiosa a ideia de controlar a reação das pessoas. Acho inclusive anti-natural não aplaudir depois do 1o movimento da 2a de Mahler, do scherzo da Patética, etc. Tem músicas que toco em que uma vez em cinco apresentações escuto aplauso espontâneo no meio do movimento. Ora bolas, ninguém tem obrigacão de saber quando termina uma obra de Ponce. Se o compositor odiasse interrupção, faria como Beethoven ou Mendelssohn, emendaria um movimento no outro.

Augusto Maurer: 1 a favor X 0 contra. Obrigado e grande abraço, Fabio Zanon !

Jose Serrano Aguston: Não é uma questão de “controlar”. Se sempre existiu um protocolo que hoje está sendo quebrado, não é por falta de “controle”, mas falta de educação. Educação é uma forma de controle pelo entendimento, em vez da coerção.

AM: Faz sentido, primo. Afinal, os poucos que aplaudem na hora errada são invariavelmente ouvintes casuais, pouco ou nada habituados ao protocolo tácito das plateias contumazes. Educação, portanto, é tudo. Abração !

Lavard Skou Larsen: Aplausos só 10 segundos depois que a obra inteira terminou! Assisti a concertos aqui na Europa em que nem no fim se aplaude, e não são concertos sacros ou com motivos especiais.
Tem muitos músicos que preferem silêncio total.

Breno Freire: Existe ai um principio a ser observado. O da relativa “democracia musical”. Penso que é horrível querer manipular o comportamento espontâneo das pessoas, bem como definir a roupa que você deve trajar para assistir um concerto. Em contrapartida, existe a banalização do aplauso. Penso que muito mais do que espontâneo, existe uma inércia comportamental. Os cânones que reproduzimos no nosso dia-a-dia, também reproduzimos dentro das salas de concerto. Se não existe discernimento, a contemplação é reduzida ao efêmero.
O aplauso deixa de ser uma reverência, e muitas vezes acho que não é necessário, em qualquer ocasião. Nós, enquanto artistas, ficamos envaidecidos, mas será que o aplauso é realmente necessário. Respondo seu questionamento, com outro.
Eu sou a favor do “ouça, pense e então aplauda ( se a atmosfera te leva a essa necessidade de se manifestar).

AM:Obrigado, amigos ! E por que não uma postura educativa, embutida, talvez, nos avisos de desligar celulares antes de cada concerto ou, quem sabe, até com sinais luminosos, como em estúdios de rádio ou gravação, acesos nos momentos em que o silêncio da audiência é necessário. Pois, se já tem até ópera legendada, imagino que luzinhas vermelhas, como as que indicam saídas de emergência, muito mal não hão de fazer. Outra vez, muito obrigado pela visita ! Obviamente, citarei seus valiosos comentários em meu blog.

André O Paz: Também acho meio arcaica essa idéia de que “é preciso saber quando aplaudir” porque me passa muito essa mensagem de que “é preciso saber apreciar”. Como disse o Fabio Zanon, ninguém tem obrigacão de saber quando termina uma obra de Ponce. Vou além e digo que ninguém tem obrigacão de saber quando termina qualquer obra.
Porém, ampliando a abrangência, acho que tem muito aplauso fácil, e essa questão permeia toda produção. Como diz o Marcelo Fruet: é preciso saber jogar tomate também. Palmas não são obrigatórias.

FZ: Existe o aplauso fácil e existe o aplauso difícil. na minha cidade, Jundiaí, se não tocar música legal e se não tocar direito, o pessoal não chama de volta, não…

AM: Povo educado !

AM: Mais. Acredito que o franco conflito existente, como vimos acima, quanto à expectativa de aplauso entre as partes de um todo se deva muito mais à mudança de paradigma, de que tanto falo, de plateias silenciosas (acústicas) a barulhentas (amplificadas). Não tem a ver só com gênero musical. Tem a ver, também, com espaços de audição. Tem a ver com categorias caducas como erudito ou popular. Muitos ouvintes de hoje talvez jamais tenham ouvido algo unplugged, livre de qualquer amplificação eletrônica.

Milton Ribeiro: Eu sou contra o aplauso entre os movimentos, mas considero que há músicas que quase nos forçam a tanto, tornando natural a ejaculação precoce, como escreveu o Zanon. Mas acho inaceitável o aplauso sistemático entre os movimentos. Desconcentra o ouvinte — que é minha perspectiva. Na lamentável Porto Alegre, até o Secretário da Cultura faz cara de embevecido, aplaude entre os movimentos e ainda aponta para seu coração, deixando os músicos motivadíssimos… Sua ejaculação (precoce) é tão clara quanto a de um ator pornô. Chegamos ao fundo do poço e começamos a cavar. Bem, prefiro discutir a previsibilidade dos programas. [emoticon smile]

AM: [emoticon smile]

Joao Geraldo Segala: O aplauso me incomoda no geral, mais ainda aquela galera que vai só pra gritar bravo e aplaudir de pé. Eu realmente aprecio um recital/concerto/o-que-for onde se constrói um ritual de apreciação que tem várias regras de conduta. Começa (ou deveria começar) por as pessoas chegarem na hora, não comerem coisas, etc, e certamente tem a ver com quando e como aplaudir. Sobre quando, enche o saco aquela barulheira no meio da peça. Estou muito mais interessado (ou, melhor dizendo, estou exclusivamente interessado) em saber como o intérprete quer me propor aquela janela de tempo de sua performance, não havendo espaço para participação da platéia batendo palmas entre movimentos ou, que se dirá, no meio de um movimento. Já sobre como, eu não me sinto na obrigação sequer de aplaudir, e só o faço se realmente gostei da interpretação. No fundo, o resultado desta prática é que cada vez vou a menos concertos e, os que vou, são aqueles que fazem a diferença pra mim.

MR: Eu também fico louco com os porto-alegrenses que gritam e só faltam pular de alegria após a execução das obras. Aqui, o “Bravo” é quase um vitupério aos artistas, sinal apenas de que suaram e fizeram as devidas caras de torturados durante seus solos.

Júlio César Apollo: Ué, mas as óperas não param para que possamos aplaudir no final das árias?

AM: A ópera é, antes de um gênero vocal, um protocolo entre ouvintes, com suas convenções solidamente arraigadas, geralmente tendo pouco a ver com coisas musicais.

AM: As exclamações de “bravo”, mais do que congratular os músicos, equipara, por um breve instante, o ouvinte anônimo ao célebre solista. É o solo do anônimo.

FZ: Tudo é protocolo. E, como músico, prefiro ouvir vaias a um público apático, que aplaude só para mostrar que terminou. Isso é irrelevante. Não seria melhor a gente focar em melhorar aquilo que faz diferença? Por exemplo, garantir que ninguém abre bala ou remexe o saco plástico durante a apresentacão; ar condicionado silencioso; poltronas à prova de rangido; isolamento do ruído externo; e, principalmente, buscar o melhor tratamento acústico possível para as salas que temos. O maior inimigo do concerto não é o aplauso fora de hora; é a pobreza das condicões acústicas e o ruído na sala de espetáculos que me fazem preferir ouvir um CD. Não por acaso a Sala São Paulo aumentou o público da cidade; agora a gente vai lá na certeza de que terá um som envolvente; melhor que o do hi-fi. Nós crescemos ouvindo sinfonias em LPs e tínhamos de virar o disco; qual o problema em aplaudir entre os movimentos? Se ajuda as pessoas a controlar a ansiedade e a inquietude, sou a favor. Essa obrigação de ficar uma hora imóvel é o que faz as pessoas conversarem, ficarem inquietas, etc.

JCA: Muito bom.

JCA: Vou publicar teu texto em meu perfil.

Zeca Azevedo: Concordo com o Fabio Zanon.

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Costumo estimar a relevância de um texto postado na internet relacionando seu tamanho ao do thread de comentários que engendra. A julgar pela sucessão de enunciados acima, o tema do aplauso disruptivo é vibrante.

Não canso de enaltecer a web por facultar a todos, como nunca antes, a instauração de redes que contemplem os mais diversos e elevados interesses. Foi pensando nisto que me dei conta de que, na grande maioria das fotos de turma tiradas durante os tempos de colégio, me lembro de apenas uns poucos rostos, com os quais não lembro de ter mantido presencialmente, durante anos de vida escolar, quaisquer conversas minimamente tão interessantes como a transcrita acima, que tive, contrariando toda expectativa derivada do senso comum, com interlocutores que sequer conheço pessoalmente ou com quem estive apenas em raras ocasiões – como, por exemplo, alguns dos que aparecem na foto abaixo, de uma turma particularmente singular.

 

Anotações sobre a crítica musical de Bernard Shaw (ii): goatbleat

Dentre as melhores partes da crítica musical de Bernard Shaw está, certamente, ao final de uma longa crônica, publicada em 10 de janeiro de 1890 e se dirigindo (em tom aforístico, como lhe era de costume) a cantores e atores, em que cunha a formidável expressão goatbleat. Traduzindo, o que o Bassetto diz é mais ou menos o seguinte:

[…] Eu não era então acostumado ao hoje felizmente obsoleto método vocal chamado goatbleat (berro de bode); […]

[…] Não são raros os casos de cantores e falantes experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos em novas e alarmantes condições acústicas. Quando isto acontece, começam a berrar francamente, […] Atores e cantores que tenham vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvidos e, de modo algum, soarem alto (loud). Loudness é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

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Dia desses, intrigado, perguntei a um de meus filhos por que preferia, aos canais de TV a cabo que lhe eram disponíveis, invariavelmente videos postados no youtube. De pronto, me respondeu que pela liberdade de escolha de conteúdos. Fez sentido.

A princípio, desdenhei o tempo gasto vendo outros (que depois me inteirei se chamarem youtubers) postarem em vlogs recortes de seu dia-a-dia ou, simplesmente, partidas de videogames comentadas (!). Confrontado com as enormes quantidades de seus seguidores, questionei os números declarados. A discussão parou por aí. Mas isso foi meses atrás.

Anteontem, ele quis (!) que eu visse uns videos que ele garimpara, independentemente de recomendações, apenas buscando por palavras-chave. Tive que dar o braço a torcer: não via nada tão engraçado na TV há tempos. O que ele me mostrou ? Talvez as melhores realizações até hoje, mais de 100 anos depois (!), da metáfora imaginada por Shaw. Confiram:

Mais sobre a Tower Records e a Modern Sound; Minding audiences (iii) ou Para ouvir Eric Dolphy (iv)

Modern Sound 6

Na pressa da escrita diária, esqueci de contar uma coisa ou outra sobre as míticas lojas de discos de que falei ontem. Um dado de extrema importância sobre a Modern Sound é que, além de ser um dos poucos lugares onde se podia encontrar discos de pequenos selos, então conhecidos como independentes, também abrigava um bistrô que tinha um dos mais movimentados palcos de jazz e música instrumental no Rio de Janeiro – dispondo, portanto, desta facilidade para, frequentemente, lançar álbuns de músicos importantes. Se pode dizer, então, que com o fechamento da Modern Sound de Copacabana, se extinguiu, também, um dos poucos clubes de jazz do Rio de Janeiro.

Como tantas metrópoles culturais, o Rio também tem uma cena jazzística bastante relevante (a de Buenos Aires, por exemplo, é excelente !). Só que o jazz é, provavelmente, a última coisa que alguém que vai ao Rio pensa em ouvir. Quem vai lá quer ouvir um samba na Lapa ou a bateria de uma escola de samba. Quando muito, uma roda de choro. Mas jazz ? No Rio ? Talvez seja por isso que, no Rio, a melhor música instrumental é oferecida, por vezes, até de graça. Como, por exemplo, em quiosques à beira da Lagoa Rodrigues de Freitas. Mas devo dedicar, num futuro próximo, um post exclusivamente a isto.

Por hora, é importante apenas se frisar que,

tendo sido o pequeno palco do bistrô da Modern Sound de Copacabana, por muito tempo, uma das poucas opções para apresentações de jazz – ou, mais inclusivamente (pois Hermeto e Egberto, por exemplo, fazem, por excelência, jazz !), música popular instrumental improvisada;

com seu fechamento se encerrou, muito mais do uma forma de comércio, de produtos tidos talvez pela maioria como obsoletos, também uma parte bem significativa da música da cidade musicalmente mais emblemática da América Latina.

Parece pouco ? Acho que não. Controvérsias à parte, confiram, n’O Globo, uma análise da crise que acabou com a Modern Sound, a Tower e, provavelmente, a maioria de suas congêneres.

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tower records 6

Um detalhe curioso que não mencionei  ontem sobre o sale annex da Tower é que todos os ítens fora de catálogo lá oferecidos eram inutilizados (marcados), para prevenção contra venda a intermediários, por meio de procedimentos que incluíam serrar ou furar cantos das embalagens sem danificar as mídias gravadas. Com isto, todas as minhas caixas de LPs do Quarteto de Budapeste e CDs do quinteto de Dolphy no Five Spot tiveram suas lombadas impiedosamente mutiladas por brocas e serras. Imaginem o gozo do cara cujo trabalho era fazer isto !

Dolphy, de quem jamais canso de falar – e de quem prometi falar ontem e não cumpri. Desta vez, com seu quinteto no Five Spot de Nova Iorque, tendo como sideman o fabuloso trompetista, precocemente falecido, Booker Little, outro gigante desconhecido de quem já falei. A geração de Dolphy é uma de biografias curtas. Lamentavelmente.

Colecionar discos de Dolphy é uma tarefa que exige paciência e astúcia. Primeiro, por que suas realizações mais impressionantes se “escondem” sob títulos lançados sob o nome de músicos mais célebres, como Mingus ou Nelson, a quem o claronista serviu, brilhantemente, como sideman. Depois, por que os poucos títulos lançados sob seu nome, talvez por terem sido considerados por executivos como demasiado estranhos para a maioria dos ouvintes (“Nelson, Mingus e Monk, vá lá, mas Dolphy ? Just too weird to be digged“), sequer eram lançados aqui. Ou, quando muito (como no caso de Out to Lunch), nos discos duplos de acervos históricos, por vezes arrematados em liquidações, de que falei ontem.

Dolphy at the Five Spot I 1

A julgar pela lombada serrada, foi na Tower que encontrei (lembro até hoje o êxtase !) dois CDs japoneses (com um rico encarte misteriosamente impresso com ideogramas), originalmente lançados pela Prestige, com os sets registrados por Dolphy e seus parceiros no lendário clube em 16 de julho de 1961. Não quero me alongar, ao menos hoje, sobre as razões da estranheza de sua música. Até por que tudo que eu dissesse seria bem redutivo. Sobre estes discos, verdadeiras joias deliciosamente garimpadas, faço, apenas, duas observações:

primeiro, que a duração descomunal de cada música (influência da experiência com Mingus ?) – a saber, 13:44, 12:30, 21:22, 17:16 e 19:57 ! – não é, definitivamente, para ouvidos comuns (por que sempre espero achar mais e melhor conteúdo nas grandes formas ?…);

depois,a notável interrupção no “fluxo” improvisatório de Dolphy (em seu original The Prophet) tomado de pasmo logo após ter ouvido uma infelicíssima manifestação vinda da audiência na hora mais imprópria – um grito de entusiasmo a rasgar o reverente silêncio. Algo impensável, suponho, na Europa. Mas aceito como natural mesmo nos melhores templos do jazz novaiorquino.

A indiferença pública ao mais sublime que lhe é contemporâneo é um tema fascinante do qual já me ocupei aqui. Tornando a olhar esta foto, dos alegres frequentadores do mesmo Five Spot onde Dolphy e seu quinteto se apresentaram naquela noite (como se fossem eles próprios, com seus ares inteligentes, e não os músicos, os protagonistas daquilo tudo), não consigo concordar com Woody Allen quando acusa os californianos de terem inventado o conceito de estilo de vida.

jazz audience 16

 

 

A Modern Sound, a Tower Records e o Parêntesis da Indústria Fonográfica; ou Para ouvir Eric Dolphy (iii)

tower records 4O fim dos anos 80 não foram apenas particularmente bons para se estudar em Nova Iorque, com acesso facilitado a tudo o que se quisesse ler, ver ou ouvir em suas excelentes bibliotecas públicas (sem falar nas coleções das próprias escolas) – mas, também, para se adquirir uma coleção digna de ser lida e ouvida repetidamente ao longo da vida. Falo, claro, de pechinchas como os review books garimpados na Strand, dos quais falei dias atrás, e, last but not least, discos (CDs e LPs !) fora de catálogo no sale annex da Tower Records. No mesmo Greenwich Village, a poucas quadras da Strand). Lá, encontrei coisas como, por exemplo, caixas de LPs com coleções de quartetos de Beethoven executados em Stradivari da Biblioteca do Congresso pelo lendário Quarteto de Budapeste, ciclos de lieder de Schubert ou Wolf com Dieskau ou, ainda, integrais das sinfonias de Nielsen com Bloostedt. Coisas de gigantes como a DG a nem tão nanicos como a Bis, a Naxos ou a Nonesuch.

(noutra hora, tomaremos à instigante questão da importância das celebridades para os gigantes e o papel dos nanicos para a promoção da diversidade)

Ia lá quase todas as semanas, raramente saindo de mãos abanando. Sempre havia tanto novidades como prateleiras jamais inexploradas a serem peneiradas. Talvez por isto tenha ficado tão triste (ainda que nem um pouco surpreso) ao saber do fechamento definitivo da loja em 2006. E, agora, bem curioso por assistir o novo documentário All things must pass, dirigido pelo filho do Tom Hanks, sobre a mítica loja. Espero ardentemente conseguir vê-lo, senão em salas de cinema, ao menos nalgum canal de TV a cabo.

Record Store Day at Amoeba in Los Angeles. This is the world largest independent Record Store. Sunset Boulevard, Los Angeles.

O fim da mais importante, senão a maior, rede de lojas de discos era uma morte anunciada desde a chegada da internet. Mais do que um caso isolado, pertence a uma tendência global (que por hora designaremos – sem ainda, no entanto, dela nos ocupar – Parêntesis da Indústria Fonográfica) cujo caso brasileiro mais emblemático foi a Modern Sound de Copacabana. Curiosamente, a Tower Records (1960-2006) e a Modern Sound (1966-2010) tiveram ciclos de existência com praticamente a mesma duração.

Modern Sound 4

Bem antes de conhecer a Tower, descobria, na primeira das quatro vezes em que estive no Rio, a Modern Sound, onde adquiri algo impensável em qualquer outro ponto do território nacional, a saber, o lendário disco de Eric Dolphy chamado Far Cry, inédito por aqui e reeditado pela Prestige como uma espécie de álbum duplo aleatório com as duas vezes em que Dolphy e Ron Carter colaboraram. Gravadoras fazem isto. Conheci Out to Lunch, também de Dolphy, num desses “duplos” da Blue Note, junto com Blue Train, de John Coltrane. No caso do par da Blue Note, ouvi os dois até gastar. Já no da Prestige, não lembro de ter conseguido ouvir o do baixista inteiro até o fim. Abaixo, as capas da edição original de Far Cry e de sua reedição como Magic, junto com o disco de Carter. Confesso que gosto mais da segunda, embora só consiga ouvir um dos dois discos nela embalados. Coisa que só acontece, mesmo, com LPs (imaginem alguém comprando CDs por causa de suas capas…)

Far Cry 2

Magic 2