Anotações sobre a crítica musical de Bernard Shaw (i): Prefácio: contra a escolarização

Corno di Bassetto, o jovem folhetinista

George Bernard Shaw (1856-1950) foi um herói de muitas causas. Socialista ardente, foi um dos primeiros a perceber a exploração das classes trabalhadoras e a exigir direitos iguais para homens e mulheres. Também foi vegetariano.

Num prefácio, escrito a bordo de um transatlântico e aposto à coletânea de sua crítica musical de 40 anos atrás, Shaw conta como se tornou crítico musical. É que o editor do jornal para o qual escrevia temia imprimir em suas páginas seu discurso político inflamado, julgando o colunismo de espetáculos musicais um setor mais inofensivo. Capaz, por si só, de neutralizar qualquer bias ideológico que o colunista pudesse ter. Estava enganado, como qualquer leitor atento facilmente percebe.

Todos sabem que uma das partes mais importantes do equipamento de qualquer crítico é um conhecimento profundo e amplo de quaisquer campos que almejem cobrir. É, assim, no intuito, talvez, de melhor apresentar suas credenciais para o que na juventude se propuha a fazer, que GBS esclarece, neste prefácio, circunstâncias bem singulares de sua educação que, de algum modo, deixam transparecer seu desapreço pela escolarização. Aqui:

[the meaning of the word “into”] was explained to me on my first day at school; and I solemnly declare that it was the only thing I ever learnt at school.

E também aqui:

… the Dublin National Gallery, one of the finest collections of its size in Europe, with the usual full set of casts from what was colled the antique, meaning ancient Greek sculpture. It was by prowling in this gallery that I learnt to recognize the work of the old masters at sight. I learnt French history from the novels of Dumas père, and English history from Shakespeare and Walter Scott. Good boys were meanwhile learning lessons out of schoolbooks and receiveing marks at examinations: a process which left them pious barbarians whilst I was acquiring an equipment which enabled me not only to pose as Corno di Bassetto when the chance arrived, but to add the criticism of pictures to the varios strings I had to my bow as a feuilletonist.

 

Sir Bernard Shaw, o dramaturgo consagrado

* * *

PS significativo: Milton Ribeiro reclamou que meu post anterior terminou abruptamente. Tomo isto como elogio. Pois procurei explicitar ao máximo a forma fragmentada do texto, como num folhetim – sendo, portanto, o corte dramático algo essencial.

PS nada a ver: revisando o texto acima, me dei conta de que meu exemplar de London Music in 1888-1889 foi impresso no ano da morte do autor.

Sobre a invenção da crítica musical; ou Uma introdução ao Corno di Bassetto

Corno di Bassetto foi o pseudônimo adotado pelo grande dramaturgo irlandês George Bernard Shaw para, quando jovem, ainda desconhecido e dedicado ao colunismo diário, resenhar brilhantemente a cena musical vitoriana, não só em toda Londres metropolitana mas pela Europa de então. Pois são notáveis, por exemplo, seus registros sobre performances em Bayreuth e Amsterdã.

Nesta crônica exponencial e diária, que se estendeu por anos e abarca vários volumes, não poupou de seus comentários ácidos e, na maioria das vezes, hilários, desde músicos, cantores e maestros até professores, empresários, políticos, arquitetos, ouvintes e os próprios críticos.

A revelação mais contundente de sua leitura é que, não obstante passados já mais de cem anos desde a época em que foram escritas, permanecem, quase todas, atuais, i.e., se aplicam a situações vigentes ainda hoje.

Espantosamente, tamanha coletânea de seus textos curtos, precisos e mordazes jamais foi traduzida para a língua portuguesa. O volume que ocupa na obra completa de Shaw, publicada pelos anos 30 e existente na Biblioteca Central da UFRGS, nunca havia saído de lá até que, anos atrás, o tomei emprestado. Pois meu próprio exemplar, adquirido usado num sebo que afirma ser o maior do mundo, esteve emprestado por mais de uma década.

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No fim dos anos 80, a Strand Book Store, que fica na Broaway no coração do Greenwih Village, próximo ao campus da New York University, tinha um perfil bem interessante. Pois, além de alegar ter mais de 8 milhões de livros a preços irrisórios, tinha grandes estoques de exemplares de revisão (review books), que era como chamavam a enorme quantidade de cópias promocionais, luxuosamente encadernadas, presenteado pelas editoras aos muitos críticos locais e vendidos pelos mesmos à Strand por frações ainda menores de seus preços em livrarias.

Meu exemplar de London Music in 1888-89 as heard by Corno di Bassetto, lá garimpado, não foi, no entanto, um review book. A julgar pelo papel envelhecido e encadernação surrada, minha cópia, impressa em 1950, foi mais provavelmente arrematada com parte de alguma coleção particular.

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Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que li do início ao fim (abandonei muitos !), pouquíssimos livros. London Music foi um deles. Muitas vezes. Há marcações a lápis em praticamente cada página, além de muitos marcadores. O único artigo acadêmico que já redigi sozinho, postado em meu primeiro blog, foi sobre ele. Desisti de republicá-lo para, antes, o atualizar. De sorte que esperem, então, em posts vindouros, mais sobre a crítica musical segundo seu inventor.

A crítica musical em meios jornalísticos é um gênero literário tão interessante quanto negligenciado, desprezado (por vezes com justas razões…) ou mesmo ignorado por artistas, intelectuais, acadêmicos, políticos, jornalistas e formadores de opinião em geral. Praticamente inexistente antes dos tablóides diários das primeiras metrópoles industriais (daí minha atribuição de sua invenção ao Corno di Bassetto), sucumbiu sob o peso da própria obsolescência com a chegada da internet. Não que tenha deixado de existir. Só que, ao invés de ser exercida por um punhado de escritores bem treinados e musicalmente educados, instrumentados por fabricantes de discos e bancados por empresas jornalísticas, foi pulverizada entre uma multidão de opinantes qualificados, dispersos em blogs, perfis, grupos de discussão e fóruns de comparações ou avaliações por usuários. Hoje, toda inteligência é líquida. Queiram ou não certificadores e autoridades investidas.

A delicada questão da independência necessária ao bom exercício de toda crítica foi magistralmente levantada por Bassetto, nalgum de seus textos (acho profundamente irritante não localizar uma referência exata…), por meio de um espirituoso aforismo, a saber, o de que ” um crítico (ou seu jornal) deve sempre adquirir os ingressos para quaisquer espetáculos que venha a resenhar ” – cujo descumprimento, aliás, explica grande parte das más práticas hoje perpetradas em meios de broadcasting.

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Mais sobre notações metronômicas, or in praise of social networking or, still, on conducting (x)

metronome 1Após dias de imersão exclusiva em modo músico, culminando ontem com a execução da suíte orquestral de 1919 do balê O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky, torno ao modo blogueiro até que um próximo desafio instrumental se apresente. Tenham, pois, paciência se gosto de textos colaborativos, nos quais tento enquadrar num contexto e dar mais permanência à melhores conversas que tenho.

Comentava hoje, ao acordar, que estava gostando de deixar o computador ligado para receber notificações de novas falas em conversas interessantes em curso na rede. Nos intervalos necessários ao estudo, discutia os andamentos mais adequados para a música a ser tocada nas próximas horas com parceiros importantes que teria no concerto. Embora ainda não tenha ouvido a gravação, quero acreditar que o teor da conversa afetou positivamente a performance, pois tocamos a passagem mais crítica num andamento muito mais próximo (?) a um consenso acordado entre protagonistas por meio de conversas em redes sociais do que, nitidamente, naquele proposto insistentemente pelo regente desde o primeiro ensaio. Estou errado ? Se estiver, me desculparei adiante.

metronome plastic 2Enquanto isto, vejam, abaixo, alguns dos melhores trechos da conversa. Tudo começou quando, depois do primeiro ensaio, na semana passada, para o concerto de ontem, postei no facebook o seguinte desabafo:

Até entendo, embora não aceite, que alguém queira – e para tanto talvez encontre mesmo alguma desculpa esfarrapada (como, por exemplo, um metrônomo defeituoso ou algo do gênero) – se desviar dos andamentos prescritos por um Beethoven ou, vá lá, Mendelssohn. Foge, no entanto, totalmente à minha compreensão por que alguém decide (decide ?) desprezar ostensivamente as indicações metronômicas de um Stravinsky (sic !). #aindaimpactado

metronome plastic small redMinha perplexidade inicial era com a lentidão do andante final (solo de fagote), em franca oposição à indicação metronômica impressa na partitura. Fui, no entanto, traído pela linguagem demasiado compacta, pois entenderam que eu me referia, sobretudo, à veloz Variação do Pássaro de Fogo. Mas tanto as ideias discutidas, a pesquisa ampla e metódica e os melhores vídeos encontrados (ainda não vi, mas aposto que qualquer coisa curada pelo Artur Elias é nada menos que gloriosa), fazem desta conversa a melhor que tive enquanto me preparava para o concerto vindouro. A qual começara, despretensiosamente, como comentário à recomendação de um video no youtube (de uma versão para piano da Dança Infernal de Katschei, ao que lembro), mais ou menos assim:

AE: En passant, Augusto Maurer, Leonardo Winter, . Vinicius Prates, Gustavo Fontana e a quem mais interessar possa :

uma pesquisa exaustiva no youtube não conseguiu localizar nem uma ÚNICA gravação na qual Variação do Pássaro seja tocada no
andamento impresso (76).

A Filarmônica de Moscou nesta excelente versão com Yuri Simonov (vídeo abaixo) faz 20 pontos de metrônomo abaixo: 56 (e soa lindo!).

O próprio Stravinsky regendo: ca 66.

Duas produções de ballet, uma russa e uma inglesa, também.

O que reforça minha opinião :

1 é praticamente impossível tocar limpo no andamento impresso

2 soa melhor e mais virtuosístico num andamento que permita tocar limpo

Além disso, parece que nenhuma bailarina gosta (ou consegue) fazer tão rápido, idem!

AM: Concordo. A variação fica melhor num tempo mais seguro; quando falei de lentidão excessiva, me referi ao Andante final. Como resolvemos isto ? Acordamos um tempo previamente com o maestro ou deixamos ao sabor do momento ?

AE: Pois é. Eu creio que a argumentação acima é praticamente irrefutável. Por outro lado, é não apenas um direito dele construir sua própria interpretação; mas também é fundamental que ele se sinta livre para exercer a espontaneidade musical, que faz a música ter vida. E isso não é uma questão de argumentação. Eu gostaria de ter a CHANCE de poder tocar todas as notas, mas não gostaria que ele se sentisse constrangido e isso viesse a prejudicar a intensidade do momento.

Versão curta: não sei.

metronome electronic 1Já no palco, pronto para executar a obra, ouvi de Leonardo Winter (flautim), acerca da acalorada disputa entre os melhores tempos para Stravinsky, que a vida continuava depois daquele concerto. Pura verdade. Bem como a conversa. Chegando em casa, Artur Elias (primeira flauta) e Vinicius Prates (segunda flauta) escreveram, ainda mobilizados pela experiência, o seguinte:

VP: Nossa! Que gravação!!! Fiquei tonto só de pensar que tantas notas simultâneas podem ser tocadas por apenas uma pessoa. Deve ser música pra quem tem 7 ou 8 dedos em cada mão. Obrigado por compartilhar! Com relação aos tempos comentados acima, gostaria de expressar minha humilde opinião em meio aos comentários (até agora) de dois jedis. Recentemente durante meu mestrado, em uma aula eu e o Leonardo Winter discutíamos a respeito de andamento X execução de Notas Soltas para flauta solo de Bruno Kiefer, obra objeto de minha pesquisa. A partitura pede semínima acima de 100, se não me engano (não tenho a peça em mãos enquanto escrevo). Não é tão rápido quanto o Passaro nem tão difícil, mas, devido ao tempo justo, traz consigo algumas dificuldades. Lembro que naquela ocasião meu professor relatou uma conversa que teve com outro compositor (não lembro quem) em que este o disse que muitos compositores indicam andamentos rápidos na partitura não preocupados com a precisão matemática do pulso mas sim com a intensão de não fazer com que o interprete atrase no tempo. Em outras palavras, fazer com que o músico leve a música sempre pra frente. Em minhas palavras e interpretação da lição, o compositor está mais preocupado com o caráter justo do que com o tempo justo. Sabemos que muitas vezes caráter e tempo caminham lado a lado (se não sempre). Mas penso que uma subdivisão em figuras minúsculas e articuladas também pode contribuir para o caráter justo, vivo, independente da marcação metronômica. Talvez isso explique os andamentos mais lentos na maioria das gravações disponíveis. Acredito que o caráter saltitante esteja presente em todas as versões, independente do tempo mais largo. Por outro lado, o tempo preciso me parece trazer outro tipo de expressividade, apesar de talvez prejudicar tecnicamente um ou outro ponto. Aquilo que o maestro disse muito bom: é como desarmar uma bomba! Ou seja,é uma certa aflição pela qual o músico talvez tenha que passar como parte integrante e colaborativa da execução de uma peça tão complexa. Quem sabe se isso não intencional na escrita poética do compositor? Ou quem sabe, e provavelmente, eu viajei de mais? Fato é que meus colegas e o maestro estão fazendo um trabalho brilhante. Parabéns! Bravi Tutti!!!

AM: Gostei da tese de que composer’s metronomic markings are bullshit. E da parte dos jedis. Lembrarei disto na próxima discussão sobre indumentária.

VP: Prefiro composer’s metronomic markings can be bullshit. Acho que assim me comprometo menos, kkkkkkkk

AM: Exatamente ! Cada caso é um caso.

AE: Exemplo interessante, Vinicius Prates. Eu toquei as “Notas Soltas” algumas vezes, numa vida passada – nunca no andamento impresso (não conseguia!) mas sempre com rigor – e intensidade – se não me falha a memória, o público parecia curtir muito essa composição aparentemente árida!

Observações soltas

– é MUITO comum, na música dos gigantes sinfônicos russos, indicações metronômicas que beiram a crueldade, por assim dizer… Vide Prokofiev e Schostakovitch, além de Stravinsky.

– A percepção de andamento “dentro da cabeça”, apenas ouvindo a música internamente, é bem diferente da percepção do tempo quando a música está sendo realmente tocada – e mais ainda se for uma formação grande

– Nenhum debate sobre andamentos pode ser completo sem mencionar Celibidache, o alquimista da regência! Para ele, andamento, músicos, a SALA e o momento são interdependentes.

A propósito, eu ouvi um Romeu e Julieta sob a sua direção – foi uma experiência inesquecível e irrepetível.

Ao que não me furtei de deixar escapar:

AM: Notações metronômicas são para humanos mortais. Não se aplicam, portanto, a Celibidache, que pode tudo.

metronome korg blueAinda depois do concerto, Vinicius postou em seu facebook o seguinte:

Tem certas coisas que quando a gente toca, na hora que termina pensamos que nem criança: “de novo, de novo, de novo!” Foi assim comigo hoje com o Pássaro de Fogo. Emocionado com o concerto.

Espero que esta conversa se prolongue para além dos limites deste post.

metronome yamaha* * *

PS: Procurando figurinhas de metrônomos para ilustrar o post, me deparei com este artigo (do Smithsonian) sobre a bizarra tese do metrônomo defeituoso de Beethoven, à qual me refiro aqui e já em meu primeiro blog. Marquei prá ler. Pois deve ser, no mínimo, divertido.

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