Como formar um pensamento sem história ? ou Sobre imagens e palavras (i)

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Amoras silvestres que ensejaram a conversa reproduzida na primeira parte deste post.

Este texto pertence à série sobre as razões pelas quais estou no facebook, subsérie conversas que se tem por lá, e poderia se chamar, também (se o título não ficasse muito longo), eu sigo (iii) Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Nunca encontrei Luiz Afonso pessoalmente. Tive, no entanto, com ele, em caixas de comentários, algumas das mais interessantes conversações mantidas nos últimos tempos. Como, por exemplo, a que segue. Suscitada por uma provocação vinculada à postagem da foto acima. Tudo começou com o seguinte:

A última foto que postei já foi curtida 31 vezes. A divulgação do último post que publiquei, 4. Estes números devem querer dizer alguma coisa. Are images any better than words ?

Ao que Luiz Afonso prontamente retrucou:

Significa apenas que, em geral, as pessoas não entram no FB para ler. FB é entretenimento e não fonte de informação ou de leitura. Tirando os blogs jornalísticos, o acesso a textos perde de longe para o de imagens. Comigo – e com quase todos os que escrevem – acontece o mesmo…

Ocorreu, então, o seguinte diálogo:

Augusto: Ou seja, tudo se resume, no fundo, à velha e boa oposição entre lifecasting e mindcasting. Sonho com o dia em que o facebook e seus concorrentes ofereçam filtros inteligentes capazes de distinguir um do outro. Com os quais será bem mais fácil constituir PLNs.

Luiz Afonso: E tem mais, quanto mais posicionado for o texto, menos lido, menos curtido e menos comentado.

Augusto: (curioso: por que a exposição virtual é tão temida?)

Luiz Afonso: Por que poucos são capazes de sustentar argumentos, ideias ou de serem coerentes. Na maioria são repetidores de manchetes e não passam muito disso.

Augusto: Entendo. Uma civilização de slogans. Posso copiar esta conversa no blog ?

Luiz Afonso: Uma geração perdida. Tenho visto jovens de 20 a 35 anos que sequer conhecem fatos da história que temos por notórios. Como formar um pensamento sem história? Como ser crítico sem história?

Luiz Afonso: Pode, claro!

Augusto: Título provisório para o post: como formar um pensamento sem história ?

Augusto: (outra hora, te falo das raríssimas exceções que conheço ao princípio de que não há CC competente…)

Luiz Afonso: Se não existissem exceções, não seria regra hehehe

Luiz Afonso: Voltando ao teu post, esse foi o maior mal causado pela mídia: o imediatismo da solução pronta nas manchetes. Eliminou, com o passar dos anos, a capacidade das pessoas de irem atrás de mais informações/conhecimentos para fazerem a crítica do que recebem. E ir atrás de informação/conhecimento é ir atrás da história, da história que a mídia esconde. E assim também nas escolas…

Augusto Maurer: Outra coisa: que tipo de imagem posso usar para ilustrar essa conversa ? Pois, afinal, o Milton Ribeiro insiste muito que é bem mais fácil divulgar textos vinculados a imagens do que sem elas.

Luiz Afonso: Augusto Maurer, Sempre uso imagens nos posts. A escolha envolve técnicas de comunicação e, claro, sensibilidade…

Luiz Afonso: AH, e usaria essa imagem para ilustrar o post

imagens X palavras

* * *

Nessa mesma conversa, outros comentaristas também se referiram à primazia da imagem sobre a palavra como uma tendência importante em nossa época. Sempre que me deparo com este tipo de discussão, me vem imediatamente à mente a instigante formulação do Parêntesis de Gutenberg, ao qual já me referi aqui, segundo a qual estaríamos vivendo o ocaso de uma era de predomínio da escrita, delimitada no início pelo advento da imprensa e no fim (suponho) pela omnidisponibilidade de tecnologias visuais, como em tablets ou smartphones. Antes dele, dominavam as narrativas orais. Depois, viriam as visuais.

Então, de acordo com os estudiosos que o endossam, não haveria um problema maior no fato observável de que gerações mais recentes tenham cada vez menos familiaridade com a linguagem escrita, pois estaríamos no limiar de uma nova era de comunicação essencialmente visual. Faz sentido. Pois nativos digitais passam cada vez mais tempo se relacionando com telas. Seja interativamente ou apenas vendo, na melhor das hipóteses, podcasts e vlogs de algum youtuber ou, na pior, séries de TV. Não mencionei os jogos tão somente por que estes merecem um olhar mais dedicado.

No intuito de se estabelecer a importância relativa entre som e imagem em canais e meios de comunicação, um observador arguto poderia idealizar o experimento de, primeiro, ver televisão sem som e, depois, ouvir seu som sem ver a imagem para, então, decidir em qual dos dois modos consegue entender melhor o que se passa no programa transmitido. Alguém, dada a atual farra da ciência institucional, deve nalgum momento obter algum subsídio para uma pesquisa nestes moldes. Enquanto isto não acontece, podemos tergiversar, por exemplo, sobre se não seria bem mais fácil entender o cinema sem áudio do que sem imagens – enquanto a TV seria, por sua vez, bem mais incompreensível sem audio do que sem imagem. Fora, é claro, em transmissões de partidas de futebol. Sei lá. É só um palpite.

Cabe, ainda, observar que, enquanto praticamente toda postagem compatível com a categoria de mindcasting é fortemente apoiada sobre algum tipo de linguagem verbal, seja ela escrita ou não, já aquelas reconhecíveis como lifecasting se valem com frequência bem maior de recursos exclusivamente visuais. Como provam todas as postagens de selfies, foodporn e afins. Então, se for assim – e se os defensores do Parêntesis de Gutenberg tiverem razão – rumamos para uma era obscurantista na qual todo conhecimento só estaria ao alcance de uns poucos iniciados, porquanto letrados. Só nas piores distopias, como em Farenheit 451, se imaginou um porvir tão tenebroso.

Melhor não pensar nisso. Principalmente por que, até lá, dá para ter muitas conversas como essas que só as redes sociais ensejam. Curioso. Mesmo sem ter jamais encontrado Luiz Afonso pessoalmente, sei, graças às redes, que nutrimos as mesmas paixões pela escrita e pela cozinha. Mantidas as devidas nuances. Pois, enquanto me dou melhor com panelas, ele é um exímio assador. Alguém duvida ?

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Torta de pernil de cordeiro feita por Luiz Afonso.

 

 

Por que uma reforma política por atuais congressistas equivale ao casal Nardoni no Criança Esperança ou, ainda, à Claudia Leite no Rock in Rio

Tenho amigos que dizem, com alguma razão, que a flauta futebolística não me cai bem. Do mesmo modo, acho que o comentário político também me sai meio canhestro. Talvez por isto tenha resistido à crônica política por tanto tempo. Pois a maioria de meus textos sobre democracia líquida, obsolescência da representação e fim dos CCs foi sepultada com meu blog anterior. E também, é claro, por que há bastante gente bem mais apta à tarefa do que eu. Como, por exemplo, tantos só aqui no Sul21 (não tenho tempo de ler muitas fontes). Só que, por razões que desconheço, podemos perfeitamente viver sem paixão desportiva. Sem paixão política, não.

Não consigo, por exemplo, entender por que eu deva passar, a cada quatro anos, procurações a quem sequer conheço para deliberar sobre leis a que estou sujeito quando posso, eu mesmo, votar sempre que quiser sobre tudo o que entenda que diga respeito a minha vida e a dos outros. Pois, como é sabido, hoje só juízes e políticos fazem isto ao deliberar sobre os próprios salários. Por estas e outras, ainda temos muito a percorrer em direção ao aprimoramento democrático. E talvez por isto me desespere tanto ver desperdiçarmos tamanha oportunidade de mudança com a reforma hora urdida pelas gangues de Brasília.

Foi neste contexto que, por acaso (deixo a TV ligada enquanto uso o notebook) repercutiu de modo distinto para mim uma notícia, ouvida ontem, de que uma reforma política não só já estaria em andamento no congresso nacional, como já teria até um relator. Por que fiquei tão chocado ? Ora, por me parecer perfeitamente óbvio que qualquer reforma constitucional (tal como, neste caso, a política) deva emanar obrigatoriamente de uma assembleia constituinte exclusiva, especialmente eleita para a tarefa, a qual, por sua vez, não deveria jamais ser confiada a quaisquer representantes eleitos para mandatos legislativos. Como os atuais deputados e senadores.

Como a política não obedece a nenhuma lógica exceto a sua própria, seus próprios desígnios que parecem, por vezes, tão absurdos – de sorte que fui assombrado por evidências inegáveis de que a tal reforma política que provavelmente teremos que engolir é, a julgar pelo que é visto nos noticiários, esta mesma cujo foco principal parece ser o financiamento público de campanhas. Ou seja, o que os comparsas de Cunha e Calheiros pretendem com o atual projeto é não mais do que engordar ainda mais seus já polpudos ganhos. Pois, afinal, por que deveriam continuar pagando por campanhas eleitorais cujas contas podem sem, sem mais nem menos, cobradas dos contribuintes ?

Temos que concluir, então, que o clamor de passeatas e panelaços pelo impeachment só serviu de cortina de fumaça para que a quadrilha promovesse, diante da patuleia e sem o menor esboço de reação, mais este assalto ao cofres públicos.

A parte mais ultrajante da retórica em favor do financiamento público de campanhas é a ideia de que com isto, se estaria vedando a corrupção. Ora, com o financiamento público políticos simplesmente se apropriariam diretamente tudo o que viesse do propinoduto, sem ter que desembolsar com marketeiros e outras rubricas dispendiosas.

Mas não. Enquanto debatem se empresas ou cidadãos comuns devem pagar pelas campanhas que resultam em suas eleições, são deliberadamente excluídos de qualquer debate legislativo ou midiático questões de suma importância tais como o tamanho e o custo

de todas as máquinas legislativas, incluídos salários, mordomias e custos de gabinete;

de toda a pirâmide de CCs e

de toda a rede de serviços públicos em educação, saúde, segurança, cultura, ciência & tecnologia e afins.

Duvido que qualquer eleitor, diante destes valores, preferisse continuar tento a mesma quantidade de políticos, professores, médicos e policiais.

Vivemos na era do infográfico. Há infográficos para auxiliar a vender qualquer ideia. Então, simplesmente não consigo entender como não vemos, tanto em redes sociais como nas de broadcasting, infográficos plotando comparativamente dados como os acima. Pois suponho que uma visão superficial dos mesmos seja suficiente para despertar em quem quer que seja não só indignação mas, oxalá, revolta. Mas não é nada difícil entender por que tais informações não fazem parte do discurso político de qualquer partido.Também não vejo muito propósito em esperar que tais questões sejam tematizadas na mídia hegemônica.

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O Destino Manifesto e a opinião de José Agustoni sobre a exploração espacial

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Nem sabia da existência do tal manifesto até ler a mui ilustrativa coluna de José Monserrat Filho sobre o mesmo no Sul 21. Assim que a li, compartilhei no facebook, com a seguinte chamada:

A arrogância nacional e imperialista trocada em miúdos. Antes de ler isto, achava que a coisa não era tão explícita, mas apenas algo tacitamente aceito pelo ideário norte-americano. Ótima leitura. O que achas, José Agustoni (nosso astrônomo de plantão) ?

Meu primo e consultor para assuntos astronômicos atendeu, então, por sua vez, de pronto a minha convocação, postando, lá em meu perfil, o seguinte comentário, cuja relevância me levou a lhe conferir permanência como post autônomo neste blog. Então, com vocês, José Agustoni sobre a exploração espacial. Enjoy.

Carl Sagan é o guru de todo astrônomo amador, mas eu já ousei discordar dele em um ponto, numa frase em que diz que “o destino da humanidade é as estrelas”. Sagan era um sujeito muito sensato (há o famoso discurso dele sobre o “pálido ponto azul” que eu considero um dos mais importantes jamais proferidos.

Nele, não creio que estivesse falando de “conquistar o espaço” como nesse “Destino Manifesto”, mas que algum dia teríamos que abandonar o nosso planeta de origem por alguma razão de força maior.

Até certo ponto, discordo. O ser humano avançou muito em conhecimento, ciência e tecnologia mas, infelizmente, não avançou tanto em moral e ética. Ou melhor, a tecnologia está acessível a todos, mas princípios morais e éticos, embora acessíveis, não são “comprados” por todos. Eu comparo o ser humano atual com um chimpanzé com uma arma carregada na mão. Temos tecnologia para fazer desse planeta um paraíso ou um inferno, mas ainda estamos engatinhando em termos de saber usar com sensatez essa tecnologia. Poluímos, destruímos, matamos com muita facilidade (e com “justificativas racionalizadas”).

Então, de repente temos a tecnologia para ir para outros planetas. Vamos para lá com que intenção? Ir para simplesmente “conquistar territórios” não faz sentido para mim. Ir para explorar recursos? Também não vejo muito sentido. A primeira pergunta que devemos fazer é “por que?” Por que precisaríamos de novos territórios? Por que precisaríamos de recursos? Se a resposta for: porque esgotamos os recursos que temos aqui na Terra, porque precisamos espaço para mais gente – neste caso eu digo que aquele “alien” que vemos em filmes de ficção científica que invade a Terra em busca de recursos somos nós mesmos no espelho. Nós é que nos tornaremos os “aliens-gafanhotos” que, como uma praga, vamos nos espalhar pela galáxia predando um planeta atrás do outro e deixando cinzas no nosso rastro.

Fala-se em terraformar Marte para que fique parecido com a Terra e seja habitável. Mas se chegarmos ao ponto de termos uma tecnologia para terraformar Marte, por que não aplicamos aqui mesmo para manter essa Terra que já é tão agradável? Se chegarmos ao ponto de ter tanta tecnologia, por que também não temos a sensatez de não nos reproduzirmos com coelhos a ponto de superpovoar essa Terra tornando-a insuficiente?

Não, eu acho que é muito mais simples, barato e, afinal de contas, mais sensato cuidarmos da Terra com toda essa tecnologia que temos e que ainda vamos desenvolver. Aqui tem todos os recursos necessários se não os desperdiçarmos. Não existe, como no filme Avatar, um elemento raro e essencial que valha a pena os altíssimos custos de uma “mineração espacial”. A Terra já está pronta, basta não destruí-la.

Concordo que viajar para outros planetas e até outros sistemas seja um sonho, um impulso natural do ser humano desde que saiu do berço africano, mas que seja apenas para conhecer, para estabelecer bases de pesquisa científica e não um assentamento de sem Terra.

 

Indelicadezas sobre arranjos e orquestrações

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Um dos aspectos mais interessantes do modo como configuramos redes sociais tem a ver com a diversidade de opiniões que admitimos em nossos perfis. Segundo esta variável, as redes sociais se dividem em duas categorias, a saber, a das redes em que predominam pessoas com as quais concordamos sobre temas polêmicos, também conhecidas como bolhas discursivas, e a das redes que abrangem alguma diversidade ideológica. Sempre preferi configurar as minhas mais como as do segundo tipo, até por acreditar que as interações com pessoas de opiniões divergentes tenham um potencial bem maior para mudanças. Já as bolhas discursivas se prestam muito mais a massagear o ego. O tema até foi objeto de uma pesquisa acadêmica (ah, o enorme talento da academia para idealizar as mais tautológicas e, portanto, supérfluas pesquisas…) resenhada em El País e traduzida no excelente Observatório da Imprensa.

Numa das tantas escaramuças que busco ao interagir no facebook, colhi, após destilar meu habitual mau humor contra arranjos orquestrais de música popular, o seguinte comentário de um amigo que reputo como grande autoridade no assunto. Depois de eu dizer que

[…] músicos populares, mesmo os bons, deveriam por bem deixar as orquestrações de lado – assim como orquestras tb deveriam abandonar os repertórios populares – pois música popular orquestrada é tão ruim ou pior do que clássicos na guitarra (como aquelas estações de Vivaldi que há no youtube, sabem); tenho, por exemplo, um disco de Charlie Parker com orquestra, que algum gênio resolveu produzir, que jamais consegui ouvir muito além do início […] um dos argumentos mais corriqueiros em prol da música popular em concertos orquestrais é a aproximação com o público; penso que, ao contrário, tais espetáculos prestam um desserviço à música, tanto a “popular” como a “clássica”. Então, na maioria das vezes quem ouve provavelmente terá boas razões para não gostar […]

Arthur de Faria prontamente aceitou minha provocação, retrucando

[…] eu poderia entrar longamente nesse questão, […] mas, com todo o respeito que eu tenho por ti, acho uma certa indelicadeza tu entrar no post de alguém – no caso, eu – pra dizer que acha que a profissão (e esta é uma parte importante da minha profissão, a de arranjador) deveria ser extinta.

Seja dito, inicialmente, em favor do fair play de Arthur que ele não apenas não me excluiu de seu perfil como também dedicou a mim um de seus post seguintes, no qual arrolava três arranjos maravilhosos, a saber, de Aquarela do Brasil por Radamés, de Elenor Rigby e de uma canção de Björk.

Regozijei, admito, pois estou no facebook para tudo menos para ser delicado. Noutras palavras, repudio as bolhas discursivas e busco sempre, na maioria das vezes em vão, o que venho chamando já há algum tempo de contraditórios qualificados. Então, fiquei feliz por que Arthur compreendeu perfeitamente o espírito da coisa, sua resposta inaugurando, por sua vez, uma pensata sobre arranjos orquestrais que dificilmente caberia em caixas de comentários. Daí este post.

Primeiro, tenho que deixar claro que, mesmo nutrindo o maior respeito pela maioria das pessoas, não tenho a menor consideração por quaisquer profissões, que é como chamamos toda ocupação exercida por um conjunto relativamente grande de indivíduos em determinados momentos históricos em razão da tecnologia, da economia e da cultura específicas de cada época. Assim, não entendo que exista, na atual economia da música, algo como uma profissão de arranjador.

Tal não era, é claro, a situação em 1939, quando foi registrado o arranjo antológico de Radamés Gnattali para Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, citado por Arthur. Naquele tempo, programas de rádio eram realizados ao vivo e emissoras importantes (como as rádios Nacional ou Farroupilha) mantinham em seus quadros grandes orquestras (que, no entanto, não eram sinfônicas nem tampouco de câmera, mas trataremos disto mais tarde). Mais: nos bailes de maior prestígio, a música também era executada por orquestras. Tal contexto provia um sentido para a existência de arranjadores, que eram músicos especializados em adaptar partituras originais para outros instrumentos ou formações instrumentais às orquestras populares de então.

É preciso que se faça uma distinção entre o que são orquestras populares, também conhecidas como big bands, nas quais predominam os instrumentos de sopro, e suas congêneres (ainda que só no nome) sinfônicas e de câmera (de instrumentos de cordas, na maioria das vezes). Até hoje quando se fala em orquestra no campo da música popular, o que se tem em mente é, quase sempre, a formação tradicional de uma big band ou, quando muito, de uma banda sinfônica (de instrumentos de sopro). Ora, big bands e bandas sinfônicas possuem, em relação às formações orquestrais com naipes de instrumentos de cordas, além de uma amplitude dinâmica (o contraste entre os sons mais fracos e os mais fortes) muito maior (podem, por exemplo, tocar facilmente ao ar livre sem amplificação) – também muito mais precisão de articulação (a definição, para o ouvinte, do momento exato do início (“ataque”) de cada som), tão necessária a projeção efetiva dos ritmos proeminentes inerentes quase toda música popular. Pois é sabido por todo músico ou ouvinte melhor informado que o detalhamento rítmico (ou, em terminologia musical, a articulação) tende a se diluir quando sua execução é confiada predominantemente a naipes de instrumentos de cordas, típicos das formações orquestrais sinfônicas e de câmera.

Não quero, com isto, dizer que naipes de cordas não tenham lugar na orquestração de música popular. Os ótimos arranjos de Claus Ogerman, como em Amoroso, estão aí para provar o contrário. Só que, nestes casos, a condução rítmica é invariavelmente confiada a instrumentos de percussão ou cordas dedilhadas, como o violão de João Gilberto. A elegante textura imortalizada por Ogerman a que me refiro é comumente reconhecida por músicos e ouvintes experientes como “cama de cordas”.

Esse tipo de imponderabilidade do momento de ataque das cordas orquestrais tem muito a ver com as técnicas de produção e de reprodução dos sons empregadas em gravações e execuções ao vivo de arranjos de música popular. Neste sentido, gosto de pensar que, enquanto corpos orquestrais são sincronizados via de regra por dois expedientes, a saber, o gestual de um regente e o feedback auditivo de músicos dispostos de modo não equidistante de todas as fontes sonoras; enquanto bandas populares tocam juntas graças a redes complexas de sinais amplificados de retorno, seja eles por meio de fones (em algumas situações de palco e obrigatoriamente em todas as gravações de estúdio com uso de playback) ou de caixas acústicas (na maioria das situações de palco). Complicado ? Um pouco, talvez, para os não músicos dentre os que ainda não abandonaram esta leitura.

Chegamos, assim, ao mitológico, porquanto único (tanto na discografia dos Beatles como na carreira de seu produtor George Martin), arranjo de Eleanor Rigby que, para todos os efeitos, não se trata de uma orquestração e sim de uma partitura original para quarteto de cordas – o qual, como formação camerística, não está sujeito à supracitada imponderabilidade de ataque típica dos naipes orquestrais.

Em textos anteriores, defendi que não existem bons maestros que não sejam ou não tenham sido, anteriormente, pelo menos ótimos músicos. Do mesmo modo, sustento que não há bons arranjadores/orquestradores que não sejam, antes, bons compositores ou, ao menos, ótimos músicos. Talvez por isto eu goste de pensar na complexa atividade do arranjador/orquestrador muito mais como uma especialização do que, propriamente, profissão. Por exemplo. Ravel, Korsakov e Groffé são amplamente reconhecidos como dentre os melhores orquestradores que a música sinfônica já produziu. Me parece evidente que não teriam logrado tamanho êxito na orquestração de obras de terceiros se não fossem, também, excelentes compositores (ao menos os dois primeiros, pois nada sei sobre a obra de Groffé além de suas orquestrações de originais para piano de Gershwin). É claro que Beethoven, Brahms, Mahler, Stravinsky, Bartók, Shostakovich e afins também foram excelentes orquestradores, ainda que não tenham se dedicado, ao longo de suas vidas, a partituras de terceiros.

Há orquestrações célebres (como as de Stokovski para música de Bach) que, no entanto não chegam perto da estatura dos originais que… “remixam” (prá usar um termo bem bem moderno)). Conclui-se, com isto, que a boa orquestração é um talento exclusivo de bons compositores.

Reitero, então, a recomendação (de um ousider) a quem quer que se aventure a dar a qualquer música uma nova feição, diferente de sua versão original, que procure se ater exclusiva ou predominantemente a um dos seguintes contextos:

instrumentos exclusivamente não amplificados, cujo equilíbrio e sincronização devem ser obtidos pelos músicos cameristicamente (i.e., “de ouvido”) ou por meio do recurso a um regente; ou

instrumentos exclusivamente amplificados, cuja sincronização é obtida com o auxílio de fones de ouvido ou caixas acústicas “de retorno” e cujo equilíbrio (balanço ou mixagem) é controlado por um técnico de som.

Também é altamente recomendável que, na orquestração de qualquer música, seja obedecida certa proporção entre o número de vozes independentes envolvidas e a duração da forma da obra em questão. Noutras palavras, músicas de 3 ou 4 minutos (como a maioria dos fonogramas populares) tendem a soar de certo modo presunçosas, quando não franco desperdício de recursos, se executadas por conjuntos muito grandes.

O que quero dizer é que, na execução de arranjos de música popular, maestros e naipes numerosos devem ser, na medida do possível, evitados. Ou, dito de ainda outro modo, quanto mais gente tocando, menos suingue.

Na contramão do bom senso fica, é claro, a lógica do espetáculo – segundo a qual a música popular adquire mais glamour e se reveste de maior importância quando envolve recursos orquestrais. Complicado. Haja música de câmera e combos de jazz para tentar promover tamanha mudança cultural.

Peço, pois, por fim, a Arthur de Faria que me perdoe a indelicadeza, aceitando, à guisa de desculpas, como uma dessas coisas que só o coração pode entender, este arranjo de Insensatez pelo genial Proveta para sua Banda Mantiqueira, um dos conjuntos mais compactos que já ouvi.

* * *

Depois que escrevi e deixei encostado para revisão, dias atrás, a diatribe acima, comentei a ideia com um dos músicos, também compositor e arranjador, a quem mais respeito – o qual, como eu esperava, entendeu de pronto o tipo de polêmica apaixonada que eu pretendia causar com meu próximo post. Em oposição à tese nele defendida, citou, então, rapidamente, arranjos de Gismonti executados por uma orquestra japonesa e passagens sinfônicas em Atom Heart Mother, do Pink Floyd. Além de peças de Rick Wakeman para orquestra já ouvidas em Porto Alegre em duas ocasiões, com a OSPA e com a Orquestra da UNISINOS. É precisamente o que chamo de contraditórios qualificados. Me comprometo, então, a postar neste blog, nos próximos dias, uma antologia de videos, curados por caras como o Arthur de Faria ou o Adolfo Almeida Jr., que desmentem cabalmente meu preconceito de que arranjos de música popular para orquestras sinfônicas ou de câmera são, na maioria das vezes, inglórios.