On conducting (ix): comentários qualificados: agulhas em palheiros ou pontas de icebergs ?

agulha no palheiro 1

Tudo o que posto é visto, ainda que por alto, por algumas centenas de pessoas, curtido por dezenas e comentado por uns poucos, quase sempre no facebook e, mais raramente, no blog. Por isto, ainda que prefira a permanência do blog, aprecio sobremaneira a reatividade das redes sociais.

Gosto de conferir a permanência de posts – mais reflexivos por natureza (i.e., com uma velocidade média de scroll bem mais baixa do que em redes sociais) – a comentários super qualificados de interlocutores eminentes que só consigo ter no ciberespaço. Sempre digo, em tom de jocosa provocação, a esses doutos debatedores que perdem por ainda não terem seus próprios blogs – ao que invariavelmente me retrucam não terem o tempo necessário. Sou forçado da concordar – pois, como certa vez me confidenciou Howard Rheingold, a blog is a hungry beast. Great wisdom.

Comentários em redes sociais – tanto nas abertas (onde se pode seguir qualquer um, como no tweeter) como nas fechadas (em que todo vínculo é recíproco, como no facebook) são curtos, de forte solidariedade ou, mais raramente, veemente discórdia. Uns poucos, sempre provenientes de autoridades absolutas em seus campos, são mais extensos e agregam nuance ao que foi dito, contextualizam melhor e ampliam o debate – propiciando, portanto, mais public awareness acerca das questões tematizadas. Então, não é por falta de assunto que promovo estes super comentários não apenas a comentários no blog (outra hora explico por que é tão mais interessante comentar no facebook do que em blogs) mas, enquanto seus autores não tenham seus próprios blogs (bem mais faceis de linkar), a posts autônomos. Os quais, muito convenientemente, costumo chamar de “colaborativos”. Tratando-se, portanto, muito mais de um estelionato.

Então, sem mais delongas, vamos ao que disseram, em resposta a provocações minhas em razão de meu último post, Emmanuele Baldini, violinista, spalla da OSESP e Fabio Zanon, violonista, coordenador do Festival de Campos do Jordão e professor da Royal Academy of Music de Londres. Notem que ambos, além de serem requisitadíssimos solistas em seus instrumentos, também se dedicam, concomitantemente e com notáveis resultados, à regência orquestral.

(Adoro aquecer – mesmo que, como aqui, só as requentando – polêmicas assim ! Por mais que tente reprimir, parece ser mais forte do que eu)

Sobre minha resposta a Daniel Barenboim, na última sexta-feira, Fabio Zanon assim se pronunciou:

Não é uma questão muito simples. É muito fácil subestimar o métier do maestro. Que tem o grande músico a seu favor? Acho que, antes de mais nada, ele tem uma noção mais concreta do que é excelência. Isso é uma coisa que quem só toca seu pianinho básico nunca vai alcançar. Ele também pode estimar qual é o esforço pessoal que tem de ser empregado para se alcançar um certo resultado. Mas nada como o mundo real para fazê-lo descer do pedestal. Como transmitir um ponto de vista interpretativo para um grupo em três ensaios, quando o andamento oscila, quanto tem problemas de conjunto, quando não há a sonoridade que se imagina, quando o equilíbrio entre as partes inexiste e a pessoa que balança os braços ali na frente só faz piorar as coisas quanto mais fala e se agita? São problemas que o instrumentista ou cantor, na sua sala de estudo, resolve com prática, com tempo, com toda sorte de estratégias de longo prazo para corrigir o que não está bem. Num ensaio orquestral, o maestro tem de apresentar uma solução, e muitas vezes essa solução depende mais de um gesto apropriado ou de vivência dentro da orquestra que de um insight musical profundo. Excelência musical é uma coisa que se espera tanto do maestro quanto do solista quanto da maioria dos músicos que tocam numa orquestra de primeiro time, mas são especialidades correlacionadas, mas diferentes. Muitas vezes o maestro sobe ao pódio para reger pela primeira vez uma música que os músicos já tocaram dezenas de vezes. Como gerar uma situação em que esses músicos vão procurar dar um passo aa frente daquilo que já se cristalizou? Então eu acho que essa noção concreta de excelência pode ser alcançada de mais de uma maneira. muitas vezes um pianista de pouca técnica pode ter uma formação musical esmerada, uma capacidade incomum de absorver detalhes finos de interpretacão, etc. Veja que maestros como Kleiber ou Rattle sequer tiveram muito tempo para se estabelecerem como instrumentistas, porque embarcaram numa carreira de regência muito cedo (Rattle é percussionista de formação). Então, por mais que eu fique tentado a defender a minha sardinha, acho que um grande músico sem vivência de orquestra pode se esborrachar, se não tiver uma sólida técnica de regência. Acho que o Barenboim mirou justamente em músicos que fazem uma espécie de branding do tipo “se eu toco bem pra caramba, certamente posso reger, então vou usar minha fama e contatos para reger as melhores orquestras”, mas que não têm realmente condição técnica pra fazer isso. Tenho visto vários desses – posso te passar uma lista, se quiser. Por outro lado, quando o cara tem a autoridade do seu lado e também sabe reger… O Michael Collins solou/regeu a OSUSP há algumas semanas.Poucas vezes vi essa orquestra tocar tão bem, e consta que ele quase não falou nada nos ensaios, foi tudo na ponta dos dedos (ele não usa batuta).

* * *

Horas depois (viva a comunicação assíncrona !), Emmanuele Baldini disse o seguinte:

Caro Augusto,
Muito obrigado por me incluir na seleta lista! Sobre a infeliz frase do Barenboim só posso pensar a uma justificativa: existe SIM um número considerável de instrumentistas que passa a reger só pela oportunidade de ter mais concertos, de g
anhar mais, e sem se preocupar minimamente em aprofundar esta que é uma atividade peculiar e que precisa de muito preparo. Se um excelente instrumentista tem já em seu DNA algumas características que são também importantes para o regente (saber “dialogar” com a música, ter liderança, ser claro e bem resolvido nas escolhas musicais…), lhe faltam ainda outras que precisam ser aprimoradas com um profundo estudo. Para fazer um exemplo, a leitura de uma partitura!!! Um instrumentista nunca lê ou estuda um Concerto para seu instrumento na partitura completa, e eu mesmo comecei fazê-lo DEPOIS de começar reger. Hoje meus alunos sabem que faço questão que eles estudem o Concerto de Beethoven (por exemplo) tendo sempre a grade do lado.


Existem muitos instrumentistas que pretendem se “improvisar” regentes, mas não por isso o grande Barenboim deveria fazer um julgamento tão generalizado e superficial.
Acredito mesmo que ele próprio não soube explicar da maneira certa seu pensamento, pois se ele fosse convencido mesmo de suas palavras sua própria história de vida condenaria seu discurso a uma clara incoerência.

* * *

Entendem, agora, por que gosto tanto de provocar discussões ? Benditos sejam todos os que compram as brigas boas ! Pode ser que alguns, como todo netskeptic, achem que conversas assim sejam atípicas, como agulhas em palheiros. Penso nelas, no entanto, mais como um netopian certamente pensaria – a saber, como pontas de icebergs a indicar, outrossim, grandes temas latentes. E vocês ?

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on conducting (viii): em resposta a Daniel Barenboim

O eminente pianista e maestro (ou maestro e pianista, são sei bem a ordem) Daniel Barenboim se posicionou, em recente entrevista, claramente contra a prática, já bem comum, de que virtuoses instrumentais, sejam eles solistas ou membros de destaque de orquestras importantes, também façam carreira como maestros. Sim, vocês entenderam direito: ele mesmo, Barenboim – que, como Ashkenazy, Rostropovich, Harnoncourt, Levine e tantos outros – teve, muito antes de subir ao pódio, uma importante carreira como solista.

A questão é bem mais relevante do que, inicialmente, parece. Pois a regência orquestral enquanto disciplina acadêmica é um fato tão novo quanto questionável. Até por que a própria regência é, em si, uma invenção bastante recente. Então, é preciso um olhar atento, até desconfiado, sobre quaisquer instâncias que reivindiquem saber ensinar um modo de aquisição de uma competência ainda pouco entendida.

Tomemos o caso da OSPA. Uma orquestra estatal de uma metrópole cultural secundária. Por insistência de seus músicos mais do que por qualquer outra coisa, vem tendo à frente, nos últimos anos e com excelentes resultados, músicos eminentes que passaram a se dedicar também à regência. Quase como uma segunda ocupação (ao menos no sentido cronológico). Notem que não falo, aqui, de qualquer músico – pois jamais me passou pela cabeça afirmar que todo músico daria um maestro minimamente satisfatório. Longe disto. Falo de gente da estatura de um Leon Spierer (ex-spalla da Filarmônica de Berlim), Per Brevig (ex-primeiro trombonista do Metropolitan Opera), Jacob Slagter (ex-primeiro trompista do Concertgebouw) ou Emmanuele Baldini (spalla da OSESP). Ou ainda de solistas como Maxim Fedotov, François Benda ou Lavard Larsen. Sei que Rauss e Ricci também foram, nalgum tempo, ótimos instrumentistas. E ouvi dizer que Teraoka já tocou contrabaixo. Aposto que tocava muito bem. A ponto de, ao menos, ter dado recitais ou liderado algum naipe antes de se deixar seduzir pelos encantos da batuta.

Walter Boeykens, já no fim de sua carreira como um dos mais importantes clarinetistas de sua época e se dedicando (acho que por esporte (Boeykens era cavaleiro da coroa belga; uma espécie de barão, dizia)), afirmou que cursos de regência não passavam de bullshit, já que nada se comparava a recebê-la, como uma dádiva, de mitos como um Bernstein ou Boulez enquanto solista ou, no mínimo, ocupando uma cadeira importante numa orquestra de ponta. Como Slagter sob Haitink no Concertgebouw. Ou Spierer sob Karajan ou Abbado em Berlim. Faz sentido, não ?

É claro que não desdenho bons regentes que tenham passado, mais por força dos tempos em que vivem do que por qualquer outra razão, por programas acadêmicos de regência. Pois Valentina Peleggi conduziu, afinal, um dos mais memoráveis concertos de que participei. O que sempre sustentarei é que, antes de qualquer instrução específica para atuar como regente, todo bom maestro deve ter tido, obrigatoriamente, suficiente experiência como instrumentista. Valentina é pianista e também toca clarineta e violino. Ora, nenhum maestro consegue apreender a tocar qualquer instrumento uma vez que já tenha adentrado a movimentadíssima ciranda dos pódios.

Chegamos, assim, a um aforismo, empiricamente dedutível, a ser observado por bons gestores culturais e ouvintes mais curiosos, que pode ser formulado como

jamais confiar em qualquer maestro que não seja, pelo menos, um bom pianista (pois pianistas sempre levam, afinal, alguma vantagem sobre os demais músicos quando se trata de ler partituras) – ou, se tocar outro instrumento que não o piano – um músico excepcional.

Falamos, portanto, de, pelo menos, um solista. Menos do que isto, deve ser considerado imperícia ou mesmo oportunismo.

Dito isto, voltemos à diatribe de Barenboim contra os músicos-regentes para lhe sondar a índole. Ora, tenho para mim que, ao desaconselhar o pódio a instrumentistas que considera (não sei segundo qual critério) não-regentes, o eminente pianista/maestro (ou maestro/pianista) deve ter em mente, senão exclusivamente ao menos principalmente, a reserva de mercado. Pois é sabido e comprovado que aprender a tocar uma música exige, na maioria das vezes, muito mais dedicação do que aprender a regê-la. Se duvidarem, é só observar, durante um mesmo concerto, o que faz o solista e o regente.

É também de amplo conhecimento que honorários (além de transporte aéreo, alimentação e hospedagem) de regentes costumam custar mais do que os de solistas de igual projeção. Então, mesmo discordando veementemente de Barenboim nesta questão, entendo perfeitamente suas palavras. Até por que talvez ele não tenha outra saída. A não ser, é claro, se abdicasse de sua condição de celebridade, da qual advém seus ganhos. Por isto mesmo, não deve estar disposto a deixá-la para abraçar uma nova economia.

Muito ainda se há de falar, enfim, nas mudanças paradigmáticas entre os contextos de Barenboim e Lisitsa. Pano para muita manga. Para bem mais do que um post.

* * *

Não gosto de terminar textos com uma frase. Pois jamais parecem ter a importância que uma última frase deveria ter. Então, nada melhor do que terminar este – que é, antes de tudo, uma pergunta – com imagens de alguns músicos-regentes que tivemos o prazer e a honra de ter à frente recentemente. Por que jamais vejo tamanha intensidade emocional em qualquer maestro não-músico (os quais, acreditem, não são poucos…) ?

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minding audiences (ii) ou da indiferença contemporânea ao sublime ou para ouvir Bill Evans (i)

Gosto de garimpar fotos tiradas em clubes de jazz de Nova Iorque nos anos 50 e 60. Em muitas, há membros da audiência desatentos ou indiferentes à excelência da música que ouviam. Notem que não falo de nenhum piano bar, nos quais a música apensas serve de pano de fundo à conversação, mas de casas de espetáculos icônicas, como o Birdland, o Five Spot, o Minton’s ou o Village Vanguard, cujos minúsculos palcos eram frequentados pelos maiores improvisadores de seus tempos. Falamos, portanto, de música sublime, ricamente documentada por fabulosos registros sonoros.

Face à atitude quase devocional com que ouvimos, hoje, tais registros, sempre me espantei com essa desatenção tão franca, não sei se por arrogância (vale examinar fatores como tensão racial entre músicos e platéias) ou mera ignorância, ostentada por tantos ouvintes daquela música única (i.e., que jamais poderia ser repetida daquele modo) e de qualidade exponencial.

Daí minha insistência no bordão de que audiências contemporâneas são, na maioria das vezes, indiferentes ou mesmo insensíveis ao que de mais sublime há em cada época. Como se pode ver nas fotos abaixo. Minhas favoritas são as duas primeiras. Pois não há como entender o ostensivo dar de costas do jovem loiro e da Marilyn sem rosto (imortalizada assim, só como penteado, pelo fotógrafo) à música tocada, respectivamente, por Charlie Parker na primeira foto ou Clifford Brown na segunda. Entre outros.

Charlie Parker birdland

Nas seguintes, a maioria dos ouvintes parece estar interessada em qualquer coisa a não ser a música.

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Na primeira, toca Miles Davis. As quatro últimas foram tiradas no Five Spot; as três últimas com Thelonius Monk as duas últimas com, além dele, Charles Mingus e John Coltrane. Como podem ver, gente pouco relevante no jazz.

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É claro que as imagens acima, que arrolo como testemunho do desinteresse de uma cultura para com a melhor arte de se seu tempo, podem ser descartadas como um recorte muito específico e, portanto, casual. Ou seja, coexistentes com uma quantidade igual ou maior de fotos que retratam ouvintes aparentemente atentos. Felizmente para o historiador, registros sonoros evidenciando nossa hipótese inicial são fartos. E especialmente contundentes, se considerarmos, comparativamente, o ruído produzido pela audiência em integrais dos sets gravados por Bill Evans com seu lendário trio no Village Vanguard em 1961 e 1980. Na coleção de 1961, de um artista ainda a ser descoberto por seus contemporâneos, impressiona o som de conversação e de utensílios como copos, louça ou talheres se fazendo, por vezes, quase mais audíveis do que a música. Já nas sessões de gravação testamentais de 1980, no mesmo lugar, o silêncio absoluto da audiência denota a reverencia pelo gênio consagrado.

Ouçam, então, no primeiro audio abaixo (impressionante como o youtube se tornou uma espécie de plataforma ideal para a postagem de fonogramas !), um take do trio de Evans com Paul Motian (bateria) e Scott LaFaro (contrabaixo) no Village Vanguard em 61 e, no segundo e no terceiro, dois takes da última residência do derradeiro trio, com Marc Johnson e Joe LaBarbera, por lá quase vinte anos depois.

Quero ver alguém dizer, depois de ouvir isto, que o público que foi ao Vanguard ouvir o trio de Evans em 1961 era mais atento do que o de 1980. Se, no entanto, toda evidência acima não for suficiente para corroborar a tese da indiferença contemporânea ao sublime, vejam, então, na foto abaixo, o local de descanso de Evans e seus parceiros na célebre casa de espetáculos em 1961. Duvido que seu camarim por lá, em 1980, fosse minimamente parecido com isto.

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