A propósito do Homem Formiga

Homem Formiga 4

Dentre as melhores coisas das férias escolares está certamente cada nova safra de filmes voltados aos pequenos. Tem para todos os gostos. De sagas como as de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis a clássicos de animação da Pixar ou da Dream Works. Conforme crescem, começam a desenvolver (os pequenos) preferências bem específicas. Arthur se encontra nesta fase. De sorte que sou entusiasticamente convidado para estreias de cada distopia (um de seus sub-gêneros favoritos, que inclui blockbusters como Maze Runner e a série Jogos Vorazes) ou novo filme da Marvel ou da DC comics.

Neste contexto, fui conhecer, anteontem, o novo herói da Marvel. Novo ? Isto mesmo – pois, como me informou Arthur, o Homem Formiga, ao contrário de predecessores como o Homem Aranha, os Vingadores ou o Quarteto Fantástico, só foi lançado pela marca de Stan Lee há poucos anos atrás. O que faz dele, senão o primeiro, ao menos o mais proeminente protagonista criado pelo mago dos comic books depois do advento da internet. Poderia ficar só nisso. Mas não. O homem que veste a fabulosa armadura miniaturizante (notem que a ideia, longe de ser original, já costurava a narrativa em seriados como Viagem Fantástica ou Terra de Gigantes) não é, como Peter Parker, Tony Stark ou o Homem Elástico (isto é novo!), um “homem de bem”, seja ele estudante ou cientista brilhante ou, simplesmente, um milionário.

O escolhido pelo criador do poderoso traje (a personagem vivida por Michael Douglas) é, ao contrário de todo herói da Marvel anterior a ele, um fora da lei. Um hacker que, assim como seus simpáticos ex-colegas presidiários, jamais infligiu maus tratos a qualquer ser humano, tendo sido recluso exclusivamente por roubar dos mais ricos (o grande capital corporativo, neste caso) para distribuir aos mais pobres. Relativizando e banalizando, portanto, um ataque, até então condenável, à propriedade, numa perfeita reedição do mito de Robin Hood – que, respeitadas as nuances de cada época, fazia rigorosamente o mesmo.

Isto importa ? Acho que sim. De que maneira ? Ainda não sei muito bem. Nem estou, aliás, preocupado com isto – já que a história do homem que encolhia ainda será muito comentada – a começar por prometer, na sequência (e não sei com que grau de ineditismo), um verdadeiro filé psicanalítico, a saber, a heroína convocada pelo próprio pai a assumir o lugar da mãe. Duvido que qualquer lacaniano que se preze resista a isto.

Evangeline Lilly 3

In praise of vinyl

Republico, abaixo, texto que escrevi em meu blog antigo, a propósito da aparentemente bizarra moda inglesa de anos atrás de reunir pessoas para ouvir, em casa, LPs inteiros. Acho que, de algum modo, aquela iniciativa pode estar relacionada à nova tendência, relatada pela BBC, de jazzistas ingleses (sempre os bretões !) se apresentarem em suas próprias residências. Tirem suas próprias conclusões.

O texto foi repostado com atualizações da época de sua publicação original.

* * *

turntable 04

Sem lembrar ao certo quando ouvi pela última vez um álbum de forma ininterrupta, posso, no entanto, afirmar, com certa margem de segurança, que foi algum LP, antes de ter adquirido meu primeiro tocador de CDs por volta do final dos anos 80. Não que, depois disto, não tenha desfrutado de audições prolongadas (e repetidas !) de movimentos sinfônicos e camerísticos favoritos ou faixas memoráveis de Bill Evans ou afins, tanto em áudio de alta fidelidade (mais raramente) como em mp3 (diariamente, enquanto caminho). É que, numa era de abundância digital, a audição lenta e concentrada acabou se tornando praticamente um luxo – para o qual precisamos abdicar de apenas classificar, por amostragem, um volume enorme e crescente de gravações facilmente acessíveis recomendadas por fontes confiáveis como capazes de atender às mais altas expectativas.

Por isso, já no início dos 90 eu admirava a obstinada diligência de alunos do Instituto de Artes da UFRGS (uns poucos, admito – não por acaso os melhores) que consagravam parte de seus finais de semana à fruição integral de óperas de Wagner em videocassete. Eu próprio, já então acostumado à repetição insistente, para desespero de alguns, dos primeiros movimentos da primeira sinfonia de Brahms e das terceiras de Beethoven e de Nielsen (bem como da música de câmara do primeiro !), não me furtava de achar aquilo tão elogiável quanto bizarro. Mahler e Bruckner sempre se situaram, confesso, além de meu limite de concentração, quer pelas limitações dinâmicas dos equipamentos reprodutores (até hoje !), quer por suas formas pouco concisas e, em decorrência, seu uso, digamos, pouco ecológico do tempo de audição.

Guardo, no entanto, desde que me tornei um colecionador de música em mp3 (quase toda ela anterior aos anos 80), ótimas recordações de quando ouvia sem pressa LPs que preservo até hoje, à espera da oportunidade de, tendo reinstalado caixas de som com alto-falantes de 12 polegadas de cones rígidos montados sobre carcaças de metal fundido e alimentados por amplificadores robustos (ainda sou do tempo que se escolhia equipamento de áudio de alta fidelidade pelo peso), proporcionar este tipo de experiência a meus filhos – e estremeço de medo só de pensar que eles não venham a perceber qualquer diferença em relação a como se acostumaram a ouvir música.

Neste quadro, exultei com uma possível mudança cultural, notada quase simultaneamente pelo Guardian, pelo The Telegraph, pela BBC e, logo depois, pelo sempre atento a novas tendências musicais Hypebot, indicada por uma iniciativa emergente na Inglaterra conhecida como Classic Album Sundays e reconhecida como parte de um movimento mais amplo muito apropriadamente designado por slow listening.

Seus idealizadores buscam, antes de tudo, resgatar o sentido do álbum. Para tanto, seus participantes mergulham, a cada encontro, na audição coletiva e concentrada de LPs antológicos. Offline, é claro: no texting allowed. Os álbuns são curados pelos próprios participantes e discutidos depois de ouvidos. Dentre os discos citados na matéria da BBC figuram The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, e um de Milton Nascimento com o Clube da Esquina (!).

Então, que a ideia destes valentes bretões possa ao menos servir um dia, quem sabe, de inspiração a iniciativas análogas por aqui – as quais, se já existem, até o momento ignoro.
E enquanto isto não acontece, torno a uma questão complexa que há muito me intriga, a saber, se a tão incensada superioridade da experiência de escuta de discos de vinil em relação à de CDs se deve mais a vantagens tecnológicas de um meio sobre o outro ou, antes, à qualidade da música predominantemente gravada em cada um. Ou, dito de outro modo, o que piorou mais de lá para cá: a tecnologia ou a música ?

Tenho minhas suposições. Quero conhecer as suas.

turntable 03

* * *

Update #1: reproduzo, a seguir, comentário postado no facebook por Marcos Abreu, amigo e eminente autoridade em matéria de áudio.

Meu caro Augusto, a superioridade entre os meios é relativa. Se pensarmos, em termos de informação, um vinil, para ter mais qualidade que um cd, teria que ser produzido integralmente em um sistema analógico de altissima qualidade. Difícil nos nossos dias. Quem sabe em um vinil antigo. Não podemos dizer que um vinil que tenha sido gravado em sistema digital seja superior a um cd. Até porque a informação já foi perdida pelo caminho. Escuto discos de vinil quase diariamente. Sem problemas. Afinal, o que interessa é a música, não o meio.

Update #2: meus amigos definitivamente elegeram o facebook para comentar este post; por isso, reproduzo também o que disse por lá Milton Ribeiro, talvez o mais dedicado ouvinte qualificado que eu conheça.

Ouvi hoje, ontem e anteontem álbuns inteiros…

 

eu sigo (ii): Fabio Zanon; ou de como algumas relações virtuais podem ser tão ou mais importantes do que grande parte das presenciais

batons 5

Não canso de dizer que redes sociais, quando bem utilizadas, viabilizam ótimas conversas, de um tipo que dificilmente teríamos na maioria dos círculos que frequentamos presencialmente. Tais laços virtuais possibilitam um contato imediato com quem melhor reputamos em cada campo de atividade ou conhecimento. Como, por exemplo, Fabio Zanon, violonista e regente, professor da Royal Academy of Music de Londres e coordenador do Festival de Campos do Jordão.

Alguém, portanto, bem ocupado – mas que, por força e graça de redes conhecidas como PLNs (personal learning networks), sempre encontra tempo para participar de discussões interessantes – agregando, com isto, inteligência e nuance a tudo o que comenta. Mas não pensem que, por isto, Fabio seja um tagarela em redes sociais. Ao contrário, é bem lacônico, limitando sua presença virtual a interessantíssimos rastros deixados, na maioria das vezes, em caixas de comentários sob postagens alheias, lidas por um punhado de curiosos.

Quando trato de temas, tais como a música orquestral, em que minha percepção é contaminada pela proximidade excessiva, tendo a assumir posições compreensivelmente partisanas, por vezes até bem radicais. Exatamente por isto, gosto de provocar Fabio em busca dos tão raros e almejados contraditórios qualificados. Seja em defesa da existência de uma didática da regência, ou então sobre a liberdade e a responsabilidade do executante em relação à intenção do compositor.

Pois foi dia desses, por conta de minha diatribe contra desvios drásticos de andamentos explicitamente indicados por compositores por meio de notações metronômicas para a execução de suas obras, que, no intuito de ampliar a discussão por meio dos tais contraditórios qualificados, acabei por invocar Fabio, que acudiu prontamente. Se transcrevo, abaixo, o que ele disse em caixas de comentários, é para que tenham uma ideia de como prezo conversas assim. Ao ponto de querer lhes conferir permanência sob a forma de posts autônomos. Colaborativos, se preferirem. Notem, ainda, antes de proceder à leitura da conversa, que a mesma foi iniciada por Marcos Abreu (de quem já falei, ainda que de passagem, aqui, e devo tornar a falar mais cedo ou mais tarde).

MA:Vejamos se isso convence. Bolero, Ravel. Existem gravações entre 15 e 21 minutos. O que tu acha da flexão?

AM: Primeiro, temos que ver se Ravel especificou ou não um andamento para só então descartar as versões mais discrepantes como caprichosas. Li que, dos mais modernos, só Mahler deixou andamentos a critério de maestros. Confere ou não, Fabio Zanon ?

AM: Conferi no IMSLP: Tempo di bolero. Moderato assai. “semínima” = 72. Ou seja, é fácil identificar versões fiéis ao compositor.

MA: Qual seria então a “melhor” duração Augusto Maurer ?

AM: Pode até ser. Mas é pouco provável que qualquer versão em andamento muito discrepante não traia muito da intenção composicional em tudo o que diga respeito a expressão, fraseado, caráter e afins. Considero o tempo de qualquer música tão preciso quanto o ponto de uma massa, i.e., é muito pequena a latitude que define o verdadeiramente “al dente” como distinto do muito duro e do irremediavelmente cozido demais.

AM: De resto, penso que, se compositores não considerassem andamentos importantes, não se dariam ao trabalho de os anotarem minuciosamente.

FZ: Não sei. Bartok só colocava o andamento metronômico. Eu acho indicação metronômica a coisa mais romântica e idealizada que pode existir. Tem gente que coloca variações de andamento de dois ou três pontos, o que, na prática, não significa nada; é uma maneira de se dizer que o andamento é o mesmo, mas a atitude diferente. Tem muitas indicações metronômicas que são de precaução. Algumas de Beethoven me parecem um pouco exageradas até para instrumentos de época, o que pode querer dizer que elas são um aviso para se tocar no talo o tempo todo. Colin Davies disse uma vez que, quando foi reger The Rake´s Progress, o Stravinsky corrigiu o andamento dele e ele respondeu ” maestro, mas estou rigorosamente no andamento indicado na partitura”, ao que Stravinsky, justo ele, respondeu ” mas isso só vale para o começo!”.

AM: Ou seja: cada caso é um caso ? Também li que Celibidache foi um dos mais eminentes defensores da prerrogativa do maestro de interpretar andamentos ao bel prazer. De acordo com a acústica de cada auditório, dizia. Mera desculpa, ou tinha alguma razão ?

FZ: Eu prefiro encarar o andamento como uma mala que a gente tem de escolher de acordo com o que vai levar. Não adianta uma mala linda e autêntica se ela é grande ou pequena demais para o que se vai por dentro. O conteúdo da mala depende do teatro, de variações pequenas de humor de uma hora para outra, da facilidade técnica de quem vai tocar, ou seja, um valor absoluto de metrônomo me parece uma coisa totalmente idealizada. Por exemplo, ouça o Duo Assad. Tudo soa orgânico, justo, vivo, rítmico e livre. Praticamente qualquer outro violonista que tocar naquele andamento vai soar um pouco estressado, porque quase ninguém tem uma técnica tão ágil e fluida quanto a deles. Se eles tentarem tocar mais devagar, a música perde o nervo.

FZ: Celibidache tinha uma capacidade de produzir um sostenuto com qualidade numa orquestra que seria triste ouvi-lo reger tudo mais rápido. Ele tinha substância para carregar, então sempre usava malas grandes.

FZ: Mas fazer o que dá na telha é irresponsabilidade. A gente tem de tentar o metrônomo original ao menos para ver de que se trata, para refletir. Muito raramente eu passo muito longe das indicações metronômicas do compositor. Faço isso nos estudos de Mignone.

AM: Eis minha questão inicial, i.e., qual o tamanho máximo da margem tolerável de flexão de andamento – que costuma ser, quase por convenção, um ponto metronômico a mais ou a menos (que resulta, na prática, numa variação de menos de 10% do andamento). Por exemplo, aceitamos um allegro de sonata clássica (o primeiro movimento de qualquer concerto de Mozart) entre 120 e 126 – mas não toleramos ouví-lo a 116 ou 132. Do mesmo modo, dificilmente alguém suportaria ouvir o último movimento (rondó em 6/8) do concerto de clarineta de Mozart fora da faixa de 72-76 por tempo. Então, considero abusiva uma execução de uma partitura que prescreva uma colcheia a 76 com a mesma a (pasmem !) 60 – o que equivale a 20% mais lento (!) do que o andamento original. Entendem, então, a ordem de grandezas de que falo ?

AM: Obrigado pela ótima conversa, tão instrutiva !

Meu trecho favorito desta conversa é, sem sombra de dúvida, a teoria das malas do Celibidache.

Se você conseguiu ler isto até aqui, espero ao menos lhe ter convencido de que, ao se configurar uma PLN, nem sempre o que mais importa é o que é postado sob um perfil, mas sim como o mesmo interage, principalmente por meio de comentários, com outros perfis componentes da rede na qual se insere. Pois há, obviamente, mais informação, senão relevante ao menos interessante, nos pontos de fricção entre enunciados do que, propriamente, em cada enunciação monológica. Daí a imensa superioridade dos textos colaborativos sobre os demais. Ainda que estejamos, neste campo, recém engatinhando.

* * *

Não sei bem por que, acho que leitores não devem ser abandonados em meio a formulações muito abstratas. Por isto, deixo a todos que me contemplaram com sua atenção até aqui este filme, de Carlos Kleiber ensaiando a abertura O Morcego, que me foi enfaticamente recomendado por Fabio como “uma hipnose”.

 

On conducting (vii): o metrônomo defeituoso de Mendelssohn

O post abaixo foi originalmente publicado em meu extinto blog n’O Pensador Selvagem como O Metrônomo Defeituoso de Beethoven. Se minha escrita mudou em alguma coisa, em nada se alterou, no entanto, desde então, meu humor e atitude em relação a malfeitorias perpetradas contra indicações metronômicas apostas ou aceitas por compositores em partituras de suas obras. Me poupando, então, de bater na mesma tecla, republico, abaixo, o que escrevi acerca da mutilação de uma sinfonia de Beethoven anos atrás – lhes rogando, apenas, que substituam seu nome, na maioria das vezes em que ocorre, pelo de Mendelssohn para que tenham uma ideia bem precisa de meu sentimento em relação a como temos que tocar nos dias que correm.

beethoven metronom

Beethoven foi, senão o primeiro de todos os compositores, ao menos o primeiro dentre os mais importantes a indicar com precisão, nas partituras de suas sinfonias, por meio de indicações metronômicas, os andamentos (tempos) em que seus movimentos deveriam ser executados. Infelizmente, se tornou uma prática corriqueira e culturalmente aceitável executar sua música sinfônica em andamentos bem distintos da intenção do compositor, ao sabor dos caprichos da maioria dos maestros, muitos deles consagrados e, portanto, acima de qualquer suspeita.

Especulando-se sobre as possíveis origens da má prática, se chega rapidamente à evidência exacerbada conferida pela indústria da música (fonográfica e de concertos) às muitas estrelas da batuta que se alternam à frente de tantas orquestras e na direção de um repertório extremamente redundante. Instituiu-se, assim, o mito da “concepção do maestro”, invocado na legitimização de tantas malfeitorias perpetradas contra obras de compositores na maioria das vezes já mortos – consubstanciadas, em grande parte, na não observância da vontade do autor quanto ao tempo de execução de sua música.

O recurso pioneiramente empregado por Beethoven para indicar o andamento em que uma composição deve ser executada foi a atribuição à sua unidade de tempo, convencionalmente chamada de pulso, de um valor correspondente ao número de vezes que o mesmo ocorre durante o intervalo de tempo de um minuto. Tal possibilidade, sem precedentes históricos, foi facultada pela invenção do Metrônomo de Maazel, mecanismo semelhante a um relógio, capaz de manter constante a frequência de oscilação de um pêndulo – ajustável, por sua vez, mediante o deslocamento de um peso em forma de cursor sobre o raio do pêndulo, dentro de uma faixa que varia de 40 a 208 pulsos (batidas) por minuto, a qual abrange toda a gama de andamentos, do Largo ao Prestissimo, encontrada na música ocidental no período dito de prática comum (i.e., do barroco ao tonalismo tardio).

A maior ironia do descaso histórico para com as indicações metronômicas de Beethoven é, sem dúvida, a já popular alegação – mesmo entre segmentos musicais supostamente mais esclarecidos – de que o metrônomo de Beethoven seria defeituoso e que, por esta razão, o compositor teria se equivocado drasticamente, sentenciando suas tão caras sinfonias a gerações de execuções abusivas, justamente ao tentar assegurar para a posteridade a coerência de seus tempos de execução. Imaginem, então, duas premissas mais francamente falsas do que Beethoven não conseguindo encontrar um metrônomo em boas condições de funcionamento em Bonn ou Viena ou mesmo, pasmem, sequer chegar a perceber o mau funcionamento de um !

Nem mesmo suas sinfonias mais conhecidas estão isentas dos efeitos devastadores de batutas caprichosas – como bem observou o grande Herbert Caro ao comparar a duração de um mesmo movimento sinfônico “interpretado” por maestros diferentes (Böhm e Karajan) e, inclusive, por um mesmo maestro em diferentes momentos de sua carreira.

Notem que é comum que maestros eminentes executem, ao longo de suas carreiras, as mesmas obras em andamentos progressivamente mais lentos (anotação posterior ao texto original).

É sobretudo na execução de peças mais obscuras (se é que se pode dizer isto de uma 1ª ou 2ª de Beethoven !) que o estrago em razão de tempos drasticamente alterados (ainda que assim percebidos por músicos, todavia, frustrados e impotentes diante do protocolo da autoridade que emana do pódio) resulta evidente e impune.

Afinal, por pior que seja o dano infligido à música de Beethoven ou à motivação de uma orquestra, o maior prejuízo será sempre o do público que, em sua inocência, imputará, com uma boa parcela de razão, às sinfonias juvenis do compositor uma qualidade bastante inferior àquela de suas obras mais maduras e, por isto, populares.

Eu mesmo, na ignorância e arrogância da juventude, cheguei a considerar as duas primeiras sinfonias de Beethoven (assim como as de Tchaikovsky) como justamente relegadas ao ostracismo. Hoje, tendo, mais do que as imaginado, as ouvido (a partir do movimento restaurador capitaneado por Norrington e outros valentes bretões desde meados dos anos 80) em versões bem mais próximas às intenções composicionais, nutro pelas mesmas uma sorte especial de apreço, as tendo, digamos, como dentre as melhores sinfonias de… Haydn.

eu sigo (i): José “Zeca” Agustoni

spacecraft 1

Travo uma enorme luta interna para escrever, ao menos de vez em quando e em atenção a meus queridos leitores aqui e no facebook, posts mais curtos e, portanto, mais frequentes. Isto costuma acontecer quando estou em dúvida entre dois assuntos. É quando, invariavelmente, escrevo sobre um terceiro. Como este de agora, em que, crucificado (dramático, não ?) pelo dilema entre o elogio do anonimato ou das maestrinas, opto por recomendar as redes de meu primo José Agustoni.

Quando nascemos numa família de muitos nerds (como meus primos André, José e Luiz Theodoro), tendemos a nos achar mais normais. Quase como os outros. Tive a sorte de passar os verões de minha infância com meus primos em Capão da Canoa, então um lugar bem aprazível. Daí que tenho desta época algumas de minhas lembranças mais marcantes. Como o dia em que Zeca (como a maioria o conhece), pelo simples temor de que seus pais recolhessem as espingardas de pressão com as quais recém haviam sido presenteados, ele e seus irmãos, performara uma cirurgia sem anestesia – mas com perfeita assepsia ! – para extrair um projétil acidentalmente alojado na coxa de seu irmão André. Lembro até hoje o heróico empenho de todos para que tudo permanecesse no mais absoluto sigilo.

Infelizmente, perdi ele e outros primos de vista desde aquela idade em que, pela primeira vez, obtemos permissão parental para elegermos os próprios círculos de amizade. É quando, normalmente, mais nos afastamos dos laços familiares.

Até pouco tempo atrás, quando, por força e obra do facebook, acabamos nos reconectando. Hoje, Zeca chamou minha atenção ao postar fotos estereoscópicas (em 3D) tiradas com uma câmera 2D da janela de um avião em movimento.

Dizer que é engenheiro e trabalha na Petrobrás, em Macaé (RJ),  de pouco adiantaria para descrevê-lo. Muito pouco. Lembram do MacGyver ? É o Zeca. O cara com o tipo de nerdice que tanto faz falta na maioria dos nativos digitais. Discreto no face (e presumo, também em outras redes), mantém uma impressionante coleção de páginas virtuais dedicadas aos mais variados ramos da astronomia e da astronáutica. Com suas próprias observações e links curados para as referências mais importantes. Tudo isso como amador, é claro, pois a astronomia sempre foi uma de suas grandes paixões.

Só por esse perfil, meio de revesgueio, já dá para imaginar que a última coisa que alguém assim poderia ter é um trabalho que possa ser chamado de comum. Accordingly, Zeca trabalha (ou trabalhava até algum tempo atrás) em períodos alternados em terra e embarcado em plataformas petrolíferas. Bem comum, como podem ver.

Se você aguentou ler isto até aqui, talvez se interesse por conhecer a homepage de astronomia e afins do Zeca. Além de um verdadeiro curso online, encontrará curiosidades como, por exemplo, evidências levantadas por ele próprio de arquivos da NASA em favor da teoria, tida por muitos como conspiratória (tanto quanto a de que um avião não foi arremessado contra o Pentágono no 11 de setembro), de que o homem jamais pisou na lua.

Não se deixem enganar pela impressão visual de suas páginas. Como praticante da filosofia do do it yourself, Zeca, pelo visto, jamais se preocupou em dar um aspecto mais profissional à coisa toda (alô, agregadores !). Então, a diagramação acaba parecendo mais aquilo que víamos nos primeiros monitores coloridos. De resto, se divirtam.

spacecraft 3

on conducting (vi): para que serve, afinal, um maestro ?

Partindo de um músico como o que vos escreve, o título deste post pode até soar como provocação. Mas não é. Pois a pergunta me foi endereçada pelo Marquinhos, simpático garçom de uma churrascaria que comecei a frequentar décadas atrás, depois de concertos da OSPA – quando, portanto, meu trato digestivo ainda permitia extravagâncias alimentares àquela hora.

Pois o Marquinhos tem o privilégio de também ser músico amador (tornaremos à questão da vantagem do amadorismo mais tarde). Toca teclado, baixo e violão. Daí que conhece, ao menos, algo de harmonia. Numa das últimas vezes em que estive lá, me pediu que lhe esclarecesse para que servem os gestos de um maestro.

Pânico. Raramente em minhas aulas ouço perguntas de tamanho potencial didático e, por isto mesmo, tão perigosas. Do tipo que esperamos ouvir ao menos uma vez na vida mas que quando são, finalmente, proferidas, não parecemos suficientemente preparados para responder. Pensei rápido. Lhe adverti que estava perguntando para a pessoa errada. Que qualquer resposta que ouvisse de mim seria, necessariamente, tendenciosa. Em vão. Ele foi em frete. Disse que alguém lhe perguntara se aqueles gestos serviam para indicar entradas de naipes ou instrumentos – ao que ele respondeu que não, que aquela gesticulação servia para indicar o tempo. Queria se assegurar comigo de haver dado uma resposta satisfatória.

O tranquilizei dizendo que, de fato, o que talvez a maioria dos músicos mais espere de maestros é uma indicação clara e precisa de em que ponto do eixo temporal da música se está a cada instante. Já vi, inclusive, grandes músicos desdenharem de ótimos maestros exclusivamente por abrirem mão, temporariamente, de cumprirem esta que seria (senão para a maioria, ao menos para alguns) sua função primordial.

Pois bem. O que menos espero de bons maestros é esse tipo de preocupação obsessiva com a marcação do tempo. Pois, antes de tudo, é função dos músicos de qualquer orquestra tocarem juntos uns aos outros. Já repararam como alguns mitos da batuta parecem, por vezes, até ocultar intencionalmente a marcação do tempo ? Vejam, por exemplo, no video abaixo, o grande Neeme Järvi, pai de Paavo e Christian, à frente da mítica Filarmônica de Berlim.

Ao invés, espero de quem quer que esteja no pódio nada menos do que inspiração para tocar. Algo meio intangível, tido por vezes como um dom, que tem a ver mais com a densidade emocional da música do que, propriamente, com tecnicismos relacionados à execução precisa de parâmetros (como alturas, ritmos ou intensidades) indicados em sua partitura. Sim, admito que isto não seja lá muito objetivo. Recorrerei, então, a imagens em busca de tentar dizer o que talvez não consiga verbalizar.

DSC_5850

DSC_6216

DSC_6932

DSC_5925

DSC_6190

DSC_7395

DSC_8003

DSC_8094

DSC_9105

DSC_1564

DSC_1569

A meu ver essas fotos dizem mais do que qualquer verbalização, redutora por definição, poderia da espécie de intensidade emocional que distingue regentes verdadeiramente excepcionais daqueles meramente bonzinhos.

Notem que todos os maestros retratados acima tocam ou tocaram proficientemente um instrumento antes de ter acesso ao pódio.

Fotos assim (i.e., de gente cuja excelência reconhecemos) sempre me fazem lembrar algo que ouvi, no curso de fotografia que frequentei quando tinha uns quinze anos, de um eminente professor de fotojornalismo, que pode ser formulado mais ou menos assim:

“Como profissional, tenho inveja de vocês, amadores, que podem escolher o que fotografar.”

Talvez por isto nunca tenha escolhido a fotografia como profissão.

* * *

Teaser: on cunducting (vii): por que maestros viajam tanto ?