Da propaganda (ii): o parêntesis da TV

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Quando falei da obsolescência da propaganda em meios de comunicação de massa, previ certas reações, mas não obtive uma das respostas que mais esperava, a saber, a de que a propaganda já está migrando dos broadcasting media para a web, interativa por definição. Pois a possibilidade de publicar todo e qualquer comentário, em que pesem diferentes graus de moderação por proprietários de postagens iniciais, é, sem sombra de dúvida, a principal diferença entre qualquer rede social e todo meio de broadcasting.

Ferramentas de busca vendendo anúncios não são nenhuma novidade. Só que até canais de TV por assinatura, sejam a cabo o mediados pela web – e que antes eram add free ! – começaram recentemente a exibir anúncios. Como bem notou, esses dias, Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Enquanto isto, José Agustoni me perguntou que alternativas de custeio poderiam ter os atuais meios de comunicação de massa uma vez abolida toda publicidade. Na hora, só lembrei de mencionar sua absorção pelo estado, tendo que reconhecer, no entanto, que o mesmo talvez não tivesse a capacidade para administrar tantas emissoras. Ao menos, não o estado como conhecemos até aqui.

Mas quem, afinal, precisará da TV aberta (i.e., gratuita e minimamente custumizável) dentro de um futuro não muito distante ? Poderíamos, então, muito bem estar vivendo nos últimos anos de algo que poderia ser formulado como um parêntesis da TV, sob os mesmos moldes do parêntesis de Gutenberg, segundo o qual a televisão (inicialmente a aberta e, logo, também as por assinatura) estaria com os dias contados, tendo, portanto, um período de existência se estendendo desde seu advento comercial até meados do século 21. Ou seja, provavelmente, bem menos do que uns 100 anos.

A mídia impressa não se encontra menos terminal. Tanto que especuladores profissionais do setor já proclamam slogans como “impresso, digital ou o que vier” enquanto migram ativos para commodities mais seguras. Comprando vinhedos em parceria com grandes enólogos, por exemplo. Mas isto já é outra conversa.

Como vimos, a razão da perda progressiva de interesse pela TV e pelo rádio é sua falta de interatividade. Ou seja, nativos digitais preferem, por definição, interagir sobre coisas bem menos interessantes, como jogos, imagens (selfies, foodporn, etc.) ou meras redes de fofoca do que, por exemplo, visualizar conteúdo não interativo bem mais interessante e facilmente customizável em muitos canais de broadcasting ou, se preferirem, “mão-única” (como por exemplo, Discovery ou National Geographic, para citar só um tipo de programação qualificada). O fato de que isto tem a ver com a presença e ausência, respectivamente, num (broadcasting media) e noutro (redes sociais) de interatividade pode ser confirmado numa conversa com qualquer nativo digital.

Por tudo isso, acho que teremos cada vez mais fluxo publicitário em canais de entretenimento. Tanto na TV como na web. Queiramos ou não, Luiz Afonso. Feliz aniversário !

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2 respostas para “Da propaganda (ii): o parêntesis da TV”

    1. Abaixo, o comentário supracitado do Luiz Afonso:

      ‘ O caso da propaganda, do Augusto Maurer

      O Augusto, em seu segundo post sobre propaganda, termina dizendo que “Por tudo isso, acho que teremos cada vez mais fluxo publicitário em canais de entretenimento. Tanto na TV como na web”.

      Acrescento algo que ele talvez não tenha lembrado enquanto escrevia: os blogs e os cada vez mais numerosos portais/blogs de jornalismo independentes.

      Recordo que escrevíamos no portal O Pensador Selvagem e que este era mantido, em parte, pela propaganda. Mas éramos um portal de pensadores e não de jornalistas. Não tínhamos – como ainda hoje não temos – a “obrigação” de dar notícias de uma forma que faça contraponto ao mainstream oligárquico.

      São blogs/portais profissionais, muitos dos quais sustento de seus autores que acabam por depender, em boa medida, da propaganda que veiculam.

      Coloco a questão apenas para apontar que temos essa terceira via de sobrevivência da propaganda. Mas volto a questão central que ele colocou no primeiro post,

      “A publicidade de bens e serviços comerciais não passa da faceta mais visível de um modelo econômico fundado sobre a competição pela produção e comercialização de bens em excesso e a custos reduzidos.”

      para perguntar: por que todo mundo sabe que a galinha coloca ovos e da pata não?

      Simples: porque a galinha canta depois que os coloca e a pata não.

      Coloco isso para dizer que a propaganda, como conceito, não carrega, em si, necessariamente, algo de ruim. Mesmo em modelos alternativos de economia ela existe e se faz necessária.

      A questão que deve ser debatida, a meu ver, está implícita na frase do Augusto: se analisarmos o ciclo da “produção e comercialização de bens em excesso e a custos reduzidos”, propaganda não serve para nada, além de desviar a atenção.

      O excesso e as chamadas externalidades (meio ambiente) serão absorvidos por ações governamentais, sob a ameaça dos “custos reduzidos” (muito conhecido. também, como desemprego). Daí a pressão dos beneficiários da propaganda (mídia) para que tenhamos governos sempre submissos aos interesses dos que produzem o lixo que sobra.

      Por fim, o pior de tudo isso é, como coloquei no início, que temos uma grande quantidade de gente “digital” que começa a viver de propaganda…. ‘

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