Da imbecilidade em redes sociais e broadcasting media (em resposta a Umberto Eco)

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Umberto Eco esteve na semana passada nas manchetes dos portais de notícia, onde repercutiu lindamente sua delaração de que “as redes sociais dão voz a uma legião de imbecis”. Minha primeira reação foi comentar, sob cada compartilhamento, que “houve, neste caso, nítido progresso, pois, antes, sob os domínios do bradcasting, só uns poucos imbecis tinham voz.”

Só que, como a notícia circulou demais, não consegui apor a observação a cada compartilhamento da mesma que pipocava em minha timeline. Fui dormir. Acordei ainda pensando no assunto – indicativo claro de que eu deveria, sim, refletir mais sobre o a afirmação.

Eco é um daqueles interessantes pensadores que vivem sob uma mudança de paradigma na comunicação humana – a saber, a passagem dos meios de comunicação de massa, ou broadcasting media, para as redes sociais. É, pois, natural que se ocupe desta transformação. Só que, até ele me sair com essa, de que as redes estariam povoadas por imbecis (notem que ele não disse “inclusive” !), jamais o havia reconhecido como um netskeptic.

Parêntesis. Depois da fratura determinada pelo advento das redes sociais, a qual vem tendo e ainda terá reflexos em todas as relações humanas, todo discurso de exaltação ou demonização da web vem sendo proferido por netopians (como Clay Shirky) de um lado e netskeptics (como Andrew Keen, Evgeny Morozov ou Nicholas Carr) de outro. As expressões significam, respectivamente, otimistas e pessimistas em relação às novas configurações de comunicação viabilizadas pela web.

 

(lembro de já ter falado de netopians e netskeptics em algum lugar deste blog)

Como dizia, nunca tive, talvez por ignorância, o grande Umberto Eco como um netskeptic, tal como sua bombástica declaração acima sugere ou deixa transparecer. O que me leva a pensar, de pronto, em duas hipóteses.

Primeiro, a de que sua afirmação pode ter sido descontextualizada, como é comum na indústria jornalística, de modo a conotar algo diferente do que toda a sua fala não abreviada. Segundo, a de que Eco pode ter se referido à legião de imbecis deliberadamente para causar efeito. Isto também não é raro, nem tampouco condenável. Pois qualquer celebridade sabe que o modo mais rápido de se obter atenção midiática é sempre se posicionando frontalmente contra o mainstream ou o senso comum. João Marcos Coelho, por exemplo, sabia disso ao se referir às orquestras como dinossauros doentes.

Não tenho, no momento, como determinar se Eco sofreu algum tipo de descontextualização editorial ou quis ser, simplesmente, sensacionalista. Exceto, é claro, lendo a íntegra de seu texto – o que, aviso, dificilmente farei. Pois prefiro me deter, aqui, no status da imbecilidade publicizada antes e depois da web.

A imbecilidade está presente, em maior ou menor grau, em qualquer bolha discursiva, formada por likeminded people (pessoas que pensam de modo semelhante). Isto por que, em qualquer associação humana, há, claramente, quem pense (filósofos, professores e outros formadores de opinião) e quem, talvez por uma questão de pertinência ao grupo, tenda a assimilar mais facilmente ideias prontas alheias. Chamemos, por convenção, os integrantes desta segunda categoria genericamente de imbecis. Gosto de pensar que as redes facultem à maioria pertencer à primeira delas.

É amplamente sabido que a principal diferença entre as redes sociais e os meios de broadcasting é o protocolo de facilitação do contraditório (leia-se caixas de comentários) que há em redes e não em canais de broadcasting. Também é notório que redes de TV e rádio concentram, proporcionalmente ao conjunto de seus apresentadores, um grande número de imbecis que meramente personalizam posições corporativas.

Ora, as redes sociais, ao darem voz, pela primeira vez, numa era de autoria quase universal, a qualquer indivíduo, acabam por equipar todo imbecil, até então silencioso, com um megafone. Tão somente por isto imbecis parecem mais numerosos em redes sociais do que na TV e no rádio.

Só que, nos meios de broadcasting, cada imbecilidade proferida é assimilada por uma legião anônima, que passa a acreditar na mesma pela aplicação de uma mordaça, inerente à configuração unidirecional da comunicação, a qualquer voz divergente potencialmente capaz de jogar alguma luz sobre asneiras que são frequentemente veiculadas. Desta ausência, por default, de contraditórios qualificados é que resulta a naturalização da imbecilidade em meios de broadccasting.

Felizmente, no domínio das redes sociais, em parte devido à competência tão bem formulada por Howard Rheingold como crap detection (uma das principais 21st century literacies), qualquer imbecilidade é facilmente apontada, desmascarada e contradita. De tão publicizadas, viram facilmente objeto de piada – como, por exemplo, o recente protesto da bancada evangélica no congresso brasileiro. Nestes casos, a via de mão dupla inegavelmente conspira para a erradicação da imbecilidade. Por mais teórico que tudo isto possa parecer, acontece todo dia, em telas bem diante de nossos olhos. Como, por exemplo, nos lacônicos comentários do fake Roberto Feetlover sobre esta postagem.

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Adeus à classe de clarone de Henri Bok em Roterdã

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Explico a quem não sabe o que é um clarone, como é mais conhecida a clarineta baixo. É, como diz o nome, o instrumento maior (e, portanto, de som mais grave) da família das clarinetas (ou clarinetes, se preferirem). É um instrumento mais caro, complexo e de execução bem mais especializada do que as populares clarinetas, fartamente encontradas em quaisquer bandas. Há, no entanto, só uns poucos que dominam o clarone em cada nação. Dentre estes, invariavelmente discípulos de seus dois únicos grandes mestres reconhecidos em todo o planeta. Dois holandeses. Henri Bok e Harry Sparnaay. O problema do clarone no jazz é ainda mais exclusivo, com o caso único de Eric Dolphy.

Já tivemos a felicidade de ter Bok entre nós, dando aulas no Instituto de Artes da UFRGS e como solista junto a uma ou mais de nossas orquestras – e tenho o privilégio de trabalhar, na OSPA, com Marcelo Piraino, que foi seu aluno no Conservatório de Roterdã. Uma das tantas vantagens de se trabalhar com gente assim é ficar sabendo de coisas importantes antes dos outros. Tanto boas como ruins. Como a notícia de que a classe do instrumento no prestigioso conservatório será extinta após a aposentadoria de Bok.

Sim, vocês leram certo. O próprio Bok ficou sabendo da extinção de sua classe não através da direção do conservatório, como era de se esperar, mas por meio de seus próprios alunos. Ao receber a notícia, comentei com Marcelo que Bok deveria ter, naturalmente, algum discípulo favorito em mente para sucedê-lo. Soube, então, que pretendia ter seu trabalho continuado em Roterdã por Luis Eugênio Afonso, mais conhecido como Montanha, claronista da OSESP e do quarteto de clarinetas Sujeito a Guincho.

* * *

Saí do ensaio em que soube disto triste. E pensativo. O fim programado de uma classe brilhante e única como a de Bok não é um fenômeno isolado. Antes, tem a ver com a crise pela qual passam instituições musicais no mundo todo. Pois, enquanto enxugam o corpo docente de um dos principais conservatórios europeus, autoridades de Atlanta  banem do ensino público toda prática musical em bandas e orquestras, dispensando (suponho) centenas de professores de música. Enquanto isto, orquestras, que já foram chamadas de dinossauros, ainda tem, segundo os mais alarmistas, uma expectativa de existir, como hoje as conhecemos, por, no máximo, uns trinta anos.

As formas pelas quais organizações importantes se adaptam a esta nova realidade variam bastante, constituindo matéria para muitos posts. Até por que meus estimados editores (i.e., os que pagam pelos servidores que permitem a existência deste blog) querem que eu escreva mais seguido – o que só consigo, é claro, escrevendo coisas mais curtas. Pensando bem, não seria má ideia uma enquete sobre o tamanho ideal de um post.

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Da propaganda (ii): o parêntesis da TV

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Quando falei da obsolescência da propaganda em meios de comunicação de massa, previ certas reações, mas não obtive uma das respostas que mais esperava, a saber, a de que a propaganda já está migrando dos broadcasting media para a web, interativa por definição. Pois a possibilidade de publicar todo e qualquer comentário, em que pesem diferentes graus de moderação por proprietários de postagens iniciais, é, sem sombra de dúvida, a principal diferença entre qualquer rede social e todo meio de broadcasting.

Ferramentas de busca vendendo anúncios não são nenhuma novidade. Só que até canais de TV por assinatura, sejam a cabo o mediados pela web – e que antes eram add free ! – começaram recentemente a exibir anúncios. Como bem notou, esses dias, Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Enquanto isto, José Agustoni me perguntou que alternativas de custeio poderiam ter os atuais meios de comunicação de massa uma vez abolida toda publicidade. Na hora, só lembrei de mencionar sua absorção pelo estado, tendo que reconhecer, no entanto, que o mesmo talvez não tivesse a capacidade para administrar tantas emissoras. Ao menos, não o estado como conhecemos até aqui.

Mas quem, afinal, precisará da TV aberta (i.e., gratuita e minimamente custumizável) dentro de um futuro não muito distante ? Poderíamos, então, muito bem estar vivendo nos últimos anos de algo que poderia ser formulado como um parêntesis da TV, sob os mesmos moldes do parêntesis de Gutenberg, segundo o qual a televisão (inicialmente a aberta e, logo, também as por assinatura) estaria com os dias contados, tendo, portanto, um período de existência se estendendo desde seu advento comercial até meados do século 21. Ou seja, provavelmente, bem menos do que uns 100 anos.

A mídia impressa não se encontra menos terminal. Tanto que especuladores profissionais do setor já proclamam slogans como “impresso, digital ou o que vier” enquanto migram ativos para commodities mais seguras. Comprando vinhedos em parceria com grandes enólogos, por exemplo. Mas isto já é outra conversa.

Como vimos, a razão da perda progressiva de interesse pela TV e pelo rádio é sua falta de interatividade. Ou seja, nativos digitais preferem, por definição, interagir sobre coisas bem menos interessantes, como jogos, imagens (selfies, foodporn, etc.) ou meras redes de fofoca do que, por exemplo, visualizar conteúdo não interativo bem mais interessante e facilmente customizável em muitos canais de broadcasting ou, se preferirem, “mão-única” (como por exemplo, Discovery ou National Geographic, para citar só um tipo de programação qualificada). O fato de que isto tem a ver com a presença e ausência, respectivamente, num (broadcasting media) e noutro (redes sociais) de interatividade pode ser confirmado numa conversa com qualquer nativo digital.

Por tudo isso, acho que teremos cada vez mais fluxo publicitário em canais de entretenimento. Tanto na TV como na web. Queiramos ou não, Luiz Afonso. Feliz aniversário !

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