Por que renunciei à participação na comissão artística da OSPA ou do estado da democracia aqui e em Berlim

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BPO hall 2

Quando vocês estiverem lendo isto, provavelmente os músicos da Orquestra Filarmônica de Berlim já terão escolhido, por meio de um processo eleitoral democrático exaltado e monitorado no mundo todo, quem assumirá a direção artística (e, com ela, a regência de grande parte de seus concertos) do mítico conjunto a partir de 2018. O momento não poderia ser mais propício, portanto, para uma comparação entre como são as coisas lá e aqui.

Notem que, assim como outras orquestras (como uma de Londres e outra de Nova Iorque), a de Berlim está envolvida, no momento, com a escolha de seu gestor artístico máximo que tomará posse no cargo daqui a três anos, i.e., muito possivelmente depois das próximas eleições que determinarão quem governará, então, as nações, estados ou cidades que assumirão parte de seus orçamentos.

É de se pensar até que ponto tal prática, a saber, a de escolher antecipadamente os gestores que atuarão nos próximos governos, não seria democraticamente saudável. Mas aí já estamos falando da depreciação, por políticos, de funcionários concursados em prol de detentores de cargos em comissão.

Mas as diferenças entre os dois contextos não param aí. Bem disse meu amigo Milton Ribeiro que, enquanto lá prevalecem tradições democráticas, aqui ainda dominam hábitos golpistas. Até já ouvi de quem defende estados de coisas tão distintos entre si em instituições tão análogas que nós, modestos músicos de uma orquestra estatal brasileira, não teríamos a maturidade necessária para escolher os próprios gestores. Discordo e vou adiante: ora, é justamente o atraso democrático na escolha de seus dirigentes que torna orquestras como a OSPA organismos de evolução tão lenta, totalmente entregues a caprichos políticos e que dificilmente poderiam almejar, num futuro próximo ou mesmo distante, à mesma condição de excelência artística que o incensado grupo alemão. Exagero ? Talvez. Mas vejamos.

Se trata, aqui, principalmente, de se estabelecer uma ordem de precedência, a saber, se a tradição de excelência musical da famosa orquestra antecedeu sua adesão a princípios democráticos ou vice-e-versa. Noutras palavras, o que veio primeiro: a excelência artística ou a autogestão ? Em minha opinião, a Filarmônica de Berlim é tudo o que é inclusive por causa de sua índole autogestionária, e não o contrário. Convoco, aqui, amigos com mais conhecimentos históricos do que eu para decidir se minha teoria é ou não furada. Enquanto isto, vou direto ao motivo que ensejou a reflexão acima.

Quando me pronunciei, meses atrás, sobre a indicação política de um novo superintendente artístico para a OSPA, me voluntariei para integrar a nova comissão artística a ser instalada – a qual acreditava, em minha ingenuidade, ser capaz de balizar a gestão artística da orquestra. Antes, porém, de prosseguir, me permitam algumas breves notas de esclarecimento sobre o que vem (ou pelo menos deveria vir !) a ser, afinal, a comissão artística de uma orquestra sinfônica.

Ao longo do restante deste texto, me refiro ao superintendente artístico da OSPA simplesmente como seu diretor artístico.

Há farta documentação, já há bastante tempo, do anseio de músicos da OSPA por mais participação na escolha de seus solistas, regentes convidados e obras a serem executadas nos concertos. Num dado momento, foi criada uma comissão artística, formada por músicos eleitos por toda a orquestra, idealmente como canal por meio do qual esta participação pudesse ser efetiva e transparentemente exercida. Há que se ressaltar, no entanto, que, a despeito do anseio majoritário de seus músicos, nenhuma comissão artística é ou jamais foi regulamentada em qualquer estatuto ou regimento interno da fundação OSPA. Sua existência depende, outrossim, exclusivamente da vontade política de gestores que se alternam na direção da mesma. Assim, enquanto uns dela se beneficiaram para imprimir diretrizes as quais, de outra forma, seriam insondáveis, outros simplesmente dela se utilizam para conferir a suas gestões ares democráticos. Noutras palavras, em sua fragilidade institucional, a própria existência de uma comissão artística da OSPA é, por vezes (como agora !), apresentada como evidência de que existiria de fato uma participação dos músicos da orquestra em sua gestão. O que, como pretendemos deixar claro a seguir, não é verdade.

Recentemente, músicos da OSPA elegeram sua comissão artística atual, assim composta: quatro membros titulares e quatro suplentes – representantes, respectivamente, de grupos de instrumentos de cordas, madeiras, metais e percussão – mais seu diretor artístico. Neste processo, fui eleito suplente do representante das madeiras. É importante ressaltar que, nas duas primeiras vezes em que a comissão se reuniu, também esteve presente o presidente da associação de funcionários da FOSPA (não tenho conhecimento de sua participação ou não em reuniões subsequentes). Nos próximos parágrafos, tento deixar claros os motivos que me levaram à renúncia à representação para a qual fui eleito, ainda que como suplente.

Da frequência minguante dos encontros da comissão artística

Quando conversamos em janeiro último, o atual diretor artístico da fundação manifestou  sua vontade de que a comissão se reunisse apenas mensalmente. De pronto, retruquei que tal frequência de encontros seria insuficiente para tratar de todos os assuntos em que sua atenção se fizesse necessária, sugerindo que reuniões semanais, como as que eram realizadas durante gestões anteriores (ou, ao menos, no início das mesmas) constituiriam um mínimo aceitável – desde, é claro, que houvesse, entre seus membros, um protocolo de reunião permanente, contínua e assíncrona, mediada por tecnologias virtuais.

Eleita e empossada, a atual comissão começou a se reunir semanalmente com a presença de todos os seus membros, tanto titulares como suplentes. Realizadas duas reuniões, em 11 e 19 de março últimos, as duas seguintes (previstas para 26 de maio e 2 de abril) foram canceladas pela direção, alegadamente devido aos drásticos cortes orçamentários impostos pelo governo estadual. Ora, nunca entendi bem a lógica por trás do argumento de que, com menos verbas para a realização da temporada, a atuação da comissão seria, de algum modo, menos importante ou necessária. Penso, antes, o contrário. Mas voltemos à cronologia do esvaziamento de importância da comissão na atual gestão.

Em 7 de abril, toda a orquestra recebeu, por email, o primeiro número de um até então inédito boletim (haverá outros ? quando ?), distribuído por sua administração, que tratava, entre outras coisas, de informar (1) que doravante, a comissão artística se reuniria num regime quinzenal; (2) que a próxima reunião seria realizada em 9 de abril e (3) que, supostamente a fim de garantir o equilíbrio da representação entre os naipes de instrumentos da orquestra (sic!), doravante somente seus membros titulares participariam das reuniões, sendo facultada a presença de suplentes somente quando da ausência dos titulares correspondentes. Com isto, se deu por encerrado meu brevíssimo período de participação em uma comissão artística da OSPA. Mas voltemos, uma vez mais, à cronologia. Sob o novo regime quinzenal unilateralmente imposto (pois a comissão jamais deliberou sobre isto !), depois da reunião em 9 de abril, a comissão só tornou a se reunir em 5 de maio.

Com isto, se torna evidente que a periodicidade das reuniões da comissão artística evoluiu, em apenas dois meses e sem nenhuma deliberação a respeito, de encontros semanais tidos como ideais pela orquestra, passando pela quinzenalidade imposta pela direção até atingir, na prática, em razão de sucessivos cancelamentos, a pífia frequência mensal originalmente defendida pelo diretor artístico. Desenhando: 11 de março + 1 semana = 19 de março + 3 semanas = 9 de abril + 3 ½ semanas = 5 de maio. Ora, se isto não quer dizer nada, deixem por conta de mais uma bela teoria conspiratória (como outras tantas que poderão me ser creditadas até o fim da leitura deste texto).

Do fluxo da comunicação entre a orquestra e sua comissão artística

Nas únicas duas reuniões às quais estive presente, insisti, em vão, na necessidade de que se estabelecesse um fluxo contínuo e bidirecional de comunicação entre a orquestra e sua comissão artística. Até por que, no breve debate que precedeu a eleição da atual comissão, muitos enfatizaram a importância de uma prestação de contas contínua à orquestra em relação a tudo o que fosse tratado e deliberado em suas reuniões por meio, por exemplo, da publicação de atas, sem as quais tais encontros não teriam qualquer validade como forma de representação.

Na primeira reunião (11 de março), a presença de duas secretárias que anotavam tudo diligentemente nutriu minha esperança de que houvesse alguma transparência em todo aquele processo. Por pouco tempo. Pois já na segunda (19 de março) e última da qual participei não havia mais ninguém a tomar notas. A falta, até agora, de qualquer retorno à orquestra sobre o que foi tratado nas duas reuniões subsequentes ao banimento dos suplentes só reforça minha convicção de que qualquer pretensão à transparência tenha sido definitivamente abandonada.

Mas não foi só isto. Ainda na primeira reunião sugeri que toda comunicação entre integrantes da orquestra com a comissão fosse automaticamente direcionada a todos os seus membros. Tal proposta não encontrou qualquer respaldo na direção, que determinou que toda comunicação endereçada por membros da orquestra à comissão fosse encaminhada, antes, à direção a fim de que pudesse passar por um “filtro” antes de ser apresentada à reunião plenária. Pergunto: filtro para que ? E por quem ? A palavra censura não seria, no caso, mais adequada ?

Também já mencionei, acima, a rejeição pela direção de minha proposta para que a comissão funcionasse em regime de reunião permanente, mediada por tecnologias virtuais. Como justificativa, foram levantadas restrições pessoais de alguns (adivinhem quem !) às ferramentas virtuais. Me contem outra. Ou então, creditem, como disse há pouco, a mais uma teoria conspiratória.

Da participação da comissão na programação dos concertos da orquestra

Em nenhum momento, durante as duas reuniões da comissão das quais cheguei a participar, a mesma chegou, propriamente, a deliberar sobre a programação da OSPA, i.e., sobre o repertório a ser executado e os solistas e regentes a serem convidados. Minto. A comissão foi explicitamente consultada tão somente em casos em que decisões potencialmente antipáticas tinham que serem tomadas, tais como a realização de  concertos populares exigidos pela Secretaria de Cultura ou o veto a concertos com regentes que sofreriam, supostamente, rejeições significativas por parte da orquestra. De resto, a grande maioria dos que foram convidados para dirigir a orquestra em 2015 jamais foi submetida à aprovação ou não da comissão, nem tampouco os solistas ou as obras a serem executadas. O que me leva a perguntar, então, para que serviria, senão para deliberar sobre tais coisas, uma comissão artística ?

Acrescente-se a isto (1) que nem a direção nem tampouco a comissão acolheu a proposta de não apenas fossem retomados os questionários, realizados nos dois últimos anos por iniciativa exclusiva de músicos da orquestra, em que o desempenho de cada regente convidado era minuciosamente avaliado, bem como (2) que a vasta base de dados já coletada através de questionários já realizados fosse levada em consideração ao se deliberar sobre o retorno ou não de regentes que já tivessem estado à frente da OSPA. Ora, quando a manutenção da realização dos questionários é descartada pela direção tendo por base certa imaturidade por parte dos músicos da orquestra, já mencionada no início deste texto, é a própria isenção e credibilidade tanto do instrumento quanto daqueles que o respondiam que é posta em dúvida.

Ainda quanto à avaliação de regentes convidados pela orquestra, cabe acrescentar que me foi dito pelo atual diretor artístico, na conversa supra-citada, que o conjunto dos regentes convidados com os quais já trabalhamos é, ainda, demasiado pequeno (com o que estou de pleno acordo !) e que, por esta razão, regentes que estiveram recentemente à frente da OSPA não tornariam a ser convidados num futuro próximo – ao que me oponho veementemente: por que deixar de convidar, ainda que por um curto período, regentes sabidamente dispostos a nos reger e que já tiveram um ótimo desempenho junto à orquestra ? Ora, e mesmo que tal “política de programação” (preciso me lembrar de falar de outras, tão absurdas quanto estas, já invocadas em defesa de práticas adotadas) fosse o critério vigente, como explicar o retorno, em menos de três meses, de dois maestros que estiveram entre nós recentemente – sendo que um deles teve, na ocasião, uma avaliação sofrível por parte da orquestra ?

Então, se dando, é claro, à direção artística o benefício da dúvida, cabe à mesma explicar à orquestra e à opinião pública como se dá a tão propalada participação da orquestra em sua gestão, já que, por tudo o que foi dito acima, através de sua comissão artística é que, certamente, não é.

Admitindo-se, vá lá, um certo tom de provocação, cheguei a propor, num momento de maior irreverência, que, assim como a direção vem recrutando músicos da orquestra para atuarem como solistas junto à mesma em “tempos de vacas magras” (leia-se o governo Sartori), que a orquestra também fosse sondada quanto a seus membros que estivessem em condições de regê-la – ao menos, inicialmente, em concertos populares e em viagens. Mas que, no entanto, a pergunta a ser formulada não fosse “Quem quer reger a OSPA ?” e sim “Por quais de seus colegas músicos você gostaria de ser regido ?” – já que muitos ótimos regentes em potencial não se vêm como tal (ainda que por preconceitos culturais que fogem ao âmbito deste texto), precisando, antes, do reconhecimento de seus pares.

Superado o espanto, acho que preferiram não levar a sério o que eu acabara de dizer. Foi, também, a partir deste momento que eu tive a certeza de que minha modesta participação na comissão estava com os dias contados. Até estranhei que me convidassem para uma segunda reunião antes de se darem conta de que, para se verem livre de minha presença inconveniente, bastaria que excluíssem das reuniões da comissão artística seus membros suplentes – o que só foi feito entre a segunda e a terceira reunião, por meio do já mencionado boletim informativo.

Por tudo isto, torno público à orquestra em geral, aos integrantes de sua comissão artística em particular e a quem mais interesse, que, a partir desta data, não mais participarei de reuniões de comissões artísticas que existam apenas nos moldes acima descritos. Ou, mais especificamente, que sejam meramente consultivas e não deliberativas. Triste, por um lado, por ver naufragar mais uma tentativa de participação democrática e efetiva dos músicos nos desígnios da orquestra que aprendi a amar, também me sinto, ao mesmo tempo, aliviado por não compactuar ou assumir a chancela, respectivamente, com práticas ou sobre decisões que ainda não possa mudar.

teatro da ospa 1
foto: Paulo Paranhos Jr.

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Update em 11/5/2015 às 17:56: http://slippedisc.com/2015/05/breaking-berlin-philharmonic-election-is-of-vote-again-within-a-year/

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Errata: também participam da comissão artística da OSPA, como membros natos, seus dois spallas. E suas reuniões também costumam contar com a presença, tão silenciosa quanto atenta, do inspetor da orquestra.

4 respostas para “Por que renunciei à participação na comissão artística da OSPA ou do estado da democracia aqui e em Berlim”

  1. Por ignorância, prepotência e/iu narcisismo, muitos “gestores” deixam de perceber que a democracia é sempre a forma mais eficiente de se produzir o bem comum e a concórdia, ou mesmo discórdias que caminham para o bem comum: da tensão dos opostos, as mais belas harmonias (Heráclito).

  2. Faço questão de reafirmar o caráter equivocado de algumas ascensões. Por exemplo, o novo presidente da FEE, este mesmo que está metendo os pés pelas mãos, chegou ao cargo só por ser do PMDB. Apenas por este motivo manda numa Fundação eminentemente técnica. Ninguém parece ter examinado suas constrangedoras publicações no Facebook e nem sua aprovação a trabalhos de duvidosa qualidade científica.

    http://www.sul21.com.br/jornal/oposicao-quer-demissao-de-presidente-da-fee-por-postura-inadequada-e-estudos-tendenciosos/

    Quando digo “hábitos golpistas”, refiro-me ao cara que assume um posto técnico meramente em função de sua disponibilidade, de seu voluntarismo. Parece-me que quem faz isso — e esta é uma opinião que vale apenas para mim — está dando uma de Raskolnikov, matando uma velhinha metafórica para chegar onde quer. Dostoiévski foi tão genial que fez com que seu personagem fosse obrigado a matar, logo de cara, DUAS velhinhas.

    Jamais o nome do diretor artístico ou do regente titular deveria vir através de um acerto político ou de cotas partidárias. Tanto a Ospa quanto a FEE — deve haver outras instituições técnicas no mesmo caso –, deveriam escolher seus diretores através de eleições cujos votantes seriam os músicos, caso da Ospa, e o corpo técnico, caso da FEE. Como faz, aliás, a UFRGS, que é do governo. Se fosse uma má escolha, ao menos seria reflexo da opinião e do debate interno.

    A indicação política é adequada para instituições que são a própria política, nunca para entidades que fazem música ou estatísticas sobre o desempenho econômico do estado.

    P.S. — Desse jeito, na hipótese do PSOL chegar ao governo, vocês vão ter que se ver comigo!

  3. Em ‘novos tempos’ de uma ‘nova direção’, tudo é um pouco turvo, no princípio; enfim, só quero exprimir aqui o quanto sinto que tenhas desistido de participar da Comissão Artística mas, respeitando sua decisão – não é fácil. Tomara que não se arrependa – às vezes é p’ciso mais insistência.

    Abraço !

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