Mastertracks: álbuns duplos (i): Chick Corea, My Spanish Heart (1976)

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Corea MSH 6

Devo ter falado deste disco no blog antigo. Como, no entanto, isto já faz muito tempo, é sempre bom lembrar. Até por que qualquer disco cujo interesse dure mais do que o tempo médio de vida de um blog merece toda a atenção de nossos ouvidos.

Não é muito comum, dada a pouca duração das formas que geralmente tem a seu dispor, que artistas de música popular, mesmo da instrumental, consigam sustentar o interesse de ouvintes ao longo dos quatro lados de um LP duplo. Feito equiparável a, por exemplo, ouvir atentamente, do início ao fim, uma sinfonia de Mahler ou qualquer ópera de proporções médias. Por isto é tão raro músicos populares lançarem álbuns duplos. Afinal, quem aguenta ouvir em sequência mais do que uma dezena de coisas de 3 ou 4 minutos parecidas entre si ?

Então, sempre que me deparo com álbuns duplos, presto alguma atenção. Mesmo que tantos se revelem, depois de poucas faixas, insuportáveis.

My Spanish Heart é um álbum duplo de um dos maiores catalisadores do jazz. Explico. Grande parte do músicos mais consistentes ou carismáticos, geralmente bandleaders, apenas em determinados períodos de suas carreiras logram aglutinar em torno de si constelações de estrelas que lhes permitam desenvolver ao máximo sua arte. Vejam, por exemplo, os combos de Monk antes do mergulho solitário no piano ou do idílio com Coltrane. Ou tantos sidemen, ainda que brilhantes, da era do hard bop. Quem consegue ouvir aquilo prolongadamente ?

O mesmo não acontece, no entanto, com a maioria das formações mantidas, por exemplo, por um Art Blakey, Bill Evans, Charlie Mingus, Chick Corea ou Oliver Nelson.

Mais raramente ainda, ocorre que uma destas constelações seja, ao mesmo tempo, um conclave de gênios. I.e., nos quais há, além de grandes músicos, mais do que apenas um desenvolvedor de conceitos (ou seja, particularmente inovador). Quando estas colaborações acontecem, temos, mais do obras primas, marcos históricos. Discos únicos. Como Kind of Blue.

Se alguém se parar a pensar por que o elenco de Kind of Blue jamais se reuniu para qualquer gig ou outra gravação, dá uma novela. Suponho que alguém noir já tenha feito isto.

Posto isto, chegamos, propriamente, a My Spanish Heart, album duplo que é um marco na prolífica discografia de Chick Corea. A começar pelo brilhantismo de cada membro da banda. Sendo Corea um imenso exponente do piano, é natural que olhemos em primeiro lugar para a bateria e o contrabaixo que constituem, com o primeiro, os pontos de apoio a dar sustentação a todo o tecido instrumental. Ora, Steve Gadd e Stanley Clarke dispensam apresentações, estando, um e outro, entre os maiores executantes de seus instrumentos em sua época.

Don Alias, o percussionista em My Spanish Heart, liderou a apresentação, subsidiada (ah, bons tempos do Cultural, do Goethe, da Aliança Francesa…) e para uma pequena platéia, de seu combo em Porto Alegre.

My Spanish Heart não é um piano trio, nem tampouco um combo como os de Mingus ou Nelson. No álbum, Corea mescla, com maestria de orquestração e engenharia, os sinais acústicos e elétricos de cada instrumento das palhetas jazzística e orquestral. Parece pouco ? Imaginem misturar, com clareza absoluta, voz, piano, baixo, bateria, palmas & sapateado, quarteto de cordas e metais ! Palmas, Bernie Kirsh. E louvados sejam os estúdios analógicos da Los Angeles dos anos 70.

Mas não é só a exuberância de um dream team que torna MSH um álbum duplo digno de ser ouvido. Como dissemos acima, qualquer obra musical que ambicione uma escuta mais demorada depende, além da excelência de cada participante da performance gravada, também de formas capazes de manter a atenção de ouvintes por mais tempo do que a duração média da tudo o que ser ouve no rádio ou na web. Sabemos que, em música o que dá a alguém alguma imortalidade é sua perícia no manejo de formas (já o que dá a alguém celebridade não é o conteúdo, mas a promoção midiática). Há séculos que o principal organizador da forma, em música, é a harmonia. A esta se sobrepõe a orquestração. Isto quer dizer que, enquanto quase todo ouvinte é capaz de perceber variação harmônicas em determinados instantes, a maioria só consegue distinguir, entre instantes mais distantes, diferenças de instrumentações (i.e., de timbre, ou que combinação de instrumentos está tocando a cada instante). Tudo isto é só para dizer que, em MSH, CC se utiliza largamente da orquestração para gerar formas mais longas. Para bem além do que é mais comum em discos de música popular. Mesmo instrumental.

Há em MSH, além da instrumentação, um outro fator gerador de forma, bem mais raro na história da música, a saber, a alternância e/ou concomitância, numa mesma obra, dos modos de performance composta e improvisada. Ou, se quiserem, pré-determinado e não pré-determinado. Tal convívio artístico entre um e outros são raros na música ocidental.

Pois é pelo uso tanto da instrumentação como do jogo entre partes improvisadas, pré-compostas e mistas que Corea logra articular, como raramente vemos em música popular, os quatro movimentos (!) da Spanish Fantasy que ocupa todo o último lado de seu épico álbum duplo.

Outros pontos altos do disco incluem o igualmente raro uso artístico e inteligente de

  • gravação em playback ou overdub, i.e., não simultânea, particularmente na “polifonia” improvisada com a esplêndida voz de Gayle Moran (que esteve com CC no inexplicavelmente único (!) festival de Montreaux em SP); (só me lembro de overdubs improvisados interessantes assim em Conversations I & II de Billl Evans); e
  • de sintetizadore monofônicos, tais como o Minimoog.

Digno de nota é também o vigor rítmico hispânico/latino presente, como fio condutor, em todo o álbum. O que me traz de imediato a memória de um problema formal da música improvisada para dançar que se resume no seguinte: ao mesmo tempo em que dançarinos reconhecem uma duração máxima de cada música como ideal, a partir da qual começam a sentir fadiga, músicos improvisadores prolongariam, se pudessem, cada tema indefinidamente, chorus após chorus, por tanto mais tempo quanto for o número de membros do combo. Então, eis o belo paradoxo: combos maiores são tanto mais eletrizantes quanto mais cansativos para quem dança (daí parte da importância da direção musical inclusive nestes gêneros !…)

But so much for a disc. Ainda que duplo. Então, baixem de onde acharem (please share on comments !) e apreciem !

(estou como um cara que conheço, que alterna entre o português e o alemão conforme a necessidade)

 

Corea MSH back cover 3

 

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