On education (i), in praise of PLNs (i) ou, ainda, eu sigo (i) Jay Rosen

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Jay Rosen (jornalismo, NYU) é um professor blogueiro (Pressthink) que não fala muito frequentemente mas que, quando fala, se estende com extrema minúcia sobre cada pormenor do que aborda. Como é típico de grandes pensadores. Resulta, então, que seus longos posts são, na maioria das vezes, capitais para quem quer que pretenda entender o fluxos e hierarquias da informação jornalística hoje. É dele, por exemplo a distinção entre lifecasting e mindcasting, ou então entre jornalistas graduados antes e depois dos atentados de 11 de setembro. But so much for the guy. Só falei dele de passagem por que, dia desses, comentou no facebook (ele sempre dialoga em redes sociais sobre temas que o intrigam antes de postar seus textos super estruturados) ter abordado a escola de sua filha em razão de um professor de ciências ter se referido ao aquecimento global como apenas uma hipótese entre muitas plausíveis ao invés de, como deveria, como um fato comprovável. Na carta, pergunta se a escola tinha ciência de que tal visão era ensinada por um de seus professores.

Algum tempo antes disso, Rosen já questionara o sistema educacional de modo mais amplo numa brilhantemente conduzida entrevista com sua própria filha, na qual tenta descobrir por que não eram normalmente oferecidas às meninas as mesmas oportunidades de aprendizagem de programação para as quais meninos são fortemente incentivados. Oxalá a maioria dos pais estivesse tão preocupada com a educação de seus filhos. Pois há farta documentação aqui, aqui, ou aqui sobre como pais costumam não estar nem aí para o que ensinam a seus filhos em escolas. Suponho e temo que a situação em escolas particulares e públicas não seja muito diferente. Que fique bem que claro que me refiro, aqui, não a conteúdos (seriais) pertencentes a grades curriculares e sim àquilo em que acredita, efetivamente, cada professor (pois, numa contexto ideal, eu adoraria poder adicionar a minhas redes sociais todos os professores de meus filhos…)

Complicado ? Por partes, então. Quando Rosen se preocupa com como é ensinada a ideia do aquecimento global (i.e., se como apenas uma possibilidade entre muitas ou, ao contrário, como um fato consumado), o que está implícito é a preocupação com uma ideia abstrata, descolada da vida cotidiana, porquanto afetará somente humanos de um futuro impalpável, ainda que não muito distante, a saber, o planeta que será deixado aos humanos descendentes dos atuais. Na melhor das hipóteses. Científica. Ou, nas piores (religiosas), o céu, o inferno ou, ainda, 72 virgens que cada um teria após a própria morte.

Adiante em sua linha indagatória, Rosen se pergunta, então, como se comportaria, na mesma escola e sob as mesmas condições de vigilância pedagógica, um professor hipotético de ciências em relação às teorias antagônicas evolucionista e criacionista. Muito apropriadamente. Pois, neste caso, a crença professada por cada docente tem tudo a ver com outra ideia abstrata (projetada, desta vez, não num futuro próximo mas num passado remotíssimo), a saber, as hipóteses inconciliáveis de que o ser humano seja obra do ato de um criador ou, ao contrário, resultante da evolução das espécies através de mutações.

Ambos os casos (o aquecimento global e o binômio criacionismo/evolucionismo), torno a sublinhar, expressam preocupações para bem além (bem antes e bem depois) do âmbito da vida de qualquer habitante atual do planeta. São, no entanto, distintas ideias sobre de onde viemos e para onde vamos que norteiam escolhas religiosas e determinam, portanto, como cada um conduz sua própria vida. Ou seja, importam. Apesar do aparente descaso da maioria dos pais.

Se crenças professadas não fossem importantes, não haveria tantas escolas confessionais – as quais parecem, ao menos no Brasil, dominantes entre as privadas. Senão, terroristas fundamentalistas, geralmente paupérrimos em relação a seus principais adversários nacionais, também não investiriam, talvez tanto como em equipamentos e campos de treinamento militares, igualmente em escolas onde jovens amadurecem a vontade de sacrificar a própria vida pela causa.

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Então, temos que a maioria dos pais não se preocupa com o que seus filhos efetivamente aprendem (isto é, passam a acreditar) na escola. Curiosamente, são não raro mais preocupados do que os próprios filhos com aquilo que os mesmos virão a cursar no ensino superior. É bem fácil explicar isto. É que, quanto mais avançamos do jardim de infância em direção ao maior grau acadêmico almejável, mais se acentua a desgraçada e promíscua relação da educação com as ocupações profissionais conhecidas na contemporaneidade. Senão, como explicar o declínio histórico, nos currículos escolares, de disciplinas filosóficas ou artísticas (mais afeitas à ideologia) em favor de outras mais técnicas (i.e., mais voltadas para a aquisição de habilidades profissionais) ?

Este cenário é problemático por que, face à enorme velocidade do progresso tecnológico em nossa civilização, chega a ser leviano se pressupor a existência, num futuro próximo, de qualquer profissão atualmente conhecida (porquanto totalmente dependente de tecnologias existentes). Por exemplo. Tenho enorme curiosidade sobre o que se passa na cabeça de alunos de uma escola particular de propaganda e marketing que há em frente à minha casa. O fato de cursarem (e de seus pais pagarem !) uma faculdade assim implica numa crença de que, num futuro próximo (ou seja, ao longo da vida profissional de cada estudante atual), competências para anunciar qualquer produto ainda sejam necessárias à economia. Só que, cada vez mais, usuários tenderão a procurar, através de algoritmos de busca, aqueles produtos e serviços que melhor contemplem suas necessidades ao invés de se deixar bombardear, como hoje, por mensagens publicitárias. Arrisco, até, afirmar que, num futuro não muito distante, toda mensagem publicitária, como hoje a conhecemos, tenderá a ser tomada por usuários/consumidores esclarecidos como indesejável – depondo, portanto, muito mais contra do que a favor do objeto apregoado.

Então, não faz qualquer sentido se ensinar, hoje, a arte e a ciência da persuasão, como se tornou conhecida na era de vigência dos meios de broadcasting, ao invés das maneiras por meio das quais um sujeito pode efetuar melhores escolhas. Tal problema não se restringe, no entanto, apenas às escolas superiores de publicidade, mas à educação como um todo. Noutras palavras, toda escola, do alto de sua obsolescência, persiste na transmissão de conteúdos curriculares serializados quando deveria se ocupar de ensinar um novo conjunto de competências, agrupadas por Howard Rheingold sob a conveniente categoria 21st Century Literacies, que inclui attention, participation, collaboration, network awareness, global consciousness, design, narrative (storytelling), procedural (game) literacy e critical consumption of information, entre outras.

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Faz pouco tempo que perguntei numa rede social, à guisa de provocação (pois muitos dos amigos que tenho por lá são professores), quem ainda precisaria de escola depois de aprender a “sintonizar” sua própria PLN. Aprender a configurar e usar uma PLN costuma ser um dos primeiros resultados do reconhecimento de sua importância. Isto passa obrigatoriamente por se ter uma noção clara da transformação que se deu no instante os meios de publicação migraram, predominantemente, do papel impresso para a nuvem. A principal distinção entre o que está impresso num livro e o que é imediata e universalmente recuperável de servidores por meio de cada vez mais poderosos engenhos de busca é que, enquanto a informação residente em livros era validada única ou principalmente pela reputação de seus autores e editores, aquela que pode ser recuperada na nuvem se encontra mesclada com outras tantas, muitas vezes imprecisas ou simplesmente falsas – precisando, portanto, ser garimpada e validada por cada usuário. A migração da informação das mídias  impressas para as virtuais também implicou em enormes mudanças, ainda inestimáveis, em seu controle e propriedade. Exemplos disso são a atualíssima discussão sobre novas modalidades de direito autoral e a dificuldade que mesmo os estados mais poderosos do mundo vem encontrando em manter certos fatos, por quaisquer motivos, sob sigilo. Biografias como as de Assange ou Snowden são exemplares neste sentido.

Estudiosos da educação insistem cada vez mais no fato de que jovens de hoje são refratários à escola tão somente por que conseguem achar o que procuram ou aquilo de que julgam precisar (aí incluídos conhecimentos que seus pais até há bem pouco tempo obtinham em bancos escolares) muito mais facilmente na internet do que na escola. A qual, por sua vez, como qualquer instituição, demora a reagir à nova realidade – insistindo em transmitir conteúdos ao invés de ensinar como buscá-los e validá-los.

Pois as PLNs de que tanto falo são nada mais, nada menos do que coleções de perfis que seguimos em redes sociais com o intuito de nos mantermos bem informados –  funcionando, muitas vezes, como sentinelas a nos alertar sobre fatos ou eventos dos jamais saberíamos – ou, quando muito, demoraríamos para descobrir – exclusivamente por por canais de mídia convencionais, também conhecidos como meios de broadcasting.

Mas como podemos, afinal, configura uma boa PLN ? Por conveniência, podemos designar vários tipos de perfis como pertencentes a distintas categorias.

O cerne ideológico, por assim dizer, de qualquer PLN é composto, principalmente, por pensadores importantes de áreas específicas do pensamento, tais como Jay Rosen (jornalismo, NYU), Howard Rheingold (cibercultura, Berklee e Stanford), Howard Jenkyns (cibercultura, MIT), Lawrence Lessig (direito autoral e transparência política, Harvard) ou Pierre Lévy (filosofia do virtual, linguística e inteligência artificial, Otawa e Paris 8).

Ora, é óbvio que estar conectado em rede com as publicações de constelações de didatas eminentes como os acima é muito mais vantajoso, em termos acadêmicos, do que se submeter ao conjunto das aulas de qualquer programa acadêmico em particular. Isto por que é típico de todo corpo docente, virtual ou presencial, ter tanto suas estrelas como seu, por assim dizer, peso morto. Ao eleger qualquer programa, todo aluno escolhe, então, as estrelas (muitas vezes seus orientadores) e, em contrapartida, simplesmente atura o contrapeso.

Na categoria dos agregadores de notícia se encontram perfis como The Guardian, Huffington Post, Gramophone, Classic FM, BBC ou NPR. O que torna qualquer agregador mais ou menos afeito à timeline de cada um é a frequência como que contemplem cada elenco de interesses individuais. Dentre os citados acima, os dois primeiros são noticiários genéricos especialmente dedicados à política e à cultura (a digital em particular); o 3º e o 4º são voltados à música clássica e os dois últimos pertencem a importantes redes públicas de broadcasting. Todos são notáveis pela excelente qualidade de sua curadoria (que, em sites jornalísticos, é exercida por por seus editores).

E assim chegamos à classe dos grandes curadores da web, dos quais sigo atentamente os excelentes brainpickings (da grande curadora individual Maria Popova, dona de um olhar privilegiado sobre tópicos culturais em geral e a literatura em particular), big think (de índole filosófica), Mashable (sobre tecnologias e suas implicações a amenidades como culinária) e o curiosíssimo Longreads (voltado à cada vez mais restrita categoria das formas (escritas) mais longas).

Trato da categoria dos blogs por último por vários motivos.

Primeiro, por que ela pode abranger todas as categorias acima. Posto que, hoje, todo filósofo, professor, curador ou afim que se preze é, também, antes de tudo um blogueiro. Quanto mais especializados forem os interesses de cada leitor, mais ele dependerá de uma rede de blogueiros com os quais compartilhá-los.

Segundo, por que blogueiros, mais do que agregadores ou curadores, são provedores de contexto. Adoram polêmicas. Metendo-se, amiúde, com gosto em escaramuças que resultam não raro em hilárias ações judiciais. Alguns parecem até se divertir com isto.

Terceiro, por que blogs são, essencialmente, dialógicos. Ao contrário de outros tipos de jornalistas (como gostam ver a si próprios, embora os meios de broadcasting não gostem de vê-los como tais), blogueiros se leem uns aos outros mutuamente. Imagino, até, que a maioria dos leitores de blogs sejam, eles próprios, blogueiros. Inclusive, sempre que me deparo com alguém enunciando competentemente algo interessante (que reputo, portanto, como um formador de opinião em potencial), imediatamente indago se tem ou já cogitou ter um blog. O potencial da universalização dos blogs é inestimável. Na educação, por exemplo, blogs facilitam a aprendizagem colaborativa, descentralizada. Com sua universalização entre alunos, professores não precisariam, por exemplo, aplicar nem tampouco corrigir provas ou exames.

Notem que, de todas as categorias acima, a dos blogueiros é a, por definição, mais numerosa. O que torna bem mais difícil a escolha de quem seguir. Por isso, o melhor procedimento a ser adotado é sempre o de acompanhar um elenco dinâmico de blogueiros, adicionando e excluindo perfis a qualquer momento em razão do maior ou menor interesse de suas postagens.

Suponhamos, agora, que determinado sujeito leia as postagens de uma PLN como a descrita acima. Ora, como poderia o mesmo tanto efetivamente ler como sequer querer ler qualquer outra coisa além de tudo isto ? Entendem, então, por que considero toda escola curricular caduca ?

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