On conducting (iv): Carta aberta ao novo Superintendente Artístico da OSPA

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baton 6

Minha caixa de correio eletrônico pipocou, nas últimas semanas, com uma série de depoimentos agradecidos, por parte de músicos da OSPA, ao diretor artístico que hora encerra sua gestão à frente da orquestra. Louvável iniciativa. Tanto que proponho e inauguro, aqui, uma outra, a saber, que seus músicos cultivem o saudável costume de se dirigir, em nome da clareza de expectativa, também a seus gestores recém empossados.

A natureza do tema e a responsabilidade da tarefa liquidam, de saída, com qualquer possibilidade de um texto conciso. Bem que tentei facilitar, mas não consegui cortar, ao todo, mais do que uma ou duas páginas. E para cada ideia que eu cortava, surgiam mais duas. Tenham, então, um pouco de paciência. E não tentem, por favor, ler tudo de uma vez só !

No texto abaixo, utilizo as expressões diretor artístico e superintendente artístico como absolutamente equivalentes – bem como as locuções regente titular e regente convidado principal.

* * *

Caro Superintendente Artístico,

Antes de tudo, quero te agradecer pela deferência que demonstraste no ato de me convidar para conversar sobre tua aceitação do cargo de diretor artístico da Fundação OSPA. Agradeço, também, por teres afirmado, antes de dizer qualquer outra coisa, que não pretendias me convencer de nada, denotando, com isto, pleno respeito por minhas convicções, mesmo sabedor de que, em muito, provavelmente divergiríamos. Naquele momento, me declarei feliz por teres claro que, ao me posicionar, defendo ou condeno sempre ideias e jamais pessoas – sendo, portanto, avesso a todo tipo de ataque ou apoio meramente pessoal. Espero que isto se mantenha sempre bem claro ao longo da leitura (difícil !) destas linhas.

Em seguida, falaste da cronologia e do modo como foste convidado para o cargo que aceitaste, de tua trajetória como regente e, finalmente, de como pretendes gerir a fundação. Ao todo, foram quase duas horas nas quais, na maior parte do tempo, ouvi, pontuando, aqui e ali, tua fala com manifestações de concordância (a maioria em relação a teu plano de gestão para a OSPA) e umas poucas dúvidas que eu tinha. Foste muito correto ao respondê-las – até por que, quando me procuraste, não precisavas de minha concordância ou aprovação para nada, já que tua nomeação já era, segundo afirmavas, um fato consumado. Durante tua longa fala, muitas coisas me passaram pela cabeça. Muito mais do que as poucas das quais te falei ali mesmo. A maioria, no entanto, ficou repercutindo até que decidi, não sem alguma hesitação, te relatar por meio desta carta, que promete ser longa (levei, obviamente, dias a escrever) e cuja leitura implicará uma certa dose de paciência, pela qual desde já também te agradeço.

Começarei pelo fim de nossa conversa, dada a importância da última coisa que disseste antes de nos despedirmos. Foi quando pediste que te procurasse imediatamente para manifestar qualquer discórdia ou divergência que eu tivesse em relação a teus atos como nosso novo gestor. Também lembro que foi uma de tuas poucas colocações para a qual apresentei, no mesmo momento, uma reação imediata, a saber, a de que com certeza te encaminharia qualquer crítica, não da forma privada como me encorajaste, mas de modo público, aberto à toda a orquestra. Por que insisto neste ponto? Ora, por ter a plena convicção (e nisto penso que divergimos frontalmente) de que a comunicação privada bilateral entre gestores e cada um de seus subordinados tende a fragmentar e diluir um discurso coletivo, horizontal e aberto do qual toda organização só tem a se beneficiar.

Noutras palavras, penso que, enquanto a conversação pública agrega, a privada divide. A tal ponto que a transparência é um dos traços principais de todo grande líder. Como ocorre com grandes maestros.

Por isto, peço enfaticamente que, na gestão que terás à frente da OSPA (que seja, tomara, a melhor que já tivemos !), tenhas total transparência em relação a tuas decisões artísticas, utilizando, para tanto, todos os meios virtuais a teu alcance. Só assim viabilizarias tua ideia de ter uma comissão artística que só se reúna presencialmente uma vez por mês. Sempre pedi isto. Jamais fui atendido. Sonho, no entanto, com gestões mais transparentes. Daí minha teimosia.

Se começo minha manifestação por esta fala final, é por que percebo (com algum risco de estar enganado) que teu manejo das forças individuais que percebes na orquestra se dá, predominantemente, através de um fluxo de comunicações bilaterais privadas, tais como conversas, telefonemas, emails ou mensagens instantâneas. Ora, é evidente que, se alguém fala com cada um em particular ao invés de com todos ao mesmo tempo, é muito mais fácil dizer o que cada um espera ouvir e colher, com isto, muito mais aprovação do que dizendo tudo a todos doa a quem doer.

Complicado ? Vejamos, então, um exemplo. O que é mais desejável, institucionalmente falando:

  • uma gestão que afirme, perante uns, que o grupo trabalha demais e, diante de outros, muito pouco (por que alguém faria isto ? Ora, para angariar mais apoio, é claro); ou
  • uma direção que interaja transparentemente, sempre diante de todos (isto já é há muito possível por meio de grupos e fóruns virtuais, de grande flexibilidade de configuração de privacidade, em qualquer plataforma social) ?

Assim, não pude deixar de notar que esta questão esteve presente em distintos momentos de tua fala. Na mais irônica delas, reclamaste de colegas que, depois de saber de tua nomeação iminente, procuraram o presidente da fundação em particular unicamente no intuito te caluniar e difamar. Onde está a ironia ? No fato de, num momento anterior, também o teres procurado, de modo igualmente privado, em busca de apoio para o cargo que pleiteavas. Ora, por que, então, os mesmos meios empregados legitimamente por alguém seriam condenáveis enquanto utilizados por outrem ?

Uma parte essencial de teu discurso é que, antes de maestro (tornarei à questão da regência mais tarde) ou gestor, és, foste e serás, antes de tudo, um músico. Esta afirmação precisa ser analisada em conjunto com outra, categórica, a saber, a de que a OSPA precisaria muito mais de ti do que tu da OSPA. Noutras palavras, consideras o exercício de um cargo administrativo na fundação um ato de abnegação, implicando praticamente num desvio de foco de tua carreira como maestro – para a qual, afirmas, um período à frente da OSPA pouco ou nada agregaria à tua já consolidada carreira. Discordo de uma e de outra.

Pois não é verdade que qualquer regente, independentemente de idade ou experiência, que só tenha estado à frente de orquestras de tempo parcial, como as universitárias ou, como são às vezes, designadas, de cachê, possa considerar qualquer período à frente de uma orquestra da importância e estatura da OSPA como irrelevante ou colateral para sua carreira. Pois, afinal, um cargo à frente da mesma é sempre ostentado como uma medalha ou troféu no currículo de quem quer que já a tenha dirigido.

A parte mais insidiosa, no entanto, das duas premissas acima é aquela na qual te reconheces como, antes de tudo, um músico. Pois, como músico, não deverias jamais ter te atrevido a representar, perante quaisquer instâncias individuais (tais como presidentes ou secretários de cultura), o interesse coletivo sem a aceitação explícita e majoritária do todo que pretendes gerir.

As razões pelas quais, mesmo tendo tornado desde cedo pública tua vontade de gerir artisticamente a OSPA (indiscutivelmente um ponto a teu favor), jamais a submeteste à aprovação ou não da orquestra são meramente especulativas. Certo é que, sem ter submetido tua indicação à direção artística da mesma a um referendo por parte de seus músicos, será bem difícil, salvo por meio da hábil manipulação retórica inerente à fragmentação da comunicação a fluxos privados bilaterais, associar, perante quem quer que seja, tua pessoa ou imagem aos anseios legítimos ou à própria voz da orquestra.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão da regência. Se a orquestra sinfônica existe há não muito mais do que uns duzentos anos, a história da profissão de regente é ainda mais curta. Tanto que todo entendimento sobre como se dá tanto a formação de um maestro como seu acesso ao pódio de organizações sinfônicas não passa, até o presente momento, de especulações fundadas unicamente em tradições segundo as quais maestros são, na maioria das vezes ou em casos mais evidentes, reconhecidos como tais e investidos no comando de organizações sinfônicas. Por isto, entendo que muitos modelos – talvez até mesmo os melhores – ainda estejam por ser experimentados. Mas deixemos de lado, por hora, tais teorias para que nos atenhamos apenas aos fatos..

Afirmas ter descoberto um interesse especial pela regência desde muito cedo, durante ou mesmo antes de tua formação como instrumentista, ainda nos tempos do maestro Davi Machado à frente da OSPA. E nem deveria ser diferente, pois é bem pouco provável que qualquer músico que já tenha tocado em alguma banda ou orquestra ainda não tenha cogitado ou fantasiado, em algum momento, empunhar uma batuta diante de seus pares. As razões (dentre as quais ambição, vaidade ou imprudência são apenas algumas) que explicam por que, no entanto, só uns poucos se atrevem, efetivamente, a fazê-lo também fogem do âmbito deste texto. Por hora, é suficiente dizer que

  • reger, a um nível mais elementar, é indiscutivelmente mais fácil do que tocar proficientemente qualquer instrumento; e que
  • a atribuição a alguém da condição de maestro depende, com muito mais frequência, muito mais de competências relacionadas ao manejo de poder e influência do que, propriamente, de quaisquer habilidades musicais.

Numa das melhores partes da conversa, chegaste a reconhecer a existência de apenas dois modos de alguém chegar a se tornar regente, a saber,

  • sendo indicado ou nomeado por algum superior para o exercício da função; ou
  •  possuindo a própria orquestra.

Se esta enumeração me parece incompleta, é por que, além das duas classes acima, que pertencem à categoria dos maestros auto-investidos, há outra, menos populosa, a saber, a dos regentes aclamados por seus pares (músicos) exclusivamente em razão de seus méritos musicais.

Em seguida, afirmaste

  • ter participado, como aluno de regência, de vários cursos e festivais (outro ponto a teu favor – por se tratar, nestes casos, de instâncias competitivas, meritocráticas e de amplo acesso, i.e., abertas a quaisquer participantes);
  • ter tomado lições privadas com os melhores regentes convidados que nos visitaram ultimamente; e
  • ter angariado alguma simpatia por parte de Sir Simon Rattle, o qual, além de ter te dado acesso a ensaios seus com a Filarmônica de Berlim, disse ter até assistido a um DVD de tua regência.

Ora, excluída a primeira das três classes de eventos acima, não há como se mensurar em qualquer das restantes, de cunho eminentemente privado, o desempenho de portadores de tais credenciais em relação a um conjunto maior de sujeitos alijados do acesso às mesmas oportunidades.

Parte da enorme complexidade da tarefa de se escolher maestros e gestores para corpos sinfônicos decorre diretamente de problemas frequentes em como é outorgada a licença para reger, a saber,

  • A proteção. A concessão do privilégio de reger uma orquestra se dá, muitas vezes, por meio da proteção conferida por regentes eminentes a aprendizes dedicados que se submetam à sua influência. Talvez um dos casos próximos e recentes mais emblemáticos de que as coisas assim podem não dar muito certo seja a ascensão meteórica da carreira de Roberto Minczuk, cujas malfeitorias são bem conhecidas da comunidade musical, após ter caído nas graças de Kurt Masur.
  • Os concursos. É bastante duvidosa a reputação de alguns dos principais concursos internacionais que regulam o acesso aos maiores pódios orquestrais. Nestes certames, há casos escandalosos de membros do júri que favorecem alunos, bem como taxas de inscrição exorbitantes e não ressarcíveis que se configuram como legítimas cláusulas de barreira para candidatos menos afluentes ou, ainda, que não contem com o apoio de patrocinadores.
  • As lições privadas. Ao contrário do que ocorre em cursos, oficinas, festivais e programas acadêmicos, nos quais o acesso é universal, não há qualquer critério meritocrático envolvido quando um professor decide ministrar lições de regência a este ou àquele aluno em particular – predominando muitas vezes, nestes casos, o manejo apurado, por parte de alunos, de fatores tais como proximidade, oportunidade ou influência.
  • A reserva de mercado. Eis aqui um ítem bem complexo, para além do âmbito deste documento. Por hora, é suficiente lembrar que o curso de Bacharelado em Regência, existente na UFRGS até meados dos anos 70, foi extinto sob a justificativa de que não seria nada recomendável formar mais maestros do que as orquestras existentes conseguissem absorver. É preciso falar mais ?

Por tudo isto, entendo que a outorga a alguém, por quem quer que seja, da licença para reger uma orquestra é um processo tão complexo quanto incerto e que, portanto, não se deve deixar à mera confiança de políticos – que são via de regra assediados, após cada pleito eleitoral, por aspirantes aos mais diversos cargos – o destino de organizações sinfônicas como a OSPA. Mas não quero me estender sobre isto. Ao menos, não aqui. Quem quiser saber mais sobre modelos de governo independentes da nomeação de CCs deve ler o excelente texto Não Existe CC Competente, de Luiz Afonso Alencastre Escosteguy, publicado originalmente em 2011 em seu antigo blog e republicado dias atrás a meu pedido. Além disto, há mais sobre o assunto em meu próprio blog, classificado sob a categoria Política. Também insisti bastante neste ponto em cartas abertas que escrevi, respectivamente, a um novo secretário de cultura (ZH, 2010) e a um futuro governador, então ainda desconhecido (blog Impromptu, 2013).

* * *

Por fim, tenho só elogios a tecer em relação a teu plano de gestão artística para a OSPA, fundado, alegadamente, sobre dois pontos, a saber,

  • a manutenção de uma comissão artística a quem o diretor artístico deva, obrigatoriamente, prestar contas em relação à escolha de repertório, solistas e maestros convidados, bem como a quaisquer decisões que afetem a esfera artística da OSPA; e
  •  a manutenção de um rodízio de regentes convidados sem a nomeação de um regente titular ou convidado principal.

Ainda que tua ideia de reunir a comissão apenas uma vez ao mês possa se afigurar a alguns como uma tentativa de esvaziamento de sua importância, entendo que o fluxo de trabalho da mesma possa ser em muito otimizado, em relação ao atual modelo de reuniões semanais, desde que seja implementado um mecanismo de reunião permanente, através de meios virtuais, fundamental para o bom funcionamento da comissão.

Sobre tua ideia de que a comissão venha a ser composta por um dos spallas e por representantes individuais das famílias de cordas (além de um dos spallas), madeiras, metais, percussão, e pelo diretor artístico, considero aceitável, ainda que não obrigatória. Pois a representatividade da orquestra em sua comissão artística não depende da paridade, em seus assentos, entre as famílias de instrumentos que integram a orquestra. Ou, dito de outro modo, pode muito bem haver mais representantes desejáveis numa seção do que noutra.

De um jeito ou de outro, um dos pilares do funcionamento de qualquer comissão é a obrigação que o gestor tem de prestar contas de seus atos a um órgão colegiado democraticamente eleito. Mais ou menos como já acontece em departamentos universitários nos quais todo chefe executa os desígnios de um colegiado. Sobre a importância deste requisito, é sempre bom lembrar que algumas das melhores cabeças que já participaram de comissões artísticas na OSPA renunciaram justamente em razão da falta deste tipo de comprometimento por parte de seus gestores.

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Sei que sou, muitas vezes, imputável por muito discurso e pouca participação. Por isto, me voluntario, desde já, para integrar a próxima comissão artística a ser formada para a OSPA. Se, e somente se, for honrado com a escolha da orquestra para representá-la na elaboração de sua programação, defenderei a ideia de que não se deve pensar em concertos ditos “populares” antes que se tenha tocado, a cada dois ou três anos, tudo de Brahms e Beethoven, algo de Mahler e Stravinsky, sempre que possível algum Bartók, Shostakovich, Nielsen ou Debussy e, é claro, o melhor de Schumann, Sibelius, Dvorak, Mozart ou Prokofiev (you name them). Somente quando estivermos nos ocupado de tudo isto, poderíamos distribuir não mais do que uns 15 ou 20% de nossa capacidade de trabalho igualmente entre concertos de música popular (familiar) e nova (estranha). O que deve ser entendido por nova e popular fica aberto ao debate. Sob quaisquer outras premissas, eu não saberia o que fazer numa comissão artística.

* * *

Por todo o trabalho que deu e tempo que consumiu, tenho vontade de postar este texto às vistas de todos em meu blog. Se opto, no entanto, por fazê-lo circular inicialmente apenas no âmbito da orquestra, é por que

  • quero publicar, junto com o texto original, toda reação que o mesmo venha a provocar; e também para que
  • possa atualizá-lo à luz de qualquer debate que o mesmo venha a suscitar no seio da orquestra.

Por isto, leiam com calma. Pausadamente. Refletindo sobre cada parágrafo. E, por favor, se manifestem !

Muito obrigado pela atenção. Uma ótima gestão para o próximo diretor artístico da OSPA – até por que jamais antes alguém esteve tanto com a faca e o queijo na mão ! – e um grande futuro para a OSPA !

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