On education (i), in praise of PLNs (i) ou, ainda, eu sigo (i) Jay Rosen

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Jay Rosen (jornalismo, NYU) é um professor blogueiro (Pressthink) que não fala muito frequentemente mas que, quando fala, se estende com extrema minúcia sobre cada pormenor do que aborda. Como é típico de grandes pensadores. Resulta, então, que seus longos posts são, na maioria das vezes, capitais para quem quer que pretenda entender o fluxos e hierarquias da informação jornalística hoje. É dele, por exemplo a distinção entre lifecasting e mindcasting, ou então entre jornalistas graduados antes e depois dos atentados de 11 de setembro. But so much for the guy. Só falei dele de passagem por que, dia desses, comentou no facebook (ele sempre dialoga em redes sociais sobre temas que o intrigam antes de postar seus textos super estruturados) ter abordado a escola de sua filha em razão de um professor de ciências ter se referido ao aquecimento global como apenas uma hipótese entre muitas plausíveis ao invés de, como deveria, como um fato comprovável. Na carta, pergunta se a escola tinha ciência de que tal visão era ensinada por um de seus professores.

Algum tempo antes disso, Rosen já questionara o sistema educacional de modo mais amplo numa brilhantemente conduzida entrevista com sua própria filha, na qual tenta descobrir por que não eram normalmente oferecidas às meninas as mesmas oportunidades de aprendizagem de programação para as quais meninos são fortemente incentivados. Oxalá a maioria dos pais estivesse tão preocupada com a educação de seus filhos. Pois há farta documentação aqui, aqui, ou aqui sobre como pais costumam não estar nem aí para o que ensinam a seus filhos em escolas. Suponho e temo que a situação em escolas particulares e públicas não seja muito diferente. Que fique bem que claro que me refiro, aqui, não a conteúdos (seriais) pertencentes a grades curriculares e sim àquilo em que acredita, efetivamente, cada professor (pois, numa contexto ideal, eu adoraria poder adicionar a minhas redes sociais todos os professores de meus filhos…)

Complicado ? Por partes, então. Quando Rosen se preocupa com como é ensinada a ideia do aquecimento global (i.e., se como apenas uma possibilidade entre muitas ou, ao contrário, como um fato consumado), o que está implícito é a preocupação com uma ideia abstrata, descolada da vida cotidiana, porquanto afetará somente humanos de um futuro impalpável, ainda que não muito distante, a saber, o planeta que será deixado aos humanos descendentes dos atuais. Na melhor das hipóteses. Científica. Ou, nas piores (religiosas), o céu, o inferno ou, ainda, 72 virgens que cada um teria após a própria morte.

Adiante em sua linha indagatória, Rosen se pergunta, então, como se comportaria, na mesma escola e sob as mesmas condições de vigilância pedagógica, um professor hipotético de ciências em relação às teorias antagônicas evolucionista e criacionista. Muito apropriadamente. Pois, neste caso, a crença professada por cada docente tem tudo a ver com outra ideia abstrata (projetada, desta vez, não num futuro próximo mas num passado remotíssimo), a saber, as hipóteses inconciliáveis de que o ser humano seja obra do ato de um criador ou, ao contrário, resultante da evolução das espécies através de mutações.

Ambos os casos (o aquecimento global e o binômio criacionismo/evolucionismo), torno a sublinhar, expressam preocupações para bem além (bem antes e bem depois) do âmbito da vida de qualquer habitante atual do planeta. São, no entanto, distintas ideias sobre de onde viemos e para onde vamos que norteiam escolhas religiosas e determinam, portanto, como cada um conduz sua própria vida. Ou seja, importam. Apesar do aparente descaso da maioria dos pais.

Se crenças professadas não fossem importantes, não haveria tantas escolas confessionais – as quais parecem, ao menos no Brasil, dominantes entre as privadas. Senão, terroristas fundamentalistas, geralmente paupérrimos em relação a seus principais adversários nacionais, também não investiriam, talvez tanto como em equipamentos e campos de treinamento militares, igualmente em escolas onde jovens amadurecem a vontade de sacrificar a própria vida pela causa.

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Então, temos que a maioria dos pais não se preocupa com o que seus filhos efetivamente aprendem (isto é, passam a acreditar) na escola. Curiosamente, são não raro mais preocupados do que os próprios filhos com aquilo que os mesmos virão a cursar no ensino superior. É bem fácil explicar isto. É que, quanto mais avançamos do jardim de infância em direção ao maior grau acadêmico almejável, mais se acentua a desgraçada e promíscua relação da educação com as ocupações profissionais conhecidas na contemporaneidade. Senão, como explicar o declínio histórico, nos currículos escolares, de disciplinas filosóficas ou artísticas (mais afeitas à ideologia) em favor de outras mais técnicas (i.e., mais voltadas para a aquisição de habilidades profissionais) ?

Este cenário é problemático por que, face à enorme velocidade do progresso tecnológico em nossa civilização, chega a ser leviano se pressupor a existência, num futuro próximo, de qualquer profissão atualmente conhecida (porquanto totalmente dependente de tecnologias existentes). Por exemplo. Tenho enorme curiosidade sobre o que se passa na cabeça de alunos de uma escola particular de propaganda e marketing que há em frente à minha casa. O fato de cursarem (e de seus pais pagarem !) uma faculdade assim implica numa crença de que, num futuro próximo (ou seja, ao longo da vida profissional de cada estudante atual), competências para anunciar qualquer produto ainda sejam necessárias à economia. Só que, cada vez mais, usuários tenderão a procurar, através de algoritmos de busca, aqueles produtos e serviços que melhor contemplem suas necessidades ao invés de se deixar bombardear, como hoje, por mensagens publicitárias. Arrisco, até, afirmar que, num futuro não muito distante, toda mensagem publicitária, como hoje a conhecemos, tenderá a ser tomada por usuários/consumidores esclarecidos como indesejável – depondo, portanto, muito mais contra do que a favor do objeto apregoado.

Então, não faz qualquer sentido se ensinar, hoje, a arte e a ciência da persuasão, como se tornou conhecida na era de vigência dos meios de broadcasting, ao invés das maneiras por meio das quais um sujeito pode efetuar melhores escolhas. Tal problema não se restringe, no entanto, apenas às escolas superiores de publicidade, mas à educação como um todo. Noutras palavras, toda escola, do alto de sua obsolescência, persiste na transmissão de conteúdos curriculares serializados quando deveria se ocupar de ensinar um novo conjunto de competências, agrupadas por Howard Rheingold sob a conveniente categoria 21st Century Literacies, que inclui attention, participation, collaboration, network awareness, global consciousness, design, narrative (storytelling), procedural (game) literacy e critical consumption of information, entre outras.

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Faz pouco tempo que perguntei numa rede social, à guisa de provocação (pois muitos dos amigos que tenho por lá são professores), quem ainda precisaria de escola depois de aprender a “sintonizar” sua própria PLN. Aprender a configurar e usar uma PLN costuma ser um dos primeiros resultados do reconhecimento de sua importância. Isto passa obrigatoriamente por se ter uma noção clara da transformação que se deu no instante os meios de publicação migraram, predominantemente, do papel impresso para a nuvem. A principal distinção entre o que está impresso num livro e o que é imediata e universalmente recuperável de servidores por meio de cada vez mais poderosos engenhos de busca é que, enquanto a informação residente em livros era validada única ou principalmente pela reputação de seus autores e editores, aquela que pode ser recuperada na nuvem se encontra mesclada com outras tantas, muitas vezes imprecisas ou simplesmente falsas – precisando, portanto, ser garimpada e validada por cada usuário. A migração da informação das mídias  impressas para as virtuais também implicou em enormes mudanças, ainda inestimáveis, em seu controle e propriedade. Exemplos disso são a atualíssima discussão sobre novas modalidades de direito autoral e a dificuldade que mesmo os estados mais poderosos do mundo vem encontrando em manter certos fatos, por quaisquer motivos, sob sigilo. Biografias como as de Assange ou Snowden são exemplares neste sentido.

Estudiosos da educação insistem cada vez mais no fato de que jovens de hoje são refratários à escola tão somente por que conseguem achar o que procuram ou aquilo de que julgam precisar (aí incluídos conhecimentos que seus pais até há bem pouco tempo obtinham em bancos escolares) muito mais facilmente na internet do que na escola. A qual, por sua vez, como qualquer instituição, demora a reagir à nova realidade – insistindo em transmitir conteúdos ao invés de ensinar como buscá-los e validá-los.

Pois as PLNs de que tanto falo são nada mais, nada menos do que coleções de perfis que seguimos em redes sociais com o intuito de nos mantermos bem informados –  funcionando, muitas vezes, como sentinelas a nos alertar sobre fatos ou eventos dos jamais saberíamos – ou, quando muito, demoraríamos para descobrir – exclusivamente por por canais de mídia convencionais, também conhecidos como meios de broadcasting.

Mas como podemos, afinal, configura uma boa PLN ? Por conveniência, podemos designar vários tipos de perfis como pertencentes a distintas categorias.

O cerne ideológico, por assim dizer, de qualquer PLN é composto, principalmente, por pensadores importantes de áreas específicas do pensamento, tais como Jay Rosen (jornalismo, NYU), Howard Rheingold (cibercultura, Berklee e Stanford), Howard Jenkyns (cibercultura, MIT), Lawrence Lessig (direito autoral e transparência política, Harvard) ou Pierre Lévy (filosofia do virtual, linguística e inteligência artificial, Otawa e Paris 8).

Ora, é óbvio que estar conectado em rede com as publicações de constelações de didatas eminentes como os acima é muito mais vantajoso, em termos acadêmicos, do que se submeter ao conjunto das aulas de qualquer programa acadêmico em particular. Isto por que é típico de todo corpo docente, virtual ou presencial, ter tanto suas estrelas como seu, por assim dizer, peso morto. Ao eleger qualquer programa, todo aluno escolhe, então, as estrelas (muitas vezes seus orientadores) e, em contrapartida, simplesmente atura o contrapeso.

Na categoria dos agregadores de notícia se encontram perfis como The Guardian, Huffington Post, Gramophone, Classic FM, BBC ou NPR. O que torna qualquer agregador mais ou menos afeito à timeline de cada um é a frequência como que contemplem cada elenco de interesses individuais. Dentre os citados acima, os dois primeiros são noticiários genéricos especialmente dedicados à política e à cultura (a digital em particular); o 3º e o 4º são voltados à música clássica e os dois últimos pertencem a importantes redes públicas de broadcasting. Todos são notáveis pela excelente qualidade de sua curadoria (que, em sites jornalísticos, é exercida por por seus editores).

E assim chegamos à classe dos grandes curadores da web, dos quais sigo atentamente os excelentes brainpickings (da grande curadora individual Maria Popova, dona de um olhar privilegiado sobre tópicos culturais em geral e a literatura em particular), big think (de índole filosófica), Mashable (sobre tecnologias e suas implicações a amenidades como culinária) e o curiosíssimo Longreads (voltado à cada vez mais restrita categoria das formas (escritas) mais longas).

Trato da categoria dos blogs por último por vários motivos.

Primeiro, por que ela pode abranger todas as categorias acima. Posto que, hoje, todo filósofo, professor, curador ou afim que se preze é, também, antes de tudo um blogueiro. Quanto mais especializados forem os interesses de cada leitor, mais ele dependerá de uma rede de blogueiros com os quais compartilhá-los.

Segundo, por que blogueiros, mais do que agregadores ou curadores, são provedores de contexto. Adoram polêmicas. Metendo-se, amiúde, com gosto em escaramuças que resultam não raro em hilárias ações judiciais. Alguns parecem até se divertir com isto.

Terceiro, por que blogs são, essencialmente, dialógicos. Ao contrário de outros tipos de jornalistas (como gostam ver a si próprios, embora os meios de broadcasting não gostem de vê-los como tais), blogueiros se leem uns aos outros mutuamente. Imagino, até, que a maioria dos leitores de blogs sejam, eles próprios, blogueiros. Inclusive, sempre que me deparo com alguém enunciando competentemente algo interessante (que reputo, portanto, como um formador de opinião em potencial), imediatamente indago se tem ou já cogitou ter um blog. O potencial da universalização dos blogs é inestimável. Na educação, por exemplo, blogs facilitam a aprendizagem colaborativa, descentralizada. Com sua universalização entre alunos, professores não precisariam, por exemplo, aplicar nem tampouco corrigir provas ou exames.

Notem que, de todas as categorias acima, a dos blogueiros é a, por definição, mais numerosa. O que torna bem mais difícil a escolha de quem seguir. Por isso, o melhor procedimento a ser adotado é sempre o de acompanhar um elenco dinâmico de blogueiros, adicionando e excluindo perfis a qualquer momento em razão do maior ou menor interesse de suas postagens.

Suponhamos, agora, que determinado sujeito leia as postagens de uma PLN como a descrita acima. Ora, como poderia o mesmo tanto efetivamente ler como sequer querer ler qualquer outra coisa além de tudo isto ? Entendem, então, por que considero toda escola curricular caduca ?

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On conducting (iv): Carta aberta ao novo Superintendente Artístico da OSPA

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Minha caixa de correio eletrônico pipocou, nas últimas semanas, com uma série de depoimentos agradecidos, por parte de músicos da OSPA, ao diretor artístico que hora encerra sua gestão à frente da orquestra. Louvável iniciativa. Tanto que proponho e inauguro, aqui, uma outra, a saber, que seus músicos cultivem o saudável costume de se dirigir, em nome da clareza de expectativa, também a seus gestores recém empossados.

A natureza do tema e a responsabilidade da tarefa liquidam, de saída, com qualquer possibilidade de um texto conciso. Bem que tentei facilitar, mas não consegui cortar, ao todo, mais do que uma ou duas páginas. E para cada ideia que eu cortava, surgiam mais duas. Tenham, então, um pouco de paciência. E não tentem, por favor, ler tudo de uma vez só !

No texto abaixo, utilizo as expressões diretor artístico e superintendente artístico como absolutamente equivalentes – bem como as locuções regente titular e regente convidado principal.

* * *

Caro Superintendente Artístico,

Antes de tudo, quero te agradecer pela deferência que demonstraste no ato de me convidar para conversar sobre tua aceitação do cargo de diretor artístico da Fundação OSPA. Agradeço, também, por teres afirmado, antes de dizer qualquer outra coisa, que não pretendias me convencer de nada, denotando, com isto, pleno respeito por minhas convicções, mesmo sabedor de que, em muito, provavelmente divergiríamos. Naquele momento, me declarei feliz por teres claro que, ao me posicionar, defendo ou condeno sempre ideias e jamais pessoas – sendo, portanto, avesso a todo tipo de ataque ou apoio meramente pessoal. Espero que isto se mantenha sempre bem claro ao longo da leitura (difícil !) destas linhas.

Em seguida, falaste da cronologia e do modo como foste convidado para o cargo que aceitaste, de tua trajetória como regente e, finalmente, de como pretendes gerir a fundação. Ao todo, foram quase duas horas nas quais, na maior parte do tempo, ouvi, pontuando, aqui e ali, tua fala com manifestações de concordância (a maioria em relação a teu plano de gestão para a OSPA) e umas poucas dúvidas que eu tinha. Foste muito correto ao respondê-las – até por que, quando me procuraste, não precisavas de minha concordância ou aprovação para nada, já que tua nomeação já era, segundo afirmavas, um fato consumado. Durante tua longa fala, muitas coisas me passaram pela cabeça. Muito mais do que as poucas das quais te falei ali mesmo. A maioria, no entanto, ficou repercutindo até que decidi, não sem alguma hesitação, te relatar por meio desta carta, que promete ser longa (levei, obviamente, dias a escrever) e cuja leitura implicará uma certa dose de paciência, pela qual desde já também te agradeço.

Começarei pelo fim de nossa conversa, dada a importância da última coisa que disseste antes de nos despedirmos. Foi quando pediste que te procurasse imediatamente para manifestar qualquer discórdia ou divergência que eu tivesse em relação a teus atos como nosso novo gestor. Também lembro que foi uma de tuas poucas colocações para a qual apresentei, no mesmo momento, uma reação imediata, a saber, a de que com certeza te encaminharia qualquer crítica, não da forma privada como me encorajaste, mas de modo público, aberto à toda a orquestra. Por que insisto neste ponto? Ora, por ter a plena convicção (e nisto penso que divergimos frontalmente) de que a comunicação privada bilateral entre gestores e cada um de seus subordinados tende a fragmentar e diluir um discurso coletivo, horizontal e aberto do qual toda organização só tem a se beneficiar.

Noutras palavras, penso que, enquanto a conversação pública agrega, a privada divide. A tal ponto que a transparência é um dos traços principais de todo grande líder. Como ocorre com grandes maestros.

Por isto, peço enfaticamente que, na gestão que terás à frente da OSPA (que seja, tomara, a melhor que já tivemos !), tenhas total transparência em relação a tuas decisões artísticas, utilizando, para tanto, todos os meios virtuais a teu alcance. Só assim viabilizarias tua ideia de ter uma comissão artística que só se reúna presencialmente uma vez por mês. Sempre pedi isto. Jamais fui atendido. Sonho, no entanto, com gestões mais transparentes. Daí minha teimosia.

Se começo minha manifestação por esta fala final, é por que percebo (com algum risco de estar enganado) que teu manejo das forças individuais que percebes na orquestra se dá, predominantemente, através de um fluxo de comunicações bilaterais privadas, tais como conversas, telefonemas, emails ou mensagens instantâneas. Ora, é evidente que, se alguém fala com cada um em particular ao invés de com todos ao mesmo tempo, é muito mais fácil dizer o que cada um espera ouvir e colher, com isto, muito mais aprovação do que dizendo tudo a todos doa a quem doer.

Complicado ? Vejamos, então, um exemplo. O que é mais desejável, institucionalmente falando:

  • uma gestão que afirme, perante uns, que o grupo trabalha demais e, diante de outros, muito pouco (por que alguém faria isto ? Ora, para angariar mais apoio, é claro); ou
  • uma direção que interaja transparentemente, sempre diante de todos (isto já é há muito possível por meio de grupos e fóruns virtuais, de grande flexibilidade de configuração de privacidade, em qualquer plataforma social) ?

Assim, não pude deixar de notar que esta questão esteve presente em distintos momentos de tua fala. Na mais irônica delas, reclamaste de colegas que, depois de saber de tua nomeação iminente, procuraram o presidente da fundação em particular unicamente no intuito te caluniar e difamar. Onde está a ironia ? No fato de, num momento anterior, também o teres procurado, de modo igualmente privado, em busca de apoio para o cargo que pleiteavas. Ora, por que, então, os mesmos meios empregados legitimamente por alguém seriam condenáveis enquanto utilizados por outrem ?

Uma parte essencial de teu discurso é que, antes de maestro (tornarei à questão da regência mais tarde) ou gestor, és, foste e serás, antes de tudo, um músico. Esta afirmação precisa ser analisada em conjunto com outra, categórica, a saber, a de que a OSPA precisaria muito mais de ti do que tu da OSPA. Noutras palavras, consideras o exercício de um cargo administrativo na fundação um ato de abnegação, implicando praticamente num desvio de foco de tua carreira como maestro – para a qual, afirmas, um período à frente da OSPA pouco ou nada agregaria à tua já consolidada carreira. Discordo de uma e de outra.

Pois não é verdade que qualquer regente, independentemente de idade ou experiência, que só tenha estado à frente de orquestras de tempo parcial, como as universitárias ou, como são às vezes, designadas, de cachê, possa considerar qualquer período à frente de uma orquestra da importância e estatura da OSPA como irrelevante ou colateral para sua carreira. Pois, afinal, um cargo à frente da mesma é sempre ostentado como uma medalha ou troféu no currículo de quem quer que já a tenha dirigido.

A parte mais insidiosa, no entanto, das duas premissas acima é aquela na qual te reconheces como, antes de tudo, um músico. Pois, como músico, não deverias jamais ter te atrevido a representar, perante quaisquer instâncias individuais (tais como presidentes ou secretários de cultura), o interesse coletivo sem a aceitação explícita e majoritária do todo que pretendes gerir.

As razões pelas quais, mesmo tendo tornado desde cedo pública tua vontade de gerir artisticamente a OSPA (indiscutivelmente um ponto a teu favor), jamais a submeteste à aprovação ou não da orquestra são meramente especulativas. Certo é que, sem ter submetido tua indicação à direção artística da mesma a um referendo por parte de seus músicos, será bem difícil, salvo por meio da hábil manipulação retórica inerente à fragmentação da comunicação a fluxos privados bilaterais, associar, perante quem quer que seja, tua pessoa ou imagem aos anseios legítimos ou à própria voz da orquestra.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão da regência. Se a orquestra sinfônica existe há não muito mais do que uns duzentos anos, a história da profissão de regente é ainda mais curta. Tanto que todo entendimento sobre como se dá tanto a formação de um maestro como seu acesso ao pódio de organizações sinfônicas não passa, até o presente momento, de especulações fundadas unicamente em tradições segundo as quais maestros são, na maioria das vezes ou em casos mais evidentes, reconhecidos como tais e investidos no comando de organizações sinfônicas. Por isto, entendo que muitos modelos – talvez até mesmo os melhores – ainda estejam por ser experimentados. Mas deixemos de lado, por hora, tais teorias para que nos atenhamos apenas aos fatos..

Afirmas ter descoberto um interesse especial pela regência desde muito cedo, durante ou mesmo antes de tua formação como instrumentista, ainda nos tempos do maestro Davi Machado à frente da OSPA. E nem deveria ser diferente, pois é bem pouco provável que qualquer músico que já tenha tocado em alguma banda ou orquestra ainda não tenha cogitado ou fantasiado, em algum momento, empunhar uma batuta diante de seus pares. As razões (dentre as quais ambição, vaidade ou imprudência são apenas algumas) que explicam por que, no entanto, só uns poucos se atrevem, efetivamente, a fazê-lo também fogem do âmbito deste texto. Por hora, é suficiente dizer que

  • reger, a um nível mais elementar, é indiscutivelmente mais fácil do que tocar proficientemente qualquer instrumento; e que
  • a atribuição a alguém da condição de maestro depende, com muito mais frequência, muito mais de competências relacionadas ao manejo de poder e influência do que, propriamente, de quaisquer habilidades musicais.

Numa das melhores partes da conversa, chegaste a reconhecer a existência de apenas dois modos de alguém chegar a se tornar regente, a saber,

  • sendo indicado ou nomeado por algum superior para o exercício da função; ou
  •  possuindo a própria orquestra.

Se esta enumeração me parece incompleta, é por que, além das duas classes acima, que pertencem à categoria dos maestros auto-investidos, há outra, menos populosa, a saber, a dos regentes aclamados por seus pares (músicos) exclusivamente em razão de seus méritos musicais.

Em seguida, afirmaste

  • ter participado, como aluno de regência, de vários cursos e festivais (outro ponto a teu favor – por se tratar, nestes casos, de instâncias competitivas, meritocráticas e de amplo acesso, i.e., abertas a quaisquer participantes);
  • ter tomado lições privadas com os melhores regentes convidados que nos visitaram ultimamente; e
  • ter angariado alguma simpatia por parte de Sir Simon Rattle, o qual, além de ter te dado acesso a ensaios seus com a Filarmônica de Berlim, disse ter até assistido a um DVD de tua regência.

Ora, excluída a primeira das três classes de eventos acima, não há como se mensurar em qualquer das restantes, de cunho eminentemente privado, o desempenho de portadores de tais credenciais em relação a um conjunto maior de sujeitos alijados do acesso às mesmas oportunidades.

Parte da enorme complexidade da tarefa de se escolher maestros e gestores para corpos sinfônicos decorre diretamente de problemas frequentes em como é outorgada a licença para reger, a saber,

  • A proteção. A concessão do privilégio de reger uma orquestra se dá, muitas vezes, por meio da proteção conferida por regentes eminentes a aprendizes dedicados que se submetam à sua influência. Talvez um dos casos próximos e recentes mais emblemáticos de que as coisas assim podem não dar muito certo seja a ascensão meteórica da carreira de Roberto Minczuk, cujas malfeitorias são bem conhecidas da comunidade musical, após ter caído nas graças de Kurt Masur.
  • Os concursos. É bastante duvidosa a reputação de alguns dos principais concursos internacionais que regulam o acesso aos maiores pódios orquestrais. Nestes certames, há casos escandalosos de membros do júri que favorecem alunos, bem como taxas de inscrição exorbitantes e não ressarcíveis que se configuram como legítimas cláusulas de barreira para candidatos menos afluentes ou, ainda, que não contem com o apoio de patrocinadores.
  • As lições privadas. Ao contrário do que ocorre em cursos, oficinas, festivais e programas acadêmicos, nos quais o acesso é universal, não há qualquer critério meritocrático envolvido quando um professor decide ministrar lições de regência a este ou àquele aluno em particular – predominando muitas vezes, nestes casos, o manejo apurado, por parte de alunos, de fatores tais como proximidade, oportunidade ou influência.
  • A reserva de mercado. Eis aqui um ítem bem complexo, para além do âmbito deste documento. Por hora, é suficiente lembrar que o curso de Bacharelado em Regência, existente na UFRGS até meados dos anos 70, foi extinto sob a justificativa de que não seria nada recomendável formar mais maestros do que as orquestras existentes conseguissem absorver. É preciso falar mais ?

Por tudo isto, entendo que a outorga a alguém, por quem quer que seja, da licença para reger uma orquestra é um processo tão complexo quanto incerto e que, portanto, não se deve deixar à mera confiança de políticos – que são via de regra assediados, após cada pleito eleitoral, por aspirantes aos mais diversos cargos – o destino de organizações sinfônicas como a OSPA. Mas não quero me estender sobre isto. Ao menos, não aqui. Quem quiser saber mais sobre modelos de governo independentes da nomeação de CCs deve ler o excelente texto Não Existe CC Competente, de Luiz Afonso Alencastre Escosteguy, publicado originalmente em 2011 em seu antigo blog e republicado dias atrás a meu pedido. Além disto, há mais sobre o assunto em meu próprio blog, classificado sob a categoria Política. Também insisti bastante neste ponto em cartas abertas que escrevi, respectivamente, a um novo secretário de cultura (ZH, 2010) e a um futuro governador, então ainda desconhecido (blog Impromptu, 2013).

* * *

Por fim, tenho só elogios a tecer em relação a teu plano de gestão artística para a OSPA, fundado, alegadamente, sobre dois pontos, a saber,

  • a manutenção de uma comissão artística a quem o diretor artístico deva, obrigatoriamente, prestar contas em relação à escolha de repertório, solistas e maestros convidados, bem como a quaisquer decisões que afetem a esfera artística da OSPA; e
  •  a manutenção de um rodízio de regentes convidados sem a nomeação de um regente titular ou convidado principal.

Ainda que tua ideia de reunir a comissão apenas uma vez ao mês possa se afigurar a alguns como uma tentativa de esvaziamento de sua importância, entendo que o fluxo de trabalho da mesma possa ser em muito otimizado, em relação ao atual modelo de reuniões semanais, desde que seja implementado um mecanismo de reunião permanente, através de meios virtuais, fundamental para o bom funcionamento da comissão.

Sobre tua ideia de que a comissão venha a ser composta por um dos spallas e por representantes individuais das famílias de cordas (além de um dos spallas), madeiras, metais, percussão, e pelo diretor artístico, considero aceitável, ainda que não obrigatória. Pois a representatividade da orquestra em sua comissão artística não depende da paridade, em seus assentos, entre as famílias de instrumentos que integram a orquestra. Ou, dito de outro modo, pode muito bem haver mais representantes desejáveis numa seção do que noutra.

De um jeito ou de outro, um dos pilares do funcionamento de qualquer comissão é a obrigação que o gestor tem de prestar contas de seus atos a um órgão colegiado democraticamente eleito. Mais ou menos como já acontece em departamentos universitários nos quais todo chefe executa os desígnios de um colegiado. Sobre a importância deste requisito, é sempre bom lembrar que algumas das melhores cabeças que já participaram de comissões artísticas na OSPA renunciaram justamente em razão da falta deste tipo de comprometimento por parte de seus gestores.

* * *

Sei que sou, muitas vezes, imputável por muito discurso e pouca participação. Por isto, me voluntario, desde já, para integrar a próxima comissão artística a ser formada para a OSPA. Se, e somente se, for honrado com a escolha da orquestra para representá-la na elaboração de sua programação, defenderei a ideia de que não se deve pensar em concertos ditos “populares” antes que se tenha tocado, a cada dois ou três anos, tudo de Brahms e Beethoven, algo de Mahler e Stravinsky, sempre que possível algum Bartók, Shostakovich, Nielsen ou Debussy e, é claro, o melhor de Schumann, Sibelius, Dvorak, Mozart ou Prokofiev (you name them). Somente quando estivermos nos ocupado de tudo isto, poderíamos distribuir não mais do que uns 15 ou 20% de nossa capacidade de trabalho igualmente entre concertos de música popular (familiar) e nova (estranha). O que deve ser entendido por nova e popular fica aberto ao debate. Sob quaisquer outras premissas, eu não saberia o que fazer numa comissão artística.

* * *

Por todo o trabalho que deu e tempo que consumiu, tenho vontade de postar este texto às vistas de todos em meu blog. Se opto, no entanto, por fazê-lo circular inicialmente apenas no âmbito da orquestra, é por que

  • quero publicar, junto com o texto original, toda reação que o mesmo venha a provocar; e também para que
  • possa atualizá-lo à luz de qualquer debate que o mesmo venha a suscitar no seio da orquestra.

Por isto, leiam com calma. Pausadamente. Refletindo sobre cada parágrafo. E, por favor, se manifestem !

Muito obrigado pela atenção. Uma ótima gestão para o próximo diretor artístico da OSPA – até por que jamais antes alguém esteve tanto com a faca e o queijo na mão ! – e um grande futuro para a OSPA !

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Carta aberta a Luiz Antonio Assis Brasil

Transcrevo, abaixo, minha carta aberta a Luiz Antonio de Assis Brasil enquanto secretário estadual de cultura, publicada originalmente no caderno Cultura ZH em 27 de novembro de 2010 e, três dias depois, sob o título Where the Hell is Dudamel ? (iii), em meu antigo blog homônimo no saudoso portal O Pensador Selvagem. No texto, endereço a complexa e delicada questão da gestão artística da Fundação OSPA.

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“Sempre defenderei o regime estatutário de contratação pública por ser o único sob o qual se pode dizer o que se pensa.”
Luis Osvaldo Leite, então presidente da FOSPA

Caro secretário,

 
não é preciso muita imaginação para se adivinhar que, desde que sua participação no próximo governo do Estado foi anunciada, o senhor tenha se tornado alvo de intenso assédio por parte de uma variada gama de aspirantes a cargos de confiança vinculados a sua pasta. É, assim, igualmente fácil adivinhar que a corrida aos cargos com lotação na administração da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre também já esteja a pleno vapor, ainda que, compreensível e estrategicamente, distante dos olhares da mídia.

 
No delicado momento de transição governamental, em que mazelas e vícios administrativos facilmente se perpetuam ao mesmo tempo que virtuosos e legítimos anseios se postergam por, na melhor das hipóteses, ao menos mais quatro anos, tomo a liberdade de lhe falar franca e abertamente sobre a natureza e particularidades da gestão artística de corpos sinfônicos.

 
Pelas razões e circunstâncias abaixo, penso que as últimas coisas das quais a Ospa precisa, em nome da qualidade de sua programação e de seu progresso artístico, sejam mais um regente titular e outro maestro de carreira como seu diretor artístico.
Instituições públicas, dentre elas as culturais, são corpos volumosos cuja evolução é tremendamente limitada pela forte inércia de tradições caducas, por vezes blindadas à crítica e à atualização. É sabido, também, que em nosso sistema político a participação na esfera pública é muitas vezes não mais do que uma figura de linguagem exclusivamente presente na retórica eleitoral – já que, quando se trata de ocupar os cobiçados assentos de um governo, políticos eleitos costumam se voltar não à sociedade mas, invariavelmente, a quadros ociosos de sua base partidária de apoio – as honrosas exceções, neste caso, apenas confirmando a regra.

 
Ocorre, então, que, na pirâmide descendente de confiança decrescente das administrações direta e indireta, acabamos governados por afiliados e/ou afilhados políticos que jamais obteriam o consentimento social para o exercício das funções que desempenham. Não quero aqui, no entanto, falar de política, mas de suas nefastas implicações na gestão da coisa pública cultural, musical em geral e sinfônica em particular.

 
Qualquer músico que tenha tocado por algum tempo em orquestras sinfônicas públicas e, gosto de acreditar, ao menos a parte mais atenta de seus ouvintes percebe que uma orquestra qualificada toca melhor e mais motivada sob variadas batutas igualmente qualificadas do que quando submetida ao pulso tirânico, imutável e entediante de uma única. É claro que essa regra não vale para a escassa categoria dos regentes exponenciais, sonhos de consumo de qualquer orquestra – cujos honorários artísticos, no entanto, são comumente cotados muito além do cacife da grande maioria das orquestras, na qual a Ospa está incluída. Quando, todavia, uma orquestra de média magnitude logra, contrariando quaisquer expectativas, contratar para uma longa residência um desses salvadores, o resultado é, quase sempre, o seguinte.

 
O ás da batuta contratado como salvador logo se entedia da lida corriqueira com os mesmos músicos (a menos, é claro, que estivéssemos falando da Filarmônica de Viena ou similares). Como corolário, não tarda a descobrir (se já não sabia) que o melhor caminho para a superação deste quadro depressivo é o portão de embarque do aeroporto. Com efeito, regentes exponenciais são cidadãos do mundo, vivendo em hotéis e flertando com os melhores conjuntos do planeta a lhe disputar a agenda. Daí se tem que mesmo orquestras respeitáveis, como, por exemplo, a Filarmônica de Los Angeles sob Gustavo Dudamel, tendem a cair em abandono quando confiadas a salvadores notáveis.

 
Descartados, deste modo, os gênios, os prognósticos são ainda menos auspiciosos quando batutas públicas são delegadas apenas às mãos de um único regente suficientemente bom. Por uns poucos meses, o jovem, ambicioso, aplicado e talvez inocente maestro cativará orquestra e audiência até que, inevitavelmente, seu repertório se esgote – quando, então, também tomará, por pânico ou ambição, o caminho do aeroporto. Só que, não pertencendo ao concorrido jet set dos astros da batuta, terá sua arena de atuação limitada a orquestras geridas por pares pertencentes a sua rede de contatos, às quais se fará convidar mediante convites recíprocos para reger a orquestra que lhe foi confiada. Tal prática pode ser facilmente comprovada mediante o simples cruzamento entre a agenda do regente titular e as dos convidados de uma orquestra. Um exame mais cuidadoso das mesmas também revela que titulares itinerantes se valem amiúde de orquestras às quais atribuem menor prestígio (provincianas, como alguns as designam) como plataforma de treinamento para enfrentar repertórios mais exigentes diante de audiências mais cosmopolitas.

 
Nesse cenário pessimista, muitos já anteviram, como uma luz no fim do túnel, a possibilidade, jamais posta em prática no âmbito da OSPA, do não preenchimento, pela Secretaria de Cultura e pela Presidência da Fundação, de seu cargo de regente titular – ficando, neste caso, a qualidade da programação e o entusiasmo do conjunto assegurados mediante realização de uma temporada de concertos a cargo de regentes convidados para residências de curta duração – contratados, por sua vez, com os próprios recursos, geralmente volumosos, outrossim alocados à manutenção de titulares onerosos e de curta validade. Neste modelo, que já me resignei a considerar como utópico, repertórios, solistas e regentes convidados seriam fruto de um consenso viabilizado pela existência e atuação, de fato e de direito, de uma entidade colegiada com força deliberativa composta paritariamente pelo poder público, a orquestra e sua audiência. Gosto de pensar nisso como uma instância ideal do tão alardeado e nem sempre aplicado controle social.

 
Feito isso, restaria ainda ao secretário de Cultura e ao presidente da Fundação a complexa atribuição de designar para a Ospa um diretor artístico. Como amante e artífice das letras, talvez não lhe seja estranha uma passagem da formidável novela Árvores Abatidas – Uma Provocação (trad. Lya Luft, 1985), do grande Thomas Bernhard, em que o herói e alter-ego do autor cinicamente prevê, num banquete cultural em Viena, o inexorável declínio do prestígio de um incensado diretor artístico recém designado para um importante teatro em razão direta do desgaste inerente ao exercício do próprio cargo. Tivéssemos aqui mais tempo, traçaríamos sem dúvida deliciosos paralelos entre O Homem Amoroso e a novela de Bernhard.

 
Devo, no entanto, me ater, por hora, ao futuro da Ospa e, indo direto ao ponto, chamar a atenção para o fato de que a escolha de seu diretor artístico não deve de modo algum se restringir àqueles que sejam também maestros por ofício (empíricos) e/ou formação (diplomados). A tradição de que diretores artísticos de orquestras sejam, quase sempre, profissionais da batuta se deve exclusivamente ao fato de que, para atrair salvadores, tidos por muitos gestores como escassos, organizações sinfônicas recorram com freqüência ao duplo expediente de lhes permitir o acúmulo de vencimentos por ambos os cargos (de regente titular e de diretor artístico) – lhes garantindo, ao mesmo tempo, a centralização das decisões que lhe afetam a programação (uma moeda valiosíssima, como vimos acima).

 
Onde e como procurar, então, dentre os não maestros, aqueles com o perfil mais recomendável para exercer a direção artística de organizações sinfônicas? Evidentemente, entre os que mais conhecem música, isto é, músicos, compositores, musicólogos, críticos e, last but not least, ouvintes – desde que, é claro, comprometidos com a premissa anterior de gestão social da coisa artística pública. Pois, é bom lembrar, assim como a Osesp recorreu a Arthur Nestrovski para (espero) varrer o ranço autoritário de Neschling, penso que aqui Celso Loureiro Chaves (oxalá aceitasse!) ou Ney Fialkow, para citar uns poucos e apenas à guisa de exemplo, poderiam realizar, dada a magnitude de sua autoridade musical, um trabalho excelente e sem precedentes entre maestros diplomados ou empíricos à frente da gestão artística da OSPA.

 
Por isso, apelo para sua sensibilidade sem ser ingênuo em relação a forças políticas que se sobreponham eventualmente a seu cargo. Lembro, no entanto, que não raro esferas artísticas sirvam de contextos propícios ou mesmo ideais para movimentos em direção ao progresso social – como, por exemplo, na célebre instância em que o grande Kurt Masur chegou a ser cogitado para exercer o cargo de chanceler da Alemanha recém unificada.

 
Deste modo, se tiver a oportunidade e o apoio necessários para inovar em relação à gestão social e participativa da Ospa, dará um grande passo tanto no âmbito da cultura como no da política em nosso estado. Senão, terá sido para mim ainda assim um prazer debater e amadurecer ideias progressistas com alguém de sua estatura humanística.

 

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