Da curadoria em gravadoras e na internet e do emprobrecimento das audiências

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Nos últimos dias, duas coisas que li na web, de índoles diametralmente opostas, me chamaram a atenção. Numa matéria que saiu no New York Times, um ex-proprietário de loja de discos reclamava da falta da atuação de executivos de gravadoras a dizer qual música, de toda a que se faz, deve ser produzido para consumo em massa. Já numa resenha publicada na Gazeta do Povo (Curitiba), o maestro Osvaldo Colarusso aponta justamente para a falta de critério artístico de alguns selos fonográficos.

O problema da indústria da música antes e depois da web é fascinante. Envolve, necessariamente, as ideias de broadcasting (tão cara à indústria cultural) e narrowcasting (inerente à web). Da curadoria por autoridade ou, ao contrário, por reconhecimento social; de conselhos ou comitês julgadores X processos de crowdsourcing. Ou casos emblemáticos como o de Valentina Lisitsa, a pianista que foi contratada pela Deutsche Gramophon não por ter vencido qualquer competição internacional mas, tão somente, por ser campeã absoluta, entre congêneres, de visualizações no YouTube. Por fim, não devemos esquecer que a atribuição de qualidade em música popular e erudita se dá, na maioria das vezes, por meios totalmente distintos (vale a pena estudar comparativamente a história de celebridades pop e “clássicas”; o próprio Lebrecht tem um excelente texto sobre os mitos de Elvis e Callas…).

Nutro alguma reserva em insistir neste tema em razão de certo bias que tenho em favor do imenso benefício do livre acesso aos meios de publicação moderados espontaneamente por mecanismos de curadoria social e, ao mesmo tempo, contra a ação excludente, praticamente predatória, de uma noção de produção fonográfica que seleciona, mediante critérios questionáveis, fatos artísticos para, depois de moldá-los a padrões adotados a partir de cuidadosas análises de mercado, promovê-los acima de quaisquer outros. Ao mesmo tempo, espero ter deixado claro que me refiro, aqui, a degêneros para consumo segmentado tais como o axé, o tchê, o pagode, o sertanejo universitário ou mesmo o new age – cuja hegemonia é predatória em relação à toda cultura popular. Pois, como dizia Bruno Kieffer, chamar o que gravadoras de seu tempo produziam de música popular era um caso escandaloso de estelionato semântico.

Além disso, é impossível analisar qualquer fenômeno artístico, notadamente a música, sem se levar em conta sua audiência (ou, em alguns casos, a ausência da mesma). Mas não estou interessado em observar a transição das audiências físicas, reunidas em platéias e balcões, para as dispersas, alcançáveis por meio de ondas de rádio. Até por que o processo, tão importante, já deve ter sido bem esmiuçada por estudiosos mais dedicados. O que mais me interessa, aqui, é a constatação de como se espera cada vez menos qualidade musical dos fatos artísticos desde que os meios de divulgação se universalizaram. O que quero dizer é que, desde que se tornou acessível a qualquer um publicar qualquer coisa, audiências vem se tornando cada vez menos exigentes (ou mais complacentes ou tolerantes) em relação ao limiar de competência musical que deve ser demonstrada para que alguém seja reconhecido como músico.

Explico. Dificilmente rappers (que detém, hoje, as maiores audiências) seriam reconhecidos como músicos segundo padrões do tempo, talvez, da invenção do pop (fato diretamente decorrente do surgimento das gravadoras (vide a história de George Martin, o “descobridor” dos Beatles…)). Pois a improvisação rítmica sobre versos rimados é, indiscutivelmente, musicalmente bem menos complexa do que qualquer composição envolvendo alturas (frequências) definidas expressando melodias e harmonias. Tenho que explicar melhor ? É bem mais fácil a qualquer indivíduo não treinado musicalmente (vulgo leigo) batucar um ritmo e proferir rimas do que entoar sons afinados. Melhor não consigo explicar.

Mas não escrevi tudo isto só para dizer que não gosto de rap (me submetendo, com isto, à sanha de uma comunidade cultural inteligente e bem articulada !) e sim para  deixar claro que objetos sonoros pertencentes a esta categoria não devem em hipótese alguma ser confundidos com música. Pertencem, isto sim, ao mundo das letras, sendo de maior ou menor valor de acordo com a estatura artística de seus autores. Então por que todo este ranço ? Tão somente para evidenciar uma desmusicalização, observável e quantificável, de audiências pulverizadas que, conquanto fruam de um universo de escolha bem maior do que o que tinham na era do rádio, ouvem, em redes sociais, majoritariamente, objetos cada vez mais rasos musicalmente.

Tal empobrecimento da expectativa das audiências em relação à proficiência autoral é, no entanto, ainda mais chocante se levarmos em conta que, dentre os vídeos mais acessados no YouTube, há muitas partidas de videogames jogadas por ditos gamers profissionais que, supostamente, vivem da publicidade vinculada a videos tutoriais em que jogam partidas revelando a seus seguidores (fandom é outro conceito importante, intraduzível, quando se fala de audiências…) dicas e estratégias. Seus canais em plataformas sociais são frequentados por adolescentes de todo o mundo, muitos dos quais cogitam até abandonar os estudos a fim de se tornarem jogadores profissionais. Para melhor vislumbrar o tamanho (e o caráter assustador !) da cultura de games entre jovens, basta conferir este impressionante (por que desvela uma cena real e atual bem pior do que as piores distopias já imaginadas na ficção) artigo da Mashable.

Por tudo isto, seria uma ótima ideia estudar a correlação entre a fragmentação e a desqualificação da atenção. Tão boa, aliás, que alguém já deve ter tido. Então, me notifiquem (links welcome !), por favor, se tiverem notícia de algo bom sobre o assunto.

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3 respostas para “Da curadoria em gravadoras e na internet e do emprobrecimento das audiências”

      1. ‘o fetichismo na música e a redução da audição’ ou algo próximo disso. na minha opinião, o tipo de choradeira batida que se pode dispensar… (enquanto ideia, não leitura: os frankfurtianos são chatos mas temos que nos ver com eles)

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