A propósito do Dia das Bruxas, certas áreas onde mulheres ainda encontram mais dificuldades do que homens

"BRAVE"   (Pictured) THE WITCH ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Quem vai ao Google hoje vê uma bruxa tirando feitiços de um caldeirão. Para celebrar o Dia das Bruxas, não há nada melhor do inventariar situações em que o desfavorecimento feminino seja mais evidente. Como em ambientes tecnológicos e artísticos, por exemplo.

(curioso como, muito antes de escolhermos certos temas, são eles que nos escolhem, por meio de um bombardeio, nas PLNs, de referências convergentes, como as abaixo)

Não tinha ideia de como se dá o aprendizado da programação (de computadores) até ler a entrevista que Jay Rosen (jornalismo, NYU) fez com sua filha de 17 anos que vem tendo aulas de programação. De imediato, relacionei ao caso da filha de Howard Rheingold, que apresenta num filme para o Google o ambiente da empresa em que trabalha. Mesmo que não se trate, exatamente, nestes casos, de meninas comuns, não podemos deixar de pensar em que oportunidades de aprendizado de programação são oferecidas a meninas em nossas escolas.

Ainda esses dias a Folha traduziu do New York Times e republicou uma matéria sobre o apagamento histórico de biografias de mulheres pioneiras em áreas tecnológicas. Muito bem pesquisada e ilustrada. Ali, descobrimos o inexplicável sumiço, da história da tecnologia, de Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa que viveu entre 1815 e 1852 e, entre outras coisas, escreveu o primeiro algoritmo computacional. O mesmo bias sexista se faz presente hoje em áreas tão distantes entre si como, por exemplo, o esporte ou os brinquedos.

Já no campo das artes, é notória predominância masculina em pódios orquestrais. Mais. Embora rigorosos processos seletivos já tenham equilibrado a presença dos gêneros em orquestras de todo o mundo, há, ainda, lamentavelmente, casos de orquestras totalmente masculinas. Como as filarmônicas de Berlim ou Viena, as quais, respectivamente, rejeitaram, no fim dos anos 80, o ingresso de uma clarinetista, protegida de Herbert von Karajan; e, no ano passado, de uma flautista. Cabe ressaltar que, em ambos os casos, as orquestras reprovaram, por maioria, o ingresso de virtuoses notórias como suas primeiras integrantes mulheres. Coincidência ? Acho que não.

E há mesmo, pasmem, quem trate de justificar, como o eminente finlandês Jorma Panula, para espanto das próprias alunas, que mulheres são biologicamente inaptas à regência orquestral. Sério. Pior. Ouvi testemunhos incríveis sobre isto, longe de qualquer consenso, de músicos e maestros acima de qualquer suspeita. Dentre os mais engraçados (posto que mais preconceituosos) argumentos que normalmente ouço em resposta à pergunta (que tenho mesmo por questão de pesquisa ou linha indagatória) de por que são tão raras as mulheres no pódio, se destacam:

” Então por que não há, afinal, mais mulheres regendo ? “

Esse, ao mesmo tempo tautológico e fenomenológico, simplesmente devolve a pergunta sem respondê-la, .  ao mesmo tempoessa é simples – ótima, no entanto para uma aula de história. Basta lembrar, para começar, que a atividade de regência nasceu ao mesmo tempo do que a militarização industrial das nações…)

” São incapazes de certos gestos mais enérgicos, até violentos, usualmente atribuídos ao gênero masculino. “

Questionável. Tanto no que se refere à capacidade do gesto quanto à necessidade do mesmo.

” Umas poucas que sucedem o fazem sob o preço de se masculinizarem. “

Esse, prefiro nem comentar. Quando o ouço, basta pensar em Alondra.

Alondra 3

* * *

P.S.: uma variante bem interessante para a questão norteadora ” Por que mulheres são tão raras no pódio orquestral ? “ seria ” Por que mulheres, diante de orquestras, são bem mais frequentes como solistas do que como regentes ? “. Um verdadeiro portal para estudos sobre celebridades.

In praise of serendipity (ii): dos inestimáveis benefícios do acaso quando da tomada de decisões

dados 3

Coisas como a teoria das probabilidades sempre me fascinaram. Como se eu tivesse antenas sintonizadas a tudo o que digam sobre como o acaso dificulta ou favorece tudo o que queremos ser ou fazer. Por isso, compartilhei, assim que recebi, dias atrás, uma curiosa matéria que saiu no Guardian apontando os benefícios de tomadas de decisão mais aleatórias no dia a dia. Contrariamente, portanto, ao senso comum.

Em se tratando de escolhas e decisões, o tamanho e a variedade do universo de opções é sem dúvida o que mais importa. Por isso crianças em idade escolar preferem invariavelmente os períodos de recreio e atividades esportivas em relação aos de aula – não por acaso aqueles em que trocam mais interações com parceiros mais selecionados, por atributos ou habilidades específicos, dentre um universo bem mais amplo (i.e., da mesma série escolar ou, por vezes, até de outras) do que aquele delimitado pela lista de chamada de sua própria sala de aula. Assim, não é de espantar que a maioria prefira os contatos presenciais mais esporádicos do pátio ou das escolinhas esportivas até mesmo àqueles das outrossim muito mais capilarizadas redes sociais.

Ao mesmo tempo, é raro que tenhamos conhecido na infância ou na adolescência aqueles que acabamos, em idades mais maduras, elegendo como nossos melhores amigos. Mais: por vezes, chegamos a conhecer alguns destes (como, por exemplo, nossos hóspedes favoritos) para muito além de nossa esfera presencial, exclusivamente por força e graça de conexões virtuais. De tal modo que é perfeitamente razoável se afirmar que estamos fadados a conhecer pessoas bem menos interessantes enquanto restritos às esferas presenciais.

Também é altamente temerário tentar predizer o sucesso futuro de qualquer sujeito em razão de seus êxitos mais precoces. Pois é familiar a todo professor experiente o caso do melhor aluno de uma classe cujas realizações são facilmente suplantadas pela de colegas só percebidos, em suas vidas escolares, apenas como medianos ou esforçados.

As chances de descoberta casual também são intimamente relacionadas às noções antagônicas de broadcasting e narrowcasting. Entendemos por broadcasting todo discurso difundido por mídias hegemônicas, sejam elas eletrônicas ou impressas. Então, quando falamos em broacasting, estamos nos referindo ao que vemos ou ouvimos em rádio, TV (na aberta mais do que na fechada), jornais e revistas. Por oposição, definimos como narrowcasting todo discurso difundido predominante ou exclusivamente por meios dispersos (i.e., diluído em meio a uma enorme quantidade de outras falas a ocupar o espaço discursivo). Com isto, concluímos facilmente que narrowcasting é, por excelência, todo discurso residente na web. Também não é difícil perceber por que a maioria dos governos vê com mais simpatia e, em muitos casos, favorece descaradamente mídias que suportam o broadcasting. Mas meu humor está bom demais para que eu enverede a falar de política.

Postas as definições acima, afirmamos que, ao interagirmos em busca de informação, as chances de descobertas qualificadas se ampliam à medida em que privilegiamos o narrowcasting em prejuízo do broadcasting. Como, por exemplo, ao escolher que música ouvir – quando caímos, na maioria das vezes, numa das seguintes categorias.

  • Pessoas só ouvem rádio por que não suportam ter que escolher o que ouvir. Rádios convencionais são fundadas sobre a atividade de DJs que escolhem previamente músicas que supostamente agradam ao perfil que atribuem a seus ouvintes.
  • Num contexto de menor broadcasting e maior narrowcasting, sistemas de distribuição a cabo (como os de TV) permitem maior segmentação de ouvintes por meio de canais dedicados a gêneros específicos; tais sistemas ainda dependem, no entanto, da interferência de DJs para programar sequências de músicas por gênero, que passam a ser repetidas (como em rádios convencionais) pelas empresas operadoras.
  • Em webradios algorítmicas (i.e., controladas por engenhos de gosto), parâmetros alimentados pelo próprio ouvinte orientam a sequência randômica do que é ouvido. Curiosamente, acho as mais insuportáveis. Por isso, penso que deve ser bem difícil a qualquer um definir, estritamente em termos técnico-musicais, o que mais gosta de ouvir.
  • Por meio de PLNs (personal learning networks) cuidadosamente ajustadas a nossos interesses e curiosidades. Ou se preferirem, sistemas de recomendação. Idealmente customizáveis – sem qualquer resquício, portanto, de broadcasting. Ainda não conheci nada melhor para orientar minha leitura e minha escuta.

Por tudo isso, é natural que eu venha colecionando já há algum tempo um lexus de ótimos artigos e conferências sobre a imponderabilidade. Os melhores de que me lembro são os seguintes:

Where good ideas come from ? é uma palestra de Steven Johnson sobre ambientes favoráveis à colisão de ideias.

Conformity, recomendado pela Maria Popova (grande curadora do excelente blog brainpickings) é um filme de animação que plota em ordem cronológica os avanços da psicologia em relação a como o pensamento da maioria afeta as decisões de cada um.

This column will change your life: random decisions é o artigo do Guardian em prol de tomadas de decisões mais aleatórias ao qual me referi no início deste post. Nele, o autor elenca uma série de decisões cotidianas que podem ser otimizadas com o aporte deliberado de alguma imprevisibilidade. Em suas passagens mais impressionantes, afirma que “When we’re faced with the unfamiliar, experience can mislead humans” e que “Randomness disinfects a process that might be dirtied by corruption”. Convincente, não ?

Tanto que, dias depois de sua leitura, ainda me surpreendo procurando identificar situações práticas nas quais um pouco de incerteza consentida tende inquestionavelmente a favorecer o processo. Assim de pronto, posso citar duas delas. Uma individual e outra coletiva. Quando, por exemplo, viajamos ao volante, pode e, efetivamente, costuma ser muito mais gratificante tomar caminhos nunca antes percorridos do que aquele imediatamente reconhecido como o mais eficiente. Qualquer um que já foi de Porto Alegre a Gramado ou Canela por Nova Petrópolis sabe disto.

Há, também, o caso de orquestras que preferem trabalhar com um rodízio permanente de regentes convidados do que com um único titular. Ora, é claro que, num rodízio de convidados, podemos ir do paraíso ao inferno e vice-e-versa entre um concerto e outro. Sabe-se, no entanto, que, diante de maestros muito ruins, orquestras alternam, tacita e silenciosamente, para um modo operacional no qual cada músico orienta seus sentidos muito mais para como seus colegas estão tocando do que para qualquer instrução ou gesto vindo do pódio. Chamamos a este modo de take over e todo músico experiente sabe perfeitamente, sem qualquer comando externo, em que momentos deve ativá-lo. Em seu próprio benefício e no da música. Mas também não queria falar de orquestras e maestros. Pelo menos, não hoje. Por isso, vou ficando por aqui.

Abracem o acaso !

roulette 1

 

on conducting (iii): maestros are sometimes required because light is much faster than sound

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(tem dias que acordamos mais afeitos a silogismos simples)

Uma das questões que a maioria dos músicos (e possivelmente alguns ouvintes sensíveis) mais frequentemente se perguntam é por que raios maestros são, às vezes, sim, tão necessários. Pois, afinal, é raro virtuoses tocarem música de câmera guiados por uma batuta.

Por outro lado, se nota que, a partir de um certo tamanho de conjunto (ou complexidade textural), se torna tremendamente conveniente a participação de um regente durante performances. Intrigante, não ?

Pensem, agora, que a luz viaja no espaço em velocidade tremendamente maior do que a do som. Mais exatamente, 882.352,94 vezes maior. Ou seja, quase um milhão de vezes maior. Já é alguma diferença. Significa que, em performances musicais, pode ser considerada instantânea. Então, num contexto onde a percepção do som não é mais confiável (por que há uma diferença perceptível de tempo entre o que é tocado, simultaneamente, perto e longe de quem ouve), a informação visual se torna indispensável à sincronização do todo.

Então, em circunstâncias em que a projeção dos conjuntos no palco ultrapassa  dimensões necessária para o perfeito entendimento auditivo do que todos estão tocando (a qual varia não somente de acordo com o “tamanho da banda” mas, também e principalmente, com o grau de resolução acústica de cada textura musical (tem a ver com a percepção do “grão” rítmico); por isso em música popular, onde músicos tocam bem afastados uns dos outros, a amplificação de retorno é primordial), é praticamente um consenso que regentes sejam necessários e até benéficos à execução musical.

* * *

Por vezes me pergunto por que músicos orquestrais perdem tanto tempo pensando em maestros. Ora, só pode ser por que passam (não raro à revelia, por força do ofício) olhando para eles. Imaginem o espectro de sentimentos entre o amor e o ódio que esse tipo de relação é capaz de engendrar. Então, conquanto ainda seja bem difícil qualquer consenso quanto à conveniência ou mesmo a necessidade de regentes titulares à frente de organizações sinfônicas, é certo que maestros só existirão enquanto houverem orquestras – as quais, já há, no entanto, quem acredite, serão extintas nos próximo trinta anos. Logo, só o que posso dizer a quaisquer aspirantes a estes (cada vez mais raros) postos é que se divirtam. Enquanto puderem.

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