minding orchestras (v): ineditismo e redundância em repertórios sinfônicos

Um dos cernes do debate entre, de um lado, os mais conservadores e, de outro, os mais progressistas dentre os gestores artísticos de orquestras é a proporção ideal de ineditismo e redundância na música ouvida em concertos.

Do ponto de vista da audiência, o problema geralmente assim se resolvia: em concertos “oficiais”, i.e., para ouvintes mais frequentes, se ouvia, quase invariavelmente, uma grande sinfonia precedida por um grande concerto e uma grande abertura; enquanto em concertos “populares” – ou seja, aqueles tocados para um públicos ocasionais, talvez sem familiaridade alguma com a música sinfônica – o que se tinha, quase sempre, era uma série de valsas, polcas e aberturas (com sorte algumas árias) desmembradas de obras maiores. Costumávamos dizer que almejavam uma audiência burra, e tínhamos bastante vergonha de tocá-los.

Felizmente, os tempos são outros, e já ouvimos orquestras tocarem, em cidades menores do que suas sedes, sinfonias e concertos inteiros. Sem microfones. Em respeito ao público e aos executantes.

Infelizmente, ainda temos, vez que outra, concertos “oficiais” integralmente dedicados a música mais estranha a muitos dos ouvintes e dos próprios músicos. Coisas como, por exemplo, obras de Lutoslavski e Penderecki junto com duas de Guarnieri. Uma mistura que, para qualquer músico sensato, jamais poderia ser devidamente preparada em apenas uma semana de ensaios. O que mais espanta é que não é a primeira vez que acontece.

Entendam, por outro lado, a importância da redundância de execução de recortes bem específicas de todo o repertório conhecido. Ora, nenhum melômano deve negar que todas as sinfonias Brahms e Mahler são sublimes, bem como todas as de Beethoven a partir da Eroica; que menos da metade das sinfonias de Mendelssohn e Tchaikovsky se salvam; que Bartok, Nielsen, Shostakovich e Stravinsky são superiores a quase tudo sinfônico produzido no século 20; que só 3 ou 4 das 40 sinfonias e quase 30 concertos de piano de Mozart merecem audições repetida; que concertos de piano são mais arrebatadores do que os para quaisquer outros instrumentos; que, dentre estes, o concerto de clarineta de Mozart é, disparado, o melhor; e assim por diante. Qualquer um que já tenha, deliberada ou inadvertidamente, adquirido coleções de discos com obras integrais de quaisquer compositores sabe disso.

O que quero dizer com isto ? Simples. Há, sim, uma parte bem limitada de todo o repertório conhecido que deve ser promovida preferencialmente, em prejuízo de outras. Mais. Que aceitem que, em música em particular e arte em geral, a isonomia nem sempre é uma boa ideia, já que o julgamento histórico importa e que, portanto, segmentos iniciais de obras de gênios precoces devem permanecer convenientemente esquecidos.

Já devo ter contado a história da Schubertíade na qual pretendiam executar, durante dez anos em Nova Iorque a partir de um aniversário do compositor, a totalidade de seus lieder em ordem cronológica. O projeto naufragou, como era de se esperar, pois não conseguiram vender ingressos para os primeiros recitais (custo a entender como não previram isso…)

batman e robin proko x shosta

 

 

Sobre debates eleitorais em particular e propaganda política em geral

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Quando FHC derrotou Lula em eleições presidenciais (bem antes, portanto, da universalização da internet !), foi naturalmente aceita, como um fato banal, a tese do primeiro de que, na campanha que antecedesse o pleito, os candidatos não precisassem debater ao vivo em redes de rádio e TV – sendo, portanto, suficiente para orientar a escolha dos eleitores a propaganda veiculada por meio de carros de som. Foi nesta época que a extinta Gazeta Mercantil publicou, entre seus editoriais, o primeiro e único texto político que rabisquei décadas antes de cometer um blog, panfletariamente intitulado “Debate Já !”.

De lá para cá, as coisas mudaram bastante, a ponto dos embates entre candidatos em cadeia nacional de TV se tornarem os pontos culminantes de qualquer campanha eleitoral. Sustento, no entanto, que ainda é muito pouco. Nestes debates, a escassez de tempo e o engessamento do formato em perguntas, respostas, réplicas e tréplicas cronometradas impedem ou dificultam tremendamente a argumentação em torno de ideias e princípios que realmente importam em se tratando de escolher governantes e (oxalá não por muito tempo !) representantes parlamentares.

Provavelmente devido a minha baixa expectativa em relação a estes embates, me mantenho sistematicamente alheio aos mesmos – me beneficiando, com isto, da enorme vantagem de deles só ter notícia por meio de comentários sobre os mesmos bem mais qualificados (posto que por membros cuidadosamente selecionados de minha PLN !) do que os próprios debates em si. É como fico sabendo, por exemplo, das excrescências verbais do pastor ou da rinha entre os três favoritos na noite de ontem.

É, pois, pela caduquice dos formatos de peças de campanhas como hoje conhecemos (debates, horário eleitoral gratuito e publicidade paga (midiática, cartazes & santinhos)) que reivindiquei aqui, dias atrás, em tom apenas aparentemente jocoso, a realização obrigatória de reality shows, senão como todos os candidatos (enquanto custos ainda forem proibitivos), então pelo menos com os presidenciáveis.

Por que isto ainda não acontece ? Ora, por que viriam inevitavelmente à tona verdades que implicariam na ruína dos partidos políticos e dos monopólios midiáticos.

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Do anonimato, do público e do privado, com um recado ao TSE

secret male

Fatos recente me fizeram pensar um bocado sobre a importância do anonimato para a democracia. Ora, o anonimato é tão importante quanto a atribuição de autoria pois, sem ele, saberíamos muitíssimo menos. Não é à toa que compartilhadores icônicos sejam tão ou mais perseguidos do que terroristas. As biografias de Assange e Snowden são exemplares.

Deve ser por isso que recomendo a todo sujeito virtual postar e comentar, em seu perfil e nos de outros e, portanto, visivelmente  a mais pessoas, bem mais do que trocar mensagens bilaterais. Aposto que algum linguista  já se debruçou, nalgum momento, sobre o que distingue as falas públicas das privadas. Que nuances distinguem a linguagem com que são confiados segredos daquela com que se fala diante de todos ?

Como aprenderíamos se pudéssemos, por exemplo, comparar o discurso dos palanques com o dos gabinetes, já que homens públicos falam e se comportam de modos totalmente distintos quando diante de câmeras e microfones e longe dos mesmos.

Não seria tão melhor do que o que vemos hoje no horário eleitoral gratuito se candidatos a quaisquer cargos eletivos participassem obrigatoriamente de um big brother meses antes de cada pleito ? Sem confinamento. A universalização da ideia do político rastreável. No mínimo, mais informativo e, muito provavelmente, bem mais divertido. Acorda, TSE !

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on conducting (ii): o método Ricci; on writing: sobre os benefícios da irregularidade

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Tivemos, nos últimos dias, a oportunidade de ensaiar e tocar quatro récitas de uma ópera de Puccini em forma de concerto sob a batuta de Enrique Ricci. Não é a primeira vez que a OSPA se apresenta dirigida pelo maestro argentino, naturalizado espanhol. Antes, Ricci já esteve à frente da orquestra numa Cavalleria Rusticana, também em forma de concerto, e, anteriormente, em Turandot, encenada no Teatro Solis de Montevideo.

Gosto de maestros polêmicos que, como Ricci, dividem opiniões de músicos. Dono de um estilo bem pessoal, não há como lhe ser indiferente. Pois os mesmos atributos pelos quais sua regência é aclamada por muitos se constituem, no entender de outros, em suas principais limitações, a saber, os fatos de que, enquanto rege,

  • parece aderir a uma sólida versão imaginária da obra que executa, e
  • raramente ou quase nunca indica com precisão os pontos de entrada de cada instrumento ou naipe.

Tais características, particularmente no gênero da ópera, obrigam a orquestra a uma atenção muito maior do que a habitual à concepção pelo regente no pódio da obra em questão – a qual precisa ser, por vezes, praticamente adivinhada. Deste esforço e concentração adicionais empreendidos, tidos por alguns como extenuantes ou mesmo irritantes, resulta algo intangível que é percebido pelo ouvinte menos avisado como uma intensificação emocional da performance.

Que lição tiramos disso ? Ora, que por vezes só temos a ganhar ao evitar os grandes consensos e unanimidades. Ao menos em áreas tão nebulosas como os fatores que determinam a qualidade na regência orquestral tais como, por exemplo, a importância ou a qualidade do gesto – tão importantes para alguns e, ao mesmo tempo, absolutamente irrelevantes para outros. Viva a diversidade dos egos musicais.

* * *

Tornando a atualizar este blog depois de quase três semanas, é inevitável que me depare com questões frequentemente levantadas por quem quer que já tenha se dedicado, de um modo ou de outro, à escrita, tais como:

  • qual a frequência de publicação ideal, em blogs ou outros meios, sob o ponto de vista da qualidade da escrita ?
  • até que ponto a frequência de publicação ideal no blog de um autor coincide com a expectativa de seus leitores ?
  • até que ponto a regularidade, respectivamente, na escrita e na publicação são benéficas ou, ao contrário, nocivas à qualidade do texto acabado ?
  • até que ponto textos devem ser publicados na ordem cronológica em que são imaginados, ou, ao contrário, aleatoriamente, na medida em que diferentes ideias implicam em tempos diferentes de amadurecimento ?

O problema não é novo. O excelente blog brainpickings, de uma das melhores curadoras da web, Maria Popova, reúne receitas e aforismos de grandes escritores, acostumados à disciplina e às crises da rotina criativa. Preguiçoso, me interesso pouco pelo que dizem. Do alto de meu atrevimento, afirmo que toda regularidade, quer na escrita em si, quer na publicação, conspira contra a qualidade do texto. Ao contrário, não vejo vantagem alguma em se manter qualquer regularidade ou hábito literário a menos que se tenha algo irresistível ou urgente a dizer. O que, na maioria das vezes, só acontece de quando em quando, independentemente da vontade de qualquer autor, quase sempre intercalado entre eventos e experiências significativos vividas por cada um. De tal modo que a crônica cotidiana ou periódica tende, invariavelmente, a um certo marasmo e previsibilidade.

É também notório que grandes formas implicam em maiores tempos de maturação. Senão, por que raramente alguém dirige mais do que alguns punhados de bons filmes, compõe mais do que uma dezena de sinfonias memoráveis ou escreve mais do que três ou quatro grandes romances ?

Então, que se dane todo e qualquer método. E que vivam os editores que aceitem tal estado de coisas.

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