Ideias simples para um mundo melhor (i): da propaganda

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Poucas coisas me causam irritação maior do que argumentos exclusivamente fundamentados sobre tradições, do tipo “é assim por que sempre foi”. Desde jovem sempre tive mais simpatia pelas formulações utópicas, jamais experimentadas. Isto vale para instituições sólidas, tidas como dadas, tais como a democracia representativa ou a escola, as quais, bem ou mal, existem já há bastante tempo e cuja legitimidade, talvez por isso, poucos ousam questionar. Como, por exemplo, a ideia do consumo como principal motor da economia, recentemente invocada por Pedro Bial para encerrar precocemente, sem dúvida em nome do interesse da emissora, um auspicioso debate sobre o banimento de toda publicidade direcionada ao público infantil.

Vou mais longe. Sonho com um futuro não muito distante em que toda mensagem publicitária seja considerada propaganda não solicitada e, como tal, devidamente execrada, a tal ponto que anunciantes abram mão das mesmas sob pena de, caso contrário, estarem ofendendo clientes em potencial. Neste mundo perfeito, toda decisão relativa à aquisição deste ou daquele bem seria, então, orientada exclusivamente por processos de busca e comparação por meio de algoritmos operados por instâncias independentes. Ingenuamente ou não, acredito nesta visão a ponto de olhar com ceticismo e estranheza quem quer que se submeta a programas acadêmicos em propaganda e marketing, como se tais instituições não estivessem com os dias contados.

É claro que a propaganda não será totalmente extirpada de nossa cultura a não ser por meio de estratégias graduais. Dentre as quais haveria que se implementar, inicialmente, duas medidas simples, conquanto possam esbarrar na surrada justificativa das realidades dadas a que me referi pouco acima, a saber, o banimento

  • de toda publicidade governamental e
  • de toda concessão comercial de canais de televisão e rádio.

Como se pode ver, não se trata de tarefas fáceis, em razão dos enormes interesse em jogo. Senão, vejamos.

Que necessidade tem qualquer governo eleito de enaltecer, por meio de mensagens publicitárias, as realizações em nome das quais foi eleito ? Toda propaganda oficial por parte de quem está instalado no poder desequilibra francamente os pleitos seguintes, para os quais todos os concorrentes deveriam, se atendessem exclusivamente aos requisitos do fair play, se restringir às campanhas conforme regulamentadas pela justiça. Além disto, se este ou aquele governo realiza isto ou aquilo, não faz nada mais do que aquilo a que se propôs antes de ser eleito ou, noutras palavra, sua obrigação. Ora bolas, cidadãos bem que mereceriam ser poupados deste tipo de propaganda. Por isso, estranho muito que tão poucos parecem se ofender ou sequer importar com isto. Não consigo atribuir tal estado de coisas a outra coisa que não a supracitada naturalização acrítica de realidades dadas.

Do mesmo modo, não posso aceitar que recursos de tamanho alcance como a transmissão de sons e imagens por meio de ondas eletromagnéticas sejam concedidos pelo poder público a permissionários proprietários de emissoras de rádio e televisão. Se assino ou compro exemplares avulsos de jornais ou revistas impressos, estou perfeitamente ciente e tacitamente de acordo que os mesmos sejam parcialmente custeados por anúncios de terceiros estampados em suas páginas. Não é, todavia, aceitável que, ao sintonizar receptores de sons e imagens a determinadas frequências coexistentes no éter, tenhamos que ser constantemente bombardeados por propaganda não solicitada. Curiosamente, parece haver uma quantidade bem menor de publicidade em canais de TV por assinatura. Novamente aqui, se naturalizou a ideia perversa de que as poucas transmissões de TV aberta, disponíveis gratuitamente, devam ser bancadas por patrocinadores anunciantes enquanto as disponíveis exclusivamente mediante contrato sejam justamente aquelas mais livres de publicidade. Ora, as transmissões de rádio e televisão são um recurso por demais importante para serem concedidas à exploração comercial por uns poucos. Por isto, deveriam ser tratadas como de interesse público e, como tal, assumidas pelo estado, o qual também teria a incumbência de garantir seu controle social.

Bizarro ? Naïve ? Acho que não. Insisto que nenhuma tradição é totalmente inocente ou gratuita e que, mais uma vez nestes casos, a naturalização das coisas estabelecidas é governada por poderosíssimos interesses arraigados nos códigos que regem nossa sociedade. Interesses pelos quais textos como este jamais serão difundidos em qualquer veículo pertencente a conglomerados midiáticos mas, tão somente, num ou noutro blog improvável de audiência dispersa. Ao menos até que a idealização por Pierre Lévy de uma web semântica produza os primeiros resultados concretos.

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Minding orchestras (vi): de como regentes titulares e maestros como diretores artísticos são nocivos à música

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Me alegro só de saber que músicos de uma orquestra espanhola puseram a correr um diretor artístico, por 70 votos contra 4, apoiados pelo governo. Sonho com um tempo em que coisas assim possam acontecer aqui também. Deve haver quem ache que eu exagere a importância de que membros de orquestras possam deliberar sobre quem os rege e dirige. Na iminência de novos governos, então, a questão me assombra sobremaneira.

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Já tratei, em mais de uma ocasião, dos enormes benefícios derivados

  • da não outorga da palavra final sobre a programação artística de um organismo sinfônico a seu regente principal, se houver um; e
  • da não designação, para um organismo sinfônico, de qualquer regente principal, ficando seu pódio ocupado por uma alternância de regentes convidados escolhidos pela orquestra.

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Hoje, quero me deter um pouco sobre a conveniência da não designação, para cargos de direção artística de orquestras, de indivíduos exclusiva ou predominantemente treinados como maestros – a menos, é claro, que sua ascensão ao pódio tenha sido consequência direta de sua proficiência instrumental – pois todo virtuose será também, se quiser, um maestro suficientemente bom. Equivale a dizer: aos melhores músicos, os mais elevados pódios. Teremos um belo caso deste estado de coisas dentro de alguns dias, quando o excepcional clarinetista François Benda, além de tocar o concerto de Mozart, também terá a oportunidade de dirigir a OSPA na sétima sinfonia de Beethoven.

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Sempre que me deparo, em programas impressos ou qualquer lugar, com carteiraços de maestro (este ou aquele currículo de regência de tal universidade ou conservatório), me lembro de outro célebre clarinetista, o saudoso Walter Boeykens, que acreditava que a arte da regência só podia emanar do pódio para as principais estantes orquestrais, não podendo, portanto, ser transmitida ou revelada através de quaisquer currículos acadêmicos, os quais não passariam, portanto, de bullshit. A título de ilustração, dizia que a recebera, como uma dádiva, diretamente das mãos de um Bernstein ou Boulez. A sound argument, indeed.

É hoje, no entanto, também muito difundida a ideia de que a excelência em regência orquestral possa ser adquirida em programas acadêmicos – sendo reconhecida, até, a supremacia de uma escola nacional, a finlandesa, articulada em torno na figura mítica e polêmica de Jorma Panula. Ponto para o outro lado.

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Então, resumidamente, temos, de um lado,músicos e ouvintes

  • que esperam a emergência da figura messiânica de um grande regente como panaceia para toda a plêiade de problemas que constituem o cotidiano orquestral (não discutiremos, por hora, a existência ou não, hoje, deste tipo de figura, muito mais um resíduo de uma era de celebridades e domínio corporativo); adeptos desta tendência acreditam que a submissão de um conjunto a uma única batuta é capaz de conferir uma melhor unidade sonora ao mesmo; e de outro,
  • aqueles que defendem a alternância no pódio de maestros por eles escolhidos como melhor meio de obtenção da excelência.

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Quanto aos cargos de direção artística, continuo favorável à sua outorga não a maestros (que tendem a usar instituições como plataformas de auto-promoção) mas, preferencialmente, a indivíduos de notório saber musical e, sobretudo, patente desinteresse pessoal. Só que, como bem disse André Egg, mesmo em setores universitários, onde a autogestão já fez algum avanços, há, infelizmente, muito mais alpinistas e oportunistas de plantão dispostos ao exercício do poder do que seres suficientemente desprendidos para o mesmo. Difícil equação. Mas há quem se enquadre perfeitamente no perfil. Como Arthur Nestrovsky, da OSESP. Ou Celso Loureiro Chaves, que mencionei anos atrás – quando houve até quem julgasse que eu estivesse sugerindo seu nome (sic !). Como vêm, não há limite para a rasura de uma leitura. Então, que fique bem claro se tratar não mais do que EXEMPLOS. Pois deve haver por aí, afinal, mais gente com o brilho e o desinteresse, digamos, de uma Lúcia Carpena. Só na universidade conheço muitos. Eis uma questão interessante: por que os fluxos de poder na universidade são tão mais avançados do que em outras instâncias sociais ? A pergunta é, evidentemente, retórica, pois as organizações universitárias são aquelas que provavelmente melhor abraçaram, até agora, a autogestão.

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Por isto, espero que as linhas acima cheguem, de qualquer maneira, ainda que tortuosa, a serem lidas pelos próximos secretário estadual de cultura e presidente da fundação OSPA.

* * *

Tendo terminado de escrever isto, saí à cata de imagens que pudessem ilustrar o post – como sempre faço desde que Milton me disse que é melhor divulgar um post com figurinhas do que plain text. Como não quisesse particularizar nenhuma orquestra em detrimento de todas as outras, limitei, então, a busca a representações artísticas das mesmas. Não foi com nenhuma surpresa que constatei, então, que TODAS as imagens retornadas pela busca evidenciavam, em franco destaque, a figura de um maestro. Só por isso utilizei todas elas. Também por isso aceito com resignação o fato de que, para mudar tal estado de coisas, será preciso, antes, uma revolução cultural. A serviço da qual coloco, desde já, este texto.

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