on conducting (i): da escolha dos andamentos de execução de uma música

Nenhuma variável afeta tanto o caráter emocional de uma peça musical quanto o andamento em que ela é executada. Muito mais, por exemplo, do que sua tonalidade ou instrumentação. Senão, basta efetuarmos o experimento de, tendo variado deliberadamente a tonalidade, a instrumentação ou o andamento de uma mesma música, determinar quais versões melhor preservam a identidade da composição original.

Gosto de pensar que o tempo (andamento) ideal de uma música é perfeitamente análogo ao ponto exato de cozimento de uma massa, também conhecido como al dente. Se for cozida um pouco menos do que o necessário, parecerá crua. Já se cozida demais, ficará irremediavelmente mole. Qualquer cozinheiro sabe disto. Infelizmente, muitos músicos não.

Tanto isto é verdade que muitos compositores, de Beethoven em diante, tomaram o cuidado de indicar, para além de vagas expressões italianas como largo, adagio, andante, allegro ou presto, com bastante exatidão a velocidade em que suas obras deveriam ser executadas, expressa, a cada novo andamento, em pulsos por minuto. Já me referi, tempos atrás, ao descaso para com indicações metronômicas de Beethoven.

Infelizmente, muitos compositores não tiveram a mesma preocupação, deixando, na maioria das vezes, a escolha dos tempos de execução de sua música orquestral ao sabor da vontade de cada maestro no pódio.(surpreende como, ainda hoje, há quem acredite e defenda o monopólio interpretativo de regentes – mas deixemos de lado, por hora, o problema do carteiraço acadêmico, digno de atenção mais extensa)

Felizmente, toda regra tem suas exceções, e vez que outra (bem raramente, é verdade) regentes experientes dialogarão com orquestras sobre andamentos de obras seminais. Com sorte, tais discussões se nortearão exclusivamente pela busca da melhor expressão musical. Como no caso do último movimento da Bachianas Brasileiras nº 2, de Villa-Lobos, o célebre Trenzinho do Caipira, executado recentemente pela OSPA sob  direção de Nicolás Rauss. Convicto de que muitos registros fonográficos da obra iniciavam lento demais, experimentou, ao longo dos ensaios, tempos bem mais rápidos. Até ser alertado por alguns de que, embora seu pulso básico estivesse perfeito a partir de certo ponto, talvez estivesse iniciando rápido demais. Fosse outro, teria provavelmente desconsiderado a experiência da orquestra e deixado o trem desgovernado até o concerto. Mas não. Temperou sua concepção da obra com o que provavelmente lhe pareceu um consenso entre outros intérpretes. Tão rara quanto a atitude foi seu resultado, digno de nota.

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Há, no entanto, que se ressalvar um tipo de interferência da orquestra, nociva à qualidade musical, a saber, certos pactos de mediocridade que se estabelecem, por vezes na privacidade dos camarins, para que a música seja executada em tempos mais lentos por força de limitações técnicas de executantes. Cabe, pois, ao maestro, nestes casos, discernir se tempos sugeridos diferentes dos seus visam, antes, a melhor expressão musical do que à mera acomodação a limitações técnicas.

De resto, é sempre preferível uma versão no tempo certo com erros ocasionais do que outra perfeitamente correta num andamento mais… contido. Há, no entanto, quem pense diferente. Felizmente. Pois só a controvérsia justifica a coexistência de execuções repetidas dos mesmos clássicos.

Da música que se toca de graça ou por dinheiro algum; in praise of serendipity

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Há só dois tipos de música: a que não se toca por cachê algum e a que se toca até de graça. Como, por exemplo, o quarteto de Villa-Lobos, que tocamos hoje pela manhã na conferência mundial da International Society for Music Education na PUCRS. Ao anunciarmos, depois de tocar uma congada do Villani-Côrtes (que foi o primeiro pianista do programa do Jô…), o encurtamento do programa devido ao início iminente da fala de um eminente pesquisador, principal conferencista do evento, o público permaneceu, para nossa surpresa, sentado. Foi quando alguém exigiu a execução anunciada de um arranjo do Adolfo (our composer in residence, costumo chamá-lo) para o Trenzinho do Caipira. Ao que pronta e alegremente atendemos.

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Depois que tocamos, vi Adolfo conversar entusiasticamente com um australiano, membro de um quarteto de flautas doces há mais de 20 anos, que se interessou por transcrição de seu arranjo. Eu mesmo terminei conversando com uma violista filipina, responsável por um departamento de cordas em South Carolina, sobre a tão negligenciada importância da música de câmera em cenários onde a maioria aspira, unicamente, à condição de solista. Tinha números sobre o assunto. Riu da referência da aspiração ao solo como doença e gostou de saber que o problema parecia universal.

Tenho certeza que as conversas mantidas por Gualda e Leonardo não foram menos interessantes. É por essas e outras coisas que, como eu dizia, às vezes vale tanto a pena se tocar de graça

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Políticos demais (vi): das múltiplas faces do político profissional

O político profissional é um camaleão que assume aparências distintas quando em campanha eleitoral e uma vez no exercício de mandatos parlamentares. Além destas identidades públicas, possui outras – reveladas, às vezes, apenas no âmbito da privacidade de seus pares. Explicarei por partes.

Ao sair a campo em busca de votos, o político veste, na maioria das vezes, camisas claras com colarinhos desabotoados – tentando, talvez, parecer alguém que efetivamente “arregace as mangas” e almejando, com isto, uma melhor identificação com massas trabalhadoras que são, afinal, uma das poucas (senão a única) classes suficientemente numerosas para garantir o acesso, mediante pleitos eleitorais, ao andar de cima dos governos e casas legislativas. É, pois, assim, como legítimo “homem do povo”, que o político é mais frequentemente visto em convenções e encontros partidários ou peças de publicidade eleitoral.

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Se, no entanto, vencer nas urnas, invariavelmente vestirá, no exercício do mandato, ternos e gravatas semelhantes aos usados por todos com quem passará, então, a disputar visibilidade midiática nos plenários e tribunas de casas legislativas.

plenário 2Muito ganharíamos em entender o fenômeno da transição do político com identificação popular das campanhas para aquele dos plenários, protegido pelo apartheid das galerias, do qual a indumentária é mão mais do que um signo (pois não existem tradições gratuitas !). Até por que o discurso político é um prato cheio para estudiosos de semiótica e ciências da linguagem.

O que nos interessa é que os dois comportamentos acima dão conta, no entanto, tão somente de faces mais públicas do político, já que é grande o contraste entre estas imagens do homem público e outras, furtivas e improváveis, de sua vida privada. Pois não vemos em imagens de campanha candidatos vestidos como se fossem, por exemplo, a cassinos, iates, clubes de golfe ou restaurantes de luxo.

Paradoxalmente, é assim que me habituei a vê-los quando frequentemente almoço, por força de outros compromissos, num ótimo restaurante, relativamente discreto, onde líderes de um importante partido costumam se reunir. Como almoço sozinho, sou amiúde forçado a deglutir não somente a comida como o que ouço de mesas vizinhas. Em tais ocasiões, reputava como o pior gênero de conversa que poderia ter que suportar aquela entabulada por homens de negócios (quando, por um estranho senso de diversão, gosto de tentar adivinhar quem são, respectivamente, vendedor e comprador em potencial). Até que me vi forçado a ouvir o que aqueles políticos diziam.

Querem aqueles senhores que pensemos que se dedicam, quando em interlocução, predominantemente a questões de algum interesse público. Mas não. Falam, quase sempre, de marketing eleitoral. Entre outras coisas, escolhem retóricas. E publicitários. Num encontro mais ameno, com apenas três participantes, já ouvi falarem da biografia da Yeda pelo Políbio.

Por essas e outras, toda propaganda eleitoral deveria ser sumariamente abolida e substituída por um sistema de rastreamento em tempo real, acessível a todo eleitor, de tudo o que faz – e, principalmente, fala & ouve – cada candidato. Como num reality show. Um big brother com todos os candidatos começando meses antes de cada eleição. Cada conversa, seja com aliados, apoiadores, militantes ou simpatizantes, devidamente documentada. Os resultados dos pleitos seriam bem outros.

Políticos demais (v): Bem-vindos ao retorno da farsa dos debates eleitorais

Como assim “A democracia representativa e a democracia participativa não são excludentes” ? Deixaram por isso mesmo ? O cara confunde duas categorias semânticas mutuamente excludentes por definição e se dá por encerrada a conversa ? Que idiota escolheria um candidato vendo ou ouvindo esse tipo de coisa ? Temo, que, infelizmente, muitos.

Se isto já aconteceu no primeiro embate midiático encenado entre candidatos ao próximo governo do estado, devemos ter, na TV, nos próximos meses, mais manipulações semelhantes – a não ser que candidatos sejam obrigados a responder perguntas formuladas por qualquer cidadão ao invés de exclusivamente por adversários políticos. Meios para isto são abundantes e há muito conhecidos. Do domínio de qualquer nativo digital, no mínimo. Então, se tribunais eleitorais parecem ignorá-los, é só por que é assim que o andar de cima ainda espera. Até quando ?

Minhas anotações anteriores, invariavelmente de períodos pré-eleitorais, em prol da democracia direta e contra a representativa estão em meu blog anterior, em Para uma verdadeira reforma política, Pelo fim do político profissional e da propaganda eleitoral e A propósito de mais um ano eleitoral.