Da ordem de precedência entre as músicas ouvidas em um concerto

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Só não estranho que meu amigo e crítico Milton Ribeiro tenha achado o Romeu e Julieta de Prokofiev, executado depois do concerto de viola de Penderecki no último concerto da OSPA,  boboca (sic) pelo simples fato de que a obra efetivamente é boboca. Senão, ouçam-na em um contexto que inclua não apenas congêneres contemporâneos de Shostakovich ou Stravinsky, mas também a música composta bem antes por Tchaikovsky sobre o mesmo drama. De sorte que o Romeu de Prokofiev soaria perfeitamente natural e entertaining (traduzam, s’il voux plait) se ouvido antes da densa profundidade da obra de Penderecki – como sugere o crítico – mas jamais depois da mesma.

Do mesmo modo que seria impensável ouvir Mendelssohn depois de Beethoven, ou Tchaikovsky depois de Brahms, ou Cole Porter depois de Thelonius Monk, ou… enfim: é da ordem de precedência entre as coisas. Algo difícil de se explicar em termos analíticos, porém muito fácil de se constatar auditivamente.

Mas somos teimosos. Então, vamos lá.

Antes, porém, de procedermos no reconhecimento de qualquer teogonia composicional, temos por bem definir as seguintes categorias (pois é da boa ciência categorizar exaustivamente muito antes de intuir): uma música que pode ser descrita como desenvolvimental (na falta de um vocábulo português equivalente a developing (este post está recheado de expressões intraduzíveis)), oposta ao que convencionaremos chamar de música de tableaux.

A música desenvolvimental é toda aquela cuja força dramática advenha sobretudo da transformação temática e da implicação do que foi no que será ouvido. Algo que músicos costumam chamar de direção, obrigatoriamente presente em movimentos em forma de sonata, particularmente em sua seção conhecida como desenvolvimento (a terceira de suas quatro partes). Ou no início da segunda parte de um minueto.

Já a música de tableux é um termo guarda-chuva que abriga todas aquelas obras constituídas pela justaposição sucessiva de seções autônomas, fechadas em si mesmo e sem nenhuma relação de implicação obrigatória entre si. A esta categoria pertencem as formas mais repetitivas. Como observamos em movimentos de uma suíte. Ou, mais recentemente, em muita música incidental para cinema ou teatro. Pertencem, portanto, à categoria música de tableaux os quadros de uma exposição de Mussorgsky – de cujo nome até nos apropriamos para designá-la – bem como muita música composta para ballet. Tais como o Romeu e Julieta de Prokofiev.

Complicado ? Vejamos, então, assim: a música desenvolvimental, cuja forma arquetípica é a sonata, é toda aquela que soa incompleta até que seja escutado seu último compasso; ao passo que, na música de tableaux, seções são facultativas e intercambiáveis. Ou ainda: música desenvolvimental é toda aquela que demanda toda a atenção do ouvinte, enquanto a de tableaux pode ser ouvida enquanto se faz outra coisa.

Sinfonistas do século 19 em diante enfrentavam o dilema entre compor obras mais longas fortemente direcionais (como primeiros movimentos de sinfonias) ou, de outro lado, peças constituídas pela justaposição de partes fechadas que possam ser ouvidas, cada uma delas, como peças autônomas.

Declinamos aqui, em nome da concisão, de comentar e/ou classificar afastamentos da tonalidade clássica como os empreendidos por Debussy ou, ainda, os célebres tableaux da Rússia pagã tecidos por Stravinsky na Sagração da Primavera.

Então, da mesma forma que não é recomendável tocar Mendelssohn (ou qualquer outra coisa) depois de Brahms, Mahler ou Nielsen, também não é nada aconselhável se programar a execução de qualquer música de tableaux para depois que se tenha ouvido, num mesmo concerto, qualquer obra cuja construção evidencie, em primeiro plano, texturas eminentemente desenvolvimentais. Como o concerto de viola de Penderecki.

 

batman e robin proko x shosta

 

 * * *

 

PS: a formulação mais ampla e brilhante do processo implícito na composição da música acima descrita como desenvolvimental encontra-se no volume Brahms and the Principle of Developing Variation, de Walter Frisch (University of California Press, 1990).

6 respostas para “Da ordem de precedência entre as músicas ouvidas em um concerto”

  1. Legal tudo que você disse.

    Só gostaria de pontuar que é possível ouvir música “desenvolvimental” enquanto se faz outra coisa e sem atinar para nada da lógica de sua forma, apenas ouvindo a “beleza” dos sons. Eu mesmo faço isso a maioria das vezes e, apesar de dever ser uma pessoa “educada” musicalmente pela minha profissão, tenho dificuldade em seguir este tipo de raciocínio apenas auditivamente.

    Ou seja, as intenções desenvolvimentais são evidentes pra mim principalmente quando estou com a partitura na frente. E também acho mais difícil prestar atenção nisso num concerto do que numa gravação.

    Já eu tenderia a dizer que Prokofiev não deve vir depois de Penderecki porque imagino que a harmonia do polonês seja bem mais dissonante e difícil. Ou talvez seja bom colocá-los nesta ordem justamente por isso.

    Deve ter sido bem legal o concerto…

    1. Concordo, André. Já fiz muitas coisas ao som dos primeiros movimentos da Eroica e da Espansiva, e também acho mais complicado perceber forma em concertos do que em gravações – quando podemos lançar mão da recursividade.

      Obrigado, outra vez, por agregares tanto nos comentários que deixas por aqui.

  2. Trecho de um velho post sobre a Rádio da Universidade.
    (…)
    Mas os méritos da rádio ultrapassam em muito seus problemas e foi ali, com o compositor e ex-diretor da emissora Flavio Oliveira e com Rubem Prates, que aprendi que uma programação não era sorteio ou livre-associação. É notável como eles conseguiam ligar inteligentemente cada música à próxima, fosse por seu tema, por sua evolução na história da música ou pela pura sensibilidade desses dois conhecedores, que viam parentescos em coisas aparentemente díspares. Aprendi na prática como, por exemplo, o estilo de composição de Johann Christian Bach foi receber tratamento de grande música apenas com Mozart e que havia várias formas de se avançar na grande árvore da história de música. Explico: pela manhã, a rádio iniciava por um compositor de música antiga ou barroco, depois ia para um clássico, daí para um romântico, e assim por diante, nos mostrando sempre os caminhos e os diálogos que um compositor travava com seu antecessor. Foi a maior das escolas e ali aprendi as muitas derivações que cada compositor passava a seus sucessores e aquilo, após milhares (mesmo!) de dias como ouvinte, tornou natural a leitura das histórias da música que fiz depois. De forma misteriosa, estranha e certamente gloriosa, aqueles dois homens silenciosos já tinham me ensinado tudo, colocando as coisas na ordem certa para que meu ouvido entendesse.
    (…)
    E há o notável Who`s next da Gramophone. Vou escrever a respeito.

  3. “Queridos, a musica fora do contexto é como por roupa de banho e sair pra passear no inverno”…nao existe musica ruim, por mais Horrível que ela te pareça se estiver no lugar certo…ja ficou boa, um pagode num velorio…pode ate ser muito bom…encurtando as viagens vou direto ao ponto…foi perfeito e maravilhoso a Ordem do programa …nao sou dono da verdade mais que ninguem, mas levo em conta que os concertos da OSPA sao para um numero bem maior de pessoas que as que escrevem aqui…sendo assim o publico se quer conhece esse “penderasta” (rs) muitos nao sabiam nem que romeu e julieta, era musica…Nunca ouviram musica tao estranha como o penderek…forte, terminamos de tocar e parecia que eu havia comido um pastel de pedra. Musica linda, porem indigesta para a maioria…nama mais agradavel que depois de comer uma comida indigesta se tome um cha, ou um bom café, que se depure a alma e o corpo com o Prokofiev afinal , romeu e julieta é goibada com queijo! Desculpa mas sair do teatro com panderek nao me agrada, a vida pode ser mais leve, o que eu desejo para mim, desejo aos outros! um abraço

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