Duas coisas das quais não falarei ainda e um CD providencial

“Tens movimentado teu blog ?”

Com estas palavras Milton gentilmente me cutucou acerca do compromisso por mim assumido e dificilmente cumprido de atualizar o impromptu, agora hospedado no Sul 21, ao menos uma vez por semana.

Há muito quero falar da fragilidade do discurso acadêmico, mas devo ter melhores referências antes de mexer nesse vespeiro. Também não é de hoje que acompanho a Loudness War e, mais especificamente, o Dynamic Range Day – cujas implicações na economia da música, seriam, no entanto, demasiado complexas para as dimensões convencionais de um post.

Foi, assim, neste brete que tive a felicidade de receber nesta semana, das mãos de Fábio Mentz, Sonhos de Nascimento, o novo CD de Bianca Gismonti com seu parceiro e marido Julio “Gopala” Falavigna para o selo Biscoito Fino. Abro parêntesis. Quando da extinção de minha pequena utopia fonográfica, a Antares Música, Fábio pontificou, em tom de consolo: “ao menos reuniste uma discoteca invejável !”. Com justa razão. Pois muito embora o malfadado empreendimento só me tenha trazido despesas sem qualquer lucro financeiro, acabei amealhando uma coleção de discos excepcionais, a maioria deles gravado e/ou produzido por amigos, os quais jamais teria conseguido adquirir simplesmente indo ao mercado. De sorte que, tendo comprado CDs sistematicamente pela última vez lá pelos idos dos anos 90, acabei sendo presenteado com quase tudo o que ouço desde então. Ao ponto de (fecho parêntesis) ter um certo receio de ouvir todo disco novo que me cai nas mãos tão somente pelo medo de não gostar.

Abordei, assim, o novo disco de Bianca com a maior das cautelas – totalmente, no entanto, desnecessária, posto que Sonhos de Nascimentos é um daqueles raros discos que se deixa ouvir do início ao fim sem que se sinta a menor coceira de pular certas faixas. Pois Bianca ostensivamente desconhece aquilo que é comumente designado pela mídia e pela indústria como “faixas de trabalho”.

Mas avancemos por partes.

A mixagem do disco é assinada por Renato Alsher que é, por si, um capítulo a parte. Filho de Egon (outro técnico excepcional, fundador do lendário estúdio TecAudio, originalmente Egér, em Porto Alegre), Renato logo se estabeleceu como referência no Rio de Janeiro, onde acabou angariando a confiança de Marisa Monte e outros figurões. Não bastasse isto, o disco foi gravado por Alscher, meu amigo Fábio Mentz e outros e masterizado por meu outro amigo Marcos Abreu. Entendem agora meu receio de conhecer discos assim ? Sem a menor necessidade neste caso, devo acrescentar. But so much for the sound.

Os parceiros de Bianca em seu trio também merecem destaque. Começando pelo genial baterista e percussionista Julio Falavigna, mestre de yoga que adotou a designação de Gopala. Que depois de anos de vida monástica na Índia descobriu que sua missão era mais ao ocidente. Tendo seu próprio centro de yoga, foi também responsável pela fundação de ashrams em Montreal e Montevideo, inclusive. Ao longo de suas peregrinações, acumulou ampla experiência em música indiana clássica e popular, traduzida em parcerias que mantém com Sachdev e Hanuman, entre outros. É, dentre os músicos que conheço, o único capaz de estar sempre em plena forma sem qualquer necessidade de prática diária. Sério. Só não me perguntem como. Gosto de pensar que isto se deva a seu profundo domínio sobre a arte da meditação.

O contrabaixista Yuri Popoff é a outra peça fundamental do trio de Bianca Gismonti. Intenso e econômico, seu baixo fretless empresta ao conjunto as cores e a plasticidade de um Pastorius. Há quem diga que exagero. Não acho.

A matriz referencial. Como qualquer vulto da música brasileira instrumental, Bianca bebeu de Villa-Lobos. Por intermédio de seu pai Egberto, no caso. E ainda que muitos vejam talvez aqui um problema, é preciso reconhecer que Bianca não parece sentir sobre seus ombros qualquer peso desta herança colossal. Noutras palavras: se em Maria Rita ouvimos perfeitamente Elis, em Sonhos de Nascimento não estamos de modo algum a ouvir meramente a filha do Gismonti. Que lhe rende, aliás, belíssima e explícita homenagem logo na faixa abre-alas, Festa no Carmo (além de uma extensa citação do Nó Caipira aos 4’02” de Entre Amigos), para, depois disso, desfilar mais dez composições altamente contrastantes entre si em caráter, métrica e textura. Só entre as quatro primeiras músicas já ouvimos instigantes compassos de 5 e 7 tempos (!). De brasileiríssimos xaxados e baiões a uma improvável salsa, passando mesmo por uma passacaglia (como sempre em Villa). Há também canções incantáveis (a não ser por ela mesma; I must return to odd voices some day) e, ao apagar das luzes, uma parceria com ninguém menos do que Nana Vasconcellos.

Com tudo isso, o que mais me encanta no disco é sua identidade composicional, expressão que uso para designar certa sofisticação de ofício presente em todos os detalhes mas que acaba se traduzindo principalmente em clareza formal e intensidade dramática. Coisas como, por exemplo, a brincadeira com repetições assimétricas e comprimentos de frase em Festa no Carmo ou, ainda, a extensa seção de “musica desenvolvimental” (vide o segundo post anterior a este) que inicia aos 1’48” da mesma música. Outro toque de mestre é a longa citação, villa-lobiana, que há de Nó Caipira aos 4’02” de Entre Amigos. E por aí vai.

Não há novidade alguma no fato de que muitos protagonistas da indústria musical dependem de um ou mais compositores de retaguarda para trilhar carreiras na indústria do disco e do espetáculo. Há, no entanto, poucos capazes de gravar álbuns inteiros interessantes apenas com repertório próprio. Se, além disto, este autor for uma mulher, estaremos diante de algo genuinamente raro. Notável, até. Mas não pensem, com isto, que Bianca precise, como compositora, do abrigo ou proteção de qualquer minoria na qual circunstancialmente se enquadre.

Sonhos de Nascimento

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A documentação sobre o trabalho ainda é escassa no youtube – problema que Gopala promete sanar em breve por meio de seu canal Sonhos de Nascimento. Enquanto isto não acontece, fiquem com uma versão de sua faixa de abertura registrada ao vivo no show de lançamento.

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Frustrado, quase desisti de publicar este post depois de tentar em vão, por vários dias, subir a música que lhe serve de ilustração ao soundcloud. Só hoje descobri que a plataforma bloqueia automaticamente faixas de CDs de selos não nanicos. Recorri, então, ao youtube para finalmente disponibilizar os links necessários para que o texto acima faça algum sentido. Aproveitem, então, enquanto não me bloqueiam por lá também. Francamente, não entendo esse tipo de proteção ao direito autoral. Ora bolas, se tenho que tocar música para recomendar um disco, é mais do que óbvio que espero que o leitor queira ouvi-lo com toda a qualidade de áudio que mídias sólidas como o CD ainda têm a oferecer de vantagem sobre arquivos em mp3 ou videos no youtube.

Minding audiences (i)

Hoje pela manhã, durante um concerto da OSPA para plateias escolares, era notória a pequeníssima quantidade de tablets e smartphones portados pela audiência se comparada ao grande número de aparelhos ostentados pelo público presente ao mesmo programa executado anteriormente (refletindo, com certeza, o enorme contraste entre as condições sócio-econômicas das comunidades atendidas pelas escolas em ambos os casos). Qual das duas plateias melhor representa nosso público ?

audience 1Como se não bastasse, ao deixar a recinto do concerto vi atravessarem a rua à minha frente os tais escolares tabletless e Celso Loureiro Chaves. Ou seja: um abismo de conhecimento entre os primeiros e o último. Então, ainda mais confuso, quis saber, por um instante, como o último programaria concertos didáticos para os primeiros.

Da ordem de precedência entre as músicas ouvidas em um concerto

Só não estranho que meu amigo e crítico Milton Ribeiro tenha achado o Romeu e Julieta de Prokofiev, executado depois do concerto de viola de Penderecki no último concerto da OSPA,  boboca (sic) pelo simples fato de que a obra efetivamente é boboca. Senão, ouçam-na em um contexto que inclua não apenas congêneres contemporâneos de Shostakovich ou Stravinsky, mas também a música composta bem antes por Tchaikovsky sobre o mesmo drama. De sorte que o Romeu de Prokofiev soaria perfeitamente natural e entertaining (traduzam, s’il voux plait) se ouvido antes da densa profundidade da obra de Penderecki – como sugere o crítico – mas jamais depois da mesma.

Do mesmo modo que seria impensável ouvir Mendelssohn depois de Beethoven, ou Tchaikovsky depois de Brahms, ou Cole Porter depois de Thelonius Monk, ou… enfim: é da ordem de precedência entre as coisas. Algo difícil de se explicar em termos analíticos, porém muito fácil de se constatar auditivamente.

Mas somos teimosos. Então, vamos lá.

Antes, porém, de procedermos no reconhecimento de qualquer teogonia composicional, temos por bem definir as seguintes categorias (pois é da boa ciência categorizar exaustivamente muito antes de intuir): uma música que pode ser descrita como desenvolvimental (na falta de um vocábulo português equivalente a developing (este post está recheado de expressões intraduzíveis)), oposta ao que convencionaremos chamar de música de tableaux.

A música desenvolvimental é toda aquela cuja força dramática advenha sobretudo da transformação temática e da implicação do que foi no que será ouvido. Algo que músicos costumam chamar de direção, obrigatoriamente presente em movimentos em forma de sonata, particularmente em sua seção conhecida como desenvolvimento (a terceira de suas quatro partes). Ou no início da segunda parte de um minueto.

Já a música de tableux é um termo guarda-chuva que abriga todas aquelas obras constituídas pela justaposição sucessiva de seções autônomas, fechadas em si mesmo e sem nenhuma relação de implicação obrigatória entre si. A esta categoria pertencem as formas mais repetitivas. Como observamos em movimentos de uma suíte. Ou, mais recentemente, em muita música incidental para cinema ou teatro. Pertencem, portanto, à categoria música de tableaux os quadros de uma exposição de Mussorgsky – de cujo nome até nos apropriamos para designá-la – bem como muita música composta para ballet. Tais como o Romeu e Julieta de Prokofiev.

Complicado ? Vejamos, então, assim: a música desenvolvimental, cuja forma arquetípica é a sonata, é toda aquela que soa incompleta até que seja escutado seu último compasso; ao passo que, na música de tableaux, seções são facultativas e intercambiáveis. Ou ainda: música desenvolvimental é toda aquela que demanda toda a atenção do ouvinte, enquanto a de tableaux pode ser ouvida enquanto se faz outra coisa.

Sinfonistas do século 19 em diante enfrentavam o dilema entre compor obras mais longas fortemente direcionais (como primeiros movimentos de sinfonias) ou, de outro lado, peças constituídas pela justaposição de partes fechadas que possam ser ouvidas, cada uma delas, como peças autônomas.

Declinamos aqui, em nome da concisão, de comentar e/ou classificar afastamentos da tonalidade clássica como os empreendidos por Debussy ou, ainda, os célebres tableaux da Rússia pagã tecidos por Stravinsky na Sagração da Primavera.

Então, da mesma forma que não é recomendável tocar Mendelssohn (ou qualquer outra coisa) depois de Brahms, Mahler ou Nielsen, também não é nada aconselhável se programar a execução de qualquer música de tableaux para depois que se tenha ouvido, num mesmo concerto, qualquer obra cuja construção evidencie, em primeiro plano, texturas eminentemente desenvolvimentais. Como o concerto de viola de Penderecki.

 

batman e robin proko x shosta

 

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PS: a formulação mais ampla e brilhante do processo implícito na composição da música acima descrita como desenvolvimental encontra-se no volume Brahms and the Principle of Developing Variation, de Walter Frisch (University of California Press, 1990).