Sobre apropriação cultural, propriedade intelectual, contrafações e Nina Paley

turbantes 1Um tema que infestou a internet brasileira, na última semana, foi o da apropriação cultural. Falo do caso da menina confrontada no metro por usar um turbante para ocultar ter perdido os cabelos ao se submeter a um tratamento quimioterápico, sob a alegação de haver se apropriado indevidamente de um signo tido como privativo de um grupo étnico. No caso, o turbante. Uma imputação que pode ser mais ou menos formulada como “você não é negro, portanto não pode usar turbantes”. Como se só havaianos pudessem usar sarongues, ou baianos parangolés. Saudada por uns, atacada por outros, a apropriação cultural acabou servindo de bandeira a muita gente.

Ora, bens culturais não são entidades controláveis. E peças de indumentária, saudadas ou proscritas, tão somente sinalizam, na maioria das vezes, as normas, tácitas ou explícitas, de cada contexto para a exibição ou ocultação de partes do corpo feminino, tais como pernas, barrigas, seios, face e, agora, também o couro cabeludo – ou mesmo, como nos casos de saris, burkas ou kimonos, suas próprias formas. Tais peças de vestuário atravessam assim, na maioria das vezes, épocas, fronteiras e grupos sociais imunes a toda reivindicação de propriedade por parte de grupos que as elegem como bandeiras.

Vejam, por exemplo, o caso do jeans. Um tecido resistente e barato, desenvolvido inicialmente para ser usado em tarefas rudes e mal remuneradas, como as de operários industriais e trabalhadores rurais; o qual logo se tornou, no entanto, muito mais uma propriedade de jovens querendo denotar alguma rebeldia, contestação, desdém por normas e valores vigentes ou, muitas vezes, não mais do que um certo descolamento; do que, propriamente, um signo de pertencimento a qualquer classe trabalhadora (é nessas horas que mais me arrependo de jamais ter concluído a leitura de A Criação da Juventude, de Jon Savage).

jeans 1Por mais que esteja, no entanto, acostumado a velhos de jeans, não  canso de me divertir com celebridades como Erasmo Carlos que, como tantos roqueiros que já passaram da validade mas teimam em excursionar pelo planeta com em bandas cover ou geriátricas, teimam em ainda se apresentar fantasiados de jovens em calças e jaquetas jeans.

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Ainda no ano passado, tivemos a calorosa polêmica sobre alunas do Colégio Anchieta que reivindicavam o direito de irem às aulas vestindo shortinhos. Queriam, noutras palavras, liberdade para se vestirem como quisessem. Nada mais justo. Só que a coisa assumiu matizes tão fortes quanto inesperados, com diversos campos ideológicos disputando as mentes e, principalmente, os corações das meninas – algumas das quais até alçadas imediatamente a personalidades midiáticas, com direito a entrevistas e depoimentos de pais. Repentinamente, não se ouviu falar mais nada sobre o assunto.

Transcorrido já cerca de um ano, fui surpreendido ontem, ao passar diante do mesmo colégio durante o primeiro dia letivo de 2017, por uma espessa (e perigosa, porquanto dificultava tremendamente a visão em uma via pública diante de uma escola) fumaça, proveniente de sinalizadores, acho que náuticos. Aqueles mesmo. Do mesmo tipo que os usados em estádios por membros de torcidas organizadas como aquelas cujas brigas resultaram na morte de um torcedor no último fim de semana. Do mesmo tipo, também, que aquele lançado por torcedores brasileiros posteriormente detidos por autoridades estrangeiras por terem causado a morte, pelo disparo de um sinalizador, de um torcedor local. Ou, ainda, do mesmo tipo dos que, lançados por músicos que lá se apresentavam, causaram o incêndio na boate Kiss.

Mas voltemos aos portões do Anchieta. No meio da cortina de fumaça deixada pelos artefatos incandescentes, surge diante de meu carro (precisei  brecar bruscamente para não lhe atropelar) um jovem gesticulando como um primata e gritando palavras de ordem como “Terceirão ! Ainda ouvirão falar de nós !”. Ainda não entendi o que comemorava. Só fiquei a pensar que,  no mesmo lugar e hora em que, um ano antes, alunas clamavam pela liberdade de mostrarem as próprias pernas; o que se via ontem na calçada em frente ao Anchieta eram, além de meninos que empunhavam sinalizadores, também meninas vestidas, em sua imensa maioria, com camisetas pretas e, pasmem, shortinhos de jeans. Usados, os últimos, praticamente como um uniforme. Triste degradação de um signo que já serviu a manifestações bem mais dignas – verdadeira lição sobre o perigo da apropriação, por qualquer luta, de certos símbolos.

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Resisti, assim, por vários dias a me enfronhar numa peleia que desde o início julguei, mais do que vazia, natimorta – na qual muitas vozes bem intencionadas, ainda assim, ingenuamente se perderam. Se, com tudo isto, ainda venho ao editor do blog movido por esta questão (a saber, a do caráter benigno ou maligno da apropriação cultural), é só para lembrar a meus seis ou sete leitores a importância da mesma – sem a qual, é correto se dizer, nenhum progresso técnico ou artístico seria possível.

Não quero (nem poderia) ser enciclopédico (comprehensive era um exame que me causava pavor; tinha-o mesmo como para ratos de biblioteca) enumerando casos mais emblemáticos de apropriação cultural. Até por que a lista de exemplos seria infindável. Melhor se referir então, aqui, a somente um deles. Tem a ver com música. Mais “especificamente”, com processos derivativos em música (como aquele, trazido por um um comentarista, da influência do jazz na bossa nova). Escrevi “especificamente” assim, entre aspas, por se tratar de algo que, de específico, nada tem. Ao contrário, é um processo inerente à própria noção de jazz. Tanto, talvez, como a improvisação. Falamos, como muitos já podem ter antecipado, da contrafação.

Se tivesse que explicar o que é, em jazz, uma contrafação (o termo é, por certo, polissêmico, variando de jargão para jargão) diria se tratar da apropriação, por um improvisador, da sequência harmônica de uma música pré existente (nada muito diferente, em essência, da composição de novas vozes sobre um baixo dado (processo, de resto, tão ou mais antigo do que a própria escrita musical)). Sempre foi uma prática recorrente entre compositores de jazz criarem novas linhas, mais fragmentadas ou velozes, para serem tocadas sobre a execução da linha harmônica de outra música. Contrafações foram largamente popularizados por ases da era do bebop – vindo, mesmo, a definir o próprio gênero.

Numa varredura de muito jazz tocado e gravado nestes anos, há uma quantidade enorme de obras compostas sob a premissa acima (i.e., sobre a harmonia de outra música, pré existente). A lista mais abrangente de contrafações (no sentido jazzístico, se referindo à apropriação de “temas harmônicos” de uma música para outra) que já vi me foi trazida à atenção por Julio Herrlein. Ouvi que a boa netiqueta recomenda jamais postar links se referindo a páginas da wikipedia. Discordo ! E se for de lá uma página virtuosa que a maioria, de outra forma, jamais descobriria ?

Em alguns contextos, contratos sociais demandam o uso de uniformes. Escolas, religiões, serviços públicos (de garis a juízes), forças armadas e ambientes que presumem o uso de terno e gravata são dos mais importantes.

Mais sutil (e, portanto, preocupante) é a coerção tácita, explicita ou secretamente acordada entre os participantes de toda organização. Como, por exemplo, em orquestra sinfônicas. Naquela em que toco, são bem conhecidos os casos de um maestro que proibiu o uso, em ensaios, de bermudas (devia ter, sei lá, um problema com joelhos…) e o de um líder de naipe que exigia daqueles sob sua responsabilidade o uso, em ensaios, de sapatos. No dia seguinte àquele em que se aposentou, TODOS os integrante de seu naipe foram ao ensaio de tênis. Hoje, se discute a propriedade de frequentar ensaios de chinelos (leia-se, mostrando as unhas dos pés). Evoluímos, como podem notar.

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Sempre que ouço falar em apropriação cultural, me vem à mente o lindo filme de Nina Paley All Creative Work is Derivative. Descobri o genial cinema de animação de Paley por meio de matérias do BrainPickings e da TechDirt (que saudades do twitter !!!). Seus curtas de animação costumam ser obras primas no gênero. Como nos já vistos This Land is Mine e o recém descoberto, marcado para ver, Sita Sings The Blues que conheci hoje. Também foi hoje que descobri, procurando pelos filmes acima, uma fala espetacular da animadora numa rodada de conferências TED. O tema que abordou: legislação de direitos autorais. O título de sua palestra, Copyright is Brain Damage, não poderia dizer melhor a que veio.

 

Respeitável Público, de Henrique Schneider, e considerações sobre o problema da leitura numa época de escrita excessiva

Livros. Ontem, tentei explicar a meus filhos que um dos maiores problemas de nossa era de excesso de conteúdo é que, ao contrário de como costumava ser logo antes do surgimento da internet – quando, sob a  hegemonia dos broadcasting media, tínhamos  uma coleção mais ou menos delimitada suficientemente ampla de textos máximos cuja totalidade representava tacitamente tudo o que de mais notável já fora produzido pelo espírito humano; vivemos hoje numa época em que a quantidade de textos disponíveis se multiplicou exponencialmente, de tal modo que é impossível a qualquer um ler, ao longo de uma vida, tudo o que a humanidade escreveu de importante até agora.

Então, se antes, com alguma dedicação, se podia, ao longo de toda uma vida, ler quase tudo o que de mais sublime a humanidade já produziu; hoje, seguramente, não. Até por que, para começar, teríamos enorme dificuldade em discriminar o essencial do excessivo numa era de expansão exacerbada da autoria (age of nearly universal authorship, significando que nunca antes tantos escreveram tanto).

Foi quando Astrid me disse que um leitor dedicado é capaz de ler um livro por dia; um profissional (i.e., que divide a leitura com outras ocupações), um a cada 3 ou 4 dias.

Então, podemos grosseiramente afirmar que lemos, na maioria das vezes, mais ou menos na mesma “velocidade lógica” em que vemos um filme, ou seja, na medida em que, em nome da “apropriação” de uma narrativa, suportamos frustrar nossa expectativa de um desfecho dramático por uma ou duas horas. Ou, no caso da música (sem entrar na controversa seara da complexidade harmônica – nem que só para não despertar os ânimos mais exaltados), de formas mais ambiciosas. Na prática, falo da duração da maior forma não repetida que é ouvida em cada música. Naquela chamada de “popular” (jazz, inclusive), se costuma ter como extraordinária qualquer coisa com 5 ou mais minutos de duração (“a 5+, 6+, 7+ or longer track”); na “clássica” ou “erudita”, nada que não tenha lá seus 12 ou 15 minutos. Coisas de 3 minutos ou menos ? Desconfiem sempre. Tal preconceito, que orgulhosamente professo, tem me ajudado a discriminar muito lixo dentre tudo o que há, na era de excesso em que estamos, para ser ouvido.

Em todos os casos, a leitura de um livro implica num tipo de foco mais prolongado. Uma sorte de atenção praticamente desconhecida na cultura mobile, cujos feeds se atualizam à razão de até muitas vezes por minuto.

(já devo ter dito aqui, mais de uma vez, que, no contexto atual, Bakhtin de esbaldaria com sua teoria do discurso articulado pela alternância de falantes)

Distopias com a proscrição de livros existem às pencas. As melhores que conheço são as novelas Admirável mundo novo, de Huxley,  e Fahrenheit 451, de Bradbury, filmada por Truffaut. Enquanto na primeira o banimento da leitura se dá pelo condicionamento, na última se deve a uma proibição. Por ser, de algum modo, menos violento (não, havendo, por exemplo, a poderosa figura da queima de livros), o primeiro é muito mais perverso e eficaz do que o segundo.

Quem me conhece a mais tempo sabe que, por volta de quando tinha 30 anos, me tornei um “leitor de catálogos e manuais”. A alcunha, criada pelo Milton, não poderia ser mais precisa, pois venho lendo, por décadas, tão somente textos longos referentes a alguma preocupação bem específica de índole técnica ou acadêmica. Com isto, os poucos textos de ficção que li nos últimos 20 ou 30 anos foram quase sempre presentes de amigos que escrevem bem. Muito bem. Tenho sorte quanto a isto. Então, costumo ler (talvez, sei lá, por medo de não saber o que dizer ao lhes reencontrar), contos ou novelas que me chegam carinhosamente às mãos (ou à vistas, se quiserem) como presentes de seus autores. Como Respeitável Público, de Henrique Schneider (Dublinense, 2015).

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respeitável público 1Lendo Respeitável Público, se descobre rapidamente por que seu autor já teve ao menos uma história roteirizada para o cinema. É que suas descrições de lugares, ações e personagens grudam na memória como as melhores cenas de um filme. Os diálogos são, mais do que precisos, cirúrgicos, desprovidos de quaisquer acessórios. Dignos, no mínimo, de bons dramaturgos.

Li em poucos dias (mais, é claro, do que nas poucas horas levadas por Astrid para devorá-lo). Livros e filmes, de assimilação lenta por definição, tem que ter, como bons pratos, um certo after taste. Há, na novela de Schneider, twists (nós) dramáticos claros, de diferentes intensidades, ao longo de toda a narrativa, guarnecidos por capítulos adjacentes como cenas de um filme bem montado. Como em muita boa música (mostly jazz & late romantic) e, de resto, em toda boa literatura policial, o uso inteligente das cadências deceptivas. Tanto que arrisco até o palpite de que tais injunções foram planejadas pelo autor, como em algumas composições de Beethoven, bem antes do próprio detalhamento do texto. Como, no entanto, não queremos oferecer spoilers, é suficiente por hora dizer que o principal contraste de tensão dramática existente entre dois pontos da obra, para os quais toda a narrativa converge, é entre os acontecimentos (ou cadências deceptivas, se quiserem) que culminam, respectivamente, nas páginas 110 e 126 do volume. Curioso ? Leia o livro, então !

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Ainda que irrelevante para a atribuição de qualidade ao teor do livro acima resenhado, o que será dito em seguida é, a meu ver (no second meanings, please !), de crucial importância para garantir alguma audiência a tudo o que ainda é impresso em papel. Tem a ver com tipografia. Parece pouco importante ? Vamos, então, a alguns fatos.

qualquer texto impresso é lido com mais facilidade (e, portanto, maior prazer) quanto maior for a fonte tipográfica utilizada na composição do volume;

a iluminação, tanto de telas como de papéis impressos, também contribui, em razão direta, para a legibilidade de um texto;

indivíduos com mais idade tendem a ser mais preparados e/ou predispostos para a leitura do aqueles mais jovens, notadamente nativos digitais; tragicamente, no entanto, a visão humana se deteriora com o avançar do tempo.

Em razão disto, o tamanho e o contraste de uma fonte tipográfica são fatores cruciais para a maior ou menor leitura de qualquer coisa que se imprima. Especialmente no caso de livros, que demandam uma atenção mais persistente. Os quais, por cansarem mais a vista em razão da demora na leitura, demandam tipos visualmente mais confortáveis.

Por que tudo isto ? Tão somente para sublinhar que, no caso do volume que acabo de ler da Dublinense, contribuiu para a manutenção de meu propósito de enfrentar o (ótimo) texto até o final, tanto quanto sua qualidade intrínseca, também o fato de ter sido impresso num ótimo papel com letras suficientemente grandes e “pesadas” – como se impressas em negrito (ou bold) para vistas mais cansadas. Tipos serifados, como Times Roman, também são bem mais legíveis, quando impressos em papel, do que, por exemplo, o que utilizamos aqui.

Editores: jamais subestimem os benefícios de uma boa composição tipográfica !

Pois não devo ser o único a padecer de pouca paciência com fontes rarefeitas e tipos pequenos demais. Agora mesmo, sofro com as minúsculas letras de uma outrossim belíssima edição da Globo de Admirável mundo novo – lacuna de leitura à qual prazeirosamente hora me dedico. Para melhor ler Amusing ourselves to death, de Postman, assim que  chegar.

Comparação entre os tipos utilizados em volumes publicados pela Dublinense (acima) e pela Globo (abaixo)

Por que gosto de assistir ao jornalismo da Globo

Jornal Nacional 2Cada vez mais me deparo com postagens incitando a um boicote à Rede Globo. Acho isto auspicioso. Só que, enquanto não se unirem forças suficientes para evitar a renovação da concessão da emissora (até quando vai ?), continuarei achando bem didático assistir, sempre que possível, a seus programas, particularmente aqueles ditos “jornalísticos”, neles incluída sua revista semanal, o Fantástico, espécie de carro chefe a evidenciar toda sua linha editorial.

Cultivo o hábito de assistir aleatoriamente a estes programas da Globo por acreditar que a audiência crítica a sua editoria jornalística propicia um olhar privilegiado sobre a engenhosa manipulação exercida sobre o que lá é veiculado como notícia. É, no entanto, ingênuo esperar que esta manipulação seja denunciada no calculado discurso de seus âncoras – que são, de resto, muitas vezes também grandes atores. Para tanto, existem as redes sociais.

Senão, vejamos. Na última segunda-feira, pipocaram no facebook exortações (inclusive da OAB) à ampla divulgação, pela ministra-chefe do STF, do teor, ainda mantido sob sigilo, da delação premiada da Odebrecht. Também conhecida, por seu presumível potencial de não deixar pedra sobre pedra, como a Delação do Fim do Mundo. Enquanto isto, no Jornal Nacional do mesmo dia a prisão de Eike Batista foi mais amplamente coberta – celebrada, até – do que a bombástica delação, a qual foi apenas laconicamente (para não dizer discretamente) abordada somente mais próximo ao final do noticiário, em sua segunda metade.

Por que a espetacularização exacerbada da prisão de Eike Batista (verdadeira produção televisiva, como um reality show) pelo conglomerado dos Marinho de modo algum me surpreende ? Ora, por que seu desfecho dramático já havia sido exaustivamente antecipado, primeiro no Jornal da Globo da última sexta-feira e, depois, no Fantástico do último domingo, em atualizações ao vivo diretamente do aeroporto em que o milionário esperava para embarcar voluntariamente de volta ao Brasil, onde era esperado para ser preso em cela comum. Exatamente como naquelas espiadinhas na casa do Big Brother inseridas durante toda a programação.

De volta ao problema da delação da Odebrecht, dirão os mais cínicos defensores do estado de direito que Carmen Lúcia agiu corretamente ao manter o conteúdo da delação por ela homologada sob sigilo. Ao menos me pareceu este o tom editorial no Jornal Nacional da última segunda, quando algum entrevistado elogiou – contra todo o coro a clamar nas redes pela divulgação dos nomes dos políticos sob suspeita – a opção da ministra por não divulgar o teor da delação (i.e., os nomes de políticos acusados de receberem propinas). A reforçar essa suspeita, se agrega o o fato de que, naquela mesma edição do noticioso, nomes de quaisquer suspeitos sequer foram mencionados.

Tudo bem que não se queira promover caçadas a bruxas, nem tampouco induzir a opinião pública a quaisquer condenações prévias (linchamentos, se quiserem) até que provas irrefutáveis tenham sido levantadas e os indiciados julgados, com direito a ampla defesa. Mas daí a negar a jornalistas a possibilidade de realização de investigações independentes e, pior, permitir a suspeitos de acusações gravíssimas a permanência no exercício de funções públicas (hoje dedicados quase exclusivamente ao desmonte do estado e à proteção da exploração empresarial) é de uma parcialidade descarada, perceptível à inteligência mais elementar.

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O colapso de uma hierarquia de relevância entre notícias, até então tacitamente implícita entre proprietários e usuários de meios de comunicação, é o indício mais notório da manipulação sofrida pelo conteúdo veiculado em programas da Rede Globo. Duas semanas atrás, comentei no facebook que especulações sobre a iminente posse de Trump (uma não notícia por definição, portanto) ocuparam mais tempo em noticiários da emissora do que o bombardeio por engano, por forças governamentais, de um acampamento de refugiados na Nigéria que deixou mais de 50 mortos. E numa semana em que se acumularam grandes suspeitas sobre Temer, a principal matéria do Fantástico foi, pasmem, sobre pizza. Sugestivo, não ?

Já a principal matéria do programa no último domingo foi sobre um teste realizado com medicamentos genéricos. Números precisos, procedimentos rigorosos. Só faltou dizer quem patrocinou o estudo, que não foi barato. Pelo alarde, confesso que esperava resultados bem piores. Pois os únicos desvios encontrados (ou seja, dentro de uma margem de 10%, que deveria ser de apenas de 5%) foram insuficientes para causar qualquer alarme. Como até “especialistas” entrevistados reconheceram. Toma força, com isto, a tese de que uma das principais funções de matérias assim seja a de criar uma cortina de fumaça sobre aquilo que não se quer noticiar. E para não dizer que a matéria me foi absolutamente inútil, fiquei com uma pulga atrás da orelha, querendo saber quais eram, afinal, as concentrações dos princípios ativos nos medicamentos de referência, isto é, naqueles produzidos por laboratórios detentores de patentes. Ou, como sabiamente os chama meu médico, “de grife”.

(não querendo saber de mais teorias conspiratórias, encerre sua leitura deste texto por aqui; tendo apetite por mais uma, siga em frente)

Minhas favoritas tem a ver com matérias como aquela sobre o potencial danoso de certos boatos inadvertidamente semeados na web veiculada no Fantástico do último domingo, que era ilustrada por uma tentativa de produção de pânico em relação a supostos efeitos nocivos de exames de mamografia. Otimistas (ou ingênuos) podem ver em peças assim tão somente o propósito de ensinar internautas a detectar notícias falsas. Já faz tempo que Howard Rheigold cunhou a expressão crap detection para se referir a esta competência. Já aqueles, como eu, mais escaldados (ou paranoicos, se quiserem) preferem ver na advertência acima de tudo a promoção de um descrédito generalizado em relação à web enquanto fonte de informação confiável. Como se, de algum modo, a TV (ou, mais amplamente, todo jornalismo corporativo) reivindicasse para si o privilégio exclusivo da posse dos meios de fact checking. Assustador, não ?

(em prol da concisão, tenho que encontrar termos que designem atitudes em relação à TV análogas às que netopians e netskeptics mantém em relação à web. Que, noutras palavras, signifiquem acreditar,  excludentemente (i.e., ou num ou noutro mas jamais nos dois ao mesmo tempo) nos potenciais emancipatório ou nocivo da televisão)

Fantástico 2

Inclusão digital: verdade ou mito ?

plenário 1Dia desses, lamentei a progressiva e inexorável transferência para máquinas automáticas de tarefas antes confiadas a humanos, em particular a cobrança pelo estacionamento em alguns shoppings. De tal modo essa tendência vem ganhando força que, suponho, em breve estaremos escaneando códigos de barra no check out de supermercados ao invés de, simplesmente, largar coisas sobre esteiras deslizantes. Empacotadores ? Esqueçam-nos. Ou paguem pelo serviço. Já deve ser assim em muitos lugares.

Voltando ao shopping onde senti pela primeira vez o desconforto que gerou aquele post, constatei que, lá, o único ponto de cobrança de estacionamento com operação humana remanescente estava estrategicamente situado num canto que não dava acesso a parte alguma. Um dead end encrustado no início de um corredor bloqueado, longe de todos os elevadores e a escadaria que levavam aos pavimentos de estacionamento. Encafifei-me com aquilo.

Tornando ao mesmo shopping dias depois, anotei num guardanapo de papel, enquanto tomava um café, o nome de meu blog, pensando em oferecê-lo ao operador de caixa cujo posto de trabalho eu defendera em meu último post. Lá chegando, indaguei: “O Sr. costuma acessar a internet ?” – ao que o operador prontamente respondeu: “Eu ? Nem tenho isso !”.

Ouvindo isto, imediatamente joguei fora o guardanapo com o nome do blog. Foi como se, naquele exato instante, me visse forçado a aceitar a grande verdade inconveniente que até então, apesar de todos os argumentos e evidências em seu favor, teimasse em não encarar – a saber, a de que toda a aglutinação de pessoas em torno de ideias virtuosas a respeito do poder emancipador da internet que desfilavam em minha timeline não passasse, ao fim e ao cabo, de uma enorme bolha discursiva. Subitamente, me senti, como se fulminado por um raio, transformado de fervoroso netopian em ácido netskeptic.

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Por anos acreditei – tentando, ao mesmo tempo, fazer com que outros acreditassem – que o advento da web, com seus protocolos horizontais de conexão, diametralmente opostos aos verticais do paradigma até então hegemônico do broadcasting, implicaria finalmente no triunfo da verdade, da justiça e, sobretudo, da pluralidade em todas as relações humanas, em particular as políticas e educacionais.

A participação em redes sociais povoadas por semelhantes (amigos presenciais e virtuais que partilham interesses, hábitos e, last but not least, opiniões) também ajudou a alimentar, numa minúscula classe de incluídos que leem mais, comparam mais, pensam mais, ouvem melhor, escolhem melhor… (you name it), a esperança que a internet estaria fadada à nobre missão de sepultar, em pleitos vindouros, todo poder oligárquico.

Eis que, de repente, sem que ninguém entendesse bem o por que, algo saiu errado. Primeiro veio o Sartori. Depois, Temer e o Brexit. Então, quase ao mesmo tempo, Trump e Marchezan (o Jr.). De um modo difuso, pipocando em toda parte, se radicalizaram o ódio ao diferente (leia-se imigrante) e o desmonte de instituições educativas e culturais. Nesta cena, absolutamente distópica, toda crítica se anula ante o fato de que todos os governantes responsáveis por tais políticas foram alçados a posições de liderança tão somente pelo sufrágio universal – representando, portanto, legitimamente a vontade da maioria e nos restando a triste constatação de que tão somente a democracia, pela qual tanto lutamos, nos levou a este estado de coisas.

Agregue-se a isto dois dados, divulgados ao início de cada novo ano, que apontam para o fato de estarmos indiscutivelmente pior do que antes – a saber, aqueles sobre a crescente concentração de riqueza e o relógio do fim do mundo.

relógio do apocalipse 1

Relógio do Apocalipse, de 1947 a 2011

Criado em 1947, quando a ameaça de aniquilação nuclear parecia mais presente (ela ainda está aí, só que, de algum modo, banalizada), o relógio do fim do mundo estima o tempo que nos afasta de uma possível destruição em massa de toda a civilização humana por meio de ogivas atômicas. Nele, o risco de que isto possa vir a efetivamente acontecer é expresso pelo tempo que nos separa da meia-noite. O relógio do fim do mundo tem a peculiaridade de poder tanto avançar como retroceder. Quando foi criado, no auge da guerra fria, marcava sete minutos para a meia-noite. O mais alto grau de “segurança atômica” que chegou a indicar se situava na marca dos dezessete minutos, no início dos anos 90. Depois da ascensão de Trump, ostenta a preocupante marca de dois minutos e meio para a meia-noite. Paranoia ? Talvez. Ainda assim, prefiro tê-lo como um signo altamente emblemático dos tempos tenebrosos em que vivemos.

O outro dado alarmante, divulgado anualmente por ocasião do perverso encontro de Davos (i.e., onde os mais ricos discutem como podem se tornar ainda mais ricos sem romper o frágil equilíbrio da manutenção de parte da população (aquela que vive dentro dos muros de inclusão) acima de uma linha de pobreza sem a qual nenhum enriquecimento seria possível), dá conta de que um número cada vez menor de indivíduos detém a metade da riqueza mundial – já sendo possível, inclusive, se projetar a emergência, nos próximos anos, do primeiro trilionário.

A parcela da população que se situa acima deste limiar de pobreza também é reconhecida como aquela beneficiada pelo “estado de bem estar social”. Fora dela, i.e., do outro lado do muro do México, da cerca de Cádis ou, ainda, dentro dos muros de presídios brasileiros, continuarão morrendo de fome, vítimas de terrorismo e por outras formas de violência. Como, aliás, vem sendo desde os tempos das guerras coloniais. A equação é simples: quem não puder ser incluído, que seja segregado. Não fosse assim, fatalidades por tragédias ou atos terroristas teriam a mesma relevância jornalística independentemente de ocorrerem no terceiro mundo ou no hemisfério norte. Assim, até que se encontre uma solução melhor, limpezas étnicas continuarão sendo toleradas, em nome da assepsia das estatísticas. Num mundo de resto totalmente globalizado, tal permanece sendo uma das principais funções das fronteiras nacionais. O Boko Haram riscou do mapa mais um povoado ? E daí ?.

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Frente a estes fatos que teimam em permanecer perante nossas vistas, verdadeiro balde de água fria a arrefecer as mentes mais sonhadoras, o que, afinal, saiu errado ? Por que ralo escoou todo o potencial redentor que tantos netopians insistiam em reconhecer na web e nas redes sociais ? Penso que, acima de tudo, por termos feito vista grossa à grande verdade inconveniente de que a inclusão digital, tão saudada como uma tendência inexorável e redentora, ainda não é mais do que uma promessa não realizada.

protesto 1

Diatribe contra o tele atendimento e a automação bancária e comercial

teleatendimento 1Os primeiros a desaparecer, lá se vão já algumas décadas, foram os guichês de atendimento bancários, vulgos “caixas”. Se antes havia em cada agência no mínimo uma dezena, hoje não passam de dois ou três – pelo menos um deles invariavelmente fechado devido ao horário de almoço ou coisa que o valha. Como atenuante, os bancos colocaram cadeiras para que os infelizes na fila, não nativos digitais em sua maioria, esperassem sentados.

A bola da vez da marcha inexorável da automação parece ser os terminais de cobrança por estacionamento em shoppings. Até pouco tempo atrás operados por atendentes humanos, estão sendo rapidamente substituídos por máquinas operadas pelos próprios usuários.

Paradoxalmente, lojas continuam sendo povoadas por vendedores treinados e remunerados para persuadir clientes a comprar produtos muito além das necessidades que os levaram até ali. Quem, depois de já haver escolhido tudo aquilo de que precisa, nunca ouviu de um solícito atendente frases como “E o Sr.(a) não está precisando de meias ou cuecas ?” Acho acintoso ter que responder a este tipo de pergunta – que, para efeito de manutenção do bom humor, prefiro tomar como meramente retórica.

Outra, clássica: quando procuro calçados, quase sempre a negativa, bem frequente, de que um estabelecimento não dispõe de itens com o tamanho 44 vem acompanhada da oferta “Por que o Sr. não experimenta um par do tamanho 43, pois nossa forma é bem grande ?”  Nestes casos, minha resposta (sempre no intuito de preservar o bom humor) costuma ser “Sim, é claro. Mas não se esqueça de me trazer, também, um daqueles tesourões de jardinagem (podões) para que, cortando uns dedos fora, o calçado possa, talvez, me servir.” Devo acrescentar, a bem da verdade, que nem sempre o vendedor tem o mesmo senso de humor que eu.

Nada tenho contra vendedores – assim como, de resto, nada tenho contra operadores de telemarketing e de serviços de tele atendimento, dos quais tornarei a falar mais tarde. Só que uma coisa é uma loja manter funcionários treinados para auxiliar os clientes quando – e tão somente quando – forem solicitados. Outra é se ter, desde o momento em que se entra numa loja até se sair da mesma (hoje é comum o vendedor acompanhar o cliente até a saída da loja, carregando a sacola, para se despedir), alguém permanentemente na sua cola determinado a maximizar seu gasto no estabelecimento com coisas da qual você não tinha a menor necessidade ao entrar na loja.

Exagero ? Acho que não.Tomem, por exemplo, como paradigma de qualidade de atendimento, os vendedores de livrarias e lojas de discos (dois tipos de estabelecimento comercial que marcham a passo largo para a extinção). Eles estão ali silenciosos e de posse de toda informação da qual você pode precisar para localizar o que quer. Mas só entram em ação quando solicitados. Imaginem, agora, como seria explorar prateleiras de discos e livros com um papagaio de pirata apregoando insistentemente as virtudes deste ou daquele título. Não sei de vocês, mas eu fugiria de uma loja com atendentes assim tão rápido quanto entrei.

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Tendo sobrevivido a este tipo de assédio legitimado de que se é alvo na maioria das lojas, o problema de um cliente ao sair de um shopping se torna exatamente o oposto, i..e., tem que caminhar cada vez mais até encontrar um ponto de cobrança de estacionamento que ainda seja operado por humanos. Pois, hoje, toda a arquitetura desses lugares (já repararam como a posição e a direção das escadas rolantes sempre conspiram para que usuários tracem sempre o maior percurso possível de um ponto a outro ?) parece favorecer a utilização de terminais automatizados de pagamento, sempre mais próximos às saídas, em prejuízo daqueles poucos ainda atendidos por pessoas (os quais, segundo todas as evidências, também galopam em direção à extinção).

Tudo o que eu disse acima pode ser tributado ao meu envelhecimento. Como resistência à modernidade. Que fique claro, então, que também não tenho nada contra quem prefira apertar botões. Ora, se, por incontáveis vantagens, utilizo o home banking, o faço por opção. O mesmo se dá quando opto por digitar uma senha para utilizar o cartão de crédito. O que não deve, no entanto, dar aos proprietários de qualquer negócio, bancário ou comercial, o direito de suprimir a opção do cliente de pagar em espécie, com alguém lhe dando o troco devido em cédulas menores. “É o futuro !”, dirão. “Bullshit”, será minha resposta. Pois a imposição de qualquer automação a clientes de quaisquer empresas tem por objetivo exclusivamente a maximização de lucros, independentemente da satisfação de usuários. Se empresários custarem muito para se dar conta disto, talvez seja tarde demais. Pois, até lá, já terão sido engolidos pela concorrência.

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Prometi falar dos serviços de tele atendimento. Comecemos pelas famigeradas vozes gravadas. Já se deram ao trabalho de medir quanto tempo levam, depois de passar por todos os menus de opções e musiquinhas de espera, até conseguir falar com alguém de carne e osso apto a processar suas solicitações ? Isto se conseguirem de fato falar, pois, muitas vezes, basta exercer uma única opção errada para ter que começar tudo de novo (noutro dia, talvez). Pois nunca vi, em qualquer serviço de tele atendimento, a opção, tão fácil de ser implementada, de volta ao menu anterior.

Não há limite para os requintes de perversão nestes casos. O maior deboche da cara dos usuários por parte de uma corporação que já vi foi nos menus de tele atendimento da NET – nos quais, entre uma gravação e outra, o tempo de processamento do sistema é (pasmem !) preenchido por ruídos de alguém digitando num teclado. Como se a voz gravada estivesse, de fato, digitando alguma coisa. Isto ofende sua inteligência ? A minha também. Especialmente quando penso que há agências reguladoras federais para garantir a qualidade dos serviços destas empresas. Também me causa nojo e revolta que até hoje nenhum de nossos onerosos legisladores tenha proposto uma regra simples que limitasse, por exemplo, o tempo máximo de espera que um usuário pode levar até conseguir falar com um atendente humano.

Outra comparação bastante didática é entre a duração e a complexidade dos procedimentos para, de um lado, se contratar um serviço e, de outro, se cancelar a assinatura do mesmo. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que, para contratar, o processo é invariavelmente sumário. Tudo é facilitado. Poucas perguntas são feitas, todas elas a fim de garantir o bom andamento da cobrança pelo serviço a ser contratado.

Experimentem, agora, tentar cancelar um serviço que já assinam. Neste caso, usuários são sempre direcionados pelas empresas para setores conhecidos como “de retenção”. Se você não decidir postergar o cancelamento depois de vários minutos ouvindo uma musiquinha ou propaganda não solicitada (detalhe: é sempre você quem paga a ligação !), será bombardeado por um longo questionário, como se devesse a alguém alguma explicação por não querer mais comprar alguma coisa. Se, depois disso, ainda estiver na linha, receberá um cardápio de ofertas que, por razões que fogem a seu entendimento, nunca lhe foi oferecido antes de você manifestar qualquer intenção de cancelar o serviço em questão.

Também acham isto acintoso ? Então, pensem em cobrar de seus próximos representantes (pois os atuais já devem estar todos vendidos) também uma opção, nos menus de tele atendimento, de cancelamento sumário de serviços. Sem explicações. Você liga, tecla e cancela. Rápido e indolor. Simples assim.

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Por que não ouço rádio (ii)

as-25-musicas-mais-tocadas-em-radios-brasileiras-3Nos últimos dias, esta lista pipocou em meu timeline, guarnecida por cabeçalhos que variavam do conformismo à indignação. De pronto chamou minha atenção que ela era compartilhada praticamente como um meme por pessoas que reputo como musicalmente esclarecidas. Bem esclarecidas. Especialistas, até, na maioria dos casos. Talvez por isto, não me dei ao trabalho de verificar a fonte da informação, nem de conhecer o universo amostral. Pois, dependendo da região de abrangência geográfica, da estação pesquisada ou mesmo do fato dela ser de AM ou FM, é claro que a lista seria sempre bem diferente.

Supondo, então, pela credibilidade dos compartilhadores e pelo senso comum de quem já zapeou por um dial de rádio, que os dados da lista estejam corretos, chegamos inevitavelmente ao problema de explicar por que músicas tão ruins sejam também, senão as mais escutadas, pelo menos as mais tocadas por estações de rádio. E, indiretamente, à imponderabilidade semântica da palavra popular.

Pois o “gosto popular”, no sentido daquilo que as pessoas escolhem ouvir, é largamente condicionado por aquilo que as mesmas conhecem. Ao mesmo tempo, hoje as pessoas conhecem muito mais a música que toca em meios de comunicação de massa (broadcasting) e, em contextos mais conectados, nas redes sociais; do que aquela que (quando há) é produzida ou praticada em cada lugar. Então, o rádio ainda é, principalmente entre os segmentos menos conectados, o maior vetor de conhecimento de praticamente tudo o que alguém pode querer ouvir. Pois, como disse Adorno (em defesa da música de Schoenberg), “só se gosta daquilo que se conhece.”

(lembro sempre de Bruno Kiefer dizendo, numa aula de música brasileira, se se enganavam os que tomavam por música popular aquilo que ouviam no rádio)

Percebem o ciclo vicioso ? Enquanto produtores e gravadoras dominarem, mais comumente pelo expediente do jabá, a programação do que é tocado em estações de rádio comerciais, a audiência não será mais do que massa de manobra, doutrinada para o consumo de bens que anunciantes queiram vender, aí incluídos e principalmente os produtos sonoros.

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Do pouquíssimo que sei de economia, consta como um dos princípios pétreos do estado liberal o de permitir (leia-se ao capital empreendedor) a exploração dos segmentos mais rentáveis da economia e assumir aqueles que, conquanto deficitários, são essenciais à preservação do tecido social. Como saúde, educação e segurança. Entusiastas de um estado mínimo já falam abertamente de um certo caráter supérfluo da cultura e até mesmo da extinção de disciplinas e redução de investimentos em educação pública. E a direita, hora empoderada, vê na cultura e mesmo em disciplinas como história, filosofia, sociologia, artes e afins pólos de geração e irradiação de pensamento de esquerda. Mas isto já é outro assunto.

O que nos interessa, neste momento, é que muitos grupos demográficos, ainda sem acesso à internet, ainda estão exclusivamente conectados (e de modo apenas unidirecional, ao contrário do que se dá na web !) ao mundo por meios de broadcasting. Então, mesmo que as frequências de rádio e os canais de televisão aberta sempre tenham sido sustentados por receitas próprias, oriundas da cessão de tempo de broadcasting a anunciantes, isto não significa que a exploração do que é veiculado (em ondas que, afinal, existem de fato num espaço público !…) no rádio e na TV deva ser concedida “naturalmente” (i.e., tendo por base exclusivamente históricos exitosos de investimentos privados no setor) à iniciativa privada. Qual o ganho público ? Quem lucra mais: produtores ou espectadores ? Se forem estes os critérios, então, o atual sistema de concessão de frequências de rádio e TV claramente não satisfazem.

Em emissoras públicas, ao contrário, a atribuição de relevância a cada conteúdo jornalístico ou artístico concorrente à grade de programação é orientada sempre pelo interesse público – que não é, como vimos acima, o gosto do público (pois o que cada um gosta de ver não é, na maioria das vezes, o que cada um gostaria de ver, fosse maior o leque de opções). Nelas também se dá o predomínio de músicas e outros conteúdos produzidos localmente e/ou por pequenos produtores e tendo em foco personalidades locais ao invés de celebridades.

Então, conquanto deva haver vários outros motivos, só as razões elencadas acima já são, por si só, suficientes para que se queira abolir, por norma constitucional, a concessão de licença para operação de prefixos de rádio e TV a entidades cuja existência não seja dedicada, por força estatutária, ao interesse público, garantido por meio de dispositivos de controle social. Como universidades, fundações culturais, museus, teatros e afins. Com programações orientadas por diversidade cultural e mérito artístico, por exemplo (algo que, por definição, não há no rádio nem tampouco na TV privados). Notem, também, que deixei igrejas fora desta lista (pois religião e interesse público não tem nada a ver um com o outro). Imaginem passear por um dial povoado por estações geridas por instituições assim.

Se esta miragem não lhes parecer por demais utópica, defendam a imediata revisão dos critérios para concessão de frequências de rádio e canais de televisão, em nome da inclusão de dispositivos que garantam o controle social sobre seu interesse público. Obrigado.

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Primeiros comentários sob um post sobre as razões de ser das orquestras

batutas-15Não é novidade para quem lê este blog que, de uns tempos prá cá, temos publicado, muito mais do que textos originais, comentários derivados dos mesmos. Só que a imensa maioria dos comentaristas ainda prefere comentar posts em redes sociais ao invés de nos sites e blogs onde são originalmente publicados – mesmo sabendo que a permanência do que é dito é muito maior em sites do que em redes sociais (soube, esses dias, que já há uma plataforma, acho que snapchat, que deleta tudo o que nela aparece pouco tempo depois !…).

Então, até como forma de dar continuidade a uma auspiciosa discussão que procurei, com o post anterior, iniciar, resgato, para a permanência do blog e para vossa reflexão, os primeiros e valiosos comentários deixados sob a divulgação do mesmo. Notem que, ainda que sejam apenas dois os comentaristas iniciais, deixaram pareceres qualificadíssimos, vindos de dois universos opostos, mutuamente excludentes – a saber, de um lado, o de quem é profundamente habituado a concertos e, de outro, o de quem precisa viajar 500 quilômetros para ouvir a orquestra mais próxima. Ameaçada, aliás, de extinção por determinação governamental.

Muito obrigado, então, Breno Freire, que ainda não conheço pessoalmente, e Solange Maciel, que conheci no sertão baiano, pelos ilustrativos comentários deixados, abaixo transcritos. Que sirvam de combustível a esta virtuosa discussão. Para que orquestras como a OSBA deixem de ser ameaçadas pela pura ignorância dos ungidos pelo voto.

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Breno Freire Tenho muito para falar sobre isso também. Faltou-me a iniciativa da escrita. Curioso para saber a justificativa da determinada passagem ” orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros”.

Augusto Maurer Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica, não conseguem concorrer com alternativas mais econômicas de performance. Por exemplo: por que utilizar uma orquestra num espetáculo de crossover, quando uma banda de rock pode dar conta da tarefa com muito mais economia e eficiência ? Obrigado por se interessar pela discussão !

Breno Freire Augusto, fundamental é falarmos sobre isso ! Se nós, os músicos, não discutimos e tivermos claro em nossas perspectivas os porquês de uma orquestra, estamos perdidos. Vamos lá, entendo seu ponto de vista. porém, ascendo a questão para alguns pontos:

1) Antes de tudo, penso que popularizar não é flexibilização de programação. Popularizar no meu ponto de vista, é tornar o evento economicamente viável para a prática de todas as diferentes categorias de remuneração da sociedade, a ponto de não se excluir público pelas condições determinadas pelo preço. A orquestra é fruto de trabalho humano, e portanto feita por seres humanos PARA seres humanos, TODOS e TODAS devem ter acesso a ela.

2) “gosto popular” – o que é o gosto popular ? Pela sua afirmação parece-me que existe um “gosto popular” que é aquele que é formado pela apreensão “fácil” de músicas ” fáceis” e o gosto “erudito” formado pela intelectualização da apreensão estética. Além de eu não concordar com essa fala, acho que ambos sabemos que um deles é forjado para alimentar uma cultura burguesa distante da realidade total em que vivem os seres humanos. A popularização das entidades orquestrais se dá justamente pela sua prática na sua plena forma do “dever-ser” e para além de uma questão de repertório, fornecer a humanização dos sentidos ao maior número de pessoas, estamos falando de trabalho humano. Se “privarmos” o acesso em decorrência de categorias salariais, vamos entender que a orquestra age como uma propriedade privada na sua forma de expressão plenamente capitalista, na qual a pessoa deve pagar para ter acesso. Sou a favor de caminharmos para custos de ingresso tendendo a zero, e assim a responsabilidade do Estado em comprometer-se com uma entidade que não busca lucrar, mas busca potencializar nas formas mais intensas e complexas, os seres humanos.

3) Repertório – O gosto por Beethoven só vai existir se a pessoa ouvir Beethoven. Mas para isso acontecer, ela precisa adentrar ao espaço do concerto, sentido que aquilo é parte dela, ou seja, que se identifique com a orquestra. Não é o repertório, na minha opinião, o fator determinante para a não potencialização da audição da música. Acho sim, que essas questões residem na esfera capitalista, em sua forma monetária. Pessoas de menor poder aquisitivo não vão, porque não tem acesso ( entenda acesso não apenas como determinação de valor, mas também cultural ) e por consequência, a questão do repertório acaba travestida num ponto que, na minha opinião, não é o dela. Orquestras devem tocar o repertório que para ela foi escrita e as pessoas terão a oportunidade de escolher se lhes agrada ou não, o que vai além de uma determinação de gosto por questões relativas ao dinheiro.

É isso meu camarada, um abraço. Obrigado por compartilhar.

Augusto Maurer Concordo plenamente que orquestras devem ser acessíveis a todos. Sou, no entanto, radicalmente contra a flexibilização por meio da facilitação de seu repertório em nome da ampliação da audiência. Então, parece que estamos de acordo. Mas reconheço que preciso clarear melhor alguns pontos. Tomara que esta discussão frutifique !

Breno Freire Também sou, Augusto ! Não é assim, no meu ponto de vista, que vamos encher as casas de concerto, não com essa falsa sensação de que se populariza por meio da “facilitação” de repertório. Todas as pessoas merecem um Gurre-Lieder, uma segunda de Mahler, um Willy Correa e um Pixinguinha.

Breno Freire Torço para florescer esse debate cada vez mais nos núcleos de música !

Solange Maciel Gosto muito de ouvir uma orquestra, embora onde moro há alguns anos, não tenha sido possível, até o presente momento, apreciar tal evento, e sempre pensei na ideia de acessibilidade das orquestras, mas, confesso, que pensava nessa “flexibilização de repertório”, na minha ignorância, até ler o que o senhor escreveu nessa resposta, professor Augusto Maurer. Realmente, agora entendi esse aspecto e concordo plenamente com o senhor. Essa flexibilização nos impediria de conhecermos um repertório mais vasto e diversificado, sobretudo, elaborado por quem efetivamente conhece uma orquestra. Achei muito interessantes e esclarecedores os seus argumentos.
Ah! E desculpe-me pela intromissão (extremamente leiga!) nesta discussão.

Augusto Maurer Muito obrigado, Solange Maciel, pela intromissão, sempre bem-vinda: com efeito, é só por isso que escrevo, i.e., tentando conversar e polemizar. Só para de me chamar de senhor – ou também vou te tratar por senhora !

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Atualização em 06 de janeiro de 2017: enquanto publicava os comentários acima, me chegaram mais dois, de frequentadores habituais de concertos, expressando opiniões de certo modo contrárias; o primeiro, reivindicando a ampliação do repertório por meio da maior inclusão de obras recentes e populares, com menos repetições; o segundo, advogando justo o contrário, i.e., mais repetições das peças mais populares entre ouvintes em nome da ampliação da audiência. O segundo comentário abaixo também trata com agudeza do problema da amplitude semântica da palavra popular, exigindo – com razão – definições mais precisas, das quais trataremos adiante. Difícil equação, cuja solução ainda não vislumbro. Fiquem, então, por enquanto, com mais estes argutos comentários resgatados da algaravia do facebook. E obrigado, André e Norberto, por se juntarem a esta importante conversa !

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Norberto Flach Tirando as grandes e centenárias orquestras europeias e norte-americanas, quais orquestras sinfônicas são “apenas” sinfônicas? Não têm que fazer parte de um contexto mais amplo, de arranjos sinfônicos de música popular, grupos menores para repertório de câmara, uma ou outra ópera, escola de música etc? É isso, ou a inexistência. (Agora, só aqui entre nós: acho que tem muita música sinfônica do século XX excelente ou pelo menos boa. Quero dizer: muito mais do que o pessoal costuma programar. São ingleses, europeus orientais, japoneses e por aí vai. Mas o pessoal prefere programar pela cagagésima vez aquela música para fogos de artifício).

Andy Serrano sobe esta passagem:

“Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica”

O que me vem a cabeça são duas formas de entender a palavra “popular”…

Uma coisa é a orquestra que interpreta a “música popular”, do tipo “música popular brasileira” ou ” música popular americana”, ou “música popular alemã”, etc… ou seja, peças originalmente não sinfônicas.

e OUTRA coisa é a orquestra ter PEÇAS SINFÔNICAS que sejam do APREÇO POPULAR. (melhor não elencar Karmina nem Bolero pra não reeditar celeumas).

Minha opinião é que peças de apreço popular (e podem ser sinfônicas sim) são porta de entrada para que as pessoas entendam melhor uma orquestra, e passem, consequentemente, a buscar por mais apresentações das mesmas.

E tampouco penso ser isso um “mal necessário” para a orquestra… embora imagine que, depois de tocar a mesma peça tantas vezes, seja um saco também.

Para que servem orquestras ? Por que sua existência deve ser garantida pelo estado ?

batutas-14Já ouvi de uma amiga, eminente economista de inclinação liberal, que é papel do estado assumir direitos dos cidadãos desprezados pelo capital privado. Orquestras, como um dos mais conhecidos e onerosos equipamentos culturais, pertencem a esta categoria. Tanto que as poucas mantidas predominantemente por recursos públicos são constante alvo de projetos de enxugamento por parte de partidos que almejam um estado mínimo. Nessas horas é que mais pessoas se perguntam para que servem, afinal, orquestras sinfônicas. Pergunta difícil, que tentaremos responder abaixo, por partes.

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A primeira e talvez principal razão para a existência de orquestras sinfônicas tem a ver com a execução de um repertório, altamente redundante, predominantemente composto durante um período de uns 200 anos por europeus em sua maioria.

Poucos compositores compõem (cada vez menos) ou compuseram sinfonias. Os bons, pelo menos umas 4; os melhores, raramente mais do que 9 (depois de Haydn ou Mozart (cuja produção juvenil deve ser, para efeito de execução pública, descartada), só aqueles dois russos). De sorte que, se ouço falar de algum sinfonista vivo, fico imediatamente curioso, tratando logo de verificar se o mesmo efetivamente se ergue acima dos ombros de um Mahler, Nielsen ou Shostakovich. Costumo me decepcionar.

Neste contexto, não são poucos os que taxam a música sinfônica de ser, além de francamente elitista (refutaremos esta falácia noutra ocasião), limitada a um repertório fechado e redundante. Têm razão no que toca ao reperrtório. Mas isto não quer dizer que orquestras sejam de modo algum obsoletas.

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Uma segunda razão para a manutenção desses conjuntos musicais, dedicados à execução repetida de um repertório composto quase totalmente no passado, até tidos por uns como dinossauros (não falarei, neste post, de extinção, prevista por alguns, de orquestras como hoje as conhecemos (i.e., fixas) em até 30 anos), é que não se pode conceber a plenitude da audição de um bom concerto sinfônico em um bom auditório a não ser pela própria experiência.

Deste modo, ninguém pode conhecer, de fato, uma sinfonia meramente pela reprodução de gravações da mesma. Isto por que, enquanto na plateia de um concerto ouvimos sons produzidos por fontes dispersas em um espaço contínuo que chegam até nós refletidos por múltiplas superfícies, quando escutamos música gravada ouvimos, na maioria das vezes, sons vindos de apenas duas fontes (quando em estéreo) ou, mais raramente, em até 5 canais (como em algumas salas de cinema). Não é a mesma coisa.

É difícil explicar a quem nunca foi a um bom teatro ouvir boa música tocada por uma boa orquestra por que a experiência é bem diferente de ouvir uma gravação da mesma música nos melhores home theaters. Ainda mais hoje, que chegamos instantaneamente à melhor música sinfônica (as melhores obras pelas melhores orquestras com os melhores solistas e maestros) já está há muito disponível online, em plataformas como o youtube. Só que nenhuma gravação de som ou imagem obtida por meio de qualquer tecnologia conhecida substitui a experiência única de ouvir esta mesma música ao vivo em um concerto. Muito se pode falar da degradação histórica da qualidade de experiência auditiva em espetáculos musicais. Da amplificação eletrônica, do fim do silêncio, do encurtamento das formas. Mais tarde, talvez.

Por hora, apenas deixemos sublinhado que há muitos outros aspectos a serem observados na participação como ouvinte em concertos sinfônicos, principalmente se levarmos em conta a evolução dos espetáculos musicais desde seu surgimento até os dias atuais. Mas, como disse ainda há pouco, so much for one post (mais tarde, quem sabe…) Que fique apenas registrada, por enquanto, a enorme importância, em qualquer época, dos ritos de escuta coletiva, sincronicamente compartilhada.

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O que está escrito acima é uma revisão severa da parte aproveitável de algo editado pela última vez mais de um ano atrás (joguei a maior parte fora). O rascunho foi desencadeado pelo fato de eu ter sido incumbido, ainda antes, numa assembleia de músicos da OSPA, de redigir algo que, de algum modo, esclarecesse à opinião pública para que serve, afinal, uma orquestra hoje. Se demorei, no entanto, para retornar à tarefa – mesmo com sua questão norteadora reverberando incessantemente desde então em minha mente (com efeito, é para mim praticamente uma questão de vida), foi por jamais julgar ter elencado motivos suficientes ou suficientemente bons.

Até uns dias atrás. Por meio do seguinte comentário que deixei sob uma postagem no facebook, respondendo a alguém que acreditava que orquestras devem subsistir exclusivamente do que arrecadam na bilheteria de seus concertos:

Orquestras não pertencem, como muitos devem acreditar, à indústria do entretenimento e, portanto, não podem depender de arrecadações de bilheteria. São, sim, sofisticadíssimos equipamentos educativo-culturais, cuja função é ampliar horizontes estéticos. Se tiverem, no entanto, que depender do gosto do público e da mesmice que o mesmo estaria disposto a pagar para ouvir (para isto existem as mídias comerciais), já não servem mais para nada.

Foi, ao que me recordo, a partir deste instante que me ficou absolutamente claro (como não me dei conta disto antes !…) que orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros. Para explicar o por que disto, preciso de um outro post, que já prometi acima, sobre a evolução das plateias de espetáculos musicais. Por enquanto, é suficiente dizer que, por sua pouca afinidade natural ao lucro, orquestras devem ter sua existência, como disse minha amiga liberal, garantida pelo estado. Caso contrário, têm suas atividades corrompidas (como pode ser visto em tantos casos próximos e distantes) ao serem utilizadas, em muitas ocasiões, muito aquém de todo seu potencial artístico.

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Atualização em 25/1/2017: Este texto dialoga diretamente com outro, de André Egg, publicado ontem: A importância de orquestras e sua manutenção. Ele vê alguma contradição entre o que eu disse aqui e quase três anos antes em Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política. Obrigado, André, por tocar em frente uma discussão tão importante ! Terei que me puxar para oferecer uma réplica à altura.

Um último post em 2016: a tentativa de extinção da Fundação Piratini num contexto distópico maior

espumante-4Sei que agora, quando todos devem se unir para salvar a Fundação Pirtatini, talvez não seja o melhor momento para refletir com um pouco mais de profundidade sobre o contexto que, se não levou a ela, ao menos favoreceu a extinção pretendida das emissoras estatais gaúchas.

A extinção é socialmente nociva e, como tal, deve ser combatida por todos com todos os meios possíveis. Ainda assim, vejo com alguma desconfiança o valor para a causa de uma enquete promovida pela Rádio Guaíba sobre a aprovação popular do pacote de maldades do governo Sartori. Quando votei, o placar estava em 60% contra X 40% a favor. Me disseram que já esteve pior, com 56% contra e 44% a favor. Mesmo assim, 40% é mais dos que os votos obtidos em primeiro turno por alguns vencedores das últimas eleições.

Ora, é impossível entender estes resultados, ainda que preliminares, com tanta gente a favor da extinção das fundações, sem levarmos em conta por quem a enquete foi promovida. Pois a Rádio Guaíba pertence à Igreja Universal desde 2007, quando foi comprada, juntamente com o Correio do Povo e a TV Guaíba, pela Rede Record. Então, não é possível se confiar na representatividade demográfica do recorte social que respondeu à enquete. Ou, se quiserem, considerem a amostra viciada.

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Minha reflexão, talvez para depois que a Fundação Piratini tenha retomado suas atividades e não esteja mais sob ameaça, tem a ver com a política de concessões dos meios eletrônicos de broadcasting (i.e., rádio e TV). Reza o mantra liberal que a concorrência aprimora a qualidade e que, portanto, estações públicas estariam fadadas, pela própria ausência de concorrência, no máximo à mediocridade. Não é, entretanto, o que se tem visto. Exemplos estrangeiros de broadcasting público de qualidade exponencial são a BBC inglesa, a PBS norte-americana, e os múltiplos canais públicos franceses e italianos. No Brasil, a TV Cultura é uma referência imbatível em muitos quesitos. Aqui, tínhamos, nos mesmos patamares, a TVE e a FM Cultura. Infelizmente, só até poucos dias atrás.

Ora, não consigo ver a tentativa de extinção da Fundação Piratini e seus veículos simplesmente como um fenômeno isolado, independente do avanço das emissoras evangélicas. O desmonte faz parte de um plano maior, com o silenciamento de vozes independentes, submetidas ao controle social, em favor das vozes de grupos religiosos dedicadas ao enriquecimento de seus líderes. Grupos que já tomaram o poder legislativo e agora tentam aniquilar todo espírito crítico (vide reforma do ensino, escola sem partido ou até o delírio calheiriano de vir a criminalizar a web) por meio da supressão dos únicos veículos cuja programação e linha editorial não eram deixados ao sabor do mercado.

Então, sem mais delongas, se fosse para resumir este post a um slogan, este seria:

Mais emissoras públicas

e

Fim da concessão de prefixos de rádio e canais de TV a grupos religiosos !

(estas bandeiras deveriam ser imediatamente agregadas à luta pelo fim da isenção tributária das organizações religiosas)

Enquanto isto, precisamos, como sociedade, nos aprofundar na discussão de quem deve e quem não deve controlar meios de rádio e tele difusão. Pois a extinção da Fundação Piratini, conquanto revoltante, é só a ponta de um iceberg. O pior ainda está por vir. Que sejamos vitoriosos em 2017 !

espumante-3

 

Por que deixei de ser escoteiro

baden-powell-2Sempre amei as atividades das tardes de sábado e noites de quarta do Grupo Escoteiro George Black. Mais ainda os acampamentos e acantonamentos. Se hoje consigo me virar bem na maioria das coisas práticas, devo isto, indubitavelmente, a minha vida escoteira. De modo que eu estaria disposto a recomendar o movimento para qualquer jovem em idade escolar, não fossem dois senões, esmiuçados a seguir.

Eu havia me saído bem em todas as provas para me tornar de escoteiro noviço e de segunda classe, colecionando as respectivas insígnias, quando, prestes encarar os últimos ritos para me tornar um escoteiro de primeira classe, meus chefes abandonaram repentinamente sua disposição, demonstrada em ocasiões anteriores (i.e., nas provas de noviço e segunda classe), de fazer, na prova de religião, vista grossa a minhas convicções ateias. E, posto que a prova deveria ser “assinada” pelo líder religioso que eu seguisse (no caso, o pároco da igreja onde eu fora batizado, o qual sequer me conhecia), jamais logrei passar naquela prova. Aí começou meu desinteresse pelo movimento.

Paralelamente, a curiosidade me levou, alertado por boatos, a pesquisar (naquele tempo não havia a wikipedia nem a web !) em outras fontes a polêmica biografia de Lord Baden-Powell, o grande mentor do movimento. Nessas leituras, fiquei sabendo que o fundador, reverenciado por milhares, talvez milhões, de escoteiros, escotistas (chefes de escoteiros) e simpatizantes ao redor do planeta como um educador visionário foi também o principal responsável pela dizimação de tribos inteiras em campanhas militares colonialistas britânicas no continente africano. Para não entrar em muitos detalhes, basta pesquisar sobre a Guerra dos Boers.

Aquilo foi demais para mim.

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Update: copio abaixo, pela relevância, uma contribuição deixada por André Serrano sob a divulgação deste post no facebook (por natureza, muito mais interativo do que este blog). Se tiverem tempo, não deixem de abrir o link ao fim do comentário.

” chamei a atenção de alguns chefes sobre as verdades que estão vindo à tona… parecem fazer pouco caso dos fatos… acho que preferem a negação a terem de dar o braço a torcer de que continuam a ajudar a glorificar um homem que não tem nenhum merecimento.
a falta destas informações era total, na nossa época.
por isso os chefes estão, por mim pelo menos, perdoados.
mas não perdoo os chefes de hoje, pela recusa de pesquisar sobre as verdades… chega a ser contra o próprio movimento essa negação, esse pacto com a mentira, esse faltar com a palavra pra sí próprio.
“sempre alerta”?!!! sei……
aqui vai UM dos vários links:
http://www.theatlantic.com/…/christopher…/272683/