Por que Carmina Burana é, conquanto popular, musicalmente irrelevante

frisch-1Semana passada, deflagrei uma longa e acalorada discussão no facebook ao afirmar peremptoriamente que Carl Orff era um compositor irrelevante e Carmina Burana, sua peça mais popular, uma composição, no máximo, pueril. Como sempre, toda menção comparativa à ordem de grandeza de compositores célebres (suponho que com outros artistas aconteça o mesmo; por exemplo, por que Van Gogh, os impressionistas ou qualquer dos últimos pintores figurativos parecem tão superiores, digamos, a Pollock, Rothko ou Basquiat). Pelo menos, foi assim quando me referi a Mendelssohn, Tchaikovsky e Rachmaninoff como compositores secundários.

Desta vez, aludi de passagem à popular tese de que Orff era nazista e batia na mulher. O que causou, no entanto, mais indignação foi minha denúncia da construção um tanto quanto simplória da famosa cantata. Procurei antecipar as refutações mais óbvias ressalvando que já ouvira muita música modal bem mais interessante. Em vão. Pois até de interlocutores supostamente ilustrados ouvi a réplica de que toda depreciação de Carmina Burana não passaria de ranço elitista contra, suponho (nunca entendi muito bem este tipo de argumento), manifestações artísticas mais populares.

Como sempre nestes casos, não tardou a se fazer reverberar, por algum comentarista ofendido, a conhecida máxima de que “gosto não se discute”. Pronto. Fisgaram a isca. De modo que pude encher a boca para sentenciar que gosto se discute, sim – e que quanto mais compararmos, melhor. E que se destas comparações emerge o fato de que algumas obras são notoriamente melhores do que outras, tal se deve a critérios absolutamente objetivos. Sendo, portanto, uma grande asneira “validar” a qualidade de qualquer coisa segundo sua aceitação popular, como querem os defensores da premissa de que “gosto não se discute”. Pois, na formação do gosto popular, interferem fatores tais como publicidade, simplicidade/complexidade, conhecimento/ignorância ou sinestesia, entre outros – os quais não são, todavia, objetos deste texto.

Antes, tinha em mente, ao iniciar estas linhas (o texto, essa nau sem rumo !), tentar explicar, em termos objetivos, por Carl Orff não atingiu nem de longe a estatura de um Mahler, Stravinsky ou Shostakovich (só para citar uns poucos grandes que viveram no mesmo século).

Para se entender por que Carmina Burana, como peça sinfônica, não chega aos pés de qualquer marco sinfônico, é preciso recorrer a um conceito formulado por Walter Frisch em Brahms and the Principle of Developing Variation (California Studies in 19th Century Music, University of California Press, 1984). A expressão se refere à técnica composicional utilizada mais emblematicamente por Brahms, segundo a qual todo tecido musical é gerado por meio de repetições variadas (i.e., ligeiramente alteradas) e sucessivas de materiais pertencentes a um mesmo conjunto. Ou, se quiserem, grupo temático.

Assim, podemos dizer que o Bolero de Ravel, com sua repetição obsessiva de um mesmo par de melodias inalteradas, apenas reiteradas por instrumentos diferentes, é o caso mais emblemático de recusa sistemática ao princípio composicional formulado por Frisch. Ao contrário, a realização plena de formas longas conforme praticadas pelos principais representantes da tradição sinfônica pressupõe um domínio absoluto dos procedimentos modulatórios conforme derivados por Schoenberg da música do período de prática comum (i.e., do barroco ao romantismo tardio) em Structural Functions of Harmony (Norton, 1954).

Do mesmo modo, não precisamos ouvir muitos compassos de Carmina Burana para perceber que, ao contrário do que ocorre, digamos, na oitava sinfonia de Mahler, os mesmos materiais (desde pequenas células de poucos compassos até frases ou seções inteiras) são repetidos intactos imediatamente – quase sempre três vezes ao longo de toda a célebre cantata. Imaginem, agora, a monotonia do mesmo expediente replicado por cerca de uma hora, tempo de duração aproximado das duas obras comparadas neste parágrafo. Sem chance alguma, portanto, para a de Orff.

Não que outras obras, a seu modo admiráveis, não repousem sobre as mesmas formas simples, até simplórias ou minimalistas, dos universos medieval (olhando para o passado) ou pop (considerando o futuro). Acontece que, face aos monumentos da grande tradição sinfônica, utilizar a palheta orquestral para algo de contornos tão ostensivamente esquemáticos como Carmina Burana se configura como um dos casos mais escandalosos de desperdício de meios de que se tem notícia no âmbito da criação artística. Noutras palavras, não faz o menor sentido lançar mão da instrumentação utilizada por epígonos do eixo melhor representado por Beethoven, Brahms e Mahler para expressar formas que, despojadas de todas as repetições literais, não durariam mais do que uns poucos minutos. É como orquestrar para naipes completos de cordas, madeiras, metais e percussão, além de coro e solistas, canções com não mais do que dois ou três acordes.

(um modo relativamente fácil de se verificar o grau de ambição formal de uma obra seria submetendo o ouvido crítico à audição de uma versão reduzida para o teclado da mesma, na qual toda cor instrumental é, a priori, suprimida)

Então, em que pese a enorme popularidade da obra mais conhecida de Orff, me poupem dos frágeis argumentos que sustentam que a mesma advenha de algum suposto mérito composicional. E me poupem, igualmente e sobretudo, da validação de qualquer coisa meramente pelo gosto popular. Pois daí para se aceitar a primazia do mercado na valoração de todas as coisas é um tapa. O triunfo do relativismo absoluto em qualquer matéria estética. Prefiro, outrossim, pensar que, como civilização, ainda não despencamos tanto.

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Por que sou veementemente contra o sucateamento da cultura no RS

tve-fm-cultura-1Nos últimos dias, fiquei feliz ao ver minha timeline povoada por depoimentos de amigos, entre a indignação e a ira, contra a extinção, pretendida pelo governo Sartori, de fundações estaduais como a Piratini (que inclui a TVE e a FM Cultura), a Zoobotânica e a FEE, entra outras.

Dentre as medidas propostas, as que extinguem fundações se afiguram como um atentado contra o patrimônio público imaterial como um todo. Só que, pela natureza das atividades que exerço, sou mais propenso a ficar perplexo e a me chocar com extinções como as da TVE e da FM Cultura. Com tantas manifestações de apoio à permanência das mesmas, de início preferi me calar para dar mais espaço à ressonância de vozes tão qualificadas. Se, no entanto, hoje rompo o silêncio, é para

ressaltar que a principal virtude das duas emissoras, apontada por muitos, é a de darem evidência à imensa diversidade das manifestações culturais. De sorte que não é nenhum exagero se afirmar que, neste quesito, ambas não encontram nenhum paralelo entre emissoras privadas. Isto quer dizer que suas programações contemplam um maior número de fatos culturais do que as de quaisquer de suas congêneres comerciais. Se duvidarem, é só comparar a quantidade de músicas diferentes tocadas, num mesmo intervalo de tempo, na FM Cultura e em qualquer rádio comercial. Notem, ainda, que a razão entre o número de músicas tocadas na FM Cultura e numa rádio comercial qualquer tende a aumentar quando aumentamos o intervalo de tempo de observação; e que

diante das fartas evidências já apresentadas de que os cortes pretendidos na área da cultura (dentre os quais figura como destaque a extinção da Fundação Piratini ) não representam qualquer economia de recursos capaz de equilibrar, como alegam, as contas do governo, cabe especularmos sobre o que estaria, na verdade, por trás do pacote de maldades a ser perpetrado contra a cultura no estado. Como mais provável hipótese temos, então, a percepção, nem um pouco incorreta, por parte de forças de direita que norteiam o atual governo, de que são os setores culturais, apesar do ínfimo investimento que exigem do estado, os principais responsáveis pela disseminação de um pensamento de esquerda. Razão suficiente, a nosso ver, para que privatas hora instalados no poder queiram, a qualquer custo, extirpá-los.

Tais fatos já seriam por si só suficientes para defendermos incondicionalmente a permanência de todo órgão cultural no qual o governo ainda se faça presente. Há, no entanto, mais. Muito mais. Arrolarei outros argumentos à medida em que se apresentem. Por enquanto, tratemos de comparecer em massa ao ato/show de proclamação do estado de calamidade cultural marcado para hoje, ao meio-dia, na Praça da Matriz. Até lá !

Por que não ouço música em rádio

radio-3Como meio de se ouvir música, estações de rádio deixam muito a desejar. Já me debrucei sobre a atual falta de critério, senão em todas, pelo menos em parte das estações públicas aqui. Neste texto, busco um olhar mais dedicado ao problema do rádio comercial que, a julgar pela comparação entre uma memória resgatada de minha juventude, uns 50 anos atrás, e experiências mais recentes, permanece rigorosamente o mesmo – pois, ao que tudo indica, a execução desta ou daquela música nas principais estações do dial ainda é em grande parte determinada pelo jabá.

Para quem não sabe, jabá (abreviatura de jabaculê) é a propina paga pelas gravadoras a radialistas para que toquem insistentemente certas músicas em detrimento de outras.

Por volta de meus 14 anos, ganhei de meus pais num natal meu primeiro gravador portátil. Entusiasmado com a posse da nova ferramenta de descoberta, nos dias que se seguiram repeti obsessivamente um procedimento que consistia em gravar, de uma célebre estação de rádio (“na Caiçara, a música não para”), todas as músicas das quais gostasse. Se determinada música não me interessava, interrompia imediatamente a gravação, rebobinando a fita até o final da última música gravada para, em seguida, começar a gravar a próxima que me interessasse.

Assim procedendo, bastaram 3 dias para que (ó desilusão !) eu descobrisse o inevitável, a saber, que havia, então, não mais do que duas sequências de músicas (hoje chamadas playlists) – uma delas repetida exatamente a cada segunda, quarta e sexta-feira, e a outra nas terças e sextas. A partir daquele momento, decidi não mais utilizar o rádio para escutar música.

Para qualquer melômano, não ouvir rádio requer, além de uma discoteca de um certo calibre, algum planejamento. De sorte que, no carro, onde não consigo ter muitos discos, comecei a ouvir, incidentalmente, uma rádio que transmite exclusivamente colunas e notícias. Com o tempo, até acabei desenvolvendo uma forte aversão a todo e qualquer jingle, desligando o rádio sempre que os ouço – chegando, assim, empiricamente, a um limite do suportável em se tratando de bombardeio publicitário, que pode ser formulado mais ou menos assim: ainda que seja moralmente aceitável ouvir alguém apregoando verbalmente as vantagens deste ou daquele produto ou serviço (como nos reclames da Rádio Guaíba), é absolutamente ultrajante (além de irritante) ouvir peças musicais criadas exclusivamente para vender qualquer coisa.

Como nada é perfeito, quase todo programa veiculado por mídias comerciais possui uma linha editorial indisfarçavelmente partisana. Felizmente, com o tempo aprendemos a estabelecer filtros. Por exemplo. Antes mesmo de Diego Casagrande abrir a boca, já sabemos que pela frente vem um discurso anti-petista. Chega a ser monótono – até quando ele, eventualmente, tem razão. Como ouvinte, nunca entendi por que conglomerados de mídia insistem em repartir programas entre apresentadores ideologicamente idênticos; invariavelmente um figurão, mais experiente e consagrado, a proferir asneiras e um baba-ovo cuja única função parece ser a de reforçar o que é dito por seu mentor. Nesses verdadeiros chás de comadres, onde fica o contraste ? Por isto, jamais levo totalmente a sério qualquer coisa que dizem, relegando tal discurso, antes, aos domínios do humor e do entretenimento. Enquanto isto, sigo à espera de bons programas animados por um mínimo de antagonismo entre seus apresentadores.

Mas não vim aqui para falar disto. Retomo, então, depois desta breve incursão por uma senda lateral, ao propósito original de tratar do problema da música no rádio comercial. Tendo, assim, permanecido por ca. 50 anos voluntariamente virgem em relação a toda música tocada em estações de rádio, fui recentemente confrontado com a mesma ao começar a frequentar, por razões de saúde, uma academia de ginástica.

Passado o espanto de perceber que, aparentemente, ninguém consegue se exercitar em silêncio, me vi forçado a observar o que ouvia durante a nova e monótona rotina. Quase tudo o que ouvia era (felizmente !) novo para mim. Não demorou muito, todavia, para que eu percebesse que, por mais variados que fossem os horários em que eu frequentasse a academia, certas músicas me perseguiam. Fosse manhã, tarde ou noite, estavam sempre lá. Mais: algumas eram repetidas exatamente na mesma sequência, independentemente de horário. Ora, tenho que o universo amostral das músicas tocáveis em qualquer estação de rádio, por mais segmentada que seja, é enormemente variado. Então, se algumas delas se repetem insistentemente ao longo de um mesmo dia, deve haver algo maior em ação. Foi quando me convenci da permanência, até os dias de hoje, do velho e bom jabá. As únicas exceções a sua hegemonia parecem ser os pedidos de ouvintes, atendidos por razões óbvias (os broadcasting media, em seus derradeiros momentos, tentam desesperadamente parecer interativos).

Curioso pela identidade dessas músicas mais bombadas, perguntei no facebook a que locui pertenciam alguns refrões e fragmentos melódicos. Coisas como “quem é que só de rebolar te enlouqueceu / a danada sou eu” e “uéuéuéuéué” (sic !). As respostas não tardaram e, assim, fiquei sabendo que uma rádio repetia, várias vezes ao dia e sempre uma imediatamente após a outra, Sou Eu, de Ludmilla e Work, de Rihana. Lixo que dificilmente alguém ouviria (assim prefiro pensar, em razão de ainda ter alguma esperança na humanidade) não fosse a colossal promoção a que são submetidas, da qual o jabá é, sem dúvida, apenas uma parte. Então, pergunto (e não é só retórica !): face a tamanho determinismo, por que raios estações de rádio ainda contratam programadores – já que seria igualmente eficaz e muito mais econômico permitir aos que pagam o jabá atuarem diretamente em suas grades de programação ?

Mas o problema não termina aí. Dias atrás, antes de ir à academia, constatei que minha timeline havia sido invadida por uma infinidade de postagens alusivas à morte, naquele dia, de Leonard Cohen. Consoante a isto, esperava que um programa auto-definido como “a memória do rádio” (o que significa, na prática, que não toca nada produzido neste milênio) dedicasse o horário, senão exclusivamente ao menos em parte, à obra do grande Cohen. Mas não. Naquele dia, ouvi Legião Urbana, Titãs, Phil Collins, Credence Clearwater Revival, Supertramp, Madonna e uns tais Smiths e Pixels, mas nada de Cohen. Pensei com meus botões: impossível que o apresentador não navegasse na web entre uma música e outra e, face ao ocorrido, “parasse as prensas” para improvisar um programa dedicado ao mito recém falecido. Do episódio, aprendi muito sobre a suposta agilidade do rádio.

Quanto mais ouço rádio na academia, mais me convenço de que não perdi nada por meu exílio voluntário nestes anos todos. Considero a experiência (de ouvir rádio), muito mais do que de entretenimento, como uma de aprendizagem. Pois foi graças ao rádio da academia que descobri que uma canção dos Pixels é introduzida por um solo de guitarra (havaiana, retrô, a la Beach Boys, como na maior parte da “música” produzida naquelas décadas perdidas) descaradamente copiado do que inicialmente pensei se tratar do que se ouve no começo de Sugar Sugar, dos Archies (até poderia, já que as partes de uma canção pop costumam ser intercambiáveis) – mas que depois verifiquei se tratar dos compassos iniciais de La Bamba. Do episódio, aprendi o que esperar – ou melhor, o que não esperar – do pop em geral e da tão incensada música dos anos 80 e 90.

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Por que não assisto a séries de TV

series-1Ver séries de TV é como andar em círculos, ouvir várias vezes uma mesma história ou, ainda, ouvir música em forma de variações. Não é à toa que apenas grandes compositores tenham logrado êxito no complicado exercício composicional que consiste em conferir algum contorno dramático reconhecível a uma música que repete inexoravelmente um mesmo percurso harmônico. Mas tergiversei. Voltando, então.

Séries não devem ser confundidas com seriados (como Columbo, Hawaii 5.0 ou Kojac) nem tampouco com sagas (como Harry Potter, Star Wars ou o Senhor dos Anéis). As três categorias diferem entre si fundamentalmente pelo intervalo de tempo entre a exibição de cada episódio e o seguinte. Pois, se séries e telenovelas clamam pelo retorno da atenção do espectador a cada 24 horas, já seriados demandam uma atenção semanal enquanto sagas, plurianual.

O problema com todas as (poucas) séries televisivas que conheci (nunca acompanhei nenhuma) é sempre o mesmo: a monótona repetição de um mesmo ciclo dramático, culminando, ao fim de cada episódio, num “gancho” capaz de segurar a atenção do público até o início do próximo, dali a pouco menos de 24 horas. Tal fragilidade narrativa se torna, suponho, bem mais evidente com a possibilidade de se assistir, em DVD ou plataformas por assinatura como Netflix, temporadas inteiras de uma mesma série de uma só vez.

Episódios de séries são, ao contrário de capítulos de telenovelas (soap operas) agrupados em temporadas. Esta  distinção é importante por que, enquanto telenovelas se encerram, por definição, no último capítulo, jamais se pode prever quando uma série terá uma nova temporada – o que depende, muito mais do que da vontade de seus autores, do sucesso comercial da mesma e dos planos estratégicos de seus produtores.

É, assim, pela diferença entre, de um lado, um contorno dramático repetido ad nauseam (me senti um idiota depois de ver alguns capítulos de Lost !) e, de outro, um único, coincidente com a extensão da obra, que prefiro incondicionalmente filmes a séries.

Talvez a melhor demonstração da superioridade do cinema sobre as séries seja a memorabilidade relativa entre os dois modais. Pois é geralmente bem mais fácil recontar a história de um filme do que de todos os episódios de uma série. Neste sentido, podemos considerar todo e cada episódio de uma série (exceto, talvez, o primeiro e o último…) como essencialmente supérfluo à totalidade da trama. Pois pouco importa, por exemplo, a quem se dispôs a ficar acordado o suficiente para assistir a alguns episódios de Revenge, a conta exata de quantas vezes Victória sacaneou Emily e vice-e-versa.

Então, se este modal de narrativa, notoriamente capenga, vem conquistando uma hegemonia cada vez maior entre quem ainda vê televisão, tal se deve exclusivamente à manutenção de uma audiência cativa – quesito no qual as séries indiscutivelmente se sobressaem. Notem, aliás, que séries não são exibidas pela TV aberta nos chamados “horários nobres” (i.e., nos que já dispõem de uma audiência cativa), mas noutros para os quais ainda é preciso fidelizar um público – daí a importância do já mencionado recurso do sequestro de atenção de que toda série se vale.

A índole primordialmente comercial de toda série já era denunciada pela denominação de um de seus precursores: a telenovela – designada, em inglês, por soap opera. Ora, é preciso se aprofundar na etimologia do termo opera para saber que a partícula qualificativa soap se refere aos anúncios de sabonete originalmente veiculados durante a exibição das primeiras produções teledramáticas.

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Ao revelar a meu filho menor minha intenção de escrever sobre séries, fui surpreendido pela descoberta de que ele não ele não mais as via. Como no caso de sua mania anterior, pelo jogo Minecraft, disse que simplesmente perdera o interesse. Seria por demais presunçoso supor que seu cansaço do formato se devesse, de algum modo, ao fato de eu ter afirmado anteriormente que séries eram ladrões de atenção. Gosto, no entanto, de pensar que seu hábito recentemente adquirido de ver temporadas inteiras de séries de uma só vez possa ter lhe tornado mais evidente as limitações dramáticas do formato. Mais: se isto for verdade, é possível se antecipar que serão os próprios sistemas de distribuição de séries por assinatura – meramente pela possibilidade de aproximação temporal entre episódios projetados para serem vistos a cada 24 horas – os principais responsáveis pelo esgotamento do modal em razão de suas próprias limitações narrativas. Irônico, não ?

Da diferença essencial entre (i) blogs e redes sociais e (ii) orquestras e universidades públicas; on conducting (xii)

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Isto não é um instrumento musical !

Sou um blogueiro procrastinador. O motivo é bem simples. Blogs são o derradeiro reduto do direito de expressão de seus donos quando outros espaços não se interessam por seus discursos, pouco importando quantas pessoas leiam as postagens neles publicadas. Só que, pela própria natureza do funcionamento de cada tipo de plataforma, redes sociais são imensamente mais interativas do que blogs. Basta ver a proporção existente entre postagens e comentários em cada ambiente. Enquanto blogs são mais afeitos a longos discursos monológicos e geram relativamente poucos comentários, em redes sociais postagens lacônicas podem desencadear, dependendo da temática (i.e., se for mais ou menos polêmica ou ultrajante), enormes sucessões de reações que podem se estender, em muitos casos, por vários dias após a postagem original.

Talvez por isto eu me sinta muito mais compelido a compartilhar inquietações na algaravia do facebook do que no conforto do discurso mais controlado em meu blog. Pois a conversa em si me interessa muito mais do que meus pensamentos depurados em palavras bem acabadas.

Por outro lado, o discurso dos blogs é muito mais permanente do que aquele das redes sociais. Pois é nitidamente mais fácil recuperar ideias lançadas no passado em um blog do que em timelines do facebook. Por isto, gosto de pensar no blog como uma espécie de back up do facebook, para onde exporto, a fim de conferir maior permanência, ideias mais relevantes recortadas de plataformas mais efêmeras.

Foi assim que decidi copiar aqui as palavras extremamente lúcidas proferidas por Graziela Bortz, entre outros comentários interessantes, acerca de um ótimo artigo do  crítico Ali Hassan Ayache (que eu ainda não conhecia !) a propósito da necessidade e supostos benefícios de alguém como Marin Alsop à frente da OSESP. Sob o mesmo, Graziela expressou, de modo ao mesmo tempo conciso e abrangente, tudo o que sempre achei sobre os modos de gestão diametralmente opostos de orquestras e universidades públicas. Sem mais delongas, eis o que ela disse:

[…] orquestra é um monumento artístico como muitos outros, um veículo de expressão artística como muitos outros, que deve, sim, ser mantida como patrimônio cultural importantíssimo. A estrutura precisa, e em alguns lugares isso tem acontecido, ser modernizada. Eu toquei em orquestra, o Augusto ainda toca (tocamos juntos no passado) e ambos dividimos também, como você, Damián, a experiência muito diferente que é a de trabalhar em universidade. Nesta última, a despeito de todos os problemas que enfrentamos, creio que possamos concordar nisso, temos imensamente mais autonomia. Por que? O Augusto disse a palavra-chave: conselhos. Nós somos representados nos órgãos colegiados. Por mais imperfeito que seja esse modelo de democracia, ainda é uma democracia. A orquestra está anos-luz disso. O maestro continua se cercando de puxa-sacos que muitas vezes até são músicos bons, muitas vezes não, e maltratando aqueles sem grandes habilidades na arte do cinismo. É um jogo horroroso de egos que nada tem a ver com técnica ou conhecimento musical, que favorece o crescimento do ego e mata o desenvolvimento da alma, da arte e do espírito de colaboração. Não é preciso ser assim, nós sabemos; vivenciamos outra maneira de gerir o trabalho no cotidiano. Acontece que maestros normalmente são escolhidos e nomeados por políticos, ainda que indiretamente (por um conselho que tem tudo menos músicos da própria orquestra). Lembre-se que, no passado, foram os professores universitários que escolheram esse tipo de gestão, a tal da autonomia universitária. É por isso que temos brigado tanto por mantê-la. Faz toda a diferença em nossas vidas e na de toda a comunidade universitária.

Um pouco adiante na mesma conversa, Graziela exemplificou brilhantemente com as consequências nefastas da concentração de poder em mãos de políticos numa orquestra prá lá de conhecida como a OSESP. Vale muito a pena a leitura.

[…] nesse caso, são oportunidades das quais os políticos fazem uso por deterem o poder de escolha nas mãos, a escolha de nomear os conselheiros (quando tem conselho!), de nomear o líder artístico (sic), os cargos administrativos, e por aí vai. A associação de músicos da Osesp que ousou questionar os contratos de gravações no passado foi 100% demitida na época em que o Neschling era o diretor artístico! E o conselho fez alguma coisa? Claro que não, foi nomeado por ele em comum acordo com os políticos. Isso não acontece na universidade, por razões diversas: nossos contratos são de funcionários públicos e, portanto, estáveis, e nós, professores, somos os conselhos (de membros eleitos pela comunidade). Diferença básica, modelo de autonomia. Tem seus problemas, como mencionei antes, mas não esse, de abuso de autoridade. O perigo é misturar isso com a arte em si. E é disso que estamos falando, e creio que concordamos, que é preciso modernizar o modelo de gestão. O que creio que torna difícil a mudança é que alguns músicos preferem se beneficiar da aproximação do poder, enquanto a maioria (silenciosa, covarde – covardia esta muitas vezes compreensível, pelo medo de perder o emprego) se ferra pelas decisões aleatórias que vêm de cima.

Se tirei meu blog da hibernação para repercutir estas palavras, foi tão somente por pensar que a discussão é altamente pertinente. Mesmo que instituições como orquestras estejam, como as políticas, entre as mais inerciais – i.e, são altamente resistentes a mudanças – e, portanto, como costuma dizer um grande amigo, só devem evoluir depois de alguns séculos (se ainda existirem). Exagero ou não, nada deve mudar antes de minha aposentadoria. Atestando, portanto, neste caso, a total falta de interesses pessoais em minha defesa do que aqui foi ventilado.

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Existe esta naturalização das ideias de que, enquanto em universidades professores são eleitos como líderes por seus pares (i.e., de baixo para cima), em orquestras diretores artísticos (leia-se maestros) são indicados por políticos (de cima para baixo) à revelia de seus quadros estáveis. Ora, tal se deve exclusivamente ao fato de que, para a grande maioria (dos políticos, inclusive), regentes não são percebidos como músicos temporariamente investidos de uma atribuição especial (a regência), mas como pertencentes a uma categoria autônoma e hermética. Uma outra casta, se quiserem, diferente da dos músicos. Deste modo, qualquer evolução da orquestra em direção a um modelo mais democrático passa, obrigatoriamente, pela derrubada deste mito.

Uma analogia bem útil: a carreira de regente orquestral, como a do político, não deveria existir. Isto quer dizer que, num “mundo perfeito”, do mesmo modo que governantes e legisladores deveriam ser não mais do que cargos honoríficos temporariamente ocupados por cidadãos comuns que não abdicassem de suas ocupações originais (sem aposentadorias especiais), também o pódio orquestral deveria ser ocupado, em regime de revezamento, por músicos talentosos que não abdicassem de sua responsabilidade de execução de um instrumento. Tão simples e tão distante do que temos hoje. Ou, como diz meu amigo, é algo para daqui a uns 300 anos.

De como Lula abdicou de qualquer pretensão eleitoral para 2018

Ontem acirrei os ânimos em meu perfil no facebook (oba !) ao mencionar, só de raspão, a absurda necessidade que certos petistas de carteirinha têm de blindar o Lula. Como se, para ser convincente, só ter carisma bastasse – e ele fosse, sei lá, uma espécie de Fidel. Deve haver por aí quem pense assim, ou sua figura já teria sido há muito esquecida pelo PT.

Lula deve ter recebido enfáticas recomendações para que, ao teimar em se defender perante a nação de acusações vazias recebidas na véspera, não falasse de improviso em hipótese alguma. Inutilmente, no entanto. Pois improvisou. E no meio de todas as asneiras que provavelmente disse (me poupei do discurso completo), proferiu o monumental disparate de comparar, favoravelmente aos primeiros, políticos com funcionários públicos concursados.

Ou seja, de um lado,

oportunistas que recebem até 14 polpudos salários anuais para prestarem expedientes reduzidíssimos, se aposentando com o teto dos vencimentos depois de apenas 8 anos de trabalho em ambientes confortáveis e privilegiados;

e, de outro,

profissionais capacitados que tiveram sua proficiência averiguada em certames isonômicos para trabalharem jornadas extensas em condições frequentemente adversas e receberem aposentadorias proporcionais só depois de 30 ou 35 anos.

Foi bastante fácil encontrar no youtube (não precisei perguntar no facebook !) a fala desastrosa do Lula. Vejam:

Não preciso dizer que estas poucas palavras, que nenhum marketeiro ou assessor aprovaria (daí minha insistência para que, no horário de propaganda eleitoral gratuita, fossem transmitidos obrigatoriamente, em vez das ridículas peças publicitárias com que somos bombardeados, reality shows com os candidatos) – ganharam imediatamente toda a mídia e as redes sociais. Ainda não tivemos tempo de conhecer os melhores memes. Com elas, Lula conseguiu, por puro erro de avaliação, irritar profundamente tanto seus adversários políticos (representados como categoria em sua fala ultrajante) quanto sua imensa base de apoio – constituída, vale lembrar, por uma enorme quantidade de funcionários públicos.

Então, se Lula tinha qualquer pretensão eleitoral para 2018, dela abdicou ontem à noite, diante de uma nação divertida (adversários e detratores) e estupefata (aliados e admiradores). O que me restou disto tudo foi a profunda convicção de que, embora não possa provar, quem ainda ficou a seu lado o faz por razões estritamente econômicas. Ou, talvez, ingenuidade. Pois todo ser humano merece o benefício da dúvida. Até o Lula.

* * *

PS: fui alertado pelo José Neves que o vídeo que ilustra a postagem acima foi removido pelo usuário. Então, quem quiser conferir o polêmico trecho do discurso de desagravo de Lula encontrará várias postagens do mesmo nesta pesquisa.

 

Para um manual de privacidade

cartas-1Sou de há muito um procrastinador e adepto fervoroso do ócio descomprometido – isto é, aquela preguiça que não está diretamente relacionada a qualquer incremento da criatividade ou coisa que o valha, como vêm defendendo recentemente alguns estudiosos do comportamento. Este próprio blog depõe neste sentido. Desnecessário dizer que, na iniciativa privada, eu estaria f… deixa prá lá.

Consoante a isto, considero altamente invasivas – uma selvageria, até – aquelas ligações telefônicas para meu celular a partir de números que não conheço, demandando atenção instantânea e, na maioria das vezes, respostas que não quero dar naquele momento e/ou que exigem uma maior reflexão. Que raios quem faz isto tem contra os meios assíncronos ? Como torpedos (mensagens SMS), emails ou mensagens privadas em redes sociais ?

Não importa. Hoje, acordei com uma ligação do Rio de Janeiro que, como de costume, não atendi. Provavelmente de algum banco ou operadora querendo me vender um pacote de serviços mais caro do que aqueles que já tenho. Pouco depois, na segunda chamada não identificada, respondi, por SMS, que ” Não conheço este número. Então, envie SMS ou email para… Grato ! “ Fui o mais educado que pude. Se for importante, seguirão minhas instruções. Senão, terei me livrado de mais um telechato.

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Não pude evitar pensar no custo/benefício do procedimento. Afinal, digitar torpedos me é bem cansativo (sou eternamente grato a minha mãe por ter me forçado, aos 14 anos, a frequentar um curso de datilografia). Mesmo assim, faria tudo igual outra vez, até salvando o texto (se soubesse como) para utilização futura como mensagem padrão. A satisfação de não precisar atender o telefone na hora em que toca não tem preço.

A perda progressiva da privacidade em razão de novas tecnologias de comunicação é galopante. É só lembrar que, até poucas décadas atrás, o ritmo de toda comunicação comercial mais dirigida era postal. O telefone móvel, que deveria facilitar a vida de seus usuários, se tornou uma praga. Principalmente se o número cai em mãos de corretores imobiliários. Sei de uma amiga que comprou uma linha só para vender um imóvel escolhendo os momentos em que queria atender vendedores sem temer estar desprezando alguma ligação importante, isto é, de pessoas que a conheciam (e que, portanto, não ligariam desnecessariamente) e em quem confiava. Depois que vendeu o imóvel, se livrou da linha.

Então, mais do que um desabafo, este post se insere na categoria de subsídios para um mundo melhor. Sem políticos, publicidade, televisão aberta, telemarketing e, a partir de agora, também a possibilidade de ser acessado a qualquer hora por qualquer pessoa. Que prazer indescritível ! Até por que sonhar não custa nada.

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Das máquinas impossíveis, ou Sobre a incredulidade

A credulidade é o motor da religião e da política. Até não é nenhum exagero afirmar que ambas vivam, de fato, da credulidade popular. A credulidade também é a principal responsável pela validação de todo boato ou teoria conspiratória.

Quando perguntei no facebook quais os maiores boatos dos quais já se ouviu falar, o mais engraçado (obrigado, Ricardo Anderson !) que levantei foi sobre um show gratuito dos Rolling Stones em Pelotas.

Aqui, estamos interessados num tipo particular de boato, de natureza tecnológica, que tem a ver com a busca, validação ou implementação – de boa ou má índole – de engenhos cientificamente impossíveis. Como nos casos abaixo.

Por volta dos anos 70 – muito antes, portanto, da internet ! – circulavam revistas com resenhas e projetos eletrônicos. Como Áudio ou Nova Eletrônica. Nelas, invariavelmente saía, na edição do mês de abril, uma pegadinha patrocinada pelo enigmático Dr. Lirpa. Uma das mais famosas foi uma agulha e uma cápsula fonográficas acopladas a um minúsculo veículo autopropelido sobre rodas que transmitia o sinal captado por ondas de rádio. O conjunto percorria em círculos o sulco de um LP imóvel. O toque de genialidade é conferido pelas bolinhas coloridas nas antenas.

Lirpa 1Custei a escrever este post, pois não achei na web qualquer registro das criações do Dr. Lirpa. Foi quando recorri a alguns amigos nerds de plantão. José Agustoni doara toda sua coleção de Nova Eletrônica à UFRGS. Marcos Abreu foi quem me socorreu com fotos de seus exemplares de arquivo. Notem que Lirpa era, além de excelente maquetista, também um ótimo desenhista.

Lirpa 3Me pergunto que fim teria levado em tempos de CAD. Como comentário a minha postagem de seu resgate das engenhocas de Lirpa, Marcos também anexou, como comentário, esta ótima releitura do engenhoso pickup fonográfico.

A bicicleta que condensava água a partir do vapor do ar enquanto o ciclista pedalava fez sucesso entre eco entusiastas de toda sorte. Até o Huff Post caiu, tanto em sua edição inglesa como na norte-americana.

ecobike 2ecobike 1Quando menos se espera, acontece perto da gente. Ao que tudo indica, um próspero e conhecido empreendedor investiu pesado na construção, na zona norte de Porto Alegre, de uma máquina de moto perpétuo. Mais especificamente, um gerador de energia a partir da força gravitacional. Sério. Confiram neste site e neste video (uma cópia do site; ainda não entendi o por que do raggae tocando de fundo aos slides…). Felizmente, a farsa (ou a estupidez), que chegou a ganhar o mundo, já foi desmascarada em mais de um site de demolidores de mitos. Como aqui, aqui e aqui.

A mais monumental das máquinas impossíveis, posto que foi efetivamente implementada e (a julgar pelo imperdível filme de época no final do post) testada, consumindo amplos recursos, foi um trem propelido a jato, que chegou a andar experimentalmente na união soviética nos anos 30. Assim que descobri, postei comentando que a coisa não deveria fazer uma curva a mais do que uns 60 km/h sem sair dos trilhos. Notem que as turbinas ficavam na frente e NA PARTE MAIS ALTA do veículo. Sorte que não chegaram a testar com passageiros.

jet train 1

Caixinhas (i) ou para ouvir Bill Evans (ii)

jazz audience 26Caixinhas é como chamamos aquelas embalagens contendo vários CDs abarcando ciclos composicionais maiores do que a música que cabe em apenas um disco. Em música clássica (na ausência de um termo melhor, prefiro clássico a erudito simplesmente por ter 25% menos sílabas), caixinhas contém geralmente ciclos integrais de sinfonias, quartetos, trios, sonatas e afins de um mesmo compositor, capturados em gravações realizadas ao longo de largos períodos de tempo.

Em música popular, não vi muitas caixinhas a não ser de jazzistas importantes, contendo na maioria das vezes vários takes alternativos de cada música, na maioria versões descartadas à época dos lançamentos originais em LPs e, depois, CDs. Caixinhas de discos de jazz contém, então, sempre versões improvisadas diferentes de umas poucas músicas gravadas durante curtos períodos de tempo. Mais. Grandes jazzistas retornam, em diferentes momentos de suas carreiras, a uns mesmos poucos temas. Há muito mais o que falar sobre isto. Mais tarde, talvez.

Caixinhas decorrem de certo modo da não existência, na indústria fonográfica, de objetos de diferentes valores distribuídos através de um mesmo meio. Explico. A indústria automotiva oferece carros dos mais diversos valores. O mesmo sucede no setor imobiliário. No fonográfico, no entanto, há pouca ou nenhuma diferença entre os valores de comercialização de discos de variadíssimo valor artístico. É, pois, tão somente por meio do agrupamento em coleções de CDs com várias horas de música que esta indústria que luta contra sua própria extinção logra oferecer objetos mais caros a  fãs e colecionadores ávidos.

Também não esperem topar com muitas caixinhas que não sejam de obras terminadas. Pois Investidores apostam mais em coisas de artistas mortos. Sejam sinfonias de Beethoven ou canções da Legião Urbana. Do mesmo modo, coleções monumentais como, por exemplo, dos Beatles devem ser bem mais populares do que dos Rolling Stones e outros que ainda estejam na estrada. Mas é só uma suposição. Não conheço este mercado.

* * *

Foi tomado por esta atração irresistível que todo fã sente por bocados colecionáveis da obra de uns poucos ídolos que topei dia desses, ao mesmo tempo (!) com duas coleções de improvisadores pelos quais nutro especial apreço, a saber, a integral dos sets gravados em um dia pelo trio de Bill Evans com Scott LaFaro no Village Vanguard em 1961 (3 CDs) e todas as 49 faixas deixadas por Clifford Brown com o quinteto de Max Roach (4 CDs).

Acabo de ouvir na íntegra os sets gravados pelo trio de Evans no Vanguard em 25 de junho de 1961, apenas dez dias antes da trágica morte de LaFaro com apenas 25 anos num acidente automobilístico.

Clifford Brown também morreu num acidente automobilístico com 25 anos.

Designers de caixinhas de CDs costumam caprichar no visual. Pois deve ser, por vezes, bem difícil persuadir audiófilos a replicar em CDs itens já existentes em suas coleções de LPs. Nesta hora, embalagens luxuosas, incluindo amplas referências, rico material gráfico e até latas personalizadas, fazem toda a diferença.

Já conhecia de longa data os highlights, editados num único CD, dos sets do trio de Evans no Vanguard em 61. Uma das tantas vantagens de se descobrir, décadas depois, em raras e quase inaudíveis (pois os microfones estavam posicionados para captar o som dos instrumentos e não a voz dos músicos) falas de Evans, preservadas nestas integrais, uma fina ironia acerca da franca indiferença do público de então à sua música. Situação bem diferente, como já apontamos anos atrás, daquela quando do retorno de seu trio ao mesmo santuário em 1980.

Da breve e fértil colaboração de Clifford Brown falarei outra hora.

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Polissemia ao contrário ou da diferença inexistente entre orquestras sinfônicas e filarmônicas ou, ainda, entre choros e bachianas brasileiras de Villa-Lobos

Lévy 2

Pierre Lévy

Um dos grandes problemas enfrentados pelos cientistas comandados por Pierre Lévy rumo a seu intento de implementar uma web semântica (não sei por que essa ideia me fascina tanto) é, com certeza, o das palavras diferentes que designam uma mesma coisa, numa espécie de polissemia ao contrário ou, se preferirem, sinonimia. Mas não falo aqui de temos universalmente reconhecidos como equivalentes. Antes, me ocupo daquelas palavras que, ao designarem uma mesma coisa, sugerem coisas diferentes. Como orquestras sinfônicas e filarmônicas. Ou os Choros e as Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). O caso das orquestras é auto explicativo e, portanto, dispensa comentário.

Nas peças de Villa-Lobos, há muito mais diferença entre peças agrupadas em coleções designadas por um mesmo nome (choros ou bachianas brasileiras) do que entre os conjuntos das existentes em cada coleção. Pouco importa, então, se o compositor quisesse, ao escolher um título, sublinhar a índole popular ou o contraponto de Bach encontrados em cada obra. Até por que ambos os idiomas são formadores indissociáveis de sua técnica.

Noutras palavras, as Bachianas Brasileiras e os Choros de Villa-Lobos resistem a qualquer categorização tanto quanto à instrumentação com à duração ou forma – já que encontramos, em ambas as coleções,

desde solos (Choros #1, para violão, e #5, para piano) e duetos (Choros #2, para flauta e clarineta, e Bachianas Brasileiras # 6, para flauta e fagote) até orquestras expandidas, bandas e grandes corais;

tanto miniaturas (como o Choros #2, de apenas dois minutos e meio) como obras colossais, em vários movimentos (como o Choros #11, para piano e orquestra, que leva em torno de uma hora para ser executado);

formações instrumentais exclusivas (i.e., pouquíssimo ou nada utilizadas por outros compositores) como, por exemplo, a orquestra de violoncelos utilizada nas Bachianas Brasileiras #1 e #5.

E por aí afora. A música, em suas tantas categorizações, é território dos mais férteis para confusões decorrentes dessa espécie (até o advento de termo mais adequado) de polissemia ao contrário. Pois, convenhamos, calabouços semânticos de uso disseminado tais como concerto, sonata, balada e afins não ajudam muito.

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Heitor Villa-Lobos