O que é mais importante para se apreender a tocar um instrumento musical: aptidão ou motivação ?

O texto abaixo me foi encomendado pela Revista Clarineta e publicado em seu número 4, de janeiro de 2018. Quando aceitei o convite gentilmente formulado por Joel Barbosa (UFBA) e Vinícius de Souza Fraga (UFMT), tudo o que pedi foi permissão para transcreve-lo em meu blog após sua publicação original.

Parabéns ao staff da revista ! Ótimos textos e excelente acabamento.

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Professores de instrumentos musicais em escolas, tanto de nível médio como superior, se deparam frequentemente com a tarefa de selecionar candidatos às suas classes.  Na maioria das vezes em escolas públicas, o número de candidatos supera o de vagas oferecidas. O problema não é tão acentuado no ensino privado, institucional ou individual, já que, nestes casos, os valores a serem pagos pela instrução costumam restringir a demanda.

Então, a discussão abaixo se refere, principal ou exclusivamente, aos ritos de acesso ao ensino público de execução de instrumentos musicais. Antes, porém, de a ela proceder, cabe uma observação sobre o fato de eu haver desistido, há muitos anos, de ministrar aulas particulares de clarineta. A razão é bem simples: professores particulares, autônomos ou em instituições de ensino, geralmente não se encontram em posição de poder selecionar alunos com os quais queiram trabalhar – já que, na medida em que um preço é estipulado pelas aulas a serem ministradas, fica o instrutor refém de quem quer que possa e se disponha a investir o valor cobrado pela instrução.

O acesso praticamente universal a este tipo de ensino, i.e., mediante o pagamento de mensalidades ou honorários por aulas recebidas, pode parecer, de início, mais democrático. Apenas, no entanto, até considerarmos o alto índice de evasão ou frustração persistente quando da abolição da exigência de condições iniciais, das quais trataremos adiante.

Antes, porém, de examinarmos estas condições, necessariamente polêmicas, devemos ressalvar que nosso foco é exclusivamente o aprendizado da execução de instrumentos musicais para alta performance, usualmente (mas não necessariamente) associada à música orquestral e de câmera – as quais, para a aquisição de alguma proficiência, exigem anos de dedicação concentrada, com várias horas de prática diária. Tais pré-requisitos exigem, por si só, um perfil bem específico de qualquer aspirante.

Dito isto, reafirmamos a convicção de que a educação musical básica, também conhecida como musicalização, deve ser franqueada a todo aluno matriculado em redes escolares, independentemente de motivação ou aptidão prévias. Feita esta distinção entre o ensino musical básico, que deve ser disponível a todo cidadão, e o especializado, voltado ao músico profissional, devemos também distinguir quais os instrumentos mais adequados a uma e a outra. Pois não há qualquer propósito em submeter precocemente alunos em processo de musicalização às complexidades de execução dos instrumentos que fazem parte de uma orquestra sinfônica. Para tanto, teclados, violões e flautas doces oferecem uma oportunidade de aprendizado muito mais intuitiva e amigável a iniciantes – os quais, uma vez tendo optado por se aprofundar na arte da execução musical, poderão mais adiante, já musicalizados, escolher instrumentos de manejo mais complexo. Além disto, ensinar música e a tocar um instrumento complexo ao mesmo tempo é um tremendo convite à perda de foco numa coisa ou noutra, quando não nas duas.

Por vezes, professores e instituições de ensino privados, mesmo percebendo que alguns alunos não chegarão a adquirir a necessária proficiência como instrumentistas, insistem em ministrar aulas aos mesmos. Fazem isto na melhor das intenções, amparados pela justificativa de um acesso universal e democrático à instrução. Só que, nestes casos, acabam por levar tais alunos, na melhor das hipóteses, à perda de tempo e, na pior, a frustrações de tratamento mais complexo. Nestes casos, ainda que o pretexto – a saber, o de dar oportunidade a todos – seja dos mais altruístas, a razão oculta – que muitas vezes é a de maximizar o número de alunos e, com isto, os ganhos – pode não ser tanto. O que temos, então, é que uma iniciativa que era para ser mais democrática acaba se tornando, no máximo, demagógica.

Já professores e instituições públicos que oferecem ensino gratuito – cujo tempo de atenção docente, portanto, não está à venda – se encontram na posição privilegiada de poder favorecer aqueles aspirantes que, independentemente de condição econômica, apresentem o melhor elenco de condições iniciais. É do peso relativo de duas variáveis deste complexo – a saber, a motivação e a aptidão prévia – que trataremos no restante deste texto.

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Da aptidão prévia

Candidatos aspirantes ao curso de extensão em clarineta na UFRGS não são submetidos a quaisquer testes de aptidão prévia. Como únicas condições iniciais, devem possuir um instrumento viável (i.e., afinado, equilibrado e cuja ergonomia não dificulte, ao invés de ajudar, o processo de aprendizagem de quem o manuseie) e ter algum domínio sobre a leitura musical.

Tal protocolo de acesso está longe de ser o mais comum, já que cursos de música com demanda de vagas maior do que a oferta costumam condicionar a aceitação de novos alunos à demonstração de alguma habilidade previamente adquirida por cada candidato na execução do instrumento de sua escolha. Para tanto, realizam testes seletivos cujo repertório pode incluir estudos técnicos, obras pré-determinadas e de livre escolha, solfejo e leitura à primeira vista ao instrumento.

Além disto, se é que existe algo como uma aptidão ao aprendizado da execução de um instrumento musical, esta não pode ser avaliada por meio de um teste realizado num único instante mas, tão somente, em duas ou mais ocasiões consecutivas nas quais o professor fornece, inicialmente, a cada candidato um conjunto de orientações e, posteriormente,  verifica o progresso do aluno após dias de prática sob as mesmas. Ora, é claro que a realização de processos seletivos sob tais premissas se situa bem longe das possibilidades e da prática comum no ensino institucional. Então, não tendo como acessar e avaliar aptidões desta maneira e também no intuito de não desfavorecer aspirantes com grande potencial mas pouca habilidade já adquirida, abandonei totalmente a realização de testes seletivos.

Influenciado por práticas institucionais, também condicionei, num passado remoto, o ingresso de novos alunos de extensão a demonstrações de aptidão prévia. Só que, com o passar do tempo, fui verificando que tais demonstrações podem, muitas vezes, não ter qualquer correlação com o potencial de cada aluno para a aquisição de proficiência na execução do instrumento. Isto por que muitos dos que demonstravam, ao ingressar no curso, a melhor aptidão prévia – adquirida, por vezes, por razões alheias a sua vontade – vinham mais tarde, ao tomar contato a alta exigência do universo da execução musical, a abandonar os estudos. Ao mesmo tempo, vários alunos que chegaram ao curso com uma proficiência bem mais modesta ou mesmo “começando do zero” progrediram muito mais do que o restante dos colegas.

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Da motivação

Todo candidato a frequentar o curso de extensão em clarineta da UFRGS – para o qual, repito, não é submetido a nenhum processo seletivo formal – é por mim advertido de que meus esforços iniciais serão no sentido de, por meio do esclarecimento honesto e precoce sobre as complexidades envolvidas na execução artística do instrumento, lhes fazer desistir de investir tempo, concentração e energia em algo tão exigente caso não estejam plenamente conscientes das implicações da opção para suas vidas futuras. Depois de algumas semanas, os que desistem agradecem e os remanescentes costumam ser bem mais focados e dedicados do que a maioria dos que frequentam classes demagógicas mais populosas.

Em substituição aos testes seletivos, passei a submeter todos os candidatos a uma entrevista informal  na qual falo bastante do que entendo serem os principais pré-requisitos para um bom progresso na aprendizagem da execução da clarineta e, principalmente, procuro sondar a motivação de cada um para ter decidido dedicar tanto tempo de sua vida ao instrumento. Com isto, os apenas curiosos se assustam, agradecem e se retiram.

Aos que ficam, pergunto quais são suas fantasias de palco. Normalmente, ninguém assume ou sequer entende o que estou a perguntar. Explico: quero saber em que contextos se imaginam tocando clarineta daqui a 5 ou 10 anos. É aí que ouço de tudo, desde tocar em bandas e orquestras sinfônicas até em conjuntos de música popular (curiosamente, poucos se imaginam tocando música de câmera). É quando declaro que todos estes não terão problemas em enfrentar a árdua dedicação necessária por estarem suficiente e saudavelmente motivados.

A parte problemática do grupo é a dos que pretendem apreender a tocar clarineta como uma atividade solitária, a ser exercida longe de outros ouvintes e tão somente em busca de prazer pessoal. A estes, afirmo categoricamente que tocar apenas para si próprios não constitui motivação suficiente para se encarar a dedicação e concentração necessárias por anos a fio até a obtenção de uma execução minimamente prazerosa para si, que dirá para os outros. Também explico a diferença entre instrumentos musicais profissionais e pedagógicos – distinção óbvia para músicos mas nem sempre clara para leigos – e sugiro, na maioria das vezes, aos “músicos solitários”, a aquisição e o aprendizado de um teclado eletrônico ou outro brinquedo musical.

Por que considero a fantasia de palco, qualquer que seja, tão importante ? Ora, por que ainda acho (ao contrário de muitos compositores acadêmicos desde o célebre manifesto de Milton Babbitt “Who cares if you listen ?”, de1958) que a componente comunicativa seja uma parte inalienável da música. Ou, noutras palavras, que toda música depende, para sua legitimação, de sua capacidade de estabelecer uma ligação cognitiva e emocional entre ouvintes e executantes. Então, o desejo de tocar em público para, de algum modo, encantar os outros é essencial para que qualquer um tenha a motivação sustentável necessária durante o longo e exigente caminho da aquisição de competências musicais.

Com o tempo, passei a chamar, para choque daqueles mais favoráveis a uma educação demagogicamente inclusiva, a prática acima descrita de pedagogia da desistência precoce.

Comprando discos em Buenos Aires: piano trios argentinos: Ernesto Jodos e Adrian Iaies

Não é de hoje que amo o jazz argentino. Tragicamente, costumo estar em Buenos Aires quando meus ídolos porteños tiram férias. Com isto, nunca pude testemunhar qualquer performance de seus combos nos irretocáveis clubes de jazz de Buenos Aires (já foi dito que a capital argentina lidera o ranking mundial de livrarias por habitante; suponho que um levantamento dos clubes de jazz não deixaria por menos…)

Chegando, então, à Zival’s (melhor loja de discos (CDs e vinilos) e livros sobre música de Buenos Aires), procurei discos de Jodos (que conhecera num festival de jazz de Canoas…),  abrindo mão de um álbum de piano solo e recomprando seu experimento com o double trio de piano com dois contrabaixos e duas baterias, Fragmentos del mundo.

Explico por que recomprar. É que emprestei a não me lembro quem meu exemplar de Fragmentos del mundo. Então, descartada a desagradável opção de rastrear o item subtraído a minha coleção, preferi adquirir a obra pela segunda vez, num investimento prá lá de bom !

Fecha parêntesis. Munido, assim de pelo menos uns dois discos de Jodos com satisfaction guaranteed, me dirigi ao balcão, dizendo: ” – Se gosto disto, do que mais posso gostar em termos de jazz argentino ? ” – ao que, prontamente, me recomendaram Adrian Iaies, igualmente pianista, organizador dos festivais de jazz que acontecem em Bs As em setembro.

Em toda esta pequena antologia, há que se prestar atenção na extraordinária proficiência jazzística dos músicos porteños. Desde, por exemplo, o baterista Pepi Taveira, parceiro tanto de Iaies (em Esa sonrisa es un santo remedio) como de Jodos (em Light Blue) – ou então o genial contrabaixista Jerónimo Carmona, parceiro de Jodos em vários discos.  O trabalho do excelente baterista Sergio Verdinelli tampouco passa despercebido. Quisera ter escutado esse pessoal em clubes de jazz na última  vez em que estive lá.

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Com algum tempo de sobra, perguntei ao mesmo atendente sobre trompetistas argentinos tão bons como, por exemplo, Juan Cruz de Urquiza (que conhecera numa ida anterior ao Zival’s). O Gillespi (” O argentino, não o Dizzy ! “, se apressaram em me explicar), que me foi recomendado era, no entanto, um tanto quanto fusion demais para meus ouvidos. Acabei ficando com os piano trios. Na seguinte cronologia:

Adrian Iaies Trio – Esa sonrisa es un santo remedio (2002)

Ernesto Jodos double trio – Fragmentos del mundo (2011)

Ernesto Jodos Trio – Light Blue (2012)

Adrian Iaies Trio – La Vida Elige (2016)

Devo interpolar a esta coleção

Ernesto Jodos Trio (2007)

e El Jardin Seco (de 2008, do qual não encontrei imagens).

O que dizer desses discos ? Recomendo todos. Fortemente.

 

Você trabalha mais do que 39 horas por semana ? Seu emprego pode estar lhe matando

Longas jornadas, stress e inatividade física são ruins para nosso bem-estar – ainda assim estamos trabalhando mais duro do que nunca. Não é hora de voltarmos atrás ?

Publicado originalmente por Peter Fleming em The Guardian em 15 de janeiro de 2018

Quando um grupo de estagiários chegou recentemente ao Barclays, de Nova Iorque, descobriram um memorando em seu correio eletrônico. Era de seu supervisor no banco, assim intitulado: “Bem-vindos à selva”. A mensagem continuava: “Recomendo que tragam um travesseiro para o escritório. Torna o sono sob a mesa de trabalho bem mais confortável… O estágio é realmente um compromisso de nove semanas à escrivaninha… Um estagiário pediu a um de nossos funcionários um fim-de-semana de folga para uma reunião familiar – ele foi mandado embora. Também foi instruído a devolver seu celular e a limpar sua mesa.”

Embora o memorando não autorizado tenha sido concebido como uma piada, ninguém riu quando ele vazou na mídia. Ainda era fresca a lembrança de Moritz Erhardt, o estagiário londrino de 21 anos que morreu depois de trabalhar 72 horas sem interrupção no Bank of America. Parecia que o Barclays também estava levando a “ética de trabalho” a extremos mórbidos.

Depois de 30 anos de desregulamentação neoliberal, o “das nove às cinco” mais parece uma relíquia de uma era passada. Empregos são infinitamente estressantes e crescentemente precários. O trabalho excessivo se tornou norma em muitas empresas – algo esperado e mesmo admirado. Tudo o que fazemos fora do escritório – não importa o quão gratificante – é silenciosamente menosprezado. Relaxamento, hobbies, criar crianças ou ler um livro são desqualificados como preguiça. Tal o poder da mitologia do trabalho.

Se esperava que a tecnologia nos libertasse do sacrifício diário. Só que, com frequência, ela tornou as coisas piores: em 2002, menos de 10% dos empregados liam emails de trabalho fora do expediente. Hoje, com a ajuda de tablets e smartphones, são 50%, frequentemente antes de se levantar da cama.

Alguns observadores sugerem que trabalhadores atuais não “desligam” nunca. Como nossos telefones celulares, apenas passamos a stand by no fim do dia, quando rastejamos para a cama exaustos. Esta implacável falta de alegria é especialmente evidente quando o assunto é férias. Nos EUA, uma das economias mais ricas do mundo, empregados tem sorte se conseguem tirar duas semanas por ano.

Você pode até pensar que esta atividade frenética esteja diretamente ligada a nossa preservação biológica e que não sobreviveríamos sem ela. Como se escrever emails idiotas num escritório apertado fosse semelhante a caçar e colher em eras anteriores… Felizmente, uma mudança generalizada está em curso. O custo do trabalho excessivo não pode mais ser ignorado. Stress duradouro, ansiedade e inatividade prolongada foram expostos como assassinos potenciais.

Pesquisadores do Columbia University Medical Center usaram recentemente rastreadores de atividade para monitorar 8000 trabalhadores com mais de 45 anos. Os resultados foram chocantes. O período médio de inatividade em cada dia acordado era de 12,3 horas. Empregados sedentários por mais de 13 horas por dia eram duas vezes mais propensos a morrer prematuramente do que aqueles que eram inativos por 11,5 horas. Os autores concluíram que permanecer sentado num escritório tinha um efeito similar ao hábito de fumar – devendo, portanto, ser objeto de advertência sanitária.

Quando pesquisadores no University College de Londres observaram 85.000 trabalhadores, homens e mulheres de meia-idade em sua maioria, encontraram uma correlação entre trabalho excessivo e problemas cardiovasculares, especialmente arritmia cardíaca e fibrilação atrial, o que aumenta em cinco vezes o risco de um infarto.

Sindicatos também estão cada vez mais preocupados com o trabalho excessivo, especialmente no que tange ao impacto sobre as relações pessoais e à doença física e mental. Vejam o caso do sindicato IG Metall na Alemanha. Semana passada, 15.000 trabalhadores (que fazem peças automotivas para empresas como Porsche) convocaram uma greve demandando uma semana de trabalho de 28 horas sem redução salarial ou de condições. Não se trata de indolência, dizem, mas de auto proteção: não querem morrer antes da hora. A ciência está do seu lado: uma pesquisa da Australian National University descobriu recentemente que trabalhar qualquer coisa mais do que 39 horas por semana é um risco ao bem-estar.

Há algum nível saudável ou aceitável de trabalho ? De acordo com o pesquisador norte-americano Alex Soojung-Kim Pang, a maioria dos empregados atuais são produtivos por cerca de quatro horas por dia: o resto é preenchimento de tempo e uma quantidade enorme de preocupação. Pang argumenta que o dia de trabalho poderia ser facilmente reduzido sem comprometer padrões de subsistência e prosperidade.

Outros estudos corroboram esta observação. O governo sueco, por exemplo, financiou um experimento no qual enfermeiras de home care trabalharam seis horas por dia recebendo salários de oito horas. O resultado ? Menos faltas por doença, menos stress e um salto na produtividade.

É claro que tudo isto é muito encorajador. Mas quase todos estes estudos focalizam o problema sob um ponto de vista numérico – a quantidade de tempo gasto trabalhando a cada dia, ano após ano. Temos que ir adiante e começar a encarar as condições do trabalho pago. Se um trabalho é miserável e demasiado estressante, até umas poucas horas do mesmo podem se tornar um pesadelo existencial. Alguém que gosta de trabalhar em seu carro no fim-se-semana, por exemplo, pode muito bem achar intolerável fazer a mesma coisa numa fábrica, mesmo por um período mais curto. Toda a liberdade, criatividade e engenhosidade são sugadas da atividade. O que era para ser um momento de descontração voluntária de torna um fardo imposto de fora para dentro.

Por que isto é importante ?

Por que existe um perigo de que meramente reduzir horas de trabalho não mude muito, em termos de saúde, enquanto empregos intrinsecamente privarem de liberdade. Para que empregos conduzam a nosso bem-estar mental e fisiológico, muito menos trabalho é definitivamente essencial. Da mesma forma que trabalhos de um tipo melhor, onde hierarquias sejam menos autoritárias e tarefas sejam mais variadas e façam mais sentido.

Infelizmente, o capitalismo não possui um bom histórico em termos de criar empregos assim. Mais de um terço dos trabalhadores britânicos acham seus empregos sem sentido, de acordo com uma enquete de YouGov. E se o moral é tão baixo, não importa quantos vales-academia, programas de atenção plena e cestas de frutas orgânicas os empregadores lhes dem. Mesmo o empregado mais comprometido sentirá que algo fundamental está faltando. Uma vida.

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O novo livro de Peter Fleming, A Morte do Homo Economicus: Trabalho, Débito e o Mito da Acumulação Infinita (The Death of Homo Economicus: Work, Debt and the Myth of Endless Accumulation), foi publicado pela Pluto Press.

Por que o bordão “eleição sem Lula é golpe” se constitui, em última análise, numa confissão de culpa da esquerda

Como era de se esperar, o julgamento de Lula em segunda instância se tornou o assunto mais importante das redes sociais, com compartilhamentos de memes (em maior número) e artigos com ponderações (mais raros) por partidários de ambos os lados – a saber, os indignados e a turma do “bem feito” a celebrar o resultado.  É bem possível que minha constatação desse equilíbrio espante a muitos leitores, já que, bem sei, a exclusão, em redes sociais, de perfis pertencentes a campos ideológicos adversários é uma prática higiênica adotada por muitos – e, até certo ponto, compreensível, por banir do alcance dos olhos as ideias hediondas de quem não pensa da mesma forma.

Rechaço, no entanto, esta prática. Como já expliquei aqui várias vezes, optei por conservar em minha timeline uns poucos coxinhas e bolsominions, tais como sondas lançadas para além da bolha discursiva, só para não perder o contato com o apito que toca por lá.

Dentre os indignados, se tornou praticamente um slogan a expressão “eleição sem Lula é fraude” (ou, noutra versão, “eleição sem Lula é golpe”). Não pretendo contestar esta afirmação mas, tão somente, especular sobre o estado de coisas que fez com que chegássemos a este ponto.

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Antes, porém, de examinar as práticas da esquerda e da direita que levaram a primeira ao atual beco sem saída, vale aventar uma hipótese sobre a aderência do judiciário (ou, ao menos, de parte dele) aos anseios da direita. Identificação é a palavra-chave. Muito se tem falado sobre a fragilidade dos argumentos levantados por desembargadores do TRF4 que julgaram Lula em segunda instância. Penso que, para se entender a índole de qualquer discurso condenatório de Lula, devemos prestar atenção nem tanto na argumentação explícita dos dembargadores – que, de resto, já se provou furada e comprometida numa série de aspectos, inclusive no tão propalado fato de que os votos subsequentes ao do relator já se encontravam redigidos (provavelmente por estagiários, como bem apontou Gustavo Czekster) de antemão e, portanto, blindados contra quaisquer possíveis alterações em razão da audição atenta da leitura de votos anteriores – mas, principalmente, naquilo que não é dito, a saber, na maior proximidade dos vencimentos percebidos pelo andar de cima da magistratura com os de políticos, banqueiros e grandes empresários.

Este fato, aliado à grande discrepância entre os vencimentos destas categorias em relação aos da grande maioria da população brasileira, é suficiente para criar e manter uma consciência de classe avassaladora, conquanto subentendida. Pois juízes superiores moram nos mesmos condomínios, andam nos mesmos carros e frequentam os mesmos clubes e restaurantes que senadores e donos de grandes empreiteiras. Então, é natural, ainda que inconfessável, que juízes melhor remunerados, na hora de decidir em favor das classes populares ou das elites, privilegiem oligointeresses como se, com isto, estivessem, de algum modo inconsciente, a beneficiar a si próprios. Pois a ideia de pertencimento, explícito ou não, costuma falar mais alto.

É claro que se pode tributar a hipótese acima a mais uma teoria conspiratória. Permaneço, no entanto, convicto de que isenção e pluralidade andam juntas. Ou seja, quanto menos plural for uma decisão, menos isenta será. De tal modo que apenas três juízes decidirem sobre o futuro político de um líder apoiado por multidões é, no mínimo, suspeito. Imaginem, por exemplo, o lobby sofrido pelos julgadores de Lula nos meses anteriores ao julgamento.

A distribuição de processos, com um ou poucos árbitros designados para cada conflito, é, como já sustentei aqui, uma das deficiências mais visíveis do sistema jurídico como o conhecemos. Uma reforma judicial deveria, portanto, submeter decisões importantes a cortes mais amplas, tanto mais numerosas quanto for a importância de cada sentença a ser proferida. Pois mesmo que um único juiz seja eventualmente suficiente para arbitrar um conflito entre vizinhos, dificilmente cortes de poucos magistrados (personalistas, portanto) conseguirão julgar questões amplas, tais como as de importância nacional, com o mínimo de isenção necessária. Eis um ótimo problema para os teóricos do poder.

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Feita esta ressalva, tornemos a nossa questão central. Se uma eventual “eleição sem Lula é golpe (ou fraude)”, a culpa é, ao menos em parte, da esquerda que investiu uma quantidade considerável de tempo e energia na criação e manutenção da ideia de um único grande líder possível. Assim, a eterna candidatura de Lula está fundada no mesmo princípio de TINA (there is no alternative), invocado pela direita para justificar a aplicação de medidas de austeridade fiscal.

Senão, vejam como tem se comportado, nas últimas décadas, cada extremo do espectro ideológico. Enquanto a esquerda martela insistentemente num novo mandato de Lula como única possibilidade de redimir o país ante o inexorável avanço neoliberal, a direita astutamente se exime de fechar em torno de um único nome para disputar o pleito presidencial. Deste modo, até o último instante teremos um conjunto especulativo composto por Bolsonaro, Alckmin, Dória, Aécio e até competidores improváveis, legítimos azarões, como Collor ou, por que não, Kataguiri. Todos estão sujeitos a um compreensível desgaste político – análogo ao sofrido por Lula – até o derradeiro fechamento das nominatas pelos partidos (outra mazela que deveria ser extinta, mas isto já é outro assunto).

Muito mais do que teoria conspiratória, esta relutância até o momento derradeiro em fechar em torno de um candidato se constitui numa estratégia explícita proposta por um dos financiadores da Atlas Foundation (think tank de atuação internacional dedicado a formar e instrumentar agentes de promoção de ideias neoliberais) – a saber, a de que “em momento algum se deve permitir que o(s) nome(s) de quem está por trás da Atlas se torne(m) de conhecimento público”. Protegido, assim, por meio deste anonimato, o espírito neoliberal se torna tão poderoso como uma hidra cujas cabeças se multiplicam a cada vez em que uma delas é cortada. Ao contrário, a esquerda permanece obtusamente fiel à ideia de um grande líder, sem o qual estaríamos todos num beco sem saída.

Ora, ideias compartilhadas, que pertencem a todos e a ninguém especificamente ao mesmo tempo, tendem a ser mais duradouras, permanecendo mesmo depois que seus defensores mais ferrenhos sejam abatidos em meio à luta por sua promoção. Já aquelas representadas predominantemente por um indivíduo ou outro tendem a se dissipar mais facilmente na ausência de quem as personifique perante a maioria. Isto é uma das consequências mais nefastas tanto da cultura de celebridades na qual estamos imersos quanto do fato de que argumentos longos, mais afeitos ao texto que deve ser lido, cedem lugar a uma cultura eminentemente visual, em que memes ocupam cada vez mais espaço do que reflexões mais demoradas.

Ainda sobre ideias serem mais importantes do que pessoas. Disputando espaço nas redes sociais com o julgamento de Lula pelo TRF4 esteve a notícia do abandono de um debate midiático por parte de Márcia Tiburi ao constatar que estava prestes a enfrentar Kim Kataguiri. Estranhei as incontáveis manifestações de solidariedade recebidas por ela pois, a meu ver, a filósofa perdeu uma oportunidade privilegiada de rebater publicamente o discurso raso do enfant terrible da direita. Ou seja, abdicando de confrontar suas ideias, ainda que em termos que eventualmente lhe parecessem demasiado didáticos, acabou fortalecendo a pessoa.

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Pressenti e temi o atual estado de coisas desde o início da perseguição a Lula, tal qual a crônica de uma morte anunciada, a partir do momento em que todos os esforços se concentraram na tentativa inglória de blindar sua figura ao invés de, já então, se iniciar uma busca por novas lideranças ou, preferencialmente, coletivos capazes de se comprometer perante a nação e conquistar sua confiança em relação ao combate da desigualdade. Espero sinceramente que ainda haja tempo para isto. Caso contrário, que ao menos 2018 sirva de lição para um futuro não muito distante.

Há algum problema que trabalhar menos não resolva ?

A solução para praticamente tudo: Trabalhar menos

Publicado por Rutger Bregman em Evonomics

Traduzido por Augusto Maurer

Se você tivesse perguntado ao maior economista do século 20 qual seria o maior desafio do século 21, ele não precisaria pensar duas vezes.

Lazer.

No verão de 1930, bem quando a Grande Depressão adquiria força, o economista britânico John Maynard Keynes proferiu uma conferência curiosa em Madri. Ele havia aventado novas ideias com alguns de seus alunos em Cambridge e decidiu torná-las públicas numa palestra breve chamada “Possibilidades Econômicas para nossos Netos.”

Noutras palavras, para nós.

Na época de sua visita, Madri era uma confusão. Desemprego crescia descontroladamente, o fascismo se alastrava e a União Soviética estava ativamente recrutando apoiadores. Poucos anos depois, uma guerra civil devastadora eclodiria. Como, então, podia o lazer ser a maior mudança ? Naquele verão, Keynes parecia vir de outro planeta.

 “Estamos sofrendo um ataque de pessimism econômico,” escreveu. “É comum pessoas dizerem que a época de enorme progresso econômico que caracterizou o século 19 chegou ao fim…” E não sem razão. A pobreza era devastadora. Tensões internacionais cresciam e se precisaria da máquina mortal da Segunda Guerra Mundial para soprar vida novamente à indústria global.

Falando numa cidade à beira do desastre, o economista britânico arriscou uma predição contraintuitiva. Por volta de 2030, disse Keynes, a humanidade seria confrontada com o maior desafio jamais encarado: o que fazer com um mar de tempo livre. A menos que políticos cometam erros desastrosos (austeridade durante uma crise econômica, por exemplo), ele antecipou que dentro de um século o padrão de vida ocidental seria no mínimo o quádruplo do que era em 1930.

A conclusão ? Em 2030, estaremos trabalhando apenas 15 horas por semana.

Um futuro preenchido com lazer

Keynes não foi o primeiro nem tampouco o último a antecipar um futuro inundado por lazer. Um século e meio antes, o “pai fundador” americano Benjamin Franklin já havia previsto que quatro horas de trabalho por dia seriam, eventualmente, suficientes. Além daquilo, a vida seria toda “lazer e prazer”. E Karl Marx similarmente ansiava por um dia em que todos tivessem tempo “para caçar pela manhã, pescar à tarde, criar gado ao entardecer, criticar depois de jantar […] sem jamais se tornar um caçador, um pescador, um vaqueiro ou um crítico.”

Mais ou menos ao mesmo tempo, o pai do liberalismo clássico, o filósofo britânico John Stuart Mill, argumentava que o melhor uso de mais riqueza é mais lazer. Mill se opunha ao “elogio do trabalho” proclamado por seu maior adversário Thomas Carlyle (um grande defensor da escravidão, também, como acontece), o justapondo com seu próprio “elogio do lazer”. De acordo com Mill, tecnologia deveria ser usada para frear a semana de trabalho tanto quanto fosse possível. “Haverá mais tempo do que nunca para todos os tipos de cultura mental e progresso moral e social,” escreveu, “bem como para aprimorar a Arte de Viver.”

Ainda assim, a Revolução Industrial, que propeliu o explosivo crescimento econômico do século 19, trouxe exatamente o oposto de lazer. Enquanto um fazendeiro inglês no ano 1300 tinha que trabalhar ca. 1500 horas por ano para viver, um operário de fábrica na era de Mill precisava dedicar o dobro de tempo simplesmente para sobreviver. Em cidades como Manchester, uma semana de trabalho de 70 horas, sem férias nem fins de semana, era a regra até com crianças. “O que querem os pobres com feriados ?” ponderou uma duquesa inglesa ao fim do século 19. “Eles devem trabalhar !” Muito tempo livre é simplesmente um convite à maldade.

No entanto, por volta de 1850 um tanto da prosperidade criada pela Revolução Industrial começava a apelar às classes inferiores. E tempo é dinheiro. Em 1855, as mansões de Melbourne, Australia, foram as primeiras a assegurar um dia de oito horas.

Pelo fim do século, a semana de trabalho em alguns países já havia caído para menos de 60 horas. O dramaturgo nobelizado George Bernard Shaw predisse em 1900 que, naquela taxa, empregados em 2000 trabalhariam só duas horas por dia.

Empregados resistiram, naturalmente. Quando, em 1926, um grupo de 32 proeminentes empresários americanos foi perguntado sobre o que achavam de uma semana de trabalho mais curta, 2 acharam que a ideia tinha méritos. De acordo com os outros 30, mais tempo livre apenas resultaria em mais crime, dívida e degeneração. E não foi ninguém menos do que Henry Ford – titã da indústria, fundador da Ford Motors Company e criador do Modelo T – o primeiro a implementar, no mesmo ano, uma semana de 5 dias.

Chamaram-no de louco. Depois, seguiram seus passos.

Um capitalista “tingido na lã” e a mente brilhante por trás da linha de produção, Henry Ford descobriu que uma semana mais curta na verdade incrementava a produtividade de seus empregados. Tempo de lazer, observou, era um “frio fato econômico”. Um trabalhador mais descansado é um trabalhador mais eficiente. Além disto, um operário confinado em uma fábrica do amanhecer ao entardecer, sem tempo livre para viagens em estradas e passeios recreativos, jamais compraria um de seus carros. Como disse a um jornalista, “É tempo de nos livrarmos da noção de que tempo de lazer para trabalhadores é “tempo perdido” ou privilégio de classe.”

Em uma década, os céticos foram vencidos. A Associação Nacional de Indústria, que 20 anos antes advertia que uma semana de trabalho mais curta arruinaria a economia, então orgulhosamente se gabava de que os Estados Unidos tinham a mais curta semana de trabalho do mundo. Em suas recém-encontradas horas de lazer, trabalhadores logo estavam dirigindo seus Ford diante de cartazes da ANI que proclamavam, “Não há outro jeito igual ao americano.”

O Fim do Trabalho

Toda evidência pareciam sugerir que as grandes mentes, de Marx a Mill a Keynes a Ford, deviam estar corretas.

Em 1933, o senado norte-americano aprovou legislação introduzindo uma semana de trabalho de 30 horas. Apesar de lei ter sucumbido na Casa dos Representantes sob intensa pressão da indústria, uma semana menor permaneceu sendo a principal demanda dos sindicatos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o tempo de lazer aumentou constantemente. Em 1956, o vice-presidente Richard Nixon prometeu aos americanos que eles não teriam que trabalhar mais do que 4 dias por semana “num futuro não muito distante”.

A audaciosa predição de Keynes se tornou um truísmo. Em meados dos anos 60, o relatório de uma comissão do senado projetou que por volta de 2000 a semana de trabalho seria de apenas 14 horas, com pelo menos 7 semanas de férias por ano. A corporação RAND, um think tank influente, vislumbrou um futuro no qual somente 2% da população seria capaz de produzir tudo que a sociedade precisasse. O trabalho seria em breve reservado à elite.

Conforme os 60 progrediram, alguns pensadores começaram a manifestar preocupações. O cientista político Sebastian de Grazia, ganhador do Pulitzer, disse à Associated Press que “Há razão para se temer […] que tempo livre, tempo livre obrigatório, traga o pulso constante do aborrecimento, da indolência, da imoralidade e da crescente violência pessoal.” E em 1974, o Departamento do Interior dos EUA soou o alarme ao declarar que “Lazer, tido por muitos como epítome do paraíso, pode muito bem se tornar o maior problema do futuro.”

Apesar destas preocupaçõoes, parecia haver pouca dúvida sobre o curso que a história definitivamente tomaria. Por volta de 1970, sociólogos falavam confiantemente no iminente “fim do trabalho”. A humanidade estava no limiar de uma verdadeira revolução do lazer.

O sonho esquecido

E a história tomou outro curso.

Nos anos 80, reduções da semana de trabalho tiveram ima interrupção dramática. O crescimento econômico não estava se traduzindo em lazer, mas em mais coisas. Em países como Austrália, Áustria, Noruega, Espanha e Inglaterra, a semana de trabalho deixou totalmente de ser reduzida. Nos Estados Unidos, efetivamente cresceu. Setenta anos depois que o país sancionou a lei das 40 horas semanais de trabalho, três quartos da força de trabalho trabalhava mais do que 40 horas semanais.

Mesmo cidadãos da Holanda – a nação com a menor semana de trabalho no mundo – sentiram o peso crescente do trabalho, tempo extra, assistência e educação desde os anos 80. Três quartos da força de trabalho holandesa se sentiam sobrecarregados por pressões de tempo, um quarto trabalhava habitualmente além do tempo e um em cada oito sofria sintomas de burnout.

Além do mais, trabalho e lazer vem se tornando progressivamente mais difícil de dissociar. Um estudo conduzido na Harvard Business School mostra que, graças à tecnologia moderna, executivos e profissionais na Europa, Ásia e América do Norte dedicam hoje de 80 a 90 horas semanais, “tanto trabalhando quanto monitorando trabalho ou permanecendo acessível.” E de acordo com pesquisa britânica, o smartphone faz o empregado médio trabalhar mais 460 horas por ano – quase três semanas.

É seguro dizer que as predições das grandes mentes não se tornaram exatamente realidade. Estamos muito atrás da profecia de Keynes. Por volta do ano 2000, países como França, Holanda e os Estados Unidos já eram cinco vezes mais ricos do que em 1930. Ainda assim ao adentrarmos o século 21 nossos maiores desafios não são lazer e tédio, mas fadiga e incerteza.

A solução para (quase) tudo

Recentemente, um amigo me perguntou: “O que trabalhar menos efetivamente resolveria ?”

Prerefi formular de outra forma: “Existe algo que trabalhar menos não resolva ?”

Stress ? Incontáveis estudos mostraram que pessoas que trabalham menos são mais satisfeitas com as próprias vidas. Numa recente enquete conduzida entre mulheres trabalhadoras, pesquisadores alemães chegaram a quantificar o “dia perfeito”. “a maior porção de minutos (106) irá para “relações íntimas”. Em último lugar na lista constava “trabalho” (36) e “deslocamento” (33). Os pesquisadores se limitaram a observar que que “no intuito de maximizar o bem-estar é provável que trabalho e consumo venham a ter menos importância em atividades diárias do que hoje.”

Acidentes ? Tempo extra é letal. Dias de trabalho mais longos levam a mais erros: cirurgiões cansados são mais propensos a cochilos e soldados que descansam pouco os olhos erram alvos mais facilmente. De Chernobyl ao ônibus espacial Challenger, está provado que diretores que trabalham demais são os que mais cometem erros fatais em desastres. Não é por coincidência que o setor financeiro, que deflagrou o maior desastre da última década, esteja absolutamente afundando em tempo extra.

Mudanças climáticas ? Um movimento mundial por uma semana de trabalho menor poderia cortar a emissão de gás carbônico neste século pela metade. Países com semanas de trabalho mais curtas tem indicadores ecológicos melhores.

Desemprego ? Obviamente, se pode simplesmente cortar um emprego em partes menores. O mercado de trabalho não é um jogo de cadeiras musical em que todos podem ocupar quaisquer assentos e tudo o que temos que fazer é trocar de lugar. Não obstante, pesquisadores na Organização Internacional do Trabalho concluíram que o trabalho compartilhado – no qual dois trabalhadores em tempo parcial dividem a carga de trabalho tradicionalmente associada a um trabalhador em tempo integral – é um grande avanço em direção a resolver a última crise. Particularmente em tempos de recessão com altíssimo desemprego e produção superando a demanda, empregos compartilhados podem ajudar a suavizar o impacto.

Emancipação das mulheres ? Países com semanas de trabalho mais curtas consistentemente lideram rankings de igualdade de gênero. O objetivo central é atingir uma distribuição mais igualitária do trabalho. Só quando os homens assumirem sua porção de cozinha, limpeza e outros trabalhos domésticos é que as mulheres serão livres para participar efetivamente da economia mais ampla. Noutras palavras, a emancipação feminina é um assunto de homens. Estas mudanças, entretanto, não dependem exclusivamente das escolhas de homens individuais; a legislação tem um papel importante a cumprir. Em lugar algum a diferença de tempo de licença maternidade/paternidade entre mulheres e homens é tão pequena como na Suécia, um país com um sistema verdadeiramente decente vigente para cuidado infantil e licença paternidade.

População envelhecendo ? Uma parte crescente da população mais velha quer continuar trabalhando mesmo depois de ter idade para se aposentar. Mas onde “trintões” se consomem em trabalho, responsabilidades familiares, hipotecas e luta pela aposentadoria mesmo que o trabalho ainda lhes faça bem à saúde. Então, além de distribuir empregos mais igualmente entre os sexos, também precisamos distribuí-lo entre as gerações. Trabalhadores jovens que recém estão entrando no mercado de trabalho podem muito bem continuar trabalhando até seus 80 anos. Em compensação, podem estar trabalhando não as 40 horas, mas talvez 30 ou 20 horas por semana. “No século 20 tivemos a redistribuição da riqueza,” observou um grande demógrafo. “Neste século, a grande redistribuição será em termos de horas de trabalho.”

Desigualdade ? Os países com as maiores disparidades em riqueza são precisamente aqueles com as mais longas jornadas de trabalho. Enquanto os pobres estão trabalhando por mais tempo e tendo que aderir a jornadas maiores, os ricos estão achando “mais caro” reduzir jornadas à medida em que seus lucros caem.

No século 19, era típico pessoas ricas delicadamente se recusarem a arregaçar as mangas. Trabalho era para camponeses. Quanto mais se trabalhasse, mais pobre se era. Desde então, vantagens sociais surgiram. Hoje, trabalho excessivo e pressão são símbolos de status. Reclamar do excesso de trabalho é muitas vezes uma tentativa de se sobressair como importante ou interessante. Tempo consigo mesmo é de pronto equiparado ao desemprego e à indolência, certamente em países em que a desigualdade na distribuição de riqueza se ampliou.

Não é preciso que seja desta forma. Podemos cortar uma grande parte de nossa semana de trabalho. Isto não apenas faria toda a sociedade bem mais saudável, com também poria um fim a indizíveis pilhas de trabalho inútil e mesmo tarefas perigosas (uma pesquisa recente descobriu que 37% dos trabalhadores britânicos achavam que tinham “trabalhos idiotas” [bullshit jobs]). Uma renda mínima universal seria a melhor forma de dar a todos a oportunidade de realizar mais trabalho incrivelmente importante, conquanto não remunerado, -tais como cuidar de crianças ou idosos.

A boa vida

Quando eu contei às pessoas, durante a escrita de meu livro, que estava abordando o maior desafio do século, obtive rapidamente sua atenção. Estava escrevendo sobre terrorismo ? Mudança Climática ? Terceira Guerra Mundial ?

Seu desapontamento era evidente quando eu introduzia o tema do lazer. “Todo mundo não vais estar colado na TV o tempo todo ?”

Eu era lembrado dos severos sacerdotes e homens de venda do século 19 que acreditavam que as plebes não seriam capazes de lidar com o voto, ou um salário decente, ou, pelo menos, o prazer; e que defendiam a semana de 70 horas como um instrumento eficiente na luta contra o álcool. Ironicamente, foi precisamente em cidades sobrecarregadas de trabalho, industriais, que mais e mais pessoas buscaram refúgio na garrafa.

Hoje vivemos numa era diferente, mas a história é a mesma: em países “sobretrabalhadores” como Japão, Turquia e, é claro, os Estados Unidos, pessoas assistem a uma quantidade absurda de televisão. Até cinco horas por dia nos EUA, o que equivale a nove anos de uma vida inteira. Crianças norte-americanas passam diante da TV a metade do tempo em que frequentam a escola. Lazer verdadeiro não é um luxo nem tampouco um vício. É tão vital para nosso cérebro como vitamina C para nosso corpo. Não há no mundo quem pense, em seu leito de morte, “tivesse eu ao menos passado mais algumas horas no escritório ou sentado em frente à TV”.

Certamente nadar num mar de tempo livre não será fácil. Uma educação do século 21 deve preparar gente não só para se juntar à força de trabalho mas, também (e mais importantemente), para vida.  “Uma vez que os homens não estarão cansados em seu tempo livre,” escreveu o filósofo Bertrand Russel em 1932, “eles não pedirão apenas diversões passivas e insípidas.”

Podemos  lidar com a vida boa, se ao menos tivermos tempo.

* * *

Rutger Bregman é historiador e escritor. Ele escreve para a plataforma holandesa de jornalismo online The Correspondent. É autor de Utopia for Realists: How We Can Build the Ideal World. Twitter: @rcbregman

Este ensaio foi adaptado do livro mais recente de Rutger, Utopia for Realists: The Case for a Universal Income, Open Borders and a 15-hour Workweek

Publicado originalmente aqui.

Slow cooking (v): salada de bacalhau em versão de verão

Já falamos por aqui da icônica maionese de bacalhau. Só que, em dias mais quentes, a maionese caseira pode se tornar, na melhor das hipóteses, indigesta e, na pior, até mesmo perigosa. Nem por isto, todavia, devemos postergar o prazer de elaborar e consumir a deliciosa salada até o próximo inverno. Para tanto, basta eliminar da receita seu ingrediente mais calórico – a saber, todo o óleo vegetal que constitui a base de qualquer maionese.

Fora a generosa quantidade de azeite,  o resto do que vai nesta salada é praticamente o mesmo que vai em sua versão com maionese para tempos mais frios. A maior complexidade em sua execução talvez seja a quantidade de panelas e vasilhames envolvidos no processo  (que deverão ser lavados depois do festim na cozinha): uma panela funda para cozinhar os ovos, as batatas e as cenouras; uma panela de fundo grosso para refogar o bacalhau; uma chaleira para ferver a água que será usada para escaldar cebolas e pimentões e, por fim, um único pote pyrex que será usado primeiro para escaldar os ingredientes supra citados e depois para misturar tudo.

Comece cozinhando duas cenouras e quatro batatas, descascadas e cortadas em jardineira, junto com quatro ovos. Quando a cenoura estiver al dente, separe batatas, cenouras e ovos e deixe esfriar. Descasque e pique os ovos.

Corte a melhor parte (central) do pimentão e de duas cebolas pequenas em círculos bem finos e escalde em água fervente. Troque a água ao menos uma vez. Então, misture a cebola escaldada com as batatas, as cenouras e os ovos picados. Quanto às “rodelas” de pimentão, as corte em pedaços menores, adequados para integrar um refogado.

Nesta versão, usei azeitonas pretas portuguesas temperadas. Descarocei e parti cada uma em quatro pedaços, refogando-as com os cantos picados das duas cebolas (imprestáveis para fazer os delgados anéis escaldados mas valiosos para dar corpo e sabor ao prato).

Então, sem mais delongas, ao refogado propriamente dito. Primeiro, deite sobre óleo aquecido (usei de oliva) a cebola e o pimentão picados e, depois que estes já estiverem dourados, o bacalhau. Abri mão do uso de alho para realçar o marcante aroma do peixe – o qual, dessalgado e em lascas, deve ser adicionado ao refogado só depois (repito) que que os vegetais já estiverem dourados e lá deixado em fogo baixo até desidratar. Quando tudo estiver dourado, esfrie e misture com a jardineia de cenouras e batatas, os anéis de cebola escaldados e os ovos cozidos picados.

Tempere a gosto, com pimenta moída e azeite de oliva e corrigindo o sal se preciso. Sirva com pães aquecidos e vinho verde ou branco.

* * *

Como em todas as “receitas” deste blog, me vali de ingredientes que tinha em casa. Teria de bom grado utilizado anéis de alho porró no refogado e tempero verde (salsa) picado ao misturar a salada. Cheguei a pensar (felizmente fui dissuadido a tempo) em castanhas e frutas frescas ou secas – como, sei lá, numa Waldorf.  Só que, na dúvida, obedeci ao velho preceito culinário de se buscar preservar ao máximo a identidade de cada ingrediente. Também ouvi ecos de vozes antigas, da profundeza de cozinhas ancestrais, me exortando a deixar nozes e frutas longe de leguminosas. Então, sem saber exatamente por que, passei a achar tudo aquilo (i.e., misturar passas e castanhas com batatas, cenouras e  beterrabas) uma coisa muito anti natural. #bewarethegourmetizer

 

Economistas estão obcecados pela “criação de empregos”. E se trabalhássemos menos ?

O aumento da automação não reduziu a carga de trabalho. Por que não ? E se reduzisse ?

Por  Peter Gray

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, pelo fim do século, a jornada média de trabalho semanal seria de 15 horas. A automação já havia começado a substituir muitos postos de trabalho no início do século 20, e Keynes previu que a tendência se aceleraria até o ponto onde tudo do que as pessoas precisariam para uma vida satisfatória poderia ser produzido com um mínimo de trabalho humano, tanto físico como mental. Keynes provou estar certo quanto ao aumento da automação. Hoje temos máquinas, computadores e robôs que podem fazer rapidamente o que anteriormente humanos faziam laboriosamente, e o aumento da automação não dá sinal de se tornar mais lento. Mas ele estava errado quanto ao declínio do trabalho.

Ao mesmo tempo em que antigos empregos foram substituídos por máquinas, novos surgiram. Alguns destes novos empregos resultam diretamente de novas tecnologias e podem ser justamente designados como benéficos à sociedade além de simplesmente manterem as pessoas empregadas (Autor, 2015). Empregos em tecnologia da informação são exemplos óbvios disto, bem como trabalhos atendendo a novos domínios da diversão, tais como projeto e produção de jogos computacionais. Mas também temos um sempre crescente número de trabalhos que parecem completamente inúteis ou mesmo nocivos. Como exemplos, temos administradores e assistentes administrativos em número ainda maior processando papéis que não precisam ser processados; advogados corporativos e seus subordinados ajudando grandes empresas a pagar menos impostos do que devem; incontáveis pessoas nas indústrias financeiras fazendo sabe-se lá que travessuras; lobistas usando todos os meios possíveis para corromper ainda mais nossos políticos; e executivos publicitários e de vendas empurrando coisas das quais ninguém precisa ou realmente quer.

Um fato triste é que muitas pessoas despendem hoje porções enormes de suas vidas em trabalhos que sabidamente não beneficiam a sociedade (vejam Graeber, 2013). Isto leva a um cinismo tal que pessoas começam mesmo a parar de pensar que empregos sirvam supostamente para beneficiar a sociedade. Temos, por exemplo, o espetáculo de políticos em ambos os lados do espectro lutando para manter fábricas de munições abertas em seus estados para preservar os empregos mesmo quando os próprios militares alegam que as armas produzidas pelas fábricas já não são mais úteis. E também temos políticos e especialistas argumentando que a mineração de combustíveis fósseis e fábricas emitentes de carbono devem ser mantidas em nome dos empregos, que se dane o ambiente.

O verdadeiro problema, é claro, é econômico. Descobrimos como reduzir a quantidade de trabalho necessária para produzir tudo de que precisamos e realisticamente queremos, mas não descobrimos como distribuir estes recursos exceto através de salários recebidos pela semana de 40 (ou mais) horas de trabalho. Na verdade, a  tecnologia teve o efeito de concentrar mais e mais a riqueza nas mãos de uma sempre menor parcela da população, o que constitui o problema da distribuição. Além disto, como um legado da revolução industrial, temos um etos cultural que diz que pessoas devem trabalhar pelo que ganham, e por isto evitamos qualquer plano sério de compartilhar riqueza por outros meios que não em troca de trabalho.

Eu digo, então, abaixo a ética do trabalho; viva a ética da brincadeira ! Somos feitos para brincar, não para trabalhar. Brilhamos mais quando brincamos. Deixemos nossos economistas pensarem sobre como criar um mundo que maximize a brincadeira e minimize o trabalho. Parece um problema solúvel. Estaríamos todos melhor se pessoas em empregos inúteis e nocivos estivessem, ao invés, brincando – e todos compartilhássemos o trabalho necessário e os benefícios dele advindos.

O que é trabalho ?

A palavra trabalho possui, é claro, uma série de significados diferentes e superpostos. Tal como usado por Keynes, e como eu usei nos parágrafos precedentes, se refere à atividade que desempenhamos apenas ou principalmente por que sentimos que devemos fazê-la para sustentar a nós e nossas famílias economicamente. Trabalho também pode se referir a qualquer atividade que experimentamos como desagradável, mas que sentimos que devemos fazê-la quer nos beneficie financeiramente ou não. Um sinônimo para trabalho, segundo esta definição, é labuta, e por esta definição trabalhar é o oposto de brincar. Ainda outra definição é a de que trabalho é qualquer atividade que tenha algum efeito positivo no mundo, seja ela experimentada como agradável ou não. Por esta definição, trabalho e brincadeira não são necessariamente distintos. Algumas pessoas de sorte consideram seu trabalho, no qual ganham suas vidas, como brincadeira. Fariam aquilo mesmo que não precisassem para ganhar a vida. Este não é o significado de trabalho como uso neste ensaio, mas é um sentido que vale a pena ter em mente por que nos lembra de  que muito do que hoje chamamos trabalho, por que vivemos dele, poderia ser chamado de brincadeira num mundo em que nossa vida fosse garantida de outras maneiras.

O trabalho é uma parte essencial da natureza humana ? Não.

Muita gente se surpreende ao saber que, na escala de tempo da história biológica humana, o trabalho é uma invenção nova. Surgiu com a agricultura, quando as pessoas tinham que passar longas horas arando, plantando, capinando e colhendo; e então se expandiu mais com a indústria, quando pessoas passavam incontáveis horas tediosas ou odiosas montando coisas ou trabalhando em minas. Mas a agricultura esteve conosco por apenas dez mil anos e a indústria por muito menos tempo. Antes disto, por centenas de milhares de anos, éramos todos caçadores-coletores. Pesquisadores que observaram e viveram com grupos que sobreviveram como caçadores-coletores em tempos modernos relataram regularmente que esses grupos gastavam pouco tempo fazendo o que, em nossa cultura, seria categorizado como trabalho (Gowdy, 1999; Gray, 2009; Ingold, 1999).

De fato, estudos quantitativos revelaram que o caçador-coletor adulto médio gastava cerca de 20 horas por semana caçando e coletando, e algumas horas a mais em outras tarefas relativas à subsistência tais como confeccionar ferramentas e preparar refeições (para referências, vejam Gray, 2009). Parte de seu tempo acordado restante era passado descansando, mas a maior parte do mesmo era devotada a atividades lúdicas e agradáveis, tais como fazer música, criar arte, dançar, jogar, contar histórias, conversar e brincar com amigos e visitar amigos e familiares em bandos vizinhos. Mesmo a caça e a coleta não eram consideradas trabalho; eram feitas com entusiasmo, sem raiva. Por que estas atividades eram divertidas e empreendidas com grupos de amigos, sempre havia muita gente que queria caçar e colher; e por que a comida era compartilhada com todo o bando, qualquer um que, num determinado dia (ou semana, ou mais) não quisesse caçar ou colher não era pressionado a fazê-lo.

Alguns antropólogos relataram que pessoas por eles estudadas sequer tinham uma palavra para designar trabalho; ou, quando tinham uma, se referia ao que fazendeiros, ou mineiros ou outros não caçadores-coletores com quem tinham contato faziam. O antropólogo Marshal Sahlins (1972) celebrizou-se por se referir aos caçadores-coletores como a sociedade afluente original – afluente não por que tivessem muito, mas por que suas necessidades eram tão pequenas e por que podiam satisfazê-las com relativamente pouco esforço – tendo, portanto, muito tempo para brincar.

Evolutivamente, dez mil anos é um período de tempo quase insignificante. Desenvolvemos nossa natureza humana básica muito antes do surgimento da agricultura e da indústria. Somos, por natureza, todos caçadores-coletores, predestinados a apreciar nossas atividades de subsistência e a ter muito tempo livre para criar nossas ocupações alegres que transcendam a própria subsistência. Agora que podemos fazer toda nossa agricultura e indústria com tão pouco trabalho, podemos reconquistar a liberdade da qual desfrutávamos durante a maior parte de nossa história evolutiva tão logo tenhamos resolvido o problema da distribuição.

Precisamos trabalhar para sermos ativos e felizes ? Não.

Alguns se preocupam com a ideia de que a vida com pouco trabalho seria uma vida de preguiça e depressão psicológica. Pensam que seres humanos precisam trabalhar para ter um sentido de propósito na vida ou simplesmente para se levantar da cama pela manhã. Apontam para como pessoas frequentemente se deprimem ao perder o emprego; ou para como algumas pessoas simplesmente vegetam quando voltam para casa depois do trabalho; ou, ainda, para como alguns, ao se aposentarem, não sabem o que fazer e começam a se sentir inúteis. Mas estas observações ocorrem todas num mundo em que o desemprego significa fracasso na mente de muitos; no qual trabalhadores voltam para casa física ou mentalmente exaustos a cada dia; no qual o trabalho é glorificado e a brincadeira denegrida; e no qual uma vida de trabalho, da escola fundamental à aposentadoria, leva muitos a se esquecerem de como brincar.

Vejam as crianças pequenas, que ainda não começaram a ir à escola e portanto ainda não tiveram sua curiosidade e capacidade lúdica suprimidas em nome do trabalho. São preguiçosas ? Não. São quase permanentemente ativas quando não estão dormindo. Estão sempre se envolvendo com alguma coisa, motivadas pela curiosidade, e em suas brincadeiras criam histórias, constroem coisas, fazem arte e filosofam (sim, filosofam) sobre o mundo ao seu redor. Não há razões para supor que os impulsos para estas atividades declinem com a idade. Declinam por causa da escola, que valoriza o trabalho e deprecia a brincadeira, a qual é extirpada das pessoas. E então trabalhos e carreiras tediosos continuam a lhes extirpar tudo o que é lúdico. Estes impulsos não declinam em caçadores-coletores com a idade – como também não declinariam em nós mesmos não fosse por todo o trabalho que nos é imposto.

Escolas foram inventadas principalmente para nos ensinar a obedecer a figuras de autoridade (patrões) incondicionalmente e a realizar tarefas tediosas de modo adequado. Em outras palavras, foram inventadas para suprimir nossas tendências naturais a explorar e brincar e nos preparar para aceitar uma vida de trabalho. Num mundo que valorizasse a brincadeira ao invés do trabalho, não precisaríamos de tais escolas. Ao invés, permitiríamos a cada pessoa o lúdico, a criatividade e esforços naturais para encontrar sentido na vida que floresce.

O trabalho, praticamente por definição, é alguma coisa que não queremos fazer. Ele interfere com nossa liberdade. Ao ponto de, por precisarmos trabalhar, não sermos livres para escolher nossas atividades e encontrar significado em nossas próprias vidas. A ideia de que pessoas precisem trabalhar para serem felizes está fortemente correlacionada à visão paternalista de que as pessoas não sabem lidar com a liberdade (vejam Danaher, 2016). Esta visão lúgubre da natureza humana foi promovida por séculos e reforçada em escolas no intuito de manter uma força de trabalho plácida.

Descobertas culturais valiosas, criações e invenções dependem do trabalho ? Não.

Pessoas amam descobrir e criar. Somos naturalmente curiosos e lúdicos e descoberta e criação são, respectivamente, produtos da curiosidade e de brincadeiras. Não há razão para se acreditar que menos trabalho e mais tempo para fazermos o que quiséssemos determinaria menos conquistas na ciência, na arte e em outros campos criativos.

As formas específicas que nossa inventividade assume dependem em parte de condições culturais. Entre caçadores-coletores nômades, onde bens materiais em quantidade maior do que alguém pudesse carregar constituíam um estorvo, descobertas eram geralmente sobre o ambiente físico e biológico imediato, dos quais dependiam, e produtos criativos eram tipicamente de natureza efêmera – canções, danças, jogos, histórias, ornamentação corporal e afins. Hoje e sempre desde o advento da agricultura, produtos criativos podem assumir todas estas formas além de invenções materiais que transformam nossos modos básicos de viver.

Quase todos os grandes cientistas, inventores, artistas, poetas e escritores falam de suas realizações como brincadeiras. Einstein, por exemplo, falou de seus progressos em matemática e física teórica como “brincadeira combinatorial”. Ele os fazia por diversão, não por dinheiro, enquanto se sustentava como funcionário de um escritório de patentes. O historiador cultural holandês Johan Huizinga, em seu livro clássico Homo Ludens, argumentou, convincentemente, que a maioria das realizações culturais que enriqueceram vidas humanas – em arte, música, literatura, poesia, matemática, filosofia e mesmo jurisprudência – são derivadas do impulso para brincar. Ele mostrou que conjuntos maiores de tais realizações ocorreram em tempos e lugares nos quais um número significativo de adultos era liberado do trabalho – estando, portanto, livre para brincar num ambiente em que o lúdico era valorizado. Um dos principais exemplos é a antiga Atenas.

Degeneraríamos moralmente sem trabalhar ? Não.

O poeta e filósofo do século 18 Friedrich Schiller escreveu: “O homem só é totalmente humano quando brinca.” Concordo; e parece tão claro tanto para mim quanto para Schiller que parte de nossa humanidade, que floresce no lúdico, é preocupante para nossos pares humanos.

Em nosso mundo preenchido pelo trabalho, caímos muito frequentemente numa cova onde a responsabilidade pelos afazeres supera nossa consideração pelos outros. O trabalho prejudica o tempo e a energia – e às vezes a própria motivação – que seriam devotados a ajudar vizinhos necessitados, a limpar o meio ambiente ou a promover causas voltadas à melhora do mundo para todos. O fato de que tantas pessoas já se engajam em tais causas humanitárias apesar das pressões do trabalho é evidência de que pessoas querem ajudar os outros e fazer do mundo um lugar melhor. A maioria de nós faria mais por nossos pares humanos não fosse o desperdício de tempo e energia, bem como tendências à ganância e à submissão ao poder, que o trabalho cria.

Bandos de caçadores-coletores que, como eu disse, viviam uma vida lúdica são famosos entre antropólogos por sua ânsia pelo compartilhamento e pela ajuda mútua. Outro termo para estas sociedades é sociedades igualitárias – são as únicas sociedades sem hierarquias sociais jamais encontradas. Seu etos, fundado sobre o lúdico, é um que proíbe qualquer pessoa de possuir mais status ou bens do que qualquer outra. Num mundo sem trabalho (ou, pelo menos, sem tanto trabalho) seríamos todos menos preocupados com subir em alguma escada para, em última análise, lugar nenhum; e mais comprometidos com a felicidade de outros – que são, afinal, parceiros de brincadeiras (playmates).

Então, ao invés de tentar tão obstinadamente proteger empregos, por que não resolvemos o problema da distribuição, reduzimos o trabalho e nos permitimos brincar mais ?

Boa pergunta.

* * *

Originalmente publicado no blog Freedom to Learn, de Peter Gray, em Psychology Today, em 9 de outubro de 2017.

Peter Gray é professor pesquisador no Boston College e autor de Free to Learn (Basic Books, 2013) e Psychology (Worth Publishers), um livro-texto atualmente em sua sétima edição. Conduziu e publicou pesquisas em psicologia comparativa, evolucionária, educacional e de desenvolvimento. Estudou na Columbia University e recebeu um Ph.D. em ciências biológicas da Rockfeller University. Seu principal interesse atual são os modos naturais da aprendizagem infantil e o valor da brincadeira durante toda a vida.

 

Refefências

 

Autor, D. H. (2015). Why are there still so many jobs? The history and future of workplace automation.  Journal of Economic Perspectives, 29 (3), 3-30.

 

Danaher (2016).  Will life be worth living in a world without work?  Technological unemployment and the meaning of life.  A ser publicado em Science and Engineering Ethics. Disponível online em http://philpapers.org/archive/DANWLB.pdf.

 

Gowdy, J. (1999). Hunter-gatherers and the mythology of the market. In R.B. Lee & R. Daly (Eds.), The Cambridge encyclopedia of hunters and gatherers, 391-398. Cambridge: Cambridge University Press.

 

Graeber, D. (2013)  On the phenomenon of bullshit jobs.  Strike! Magazine, Aug. 17, 2013.

 

Gray, P. (2009). Play as a foundation for hunter-gatherer social existenceAmerican Journal of Play, 1, 476-522.

 

Gray, P. (2014). The play theory of hunter-gatherer egalitarianism. In D. Narvaez, K. Valentino, A. Fuentes, J. McKenna, & P. Gray (Eds.), Ancestral landscapes in human evolution: culture, childrearing and social wellbeing (pp. 190-213). New York: Oxford University Press.

 

Huizinga, J. (1955; primeira edição alemã publicada em 1944). Homo Ludens: A study of the play-element in culture. Boston: Beacon Press.

 

Ingold, T. (1999). On the social relations of the hunter-gatherer band. In R. B. Lee & R. H. Daly (Eds.), The Cambridge encyclopedia of hunters and gatherers, 399-410. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

 

Keynes, J. M. (1930/1963). Economic possibilities for our grandchildren.  Reimpresso em John Maynard Keynes, essays in persuasion.  New York: Norton.

 

Sahlins, M. (1972). Stone age economics. Chicago: Aldine-Atherton.

Slow cooking (iv): Yakisoba

A disponibilidade universal da comida japonesa é um dos efeitos mais emblemáticos da globalização culinária. Em minha infância, tanto o sushi como a ideia de comer peixe cru eram tidos como excentricidades. Sabíamos de sua existência em confins remotos, mas como hábitos alimentares, gozavam do mesmo status que comer insetos ou vermes desfrutam, entre nós, ainda hoje.

Aí vieram os restaurantes japoneses e, quase imediatamente, a comida japonesa de tele entrega. Sucumbimos ao charme irresistível do sushi. Assim como a outras “novidades” – como, por exemplo, o salmão fresco ou os tomates secos. Até nos fartarmos. Educamos nossos filhos de modo a acharem naturais estes sabores globalizados. Nativos digitais apreenderam a apreciar peixe cru praticamente ao mesmo tempo em que apreenderam a falar. Então, quando capitulamos à insistência dos pequenos, resta, frequentemente, como supremo ato de rebeldia, a lacônica página de pratos quentes do cardápio japonês. É lá que encontramos seu carro chefe – o indefectível yakisoba, um engolobado de macarrão, legumes e carnes que podem variar do gado ao frango, passando pelos frutos do mar.

Já comi yakisobas interessantes em restaurantes. Confesso, no entanto, que me sinto um pouco idiota ao ordenar o clássico diante de uma miríade de opções exóticas ou mais elaboradas. O sushiman tem razões de sobra para ficar ofendido com comedores de yakisoba. ” – E a minha arte, onde fica ?”, diria ele.

Já yakisobas de tele entrega são um capítulo à parte. Como, aliás, qualquer comida entregue à domicílio. Muito ainda há que ser estudado sobre a metamorfose inexorável sofrida por toda comida feita nos melhores restaurantes até chegar, sobre duas rodas, aos os endereços em que serão consumidas. Foi ciente desta limitação que me lancei a uma cruzada em busca do yakisoba perfeito. Já que, como bem disse meu filho Arthur, ” – Feito em casa é sempre melhor. ”

O périplo começou diante das prateleiras do supermercado – onde encontrei, junto a tantas outras variedades de shoyu (molho de soja), frascos rotulados como “molho para yakisoba” em cujo interior havia um xarope viscoso. A gororoba me lembrou de pronto aquele coloide gelatinoso que envolvia todo yakisoba que já me foi entregue por um motoqueiro, lembrando shoyu apenas pela cor e causando imediata repulsa aos comensais. Foi naquele instante que decidi jamais adquirir algo descrito como “molho para yakisoba”, me encarregando eu mesmo de temperar o prato com shoyu convencional. Após três tentativas, ainda não me arrependi da decisão.

Se existe uma razão para não se aventurar na cozinha no preparo de um yakisoba, esta razão é, sem dúvida alguma, a sujeira resultante. Pois a operação exige, no mínimo, o emprego de três panelas – as quais, somadas aos demais utensílios utilizados no preparo e para servir, são responsáveis por um considerável acréscimo de trabalho na pia depois da parte mais divertida.

Nunca li uma receita de yakisoba. O instinto culinário, no entanto, sugere que seus ingredientes implicam em três modos de cozimento diferentes. Daí as três panelas. O macarrão (do tipo lámen ou, como dizem os gringos, noodles) deve ser cozido em água; os legumes ficam mais saborosos e corados se cozidos no vapor; já a cebola e os cogumelos devem ser refogados em óleo quente.

Para o cozimento no vapor, o ideal é uma daquelas panelas com duas partes (além da tampa); a superior com furos no fundo, como um escorredor de massas; nela, a água fervente na parte inferior não tocará os ingredientes dispostos na parte superior, furada. Já para o refogado, assim como para a maioria das receitas orientais, deve ser utilizado um wok (panela em forma de hemisfério, multifuncional, que pode ser usada tanto para frituras como para refogados ou cozimentos).

Ainda sobre o cozimento: cuide para não cozinhar demais o macarrão, como se fosse para ser consumido diretamente. Não esqueça que ele deve ser separado e ligeiramente cozido novamente quando finalmente entrar na receita. Quanto aos legumes (brócolis, couve-flor e rodelas de cenoura), devem ser cozidos em vapor até ficarem al dente; um bom teste para o ponto é quando as cenouras estiverem suficientemente macias para serem ingeridas.

Deixei o refogado por último devido a um detalhe técnico. É claro que cebolas (cortadas em quatro partes) e cogumelos devem ser refogados longamente, até dourar. O processo se diferencia com a entrada da carne. Enquanto nacos de carne bovina ou de frango suportam um refogado mais demorado, camarões devem ser apenas ligeiramente submetidos ao calor, praticamente quando a cebola e os cogumelos já estiverem prontos – sob pena de, se cozidos em demasia, ficarem rijos. Esta regra vale para qualquer receita com camarões.

Sal. Tenho muita dificuldade em estimar a quantidade de sal a ser adicionada no preparo de um prato, tendo já salgado irremediavelmente ou, ao contrário, deixado com pouco sal uma infinidade de experiências culinárias. O método mais satisfatório que encontrei para uma receita “multifásica” como o yakisoba foi temperar separadamente cada etapa do preparo. Assim, salguei normalmente a água na qual cozinhei o macarrão; aspergi um pouco de sal sobre os legumes antes de cozinhá-los no vapor e, finalmente, temperei com sal e pimenta – e shoyu ! – a cebola e os cogumelos refogados ao qual, bem ao final, adicionei os camarões. Ao fim, não precisei ajustar o tempero.

A melhor parte é, indiscutivelmente, quando misturamos tudo antes de servir. É o grande momento do cozinheiro. A hora das fotos.

Excedentes; ou Sobre como a indústria do entretenimento vem se acomodando à era digital

Talvez um dos maiores efeitos da internet sobre a indústria tenha a ver com o manejo de excedentes. Neste texto, estamos especialmente interessados nas transformações sofridas com o advento da rede pela indústria do entretenimento – a saber, aquela dedicada à reprodução de conteúdos (textos, sons e imagens) em meios físicos (papel impresso, fita magnética ou discos de vinil e acrílicos). Mas vamos por partes.

Toda indústria almeja ao lucro por meio da produção em grande escala de bens altamente padronizados distribuídos a consumidores, até relativamente pouco tempo atrás, tão somente pelo comércio varejista e segundo uma demanda artificialmente turbinada pela publicidade – atividade, aliás, intrinsecamente anti ecológica, responsável por uma larga parcela do valor agregado de tudo o que é anunciado, mas que foge a nosso foco atual. Quero enfatizar, apenas, que, por definição, toda indústria produz mais do que o necessário; então, a propaganda entra em ação em seu intuito original de fomentar artificialmente a demanda por tudo o que é produzido.

As máquinas de fabricar CDs são emblemáticas do excesso industrial. Pelo menos até pouco tempo atrás, quando a fabricação de exemplares de um CD era encomendada, o contrato costumava prever uma quantidade adicional indeterminada, a qual o contratante se comprometia a adquirir, denominada “quebra de máquina” e correspondendo aos itens ainda fabricados depois que a máquina tivesse sido desligada.

Padronização e excesso sempre foram marcas da indústria enquanto a comercialização de produtos dependeu exclusivamente da rede de comércio varejista – fundada, por sua vez, sobre a existência dispersa de uma grande quantidade de estoques, estrategicamente localizados em relação aos mercados consumidores e constituídos por itens ao mesmo tempo duplicados e variados. O abastecimento dessa rede varejista era suficiente para manter a indústria bem ocupada. Quanto maior a duplicação e menor a variedade, maior o lucro – daí o alto apreço pela padronização.

Notem, ainda, que a padronização é inversamente proporcional ao valor do bem produzido. Comparem, por exemplo, os relativamente poucos modelos produzidos por uma empresa automobilística se comparados à miríade de fórmulas distribuídas por cada empresa farmacêutica. Ou então as poucas plantas de imóveis num condomínio em relação à vasta variedade de objetos feitos por um mesmo fabricante do setor de móveis e decorações.

Voltaremos ao problema da padronização mais tarde, ao tratarmos da indústria do entretenimento e sua inegável predileção por celebridades, best sellers e blockbusters.

Sobre a variedade. Certa vez um amigo, respeitado professor de economia e interessado em expandir sua área de atuação (acabou abrindo uma pastelaria) me perguntou, movido por legítima curiosidade científica, qual pizzaria eu escolheria entre duas, uma de cardápio sucinto e a outra, prolixo. Para seu desconcerto, optei sem hesitar pela primeira. Aquilo pareceu contrariar tudo o que pensava sobre comportamento de consumidores. Depois que justifiquei minha escolha como tendo a ver com algo como não precisar perder tempo lendo ou olhando um menu repleto de itens desnecessários, meu amigo desistiu prontamente da enquete, provavelmente me classificando como um consumidor atípico. Estive na inauguração de sua pastelaria, lá pelos anos 80. Não sei que fim levou, nem tampouco me lembro de como era o cardápio.

O que pretendo, com isto, é enfatizar o enorme descompasso inerente à grande padronização exigida pela indústria e a prática comum do varejo, que é a de submeter todo consumidor a uma variedade acachapante, a partir do mito de que a sinestesia resultante do excesso de opções funcionaria como um estímulo ao consumo. Por que me refiro a isto como um mito ? Por várias razões.

Um dos pilares da publicidade é o empoderamento de consumidores por meio do enaltecimento de sua prerrogativa de escolha – ocultando, com isto, que os mesmos não passam de alvos destinados a pagar o máximo que puder ser cobrado por tudo aquilo que é produzido excessivamente. Algum economista já disse que, segundo o credo neoliberal, somos aquilo que compramos; e que, portanto, a exclusão social se dá mais acentuadamente pela perda do poder aquisitivo do que por qualquer outro motivo. Vale examinar melhor estas afirmações. Noutra feita, talvez.

* * *

Tudo o que foi dito acima se refere, evidentemente, à era do varejo, anterior à internet. Nas últimas décadas, a rede mundial se tornou tão pervasiva que toda indústria precisou a ela se adaptar para assegurar a manutenção da distribuição de tudo o que produz. Progressivamente, o comércio varejista foi cedendo lugar a dois novos modos de distribuição que podem ser descritos, respectivamente, como streamming e e-commerce. Como categorizador compulsivo, tratarei, nos próximos parágrafos, dos tipos de bens mais afeitos a um e ao outro, com especial ênfase no primeiro, prontamente abraçado pela parte da indústria mais conhecida como de entretenimento, conteúdo ou, ainda que imprecisamente, cultural (detesto arcabouços semânticos).

Então. O que mais difere os produtos típicos das indústrias editorial e fonográfica em relação às demais commodities é que, enquanto a maioria dos objetos de uso, sejam eles permanentes, consumíveis ou descartáveis (tais como alimentos, remédios, veículos, imóveis, utensílios, eletrodomésticos, eletroeletrônicos e o escambau) tem um valor enormemente variável, determinado tanto por sua utilidade como pelo prestígio relativo do fabricante (ambos manipulados pela publicidade); livros e discos possuem um “valor de prateleira” muito mais homogêneo, tendo pouco a ver com o conteúdo e muito mais com o meio físico no qual são prensados ou impressos. Assim, CDs custam praticamente o mesmo independentemente da música que contém, bem como livros tem seu preço largamente determinado pelo número de páginas, com coeficientes diferenciais relativos à qualidade do papel ou da encadernação.

Se antes todos os produtos, tanto da indústria de commodities como do entretenimento, eram vendidos em lojas, a internet impôs uma fratura em relação ao tipo de comercialização. Da seguinte maneira. Enquanto objetos físicos – que precisam chegar, por meio de intermediários, do fabricante ao consumidor – se tornaram a província por excelência do e-commerce, com seus estoques reduzidos e a possibilidade de supply on demand; conteúdos peculiares à indústria do entretenimento passíveis de conversão em bits, tais como textos, sons e imagens, iniciaram um processo de migração para sistemas de streamming.

Aqui, devo frustrar quem espera de mim alguma declaração peremptória do tipo “o futuro do livro e do disco”. Por várias razões.

Primeiro por que, como já disse aqui, plataformas de streamming são fortemente condicionadas por custos de servidores, os quais ainda impõem a seus proprietários demandas mínimas para que qualquer coisa seja disponibilizada – virtualmente excluindo, com isto, qualquer possibilidade de distribuição de conteúdos de interesse mais restrito.

Segundo, por que o ato de ler um texto impresso de extensão superior ao que cabe numa tela ainda é tanto prazeroso (um mérito subjetivo) quanto prático (este, inegavelmente objetivo) – já que o manuseio de um livro, devidamente anotado, é muito mais recursivo do que, por exemplo, avançarmos e recuarmos ao longo de um texto digital por meio de comandos em um teclado.

É preciso, no entanto, reconhecer que, assim como as melhores lojas de discos já fecharam suas portas, o varejo de livros também vive um significativo encolhimento.  Sintomas ? As duas lojas de partituras musicais (um setor editorial bem específico) de Nova Iorque já encerraram atividades. Grandes lojas de discos tiveram o mesmo destino. Vejam os casos da Tower Records (EUA) e da Modern Sound (RJ), bem como outrora pujantes seções de CDs em mega livrarias que, com o passar do tempo, minguaram ou simplesmente sumiram.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão do colecionismo. Mídias  impressas ou prensadas (notem que a distinção entre estas duas palavras não existe em inglês) são particularmente afeitas às coleções – pois além de caberem perfeitamente, em razão da alta padronização de tamanhos, em prateleiras fáceis de serem projetadas; também cabem melhor no bolso de colecionadores, já que seu valor inicial (não falo, é claro, de itens raros, fora de catálogo) costuma, como já foi dito acima, ser bem acessível.

Coleções respeitáveis podem conter muito mais livros do que uma pessoa pode ler em toda a sua vida, ou discos que seria capaz de ouvir. Por isso mesmo, sua índole pode ser um mistério para os não colecionadores. Reza uma anedota (bem velha, a julgar pela menção à fita de áudio) que um audiófilo toca cada disco não mais do que três vezes: a primeira, para conhecer; a segunda, para gravar; a terceira, para se despedir.

Exageros à parte, há coleções monumentais, que desafiam qualquer lógica, mas que nos interessam enquanto emblemáticas do excesso inerente às indústrias editorial e fonográfica em tempos anteriores à internet. É bem fácil se intuir que executivos destas indústrias, ao conferir seu imprimatur a qualquer conteúdo, estivessem plenamente cientes da enorme quantidade de cópias daqueles discos e livros que não seriam vendidas – destinadas, portanto, a morrer, inicialmente, nas prateleiras das lojas de lançamentos; depois, nos saldões e, finalmente, arrematadas em lotes por sebos ou algum “colecionador” excêntrico.

O prédio da Strand Book Store, na Broadway

Um destes casos emblemáticos é a Strand Book Store, no Greenwich Village, em Nova Iorque, da qual já falei aqui. Com um estoque estimado em 8 milhões de livros, é tida como o maior sebo do mundo. Só que o que mais chama a atenção de quem a adentra não são, como em outros sebos, os livros usados. Pois na Strand a primeira coisa que se oferece ao olhar do cliente são, como numa livraria de “lançamentos”, impecáveis pilhas de exemplares novos de um mesmo livro, luxuosamente encadernados, de arte em sua maioria, por uma fração de seus preços iniciais. Como a Strand consegue isto ? Simples. Há (ou, pelo menos, havia) em Nova Iorque uma animada cultura de resenhas. Existe mesmo uma publicação periódica, o New York Book Review, inteiramente a ela dedicada. Isto quer dizer que qualquer editor em língua inglesa com alguma pretensão ao mercado livreiro deve distribuir aos críticos novaiorquinos dezenas, senão centenas, de exemplares de cortesia (ou, como são conhecidos por lá, complimentary copies) de qualquer novidade – a maioria dos quais, no entanto, sequer é aberta e acaba sendo adquirida pela Strand a preços de banana.

Vista do interior da Strand Book Store

Outro caso, bem mais próximo, é o de um acumulador, residente em São Paulo, que adquire lotes de discos de vinil de empresas que se retiram do mercado. Embora promova um sério trabalho de catalogação, seus armazéns contém quantidades imponderáveis de itens repetidos, chegando a um total impressionante de mais de 4 milhões e meio de LPs. Daí as aspas em torno da palavra “colecionador” aí em cima. Qual seu propósito ? Sinceramente, não sei. Supondo que seu imenso acervo seja preservado após sua morte, deve permanecer como um colossal monumento ao excesso ambientalmente obsceno inerente à indústria.

O “conecionador” Zero Freitas, de São Paulo, diante de uma pequena fração de seu acervo

Slow cooking (iii): Bananas fritas em duas versões

Sou meio indiferente em relação a bananas in natura – assim com à maioria das frutas. Por outro lado, dificilmente me furto a saborear ovos em suas infinitas realizações culinárias, tanto doces como salgadas. Papos de anjo, fios de ovos, baba de moça, maioneses, molho holandês, omeletes, cozidos ou fritos, tudo é desculpa para aumentar o índice de colesterol.

Bananas grelhadas são uma dádiva que ajuda a compor vários pratos. A bem da verdade, as à milanesa também são ótimas. Este post é dedicado às primeiras.

Para gratinar, escolha bananas não muito maduras, para que mantenham uma relativa firmeza sem se desmanchar sobre a chapa. Corte-as pela metade longitudinalmente, conforme a ilustração. Derreta manteiga numa panela de aço de fundo espesso. Teflon e outros revestimentos anti-aderentes, os quais nunca experimentei, também devem funcionar. Prefiro panelas de borda alta a frigideiras, por facilitarem a limpeza do fogão. Doure a gosto as metades das bananas na manteiga derretida e separe.

Mise en place: bananas cortadas longitudinalmente pela metade
Bananas sendo fritas em manteiga
Bananas já fritas em manteiga

Dica: ao trabalhar fritadas múltiplas em manteiga derretida, é preciso cuidar para que, entre uma carga e outra da panela, a manteiga não queime. Para tanto, de deve adicionar mais manteiga de tempos em tempos, para que o fundo da panela não seque devido à absorção da manteiga derretida por aquilo que nela é frito. Outra coisa que ajuda bastante é “pilotar” permanentemente a chama do fogão – desligando, por exemplo, a mesma enquanto retiramos o que foi frito e colocamos outra leva de ingredientes crus.

Bananas fritas são uma espécie de coringa que funciona bem como prato principal e como sobremesa. Em minha família, costumavam servi-las acompanhadas de guisado e farofa. Nesta versão, fiz o célebre “recheio de pastel” com óleo de oliva, alho, cebola, azeitonas, carne moída, sálvia e ovos cozidos.  Cuide para que os ingredientes entrem no refogado nesta ordem, atentando para que o óleo esteja quente antes da entrada do primeiro (o alho) e também para que os ovos e a sálvia só entrem no final, para que não desidratem em demasia. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto.

Guisados são tradicionalmente temperados com manjerona. Utilizei sálvia, mais associada à carne de frango, experimentalmente e com ótimo resultado, por que a hortaliça estava bonita no canteiro.

Mise en place para o guisado: sálvia, alho, cebola e azeitonas
Alho, cebola e azeitonas sendo refogados em óleo de oliva
Guisado servido com farofa e bananas fritas

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Gosto de otimizar a cozinha processando alimentos em quantidade suficiente para a realização de várias receitas. Por exemplo, sempre que dessalgo bacalhau, utilizo apenas uma parte e separo a outra, que congelo. Uma porção de bacalhau convenientemente dessalgado e congelado é de um valor inestimável para qualquer cozinheiro com tempo escasso. Com bananas, tampouco é diferente. Ou seja, não vale a pena sujar a cozinha apenas para dourar quatro ou cinco bananas. Gaste mais alguns minutos e frite logo umas quantas, bem mais do que aquelas que pretende utilizar imediatamente. Pois o esforço posterior de limpeza será o mesmo, independentemente da quantidade de bananas processadas.

No presente caso, utilizei a metade da quantidade de bananas que dourei para a confecção de um doce de forno – espécie de Chico Balanceado para estômagos fortes, se é que me entendem. Pois, em vez de um suave flan de baunilha, me vali aqui de uma rica gemada, daquelas que não se come antes de fazer exames de sangue para mostrar ao médico. Meu pai gostava de gemadas com vinho porto. Na falta do licor, usei um brandy (mais especificamente, jerez de la frontera) que comprara para outra receita (uma deliciosa roupa velha cubana, sugerida pelo Istvan Vessel, que replicarei de outra feita).

A montagem do prato é bem simples. A começar pelo fato de que, tendo as bananas da primeira camada sido douradas em manteiga, não é preciso untar previamente, como em outras tortas assadas, a assadeira de vidro. Então, despeje sobre a camada de bananas primeiro a gemada e depois a o merengue, ambos com bastante açúcar. Utilize um fouet para bater a gemada e batedeira (obviamente) para a merengada. Asse em forno pré-aquecido até o merengue da cobertura adquirir um aspecto ligeiramente tostado – sem, no entanto, queimar. Como os tempos de forno para a gemada e o merengue são diferentes (o merengue assa mais rápido do que a gemada) levei o prato com as bananas e a gemada ao forno enquanto batia o merengue.

Primeira camada do doce antes de ir ao forno: bananas fritas
Fouet
Segunda camada do doce antes de ir ao forno: gemada
Camada superior do doce ao sair do forno, antes de murchar e rachar: merengue

Sirva quente ou gelado.