Amusing ourselves to death – public discourse in the age of show business (1985), de Neil Postman

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Terminei de ler um livro fascinante, a saber, Amusing ourselves to death – public discourse in the age of show business, escrito por Neil Postman (1931-2003). Publicado em 1985, sequer foi traduzido para o português.

Até por volta do ano 2000 e antes de conhecer, portanto, a internet, lia tudo o que me chegasse às mãos precedido por boas recomendações. Depois, tendo adquirido a noção de excesso editorial que define os dias atuais, passei a declinar, por vezes com alguma frustração, da leitura da maior parte do que generosamente me indicam para dedicar o restante de meus dias exclusivamente a alguns daqueles textos que me parecem absolutamente imprescindíveis – como, no caso, este livro.

Por que tanta certeza ? Primeiramente, por se tratar de uma daquelas visões privilegiadas a explicar convincentemente o contexto a que chegamos no que diz respeito à circulação de informações. Segundo, por que o texto de Postman tem um alvo claro e convidativo, a saber, a televisão. Tais fatos, dos quais vim a saber por meio de um artigo do filho do autor publicado recentemente no The Guardian por ocasião da eleição de Donald Trump, foram suficientes para que eu importasse o volume (que, como já disse, espantosamente ainda não foi traduzido para o português) e me entregasse avidamente a sua leitura. No decorrer da mesma, não tardei a perceber, com grande prazer, que, dentre tudo o que li nos últimos anos, o livro é um dos que apresenta, talvez, a maior densidade lógica – categoria que formulei, não lembro ao certo onde, que significa a quantidade relativa de ideias expressas em uma certa extensão de texto.

Deste modo, é de se esperar que, salvo raras exceções, textos de não ficção tenham uma densidade lógica superior aos de ficção, que são, por natureza, mais descritivos, evocativos e, em muitos casos, redundantes. Sem nenhum demérito, pois assim é a literatura. Suficiente declarar, aqui, minha irrestrita preferência pelos escritos de alta densidade lógica – talvez, sei lá, em razão de minha impaciência. Precisaria nascer de novo para me tornar um leitor mais competente.

* * *

Mas estou a abusar da paciência dos leitores, pois lá já se foram quatro parágrafos e nada, até agora, do teor do volume incensado. A ele, então.

Em Amusing ourselves to death, Postman inaugura ou simplesmente pratica (me desculpem a falta de pesquisa, fruto da pressa, já que outras leituras me aguardam) algo a que convencionou chamar de epistemologia da mídia – pois, argumenta, todo meio de comunicação tem seu próprio modo de aquisição do conhecimento. Sem detalhar historicamente (apenas mencionando) a origem do alfabeto e da página impressa, descreve os primeiros séculos da história norte-americana como uma época de primazia absoluta do discurso impresso. Ou, em suas palavras, a Era da Tipografia, também chamada Era da Explanação. Tal período se caracteriza pelo alto apreço à argumentação lógica e pela abominação da contradição. Todos os grandes oradores, tanto da política como do direito ou da religião, se dirigiam a seus públicos por meio de discursos escritos, e a leitura era hegemônica em todas as camadas sociais na América do Norte colonial até a de meados do século 19. Ler, naquele tempo, à luz de velas ou mesmo à gás, depois das horas de trabalho, estava longe de se constituir numa atividade recreativa, exigindo, outrossim, um esforço devotado e deliberado. Assim, para os norte-americanos daquela época não faria o menor sentido a noção, como temos hoje, de “um problema de leitura”, nem tampouco a existência de uma disciplina curricular chamada “interpretação de texto”. Era, portanto, uma civilização amplamente letrada, capaz de acompanhar linhas de raciocínio extensas e complexas. Postman defende seus argumentos com números que denotam a existência, então, de uma enorme atividade editorial.

A grande ruptura tecnológica veio com a invenção por Samuel Morse do telégrafo, o qual, segundo Postman, aniquilou com a correlação até então existente entre comunicação e transporte. Mas não foi só isto. O telégrafo também deitou por terra a correlação existente, nos meios tipográficos, entre uma informação e aquela que a precede ou sucede. Com isto, a informação se emancipou da obrigatoriedade de um contexto – um dos principais atributos da circulação de informação na televisão até a época em que o livro foi escrito – quando Postman alertou, inclusive, para problemas futuros em relação ao computador, então ainda uma novidade. Imaginem o que teria pensado se chegasse a conhecer sua versão mais recente, os telefones móveis, e as redes sociais.

Depois de analisar, na primeira parte do livro, as transformações epistemológicas ocorridas na passagem da Era da Tipografia para a Era do Show Business, Postman se dedica, em sua segunda parte, ao comentário detalhado da degradação do discurso público sob o impacto da televisão em diferentes áreas, principalmente na política, na religião e na educação. Para tanto, se detém bastante sobre a linguagem dos comerciais. Sua tese é a de que o foco dos mesmos não são os produtos mas seus consumidores. Empresas deixam, assim, de investir em pesquisas sobre produtos para pesquisar mercados. Palavras de políticos se tornam irrelevantes quando apenas suas imagens passam a importar. O fenômeno Nixon é demoradamente discutido. No início, o público se importava com suas mentiras. Com o passar do tempo, não é que jornalistas tenham deixado de denunciá-las. A grande tragédia, para Postman, é que o próprio público deixou de lhes dar importância. Pois contradições dependem da existência de um contexto. Numa sucessão rápida de imagens da qual é abolido qualquer contexto, toda contradição perde seu sentido.

Contra tal estado de coisas, o autor desqualifica como naive uma série de antídotos propostos por terceiros para, em seguida, formular o seu – o qual, no intuito de não oferecer um spoiler (pois quero, afinal, que vocês empreendam o esforço de ler o livro em inglês), declino de revelar.

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Me referi, no início desta resenha, à grande densidade lógica da obra-prima de Postman, que conspira contra qualquer redução abrangente de seu conteúdo. É, pois, suficiente dizer que os dados e casos que arrola para ilustrar seus pontos de vista são tão ricos quanto contundentes. Um exemplo. Embora os 15 primeiros presidentes norte-americanos (que viveram na Era da Tipografia) provavelmente não seriam reconhecidos ao circular pela rua (eram conhecidos por seus discursos), em tempos mais recentes, sob o domínio da imagem (na Era do Show Business), ninguém teria dificuldade alguma em reconhecer a imagem de qualquer celebridade, de Einstein a políticos e artistas, sem conhecer, no entanto, na maioria das vezes, o mínimo de suas palavras, ideias ou obras. Noutra passagem, lembra que não há sequer uma única imagem do carrancudo Lincoln sorridente – e que, portanto, este jamais seria eleito nos dias de hoje. Ainda noutra, informa que a Associated Press foi fundada apenas 4 anos (!) depois da invenção do telégrafo, germe da descontextualização da informação nos meios de comunicação.

Outro dos pontos altos do livro é o elenco de autores citados, que declino de enumerar tão somente para não cometer injustiças por omissão. É preciso no entanto, mencionar dois gigantes, autores de duas das maiores distopias escritas em língua inglesa no século 20, a saber, Aldous Huxley, autor de O Admirável Mundo Novo, e George Orwell, que escreveu 1984. Postman considera estas duas obras paradigmáticas e diametralmente opostas no que tange ao modo pela qual a estabilidade política do mundo seria alcançada. Alega que a profecia de Orwell, fundada sobre uma rigorosa vigilância estatal, não se realizou (ao menos nas democracias ocidentais); já a de Huxley, baseada na submissão dócil e voluntária de cada indivíduo à sua condição social, foi perfeitamente realizada na Era do Show Business, tendo a exacerbação do entretenimento, por meio da televisão, como meio principal de sustentação.

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Por que a intolerância é inerente a todas as religiões

Um dos aspectos mais fascinantes das redes sociais é a absoluta falta de controle, por parte de quem posta algo, sobre as múltiplas inclinações que podem assumir os comentários sob cada postagem. De pouco adianta que seus autores tentem exercer uma espécie de curadoria perversa, excluindo este ou aquele comentário a fim de manter minimamente a correlação entre o que foi postado e o que é comentado e, com isto, alguma coerência discursiva entre a postagem original e os comentários sob a mesma – já que, ao frequentarmos as redes, almejamos, antes de tudo, alguma interação com a audiência.

Foi assim que, dias atrás, ao procurar reverberar no facebook o conhecidíssimo bias da mídia corporativa em relação à importância atribuída a cada atentado terrorista em função dos territórios onde ocorrem, me deparei com um thread de comentários cuja índole denotava, antes de mais nada, a intolerância religiosa. A saber, o velho conflito entre os mundos judaico e muçulmano.

Não pretendo (nem poderia), aqui, identificar de que etnia partiu a agressão inicial em nome da qual todas as guerras e atrocidades subsequentes foram cometidas. Até por que a justificativa mais usada para qualquer ataque é sempre a defesa. Em nome dela, se invadem países, bombardeiam populações inocentes e ditam leis de exceção. Nem tampouco me proponho a condenar ou justificar a existência de Israel ou a inexistência, até o momento, de um estado palestino. Pois tais questões envolvem conhecimentos geopolíticos melhor dominados por economistas e historiadores. Vale a pena, no entanto, se debruçar um pouco sobre a indagação de por que, desde tempos pré-bíblicos até muitos estados modernos, fronteiras geográficas sempre foram determinadas pelas crenças religiosas de quem vive entre elas e, portanto, pela intolerância em relação a crenças divergentes.

Tanto no mundo antigo como no medieval ou atual, guerras foram e são travadas e fronteiras estabelecidas, fundamentalmente, em razão dos deuses em que grupos humanos distintos acreditam. Enquanto o extremo oriente é dividido entre budistas e hinduístas, temos no oriente médio o clássico conflito entre judeus e muçulmanos, atual centro de atenção jornalística principalmente em razão de riquezas do subsolo, e, no mundo europeu e suas ex-colônias, a fratura do mundo cristão entre católicos, protestantes e, mais recentemente, as denominações neopentecostais. Desde os tempos medievais, estados vem sendo estabelecidos, na melhor das hipóteses, por alianças cuidadosamente arquitetadas sob a forma de casamentos entre casas monárquicas ou, na pior (por que a mais sangrenta), por guerras devastadoras. Mesmo na de resto civilizadíssima Europa, temos ou tivemos até pouco tempo atrás (não sei ao certo) conflitos como aquele entre católicos e protestantes irlandeses. Neste contexto, o estado laico é uma invenção humanista bem recente e ainda precariamente implementada. A julgar, por exemplo, pelas orações promovidas pela bancada evangélica no congresso brasileiro.

Posto isto, cabe se especular por que a intolerância é inerente não a uma mas a todas as religiões. Pois mesmo que algumas delas preguem a tolerância aos que acreditam em divindades e valores diferentes, para todos os seus adeptos a simples aceitação de uma condição de igualdade com alguém com uma matriz diferente de crenças implica na insuportável premissa de que, por tolerarmos que outros pensem de modo diferente, eles possam estar certos e nós, errados. O que pode variar, de uma religião para outra, é só uma atitude que vai de superioridade e soberba travestida em tolerância até a retaliação fundamentalista de infiéis. Seja como for, a incerteza implícita na coexistência com o que é diverso é estranha a todo pensamento religioso. Pois religiões são, afinal, dedicadas primariamente à sustentação de fantasias criadas pelo homem como verdades incontestáveis muitas vezes incompatíveis entre si. Mais: já foram descritas como enormes jogos de realidade virtual compartilhados e jogados por milhões de pessoas. Tal é a concepção do pensamento religioso segundo Yuval Noah Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, cujas ideias merecem ser melhor conhecidas.

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Yuval Noah Harari

Para uma introdução ao pensamento do israelense Harari, tão instigante quanto original, confiram o artigo recentemente publicado pelo historiador em The Guardian. E para uma visão crítica e divertida da intolerância insana inerente a todas as denominações religiosas vejam o filme de curta metragem This Land is Mine, sobre a música tema do filme Exodus, realizada pela excelente cartunista, ativista e artista de animação norte-americana Nina Paley.

 

 

Muito fogo e pouco povo; ou A greve que não existiu

Negações de fatos comprovados vem tomando bastante importância em tempos recentes. São, por exemplo, bem conhecidos os casos de negadores do holocausto e do aquecimento global. O primeiro já ganhou as telas do cinema, através de um julgamento célebre (Negação, 1916). O segundo já é uma preocupação nos EUA: Jay Rosen, professor de jornalismo da NYU, escreveu sobre como o problema do aquecimento global deve ser endereçado por educadores e jornalistas. Em seus artigos, defende que fatos comprovados não podem ser tratados como meras questões de opinião. Podemos, então, afirmar que a expressão negacionismo (denialism) entrou definitivamente para o jargão sócio-político.

No Brasil, o negacionismo registrou, nos últimos dias, seu caso mais emblemático, a saber, a premissa, sustentada eloquentemente pela Rede Globo e outros conglomerados de mídia, de que a greve geral do último dia 28 de abril jamais existiu.

Dois dias depois do grande evento, que foi considerado pela Fundação Getúlio Vargas como o maior em toda a história da internet brasileira, a revista Veja circulou com a seguinte capa:

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Um parêntesis sobre a Veja. Quando apanhei um exemplar numa gôndola do supermercado para apreciar a capa, me espantei com a minguada espessura do fascículo. A Veja, que já teve lá suas 100 páginas, está hoje reduzida a algo como a metade disto. Pois bem. Meu pai, que assinou a revista desde seus primeiros exemplares, que saíram mais ou menos quando do golpe militar de 1964, adotou, lá pelas tantas, o hábito de arrancar à revista todas as páginas que contivessem anúncios dos dois lados, tão somente para saber o quanto de material editorial o semanário lhe oferecia em troca de sua assinatura. Não viveu para ver a revista convergir para a espessura de uma Time ou uma Neewsweek. Minguaram só os anúncios ou, igualmente, a matéria editorial ? Deve a redução da espessura da revista ser interpretada como um signo do declínio dos meios de broadcasting ? Não sei. Mas fica aí a dica de pesquisa para media watchers de plantão.

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Já havia me referido, aqui, à vantagem de ler o noticiário da Globo nas entrelinhas. Na greve geral da última sexta-feira, começaram por mostrar desde quão cedo, ainda pela madrugada, seus repórteres estavam a postos para cobrir o anunciado dia de paralisação. Depois, no primeiro jornal da noite (o Jornal Nacional), trataram de caracterizar, no texto, a greve como um movimento exclusivo de centrais sindicais (esta atribuição de responsabilidade foi repetida nada menos do que TRÊS vezes pelo âncora William Bonner ao longo de toda a matéria) e, em imagens, como se a mobilização massiva tivesse se restringido a pneus incendiados em bloqueios de vias, vidraças quebradas e piquetes diante de garagens de ônibus para que não circulassem.

Tal recorte editorial gerou uma expectativa de que, no Fantástico do domingo seguinte à greve, se repetisse o mesmo tipo de discurso de minimização do ocorrido. Meu amigo Adroaldo Bauer Corrêa chegou mesmo a comentar que abriria mão da necessária tarefa de assistir ao programa por saber, de fonte confiável, que lá veríamos “muito fogo e pouco povo”. Tal era a expectativa geral. A Globo, no entanto, surpreendeu, pois nenhuma palavra ou imagem da greve foi veiculada nas ca. duas horas de duração do programa.

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Me referi acima ao fenômeno crescente do negacionismo, que consiste na negação, por indivíduos ou grupos, da existência de fatos comprovados, passados ou presentes. A negação, no entanto, por meios supostamente jornalísticos, de fatos ou enunciações que sequer foram formulados nos mesmos meios (como, por exemplo, responder a uma pergunta que jamais foi proferida) é conhecida por psicólogos como denegação. Então, pelas razões acima, entendemos que a omissão praticada tão consistentemente (praticamente um insulto à inteligência dos espectadores), se trata, mais do que uma negação do ocorrido, de uma denegação – que, no entender de psicólogos, costuma significar muito. Noutras palavras, a recusa em divulgar a greve geral em toda sua magnitude, e mesmo sua omissão por completo, diz mais da posição da emissora do que qualquer matéria ou editorial sobre o evento diria.

Já bem disse alguém que uma imagem vale mais do que mil palavras. Consoante a isto, não vi nada que retratasse com mais precisão a atitude da mídia corporativa em relação à greve geral da última sexta-feira do que a charge abaixo (obrigado, Fernando Lewis de Mattos !):

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The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber

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The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Adademy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), é um daqueles livros impossíveis de serem lidos a não ser quando já temos em mente resenhá-los. O título atua como um imã sobre quem quer que já tenha experimentado algum tipo de desconforto ou insatisfação com quaisquer aspectos da vida acadêmica de algum modo associados à cultura da velocidade a que aludem.

Não é difícil para qualquer professor e/ou pesquisador experimentado se identificar com tal cultura. Até por isto, optamos por, em vez definir no que consiste esta cultura, deixar ao leitor que intua seu sentido por meio de situações, relatadas no livro e transcritas alguns parágrafos abaixo, que ilustram exemplarmente sua atual banalização em ambientes acadêmicos.

O título, apelativo, me fisgou de pronto. Tanto que, mal soube da existência do livro através de uma postagem de Éder Silveira no facebook, tratei logo de lhe adquirir e ler, sublinhando e anotando furiosamente, despudoradamente anunciando esta resenha muito antes de ter iniciado a leitura. Por que tanta certeza sobre meu entusiasmo acerca do que sequer havia lido ? Ora, por que, no instante em que li o irresistível título, tive a plena convicção de que encontrara, finalmente, minha turma.

As ideias de slow teaching e slow research, desdobramentos no campo acadêmico de princípios observados por adeptos ao movimento conhecido por Slow Food, são solenemente explicitadas, logo no prefácio da obra, por meio de um partisaníssimo The Slow Professor Manifesto. Para se referir à cultura de velocidade acadêmica a que aludem no título, as autoras recorrem a dois conceitos fundamentais, intraduzíveis, a saber, o de

corporatization (corporatização ?) da academia e o de

collegiality (colegialidade ?).

Em sua argumentação, observam que, no âmbito acadêmico e numa linha de tempo recente, um crescimento do primeiro parâmetro correspondeu a um declínio do segundo.

* * *

Para leitores mais velozes, poderia encerrar a resenha por aqui. Vale a pena, no entanto, esmiuçar um pouco o pequeno volume, de menos de cem páginas. Pois, para estimularem a leitura do livro, suas autoras acordaram desde cedo manter o texto sucinto.

Os nomes dos capítulos de The Slow Professor dão uma ótima ideia de seu conteúdo. São eles “Gestão Temporal e Falta de Tempo”, “Pedagogia e Prazer”, “Pesquisa e Compreensão” e “Colegialidade e Comunidade”. Alguns deles foram escritos individualmente por uma das autoras. Outros, bem como a introdução e a conclusão, são frutos de um processo de escrita colaborativa entre as duas. Há, em todo o livro, fartas referências à colaboração híbrida que lhe deu origem.

Numa primeira leitura (pois se trata, sem dúvida, de uma obra de referência), The Slow Professor pode parecer uma imensa revisão bibliográfica. Pois tudo o que já foi dito sobre o assunto está lá. Cabe aqui, no entanto, um parêntesis. Sempre reputei revisões bibliográficas como as partes mais enfadonhas dos (poucos) documentos acadêmicos que li. Mas aqui não ! Não sei se pelo critério de corte, pela qualidade das citações e menções ou por ambos, The Slow Professor é, de longe, a melhor revisão bibliográfica que conheço. Pretendo voltar a ela muitas vezes em busca de inspiração e orientação para leituras a empreender.

Para equilibrar a aridez enciclopédica e burocrática inerente às revisões bibliográficas, as autoras pontuam o texto, aqui e ali, com relatos, por vezes anedóticos, que bem ilustram o absurdo a que não raro chegamos. Como os seguintes.

Tendo perguntado a uma aluna se lera a uma bibliografia exigida, uma das autoras obteve como resposta: “ – Parte dela. “

Tratando da fragmentação exacerbada do tempo acadêmico, da descontinuidade do ritmo produtivo e criativo – e de como ambos estes fenômenos podem interagir perniciosamente, falam de relatórios exageradamente detalhados, como os já exigidos por muitos órgãos de fomento, que, numa situação extrema, poderiam conter relatos como “ às 9:00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei… ”.

Mencionam uma colega docente que, tendo recém publicado DOIS livros, se preocupava com o fato de que, no ano vindouro, teria a agregar a seu currículo APENAS participações em congressos.

Outros trechos que sublinhei, transcritos abaixo, dão perfeitamente conta, se considerados em seu conjunto, de caracterizar o que seria a cultura de velocidade na academia.

” … a persistente percepção de professores como uma classe “folgada”, dada ao prazer, produziu uma cultura de culpa e sobrecarga de trabalho. “

” Flexibilidade de horário pode se traduzir em trabalhar o tempo todo, particularmente por que o trabalho acadêmico, por sua própria natureza, jamais se dá por concluído. Nossas respostas aos trabalhos dos alunos sempre podem ser mais detalhadas; nossa leitura de literatura especializada sempre pode ser mais atual; nossos livros sempre podem ser mais exaustivos. “

” … explica a um estudante de pós-graduação que reclama que seu supervisor nunca está disponível que provavelmente lhe falta tempo; que ele provavelmente está demasiado ocupado atendendo a reuniões, preparando orçamentos, gerenciando e avaliando pessoal e fazendo todas essas coisas que professores fazem hoje ao invés de pensar. “

” A falácia da accountability (outro termo intraduzível), definida como a crença de que o processo de relatar uma atividade na forma apropriada de algum modo garante que algo de real valor foi adequadamente feito. “

” … a corporatização levou à padronização do aprendizado e a um senso de urgência […] “ ou, como diz um dos autores citados, ” à passagem da ignorância ao esclarecimento em um espaço determinado de tempo (um que seja o mais curto e padronizado possível). ” “

” a danosa concepção, no atual ethos acadêmico, de excelência como um estado de ‘ não ficar parado ‘. “

” Dividir nosso tempo em intervalos cada vez menores e mais precisos não é uma solução a longo prazo. “

” […] o número de páginas que lemos em uma hora varia amplamente, dependendo do que se está lendo e com que propósito. “

” […] pesquisa (a criação de conhecimento) e aprendizado (a criação de conhecimento dentro de alguém) precisa ser medida de um modo totalmente diferente do modo como medimos o trabalho industrial […] o que precisamos é de thinkology em vez de technology. “

” O prazer é, como o movimento Slow Food deixou claro, inimigo do mundo corporativo. “

” Ensino e aprendizado são cada vez mais vistos como aspectos meramente colaterais da descoberta e da pesquisa aplicada. “

” Ser ético pode verdadeiramente significar ser, por vezes, ineficiente. “

” Pensar pertence mais a uma economia de desperdício do que, propriamente, a uma economia restrita de cálculo […] “

” Horácio recomenda que se espere nove anos entre escrever e publicar. ” (!)

” Alunos de pós-graduação, dada a escassez de financiamento e falta de perspectivas de trabalho futuro, são particularmente vulneráveis à cultura da velocidade […] “, passando a sofrer de um mal que um dos autores citados define, apropriada e divertidamente, como publicatio praecox.

A prevalência atual, em ambientes acadêmicos, de uma publish or perish culture também é mencionada.

A certa altura, citam um texto no qual alguém chega mesmo a sugerir que alunos de pós-graduação assumam parte das tarefas do trabalho docente no que tange, por exemplo, ao peer review de artigos (!). Sabemos a utilização de alunos como força-tarefa para desonerar docentes de suas atribuições está longe de ser uma ideia remota.

E assim, por meio de exemplos frequentes no dia a dia de qualquer professor, tecem um claro panorama daquilo em que consiste a cultura de velocidade na academia – tida como decorrente, acima de tudo, de um posicionamento cada vez mais empresarial das instituições de ensino superior, o qual se traduz, no cotidiano acadêmico, na crescente pressão por resultados regulares e a curto prazo.

O estudo não se limita, no entanto, a apontar, em tom de denúncia, a condição doente em que a universidade se encontra. Em uma de suas partes, as autoras adotam um caráter mais prescritivo, declaradamente de auto-ajuda, sob a forma de comportamentos a serem adotados por quem quer que queira combater ativamente a cultura de velocidade que se enraizou tão profundamente no mundo acadêmico. Só que, a pretexto de não oferecer um spoiler (pois quero que leiam o livro !), não vou me referir à receita nesta resenha.

* * *

Gostei muito de achar, entre os autores citados, pensadores recentes da cena digital como Sherry Turkle (Alone Together, 2011) e o guru dos netskeptics Nicholas Carr (The Shallows: what the internet is doing to our brains, 2010). Exatamente por isto, estranhei não encontrar, no excelente “inventário de campo” produzido por Berg & Seeber, um texto que considero fundamental à cultura colaborativa, a saber, Where good ideas come from, de Steven Johnson (2010).

Mas isto é o de menos. Com ou sem menção à hipótese de Johnson, The Slow Professor é um livro que não pode faltar à cabeceira de qualquer professor e/ou pesquisador universitário que leve seu métier minimamente à sério. Quem se anima a traduzir ?

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Maggie Berg e Barbara K. Seeber

Por que adotei uma atitude benevolente em relação a videogames

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Primeiro tentei proibir, depois dificultar e, por fim, apenas argumentar com meu filho menor sobre a enorme desvantagem de se perder tempo com videogames online.

Me considero bem progressista quanto ao uso de recursos virtuais na educação dos pequenos. Só que, por vezes, me parece que, ao nível institucional, ainda não sabemos ensiná-los a usar as prodigiosas ferramentas que, ao contrário do que tínhamos, tem hoje ao seu dispor.

Fico, por vezes, pasmo com o fato de ainda estudarem predominantemente com cadernos e livros-texto, raramente recorrendo a publicações virtuais. Até ouvi que há professores que ensinam a desconfiar da wikipedia, onde “qualquer um pode escrever”. Tudo bem. Só que, para permanecer publicado depois de escrutinado por uma comunidade de especialistas, já não é tão fácil. Exemplifiquei que eu, em minha modesta experiência, mesmo consultando frequentemente a imensa enciclopédia colaborativa sobre praticamente tudo sobre o que escrevo, jamais me deparei com qualquer caso em que a informação ali contida

(ao menos a que buscava – pois não se pode, é claro, procurar nela qualquer coisa além de dados e fatos sobre os quais haja amplo consenso; já opiniões, polêmicas por natureza, habitam melhor outros recantos da web)

pudesse ser considerada, de algum modo, refutável. Ou seja: a credibilidade da wikipedia deve ser, ao menos no que tange às primeiras linhas de cada verbete, muito provavelmente superior à da maioria dos livros didáticos. Chutando por baixo.

Também costumo deplorar os jogos violentos em que mais facilmente se engajam. Cheguei até a traduzir uma matéria, praticamente um libelo, sobre o assunto publicada pelo The Guardian.

* * *

Neste último fim de semana, meu filho mais novo confessou passar tanto tempo diante do videogame por que é lá que a maioria de seus amigos se encontram. E que, em períodos anteriores às avaliações escolares, trocam perguntas e respostas sobre os conteúdos que cairão nas provas. É quando os que prestam mais atenção na aula – e, em resultado, tem os melhores cadernos – consultam os mesmos fornecendo respostas aos demais. De tanto responder, acabam apreendendo as respostas sem mais precisar consultar os cadernos. Concluo que é mais divertido e eficaz estudar com headphones diante de um console de videogame, por que socialmente, do que na solidão dos livros e cadernos. Aprendizagem colaborativa virtual por excelência, portanto (!).

Horas depois, no mesmo dia, os surpreendi se comunicando em inglês enquanto jogavam (!!).

(é claro que nem tudo são flores – posto que, na maior parte, do tempo, se xingam mutuamente no mais baixo calão, num linguajar inimaginável em qualquer ambiente escolar…)

Insatisfeito, retruquei que certamente ele e seus amigos conheciam inúmeras outras plataformas (em princípio, toda e qualquer rede social) mais verbais e, portanto, mais adequadas à troca de conhecimentos. Foi quando ele, num tom entre a impaciência e a condescendência por eu perguntar o que lhe parecia tão óbvio,  reiterou que é simplesmente por ser lá que todos estão. Além disso, plataformas como instragram ou snapchat seriam mais afeitas a postagens de cunho meramente social ou auto-promocional.

Foi-se, com isto, toda moral que eu ainda pretendia ter para lhe desestimular o jogo.

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Por que aprendizes de certos instrumentos musicais devem ser precocemente estimulados a desistir

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Chamem a isto, se quiserem, de pedagogia da desistência precoce. Antes de mais nada, deve ser ressaltado, por mais óbvio que pareça, que a prática abaixo descrita se aplica exclusivamente ao ensino superior, para o qual nem todos os estudantes se encontram aptos a exercer uma escolha suficientemente ponderada, mas jamais aos ensinos médio e fundamental, com seus núcleos duros de disciplinas imprescindíveis a todos indistintamente, mais ou menos segundo a premissa de que one size fits all.

Qualquer um que tenha acumulado certa experiência no ensino universitário da execução de um instrumento musical chega facilmente à conclusão empírica de que muitos dos que procuram este tipo de instrução são movidos predominantemente, quando não exclusivamente, por motivações românticas, por vezes fantasiosas, que subestimam ou ignoram o elevado grau de comprometimento que tal aprendizado inevitavelmente pressupõe. Tal atitude inicial simplória em relação à aptidão pretendida acaba se tornando, com o passar do tempo, na maioria das vezes um importante fator de desistência antes que muitos adquiram a proficiência almejada.

Se, no entanto, professores logram oferecer, de saída, uma perspectiva clara e sincera sobre o grau de dedicação envolvido (que muitos, de outra forma, só descobririam depois de muito tempo investido), acabam por propiciar aos aspirantes uma chance privilegiada de desistirem rapidamente de uma opção mal informada – devolvendo, com isto, aos mesmos tempo precioso que poderão, então, dedicar a objetivos mais realistas. Como, por exemplo, instrumentos mais apropriados à utilização da música com outros fins que não o de execução pública, tais como instrumentos de harmonia, como violão ou teclado.

Antes que me executem em público, esclareço ! É claro que os melhores concertistas de violão ou piano tocam de modo tão sublime quanto qualquer solista de instrumentos de cordas ou sopros. A partir daí, nenhuma analogia é possível. Pois, ainda que seja admissível numa ampla gama de atividades artísticas, pedagógicas ou comunitárias se ouvir muitos violonistas e pianistas satisfatórios, ainda que aquém da capacidade de concerto ou camerística; não é, todavia, possível a quaisquer ouvidos sensíveis suportar a audição prolongada (salvo se protegido pela cortina do uníssono) de quem quer que se encontre no meio do caminho na aprendizagem da execução de, digamos, um violino, uma flauta, uma clarineta ou um saxofone. Isto por que alguns instrumentos possuem, por assim dizer, mais vocação pedagógica do que outros cuja ergonomia e complexidade de execução tendem a comprometer o foco na aprendizagem musical.

É claro que professor algum deve sugerir a qualquer aluno que desista da empreitada de apreender a tocar um instrumento, sob o preço de ser justamente tachado de preconceituoso e arbitrário para baixo. Todo aluno tem direito ao benefício da dúvida. Isto quer dizer que ELES – e não seus professores ! – devem, especialmente no início dos estudos, exercer constantemente a dúvida sobre estarem ou não investindo seu tempo de modo minimamente coerente e satisfatório.

Diferentes docentes podem aplicar este princípio de modo distinto. Em meu caso, depois de advertir novos alunos sobre a complexidade da empreitada e a dedicação necessária, lhes pergunto sobre suas fantasias de palco para dali a alguns anos. De cinco anos para os mais afoitos até mesmo dez para os mais zen. Se o sujeito não tem uma fantasia de palco suficientemente desafiadora, lhe desencorajo na hora, afirmando que só uma ambição duradoura de se apresentar diante de um público atento (a tão frequentemente negligenciada dimensão comunicativa da música) é capaz de sustentar a motivação necessária à aquisição da proficiência pretendida.

Aparentemente, tal postura pedagógica estaria longe de ser inclusiva. Pois desestimularia uma parcela considerável de uma população de inocentes que querem antes tocar o instrumento como uma atividade solitária meramente recreativa ou, quando muito, em agremiações musicais onde possam tocar partes em uníssono (para leigos: vários indivíduos tocando a mesma nota ao mesmo tempo). Por outro lado, tal atitude docente desencoraja precocemente aqueles que, pela pura falta de motivos suficientes (i.e., tocar proeminentemente em público), se encontram fadados a não atingir seus objetivos por não suportarem a carga de estudos necessária.

Resta, então, a este professor – ainda que visto por muitos como desestimulante ou injusto – uma classe enxuta, cujos poucos membros costumam ocupar importantes posições em organizações de performance (bandas e orquestras) ou acadêmicas (escolas). Pensem, se quiserem, em otimização de recursos. Ou me tomem por uma espécie de exterminador de futuros. De futuros inglórios, eu diria.

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Da enorme vantagem das aulas de instrumentos musicais em grupo sobre as individuais

The Despair of a Mother Teaching Music to her First Born

Torno, como prometido, ao problema das aulas de instrumento musical individuais ou em grupo. Fui ensinado a tocar a clarineta em aulas exclusivamente individuais (salvo raras masterclasses, não mais do que uma ou duas ao ano). Assim, incumbido de ensinar o instrumento, simplesmente reproduzi, de início, o modo como fora ensinado. Com o tempo, terminei por duvidar da eficácia das aulas individuais, uma vez ter se tornado evidente que,

embora alunos não tenham vergonha de tocar mal diante de seus professores

(notem, num rápido exame de memória, como toda aula individual de instrumento começa com uma confissão de menos estudo do que o desejado, seja por problemas pessoais, familiares, sobrecarga acadêmica ou afins; com o tempo, professores passam a esperar cada vez menos de alunos, e vice-e-versa);

sentem, outrossim, vergonha de tocar mal diante de seus pares.

De fato, é tão somente ouvindo rotineiramente as aulas de colegas que alunos adquirem  um sentido de classe e, portanto, de objetivos comuns (preservada, é sempre bom lembrar, a singularidade de cada um !) a serem perseguidos. Outra enorme vantagem de ensinar a uma classe ao invés de por meio de aulas individuais é que, tendo que tocar sozinhos semanalmente diante de uma classe, alunos são precocemente forçados a lidar com a exposição pública.

É importante, aqui, deixar claro estarmos nos referindo a alunos tocando sozinhos ou, preferencialmente, com o auxílio de um piano – mas jamais em uníssono ou mesmo em conjuntos de clarinetas. Cabe, talvez, acrescentar que, ainda que muitos ingressem nos cursos de graduação e extensão com bastante experiência de execução de partes em naipes numerosos, poucos possuem alguma experiência prévia em repertório solo, tanto de recital como de concerto. É deixando claro a todos, por meio da execução de colegas, que nosso objeto de trabalho é restrito a esta última literatura que tantos desistem tão cedo. Mas aí já estou falando de outro assunto prometido, o estímulo à desistência precoce. Melhor deixar para outro post.

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Então. Ao mesmo tempo, me perguntava

até que ponto se deve assegurar a um aluno de uma escola pública gratuita o direito a ter aulas individuais, ao modo de como ainda é feito em grande parte da instrução musical privada ?

Pelas razões acima, entendi que, como professor público, só deveria dar aulas públicas. Mesmo que, por vezes, só para um ou dois alunos. Com sorte, quatro ou cinco. Mas o fato de se ouvirem mutuamente faz com que desistam ou progridam muito mais rápido do que se condenados à monotonia da instrução regular individual.

Pensando mais sobre o custo/benefício de instrução musical grupal X individual, se chega rapidamente à constatação de que aulas individuais são, por definição, muito mais repetitivas do que as em grupo. Ao mesmo tempo, alunos prestam notoriamente mais atenção no que é dito em aulas grupais do que nas individuais. Como resultado, professores mais experientes tendem, depois de certo tempo de prática pedagógica, a convergir para uma metodologia mais programática, prescritiva, “one size fits all”; em prejuízo da escuta clínica que predomina em toda masterclass (aula coletiva).

Sei, no entanto, que a instrução instrumental individual tem defensores ferrenhos. Apaixonados, até. Gostaria muito de ouví-los !

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Sobre máquinas impossíveis (ii)

Como em todo primeiro de abril, não pude deixar de pensar em minha categoria favorita das grandes farsas, a saber, a das tecnológicas. Em agosto último, dediquei um post inteiramente ao assunto – tendo, no entanto, deixado de lado a mais monumental das fabricações já cometidas por aqui. Se trata de um engenho, construído na zona norte de Porto Alegre, pela empresa RAR Energia, que alegadamente funciona alimentado apenas pela força da gravidade. Ou, como é mais conhecido, um mecanismo de moto perpétuo. Que viola, portanto, o princípio da conservação de energia.

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Moto perpétuo da RAR em Porto Alegre

A máquina foi montada, aparentemente a um elevado custo (conforme as únicas fotos existentes), em um armazém de uma região industrial por uma empresa estabelecida. Compreensivelmente, não se ouviu mais falar dela. Imagino o mico de seus criadores perante demolidores de mitos tão logo a notícia da coisa tenha se espalhado. A RAR é uma potência empresarial em nosso estado, fabricando desde caminhões em Caxias do Sul até queijos finos em Vacaria. O próprio Raul Anselmo Randon, patriarca do grupo,  teria desenvolvido um robô de virar queijos para automatizar o processo de maturação dos mesmos. Sem dúvida, portanto, um grande empreendedor.

Resta saber se, no episódio do moto perpétuo do braço energético de suas empresas, foi cúmplice ou vítima da pegadinha ou, até, um crédulo visionário. Ainda que a enorme geringonça seja bem difícil de se fazer sumir sem deixar vestígios que comprometam a ilibada reputação do grupo empresarial – poderiam, ao menos, nem que só por decoro, ter retirado o site do ar. Enquanto isto, até que repórteres investigativos se deem ao trabalho de levantar o que foi feito da sucata da coisa, temos que nos contentar com a bizarra notícia de que a a ideia (que não pode ser chamada de farsa antes que se comprove sua má fé) foi comprada por norte-americanos. Pois as fotos mais recentes existentes no site da empresa (uma espécie de fotolog) dão conta da construção do curioso engenho em um galpão numa área rural de Illinois. O que nos permite, então, especular divertidamente sobre o que teria acontecido por lá quando os gringos inevitavelmente se deram conta de ter se metido numa fragorosa roubada. Chamem, se quiserem, de a vingança de Pasadena.

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Moto perpetuo da RAR em Illinois (EUA)

A farsa do moto perpétuo da RAR correu mundo, como demonstra este vídeo em espanhol dedicado a seu desmascaramento. O caso também é comentado aqui, aqui e aqui.

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Wendelstein 7-X Stellarator, ilustração

Não pensem, com isto, que tudo o que parece se interpor a leis da física como as conhecemos seja, necessariamente, uma farsa. Grandes experimentos e investimentos estão aí para provar o contrário. Como, por exemplo, a colossal máquina denominada Wendelstein 7-X Stellarator, construída pelo acima de qualquer suspeita Instituto Max Planck, de Munique, em Greifswald (Alemanha). Trata-se do maior, mais ambicioso e promissor reator de fusão nuclear já construído. Como é sabido, todos os reatores nucleares hoje em operação comercial ou militar produzem energia a partir da fissão (divisão) de átomos, tendo como subproduto o indesejável lixo radioativo que precisa ser armazenado por milhares de anos até se tornar inofensivo para a saúde humana e do ambiente. O reator Wendelstein é o maior avanço até agora na geração de energia por meio da fusão nuclear – um processo limpo, que não deixa como resíduo qualquer lixo radioativo. Consegue isto por meio da reconstituição, em laboratório, do plasma de que são feitas as estrelas. Coisa pouca, como podem ver.

Logo que ouvi falar do Wendelstein 7-X Stellarator, pensei se tratar de mais uma pegadinha. Antes do Google, minha dúvida teria persistido por muito mais tempo. Mas não. As fotos da coisa e as credenciais do respeitabilíssimo Instituto Max Planck estão em toda a parte na internet para provar que o Stellarator de fato existe. Se e quando poderá gerar energia de uma forma contínua e economicamente viável, ainda é cedo demais para se saber.

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Wendelstein 7-X Stellarator em Greifswald (Alemanha)

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Não se pode, no entanto, ter a mesma certeza em relação aos relatos de sucesso de experimentos envolvendo o EMdrive – conceito inovador de propulsão por meio de radiação eletromagnética emitida do próprio objeto impulsionado. Ou seja, algo tão absurdo como, estando embarcado em um veleiro, tentar movimentá-lo em meio a uma calmaria soprando em suas velas, numa flagrante violação da terceira lei de Newton (princípio da ação e reação). Tanto que é conhecido por muitos como o “motor impossível”. Farsa decifrada, portanto.

Só que não. Diversos protótipos do EMdrive foram construídos e testados desde 2001, ano de sua primeira formulação por Roger Shawyer, por grupos independentes, inclusive da prestigiosa NASA, de acordo com o princípio da validação em ciência pela reprodutibilidade dos experimentos. Em todos os testes realizados, níveis mínimos de impulso foram detectados. Céticos, no entanto, ainda refutam a eficácia do método de propulsão com base na terceira lei de Newton e prováveis erros de medição. Permanece, então, a dúvida sobre se o EMdrive é uma alternativa possível para as viagens espaciais ou, ao contrário, não passa de mais um engodo, por vezes chamado de pseudociência, a alimentar a imaginação dos mais crédulos.

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EMdrive

Enquanto isto, é bem mais verossímil a tecnologia de propulsão iônica, explicada neste vídeo sobre a polêmica do EMdrive, ainda experimental e provavelmente inspirada no conto Vento Solar, de Arthur Clarke.

Primeira aula

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Hoje reencontrei três alunos depois das férias e conheci dois novos. Depois de ouvir os novos e lhes colocar a par de dois princípios pedagógicos basais à classe de clarineta que me é confiada, a saber,

que todas as aulas são coletivas, abertas a todos os alunos de extensão e graduação (mais sobre a ineficácia da instrução individual em música em post vindouro); e

que aderimos ao princípio da desistência precoce (idem),

lhes dei, finalmente, uma tarefa para a semana, enfatizando, na “preleção final”, que tratassem de ser absolutamente intransigentes em relação a ter, logo de início, um som do qual pudessem se orgulhar. Nada daquela ladainha de ir estudando lição após lição até que, meio que por cansaço, se acaba por adquirir uma sonoridade interessante ao instrumento.

Dispensei-os. Qual não foi minha surpresa e alegria ao constatar que os dois alunos que começaram o curso de extensão no semestre anterior retornaram das férias ostentando um som respeitável ! Independentemente do nível de complexidade do que tocavam. Assim, ouvi desde o cisne de Saint-Säens (um extremo de simplicidade) até um chorinho bem cromático e quebrado (algo bem complexo). Ambos, no entanto, com ótimo som. Para completar meu dia, ouvi de um deles, chileno, que, em recente visita a seu país, ouviu de amigos e familiares por lá francos elogios a seu progresso à clarineta. Ganhei o dia.

(jamais esquecerei de um professor de piano secundário que, durante meu mestrado, dizia, sempre que estava prestes a ouvir meus estudos e citando o inesquecível Dirty Harry (criado e vivido por Clint): ” – Go ahead, Augusto. Make my day ! “

Devo acrescentar que este mesmo professor, de alguns dos melhores concertistas do conservatório que, por alguma estranha razão que sempre fugiu à minha compreensão, aceitava ministrar também classes de piano como segundo instrumento a todos que, como eu, lá chegassem com esta lacuna de formação)

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De tudo o que vi e ouvi em aula hoje, o que mais me chamou a atenção foi que, ao recomendar algumas obras que, apesar de seu alto valor expressivo, podem ser consideradas como uma espécie de “grau zero” de dificuldade técnica (para os curiosos: as peças de fantasia de Niels Gade e as cinco bagatelas de Gerald Finzi), vários alunos anotaram as referências em seus telefones celulares. Nunca tinha pensado em usar o meu como um bloco de notas. Ensinar é apreender.

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Por que museus de arte moderna são mais claros do que os outros ?

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Não sou um grande frequentador de museus. Se passam por vezes muitas décadas sem que eu os visite. Nestes raros casos, em que me encontrava em grandes cidades do mundo, cometi a coincidência de visitar, quase sempre, um museu mais tradicional ou abrangente e outro dedicado exclusivamente à arte moderna e/ou contemporânea. De sorte que costumo conhecer museus só de tempos em tempos e, curiosamente, aos pares.

Deste modo, não tenho como dissociar minhas primeiras impressões do MOMA às do Metropolitan em Nova Iorque, do Museu Nacional às do de Arte Contemporânea em Buenos Aires, ou, ainda, do Louvre, em Paris, às do Museu Picasso, em Barcelona. Mesmo com esta modesta experiência, não pude deixar de observar que,

conquanto coleções de obras criadas da antiguidade até o final do século 19 sejam geralmente expostas em paredes escuras, com iluminação altamente polarizada (direcionada), de modo a recortar, ante os olhos do observador, as obras a seu entorno;

já as mais modernas, de a partir do século 20, costumam ser exibidas em ambientes com paredes mais claras e iluminação mais difusa, de modo a não isolar, para contemplação, as obras dos contextos em que estão imersas.

Isto é quase um lugar-comum. Dificilmente alguém imaginará uma lata de sopa ou grandes figuras geométricas e mesmo texturas abstratas sobre tons de púrpura. Ou, sobre o belo azul turquesa profundo das paredes de uma famosa coleção de pinturas em Londres que vi recentemente em fotos. Do mesmo modo, é impensável exibir a luz dramática de um Goya ou Rembrandt sem recorrer às paredes escuras.

Tal constatação é procedente ? Existe alguma afinidade entre a arte de cada época com a claridade ou a escuridão ? Há uma explicação para isto ? Provavelmente, sim. Colaborem, se possível com fotos corroborando ou refutando a hipótese.

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